quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

EL MISTERIOSO PAÍS DEL AMOR!

por DENIS PESSOA



Depois de uma série de novelas contemporâneas ágeis e preenchidas com intermináveis aventuras, Carlos Lombardi escreveu a série O Quinto dos Infernos, comédia que contava a história de nosso país de uma forma totalmente nova e divertida. A ideia de escrever uma história de época pareceu agradá-lo, porque, pouco mais de um ano depois, precisamente em 5 de Maio de 2003, estreava Kubanacan, cuja trama se passava nos encantadores anos 50, cuja história passava-se numa fictícia ditatura localizada na ilha que dá nome à trama.
Marisol e Esteban
Como em todas as novelas do autor, a trama não é assimilada sem um pouco de esforço de raciocínio, o que incomodava muita gente que, entre diversas críticas, plausíveis ou não, simplesmente não conseguiam entender ou apreciar o universo criado pelo autor.
Porém, o que Carlos Lombardi costuma proporcionar em suas novelas, além de histórias geralmente intrincadas e até mesmo confusas, é a oportunidade de rir, e muito, e de se emocionar. Embora seus enredos possam ser considerados de alta complexidade, as tramas que emocionam o telespectador estão sempre presentes em suas novelas, seja com tramas que envolvam pais e filhos, amor fraterno, ou um bom romance, cheio de idas e vindas.




 A história girava em torno de cinco personagens principais: Esteban (Marcos Pasquim), Lola (Adriana Esteves), Enrico (Vladmir Brichta, Rubi (Carolina Ferraz), e Marisol (Danielle Winits). Por maiores que fossem as confusões e desencontros, estes personagens estavam basicamente juntos, todos envolvidos nos mistérios que envolviam a vida do desmemoriado Esteban, assim batizado na vila de pescadores onde foi resgatado por Enrico e Marisol, ao vê-lo literalmente caindo do céu.
Esteban, que nem seu próprio rosto reconhecia, passa a viver com Marisol em Santiago, cidade litorânea de Kubanacan, até que ela, seduzida pelo ditador Carlos Camacho (Humberto Martins), abandona o marido com seu filho para viver em La Bendita, capital do país.
Em busca da mulher que ama, Esteban parte no encalço de Marisol, logo envolvendo-se em diversas confusões pela cidade; Perseguido, conhece Lola Calderon, uma pacata e ingênua dona de casa, que é obrigada a enganar seu marido para realizar seu maior prazer: o de canter. Por coincidência, ou não, Lola, é casada com Enrico, que mudou-se para a capital logo após ter sido trocado por Esteban por Marisol.


Passado um tempo, Esteban, já estabelecido na capital, envolve-se na vida politica local, além de descobrir-se perseguido por pessoas que pareciam conhecê-lo do passado – principalmente mulheres apaixonadas e magoadas por seu suposto comportamento cafajeste. O porém, é que Esteban simplesmente não consegue recordar dessas pessoas. Ele passa a ser perseguido também por pessoas perigosas, que o questionam a respeito de uma tal Fênix, algo que logo descobre tratar-se de uma fórmula, embora desconheça o produto dela.
As mulheres da vida de Esteban causam muitas cenas cômicas entre ele e Lola, que se desentendiam e reconciliavam em praticamente todos os capítulos da novela. Outro fator que servia para confundir o casal era o fato de que Esteban, quando ameaçado, exibia resquicios de algo que parecia uma personalidade anterior: quando acuado, tornava-se violento e um exímio lutador. Aos poucos, essa personalidade começa a exercer domínio sobre ele, que age de maneira totalmente diferente com todos, especialmente com Lola, chegando incusive a trair a mulher que ama.


Ao lado do protagonista, que dominava a maior parte das cenas, havia Enrico, que mostrara-se logo no início da trama um homem hipócrita, boêmio e cinico, que embora proibisse a mulher de excercer sua paixão pela música por não querer vê-la em uma casa noturna, passava lá todas as suas noites, bebendo e jogando. Com a descoberta dessa mentira, perde o amor de Lola, porém, não desiste facilmente de seu casamento, especialmente quando percebe que tem como rival, outra vez, o pescador Esteban. Porém, seu par romântico verdadeiro é a truculenta e defensiva Rubi, irmã de Lola, em uma atuação divertida de Carolina Ferraz, mais conhecida pelos dramas que interpretou,
A novela corria, e inúmeras participações iam e vinham, fazendo com que público e crítica tivesse mais dificuldade em compreender a trama. Atores como Ângela Vieira e Humberto Martins deixaram a novela, abrindo lacunas, e enfraquecendo as tramas paralelas da novela. Ainda assim, as participações explicavam um pouco sobre o passado de Esteban. Regina Duate interpretou a mafiosa Maria Félix, sua mãe, que chega inclusive a salvar sua vida. Regina Duarte foi uma das poucas personagens que participaram mais de uma vez da novela, retornando em seu desfecho. Gabriela Duarte também fez uma participação, em um papel que nada tinha de relacionado com sua mãe. Vivia a atriz Veruska Verón, sempre a beira de um ataque de nervos. Letícia Spiller como a misteriosa Laura. Outros artistas participaram da novela, como Gabriel Braga Nunes, Daniela Escobar, Daniel Boaventura, Ingrid Guimarães, em uma vasta lista de intérpretes, dos personagens mais cômicos e misteriosos.


