domingo, 5 de fevereiro de 2012

Grandes Autores: MANOEL CARLOS

Por Rafael Tupinambá

Em 2011 comemoramos os 60 anos da telenovela brasileira. Assim como o a paixão do brasileiro pelo futebol, o fascínio do público pelas novelas é indiscutível. Mas criar esse “hábito”, tornar a novela parte da rotina das pessoas, não é tarefa fácil. Sem uma caixa preta, como as do teatro e do cinema, que imediatamente transportam o espectador para outro estado de concentração, a teledramaturgia fica sempre disputando atenção com os acontecimentos do dia a dia. Entram em cena, então, os autores, que têm a deliciosa e árdua missão de despertar o interesse do público, fazendo com que ele ligue de novo a TV, no dia seguinte, para assistir ao desdobramento da história. Para homenagear esses grandes profissionais, começo hoje uma série de matérias relembrando a trajetória dos principais autores da teledramaturgia nacional. Pra começar, hoje vamos falar um pouco do nosso grande: “Maneco”.
Manoel Carlos estreou aos 18 anos como ator nos teleteatros dirigidos por Antunes Filho na extinta TV Tupi. Depois escreveu e adaptou mais de cem teleteatros para as grandes atrizes e os grandes atores e emissoras de todo o país. Parou de trabalhar definitivamente como ator em 1959 quando foi para a TV Excelsior trabalhar como diretor geral, ou como prefere dizer ele: “Tinha 19 anos, filho e esposa. Precisava ganhar dinheiro.”.


Manoel Carlos foi responsável por vários dos mais importantes programas dos primórdios da televisão. Na “TV Vanguarda” e no “Grande Teatro Tupi” escreveu para nomes como Sérgio Britto, Fernanda Montenegro, Natália Thimberg e Ítalo Rossi, construindo assim histórias curiosas que criaram as lendas que circundam a televisão. Dirigiu e produziu programas como “Família Trapo”, ao lado de Ronald Golias e Jô Soares; “O Fino da Bossa”, programa celeiro da Bossa Nova apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues e a primeira fase do “Fantástico”. Só escreveu sua primeira novela em 1977, uma adaptação literária: “Maria, Maria”. Logo em seguida “A Sucessora”, com Suzana Vieira, Rubens de Falco e Natália Thimberg. Nos anos 80, trabalhou com o amigo Gilberto Braga no texto de “Água Viva”, escreveu o sucesso “Baila Comigo” e a promissora “Sol de Verão” que teve um fim prematuro devido à morte de Jardel Filho que interpretava o protagonista.


Mas foi nos anos 90 e nos primeiros anos do século XXI que Manoel deixou sua marca na teledramaturgia. Primeiro vieram “Felicidade” (1992) e “História de Amor” (1995), ambas no horário das seis, depois as campeãs de audiência do horário nobre “Por Amor” (1997), “Laços de Família” (2000) e “Mulheres Apaixonadas” (2003) e já sem fôlego, “Páginas da Vida” (2006). Em todas essas novelas uma coisa sempre se repetiu: As “Helenas”. A primeira protagonista escrita por Manoel Carlos chamada Helena foi em “Baila Comigo” e foi interpretada por Lilian Lemmertz. “A que mais sofreu”, segundo Maneco. Depois vieram Maytê Proença, Vera Fischer, Christiane Torloni e Regina Duarte, sua favorita. Mas ele se irrita quando espectadores e críticos insistem em afirmas que todas são iguais. “Já é um absurdo somente por consideramos que Lilian Lemmertz e Christiane Torloni são atrizes completamente diferentes.”. O porquê do nome? A inspiração vem sim da figura mitológica Helena de Tróia. Uma mulher com uma força interior capaz de provocar uma guerra. Em sua última novela, Maneco inovou construindo uma Helena mais jovem. Em uma entrevista dada meses antes da estréia de “Viver a Vida” ele disse: “Gostaria de fazer uma Helena negra e adoraria Taís Araújo no papel. Admiro muito o trabalho dela.”. Quando a trama estreou no final de 2009, o papel não teve o desenvolvimento esperado e a novela acabou concentrando sua trama nas personagens Luciana (Alinne Moraes) e Teresa (Lília Cabral).