No final da novela, conhecemos então o pai de Esteban, Alejandro, vivido por Werner Schunemann, que logo revelou-se o grande vilão da trama.
As ultimas semanas de Kubanacan foram extremamente movimentadas, inclusive com o retorno de Carlos Camacho, que retornou depois de muito tempo ausente. Descobrimos então do que se tratava realmente a tal Fênix, que gerou tantas perseguições a Esteban, e o que se pretendia com ela: era uma bomba que seria utilizada em um grande atentado contra a população de Kubanacan: sem causar danos à cidade, destruiria apenas os seres vivos. Essa bomba chegou de fato a ser detonada no penúltimo capítulo, causando uma terrível devastação.
Lola e Esteban
O último capitulo surpreendeu o público com a resposta a vérios questionamentos, sendo que muito de tudo pareceu extremamente controverso: a explicação pareceu ignorar acontecimentos precedentes, e dificilmente se passou pela cabeça de qualquer fã da novela. Mas tudo foi explicado: quem era verdadeiramente Esteban, porque caiu do céu no primeiro capítulo, a origem de sua dupla personalidade, e diversas outras revelações, em um último capítulo cheio de ação e comedia, como todas as suas novelas. O desfecho foi decidido pelo autor em cima da hora, para que, segundo declarações dadas na época, não corresse o risco da Globo vetar a explicaçao dada por acharem absurda demais – o que, dado o decorrer da novela, não poderia ter menos do que isso.
O final da novela envolveu viagens no tempo, algo novo na teledramaturgia nacional, e embora tenha gerado alguns conflitos, inclusive o polêmico incesto entre tia e sobrinho através de Rubi e o próprio Esteban, que na verdade chamava-se León, e, por incrível que pareça, era filho... dele mesmo, sendo que o verdadeiro Esteban falhara em salvar Kubanacan de Alejandro, na verdade esteve ausente a novela inteira, revelando que o nosso protagonista era na verdade seu filho, em uma realidade paralela. Complicado assim.


A despeito da história surreal, Kubanacan era um folhetim, com suas características típicas. Bons ganchos, uma trilha sonora interessante e bem dançante, de sabor latino, com diversas músicas muito características. As mais marcantes foram Carnavalera, tema de Enrico, Coubanakan, tema de abertura, interpretada por Ney Matogrosso, e No Me Platiques Más, tema tocado à exaustão, que envolvia inúmeras cenas românticas entre o casal Lola e Esteban.


Foi uma novela longa, o que desagradou o autor, que chegou a cogitar desistir das telenovelas após o término desta. Seu trabalho, porém, pode ser considerado bem sucedido e inovador: Kubanacan inovou, resistindo a todas as críticas, e mantendo bons níveis de audiência. Com todas as suas características peculiares, suas qualidades e defeitos, Kubanacan é uma novela que merece ser lembrada e, quem sabe um dia, reassistida!


11 comentários:

  1. Ótimo texto, Denis. Parabéns.

    A gente tá acostumado a ler críticas aos trabalhos do Lombardi, sempre naquele tom meio bandeiroso, mas você foi bem lúcido e tal.

    Kubanacan era uma novela muito inventiva, alegórica, engraçada. Adorava o trabalho da Adriana Esteves. Foi aí que ela se tornou a minha musa. O Pasquim fazia muito bem os três tipos, em especial, o gêmeo Adriano, hipocondríaco e nervosinho. A Rubi também era ótima. Mas não tinha pra ninguém. Do quinteto, o melhor era o Enrico. Melhor trabalho do Vladimir em novela até hoje.

    Infelizmente, nessa a Winits acabou sobrando. Fico me perguntando se ela dependia tanto assim do Humberto. Talvez. Mas depois da primeira fase, a Marisol não tinha muito pra onde ir. Acho que foi mal construída.