Suas obras, assim como as de Glória Perez, são conhecidas por sempre trazerem grandes campanhas de merchandising social. Em “Páginas da Vida” adotou como eixo principal a discussão sobre a síndrome de Down. Em “História de Amor” tratou do câncer de mama através de Marta (Bia Nunnes) e os dramas enfrentados pelos deficientes físicos nas grandes cidades, como os vividos por Assunção (Nuno Leal Maia). Em “Por Amor”, Paulo José esteve brilhante como o alcoólatra Orestes, levando os Alcoólicos Anônimos a triplicar seu público. Com a personagem Camila (Carolina Dieckmann) de “Laços de Família”, a Rede Globo ganhou o BitC Awards for Excellence 2001, na categoria Global Leadership Award, o mais importante prêmio de responsabilidade social do mundo. “Mulheres Apaixonadas” é a campeã de merchandising social, como o próprio Manoel Carlos reconhece. Foi discutida a questão da terceira idade; a sutil relação de Clara (Aline Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli); o celibato com o padre Pedro (Nicola Siri); o ciúme tratado como doença, com Heloisa (Giulia Gam); a violência doméstica mostrando Raquel (Helena Ranaldi), que era violentamente agredida pelo ex-marido; e novamente o alcoolismo com dramas de Santana (Vera Holtz) e o câncer de mama, com Hilda (Maria Padilha). Maneco, sobre isso, só diz: “Como é que eu não vou fazer campanha social se sou eu que ajudo a vender carro, liquidificador, etc.”.


Manoel Carlos confessa que as inovações tecnológicas dos últimos tempos dificultaram a profissão do autor de telenovelas. “Antes era muito mais fácil esconder quem era o pai da mocinha. Hoje qualquer teste de DNA acaba com o mistério. E celular? É dificílimo construir desencontros com a existência do celular.”. Mas não acredita que a telenovela vá acabar, apenas se reinventar. Ele garante que essa não será a primeira vez. “Sempre nas viradas das décadas atravessamos grandes crises. Lembram o que Pantanal fez com a Globo em 1990”. Vai mais longe ainda: “Em 1969, Beto Rockfeller da TV Tupi obrigou a Globo a abandonar os heróis de capa e espada de Glória Magadan e encontrar algo mais humano, mas moderno”. Começando assim a era de Janete Clair com “Véu de Noiva”, tendo Regina Duarte, Cláudio Marzo e Betty Faria no elenco.

Com todo esse currículo, não é de se admirar que tenha se tornado um dos maiores nomes da televisão latina. Já escreveu diversas novelas para praticamente todos os países da América Latina e alguns da América Central. “O público latino acha engraçado alguns costumes brasileiros retratados em nossas novelas. Como por exemplo, o tratamento entre patroa e empregada”. Diverte-se Manoel Carlos, mas continua taxativo: “Desculpe, mas só sei escrever assim.”. E essa personalidade firme é mantida até entre sua pequena equipe de trabalho. “Só trabalho com mulher. Acho-as mais criativas, além do mais são mais bonitas... Mas ninguém faz nada em novela minha se não escrevi.”. Contudo não deixa de agradecer a grandes parcerias que construiu ao longo da vida, como Ricardo Waddington, que dirigiu quatro novelas dele, e Jaime Monjardim, que além de dirigir duas novelas do autor, dirigiu “Maysa”, minissérie sobre a vida da mãe do diretor.


Questionado sobre o perigo da internet para a televisão, ele desabafa: “Há muitos anos, várias equipes vem trabalhando e estudando esse fenômeno. Não há muito que ser feito, a não ser entender como pode ser feito essa ligação. Hoje você perde durante uma semana a novela e está tudo na internet.”. Prova de que o brasileiro não deixou de ver novela, ele está apenas diversificando seu acesso porque o próprio mercado está abrindo essa diversificação, essa transformação. “Se parassem subitamente por três dias de passar novela, algo dramático aconteceria, as pessoas iam bater a cabeça. Não tem o que discutir, é o produto artístico brasileiro mais conhecido lá fora depois da Bossa Nova”. Se Manoel Carlos diz, quem sou eu para discutir.

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Manoel Carlos sempre foi meu autor favorito, do qual sou fã. Porém nas últimas como você mesmo comentou, foi perdendo gás.

    Espero que feche com chave de ouro sua próxima novela.

    Abraço
    Fábio

    www.ocabidefala.com

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  3. exto riquíssimo, com profundo trabalho de pesquisa e repleto de interessantes curiosidades, algumas citadas pelo próprio Maneco: trabalho de profissional, Rafael!

    Manoel Carlos realmente é um dos grandes de nossa teledramaturgia e um dos precursores da própria televisão. Infelizmente, a fórmula dramas do cotidiano + Leblon + Helenas está desgastada, vide a falta do que desenvolver em Páginas da Vida e Viver a Vida, mas diante da grandiosidade da obra do Maneco, as coisas boas é que invariavelmente e com justiça prevalecem.

    Mais uma vez parabéns pelo grandioso texto sobre um grandioso autor.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Rafael, fico feliz em ler aqui um texto sobre o meu novelista favorito. Manoel Carlos é sem dúvida uma grande lição para todos os que sonham em um dia emocionar o público. Ele é mestre em colocar a palavra certa no lugar certo, e com isso nos fazer sorrir, emocionar, indignar.

    Parabéns pelo seu texto!

    Um abraço!

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  6. curto ainda muito o trabalho do maneco e e$pero com alegria um trabalho inédito dele...acho que ele não tem mai$ fôlego pra novela, ma$ pra mini$$érie continua ótimo. e o remake de a $uce$$ora...cadê? uma novela e$tupenda...

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