    O desfecho confundiu mesmo meio mundo. Em 2004, não compreendi. Tive que rever a novela inteirinha numa reprise particular pra pescar todas as dicas que o Lombardi foi soltando desde o início. A cena final, então, é uma das mais chocantes da história. A que precede, o encontro de Esteban e Lola na praia é tão verossímil, né? Adoro o diálogo.

    "Só tem um problema. Não sei quanto tempo vou ficar, não sei quanto vai durar".

    "Tanto faz. Ninguém sabe mesmo".

    Fala da finitude das coisas, do amor. É bonito. Por essas, que acho Kubanacan incompreendida. Um dia hão de dar valor. Ou não, né.

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  2. Eu concordo! Adorava toda aquele dinâmica da novela.. cada capítulo era uma coisa nova. Se perdesse um dia, no outro estava sem saber de nada, pois já tinha acontecido mil coisa... curti muito. Só o final que ficou estranho...

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  3. Parabéns pelo texto!!
    Eu adorava Kubanacan!! Alguns criticavam, mas eu gostava muito dessa dinamica toda e da surrealidade! Fora que era extremamente divertida.

    Será ÓTIMO se fosse reapresentada no Vale a Pena Ver de Novo. Mas acho bem dificil. Uma pena... =(

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Eddy, muito obrigado pelo seu comentário. Você lembrou de coisas que eu já havia esquecido. Eu gostava muito da Marisol, e achava uma pena a personagem perder importância em relação aos demais, embora achasse justo também essa coisa meio marginalizada que ela tinha. Afinal, ela merecia um pouco a rejeição que recebia dos protagonistas, por tudo o que fez, o que só aumentava minha compaixão por ela.

    Warney, você tem razão. Se eu perdesse um capítulo da novela, quando voltava a assistir tudo já tinha mudado. Essa é uma das melhores características do Carlos Lombardi!

    João, muito obrigado! Realmente, acho difícil rever a novela no Vale a Pena Ver de Novo, mas torço muito por uma reprise na íntegra pelo Viva!

    Um abraço!

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  6. Achei "Kubanacan" confusa e longa demais. Sofreu também do mesmo mal da aclamada "A Favorita": só o entrecho central funcionou.

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  7. Na época, torci o nariz para Kubanacan: trama surreal demais e sem sentido, confusa por demais, embora a cena final tenha sido antológica por romper com o clichê do final feliz e certinho. Confesso que do Lombardi, das que pude ver, apenas gostei de Uga Uga. Apesar do texto cínico e inteligente, o autor preenche suas novelas com tramas e personagens demais e chega uma hora que não consegue mais dar conta e fica uma imensa colcha de retalhos.

    Excelente texto, Dênis, defendendo muito bem a novela e apontando os aspectos positivos. Talvez numa reprise eu a olharia com bons olhos, mas em tempos de Ministério da Justiça cada vez mais poderoso e conservador e do Viva se dedicando a novelas dos anos 90 para trás, as chances de retorno de Kubanacan são praticamente nulas.

    Parabéns!

    Lipe

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  8. Eu me amarro nas novelas do Lombardi e sinto muito falta da irreverência que ele traz. Tomara que volte logoOo!!!
    Amei Kubanacan, mas Uga Uga ainda é a minha favorita.
    Bela escolha Denis!

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  9. Assistia a Kubanacan e achava divertida, mas não morria de amores por ela, e em determinado momento ao longo dos capítulos, eu dei um tempo, pois não curto novelas "embarrigadas", só voltando a acompanhar próximo do fim.

    Ratifico a observação do Eddy sobre o Vladimir, de fato estava num excelente momento de sua carreira.

    Valeu pela visita de vocês, Eddy, Warney, João e Augusto. Denis, parabéns pelo texto!

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  10. pow essa novela foi d+ , e accho q foi uma das melhores da história da globo ,mesmo com suas controvérsias e criticas , era muito divertida e emocionante ! acho que a globo devia parar de exibir "Chocolate com Pimenta no "Vale a Pena Ver de Novo' e exibir Kubanacan!!

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  11. Não assisti essa novela, sempre acho os textos do Lombardi muito masculinos e sou sempre mais propício a textos mais femininos como os do Maneco, mas me lembro com carinho de Perigosas Peruas e de Quatro Por Quatro, pra mim um os maiores sucessos de todos os tempos! Olhando a abertura de Kubanacan é interessante ver como parte do elenco, autores e diretores migraram para a Record....

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