sábado, 30 de junho de 2012

O deprimente – e deprimido – triângulo amoroso de “Top Model”


Por Marcelo Ramos* (blogueiro convidado)

Não pretendo necessariamente ser dono da razão, mas é a terceira vez que estou vendo a novela e já considero a Duda uma das mocinhas mais chatas de toda a teledramaturgia brasileira. Acho que o inconsciente dela funciona de uma forma autodestrutiva, ela gosta de viver angustiada. Mesmo que isso seja uma escolha inconsciente dela, a Duda procura os piores caminhos no amor com um único objetivo: viver sofrendo, na agonia, na angústia.           

Quando ela namorava o mauricinho Felipe Augusto (Marcello Novaes), em Salvador, ela vivia tirando onda de "amadurecida" e "bem-resolvida" com ele, mas ela só tripudiava em cima da total falta de noção dele porque ele era um babaca, que não tinha um pingo de autoconhecimento.


O Lucas não foi feito pra Duda. Decididamente, eles "não nasceram um para o outro". Lucas é marginal, é sofrido, é um fugitivo da polícia de São Paulo. Só não está atrás das grades porque saiu do Estado de São Paulo. Lucas é problemático demais, não sabe quem é seu pai, vive chorando, é um cara rebelde, foi rejeitado pelo pai, é fruto do movimento hippie dos anos 70, do qual participavam Gaspar e Suzana, sua mãe. Eles viviam o "amor livre", por isso Suzana engravidou e não sabe de qual dos dois irmãos foi. Lucas é filho de Gaspar, não de Alex, mas leva 180 capítulos para descobrir isso. Agora, com a trilha internacional e a esotérica "Stairway to Heaven", musica composta em 1970-1971, da banda inglesa Led Zeppelin, favorita de 10 entre 10 ex-hippies, tocando durante as cenas do passado de Suzana, Alex e Gaspar (o gatíssimo Eduardo Felipe, que infelizmente só voltou às novelas em 1994, em “A Viagem” e “A Próxima Vítima” e sumiu da TV), vão começar a serem exibidas em preto & branco e o drama de Suzana, dividida entre os dois irmãos vai começar a ser apresentado. 

Duda só agrava mais o processo autodestrutivo de Lucas, pois ela só cria problemas para ele. É o tipo de relacionamento que um pai não aprovaria para um filho e faria de tudo para afastá-lo dessa pessoa. O tema internacional deles é muito triste, porque reflete a imensa tristeza que um causa ao outro.

Já a Giulia, desde que chegou de São Paulo e conheceu Lucas no jantar oferecido por Morgana, só fez ajudá-lo, descompromissadamente, de coração aberto. Ela ajudou um desconhecido apenas por ser caridosa, por compaixão do grave quadro psicológico em que viu um vizinho, amigo de seu pai. Ela poderia ter ajudado Lucas como poderia ter ajudado qualquer outra pessoa que fosse um amigo em potencial, numa cidade estranha. Quando Giulia chegou ao Rio, Lucas estava em estado de petição de miséria. Ele estava no fundo do poço. Ela cuidou dele, mediu a febre dele, fazia sopinha pra ele e o agasalhava, além de ter sido ótima confidente e excelente conselheira. Pintou um clima e ela se apaixonou por ele. O namoro de Lucas e Giulia é alegre, eles vão ver o mar, curtir a beleza do Rio de Janeiro, riem, se beijam, são soft. Por isso, Morgana e Silas, mesmo tendo conhecimento de toda a problemática de Lucas, dão todo o apoio ao relacionamento deles, enquanto o protegem da má-influência de Duda, que sempre que aparece no apartamento de Morgana, é pra trazer mais problemas pro cara. A Duda vai ganhar essa competição no final da história, mas eu não acho justo. Enquanto Giulia cuidava de Lucas, praticamente sendo enfermeira dele, Duda estava envolvida com seus delírios de perseguição e com sua carreira como modelo.

Vídeo acima: Duda vê Lucas e Giulia juntos
 
Vídeo acima: Final de Lucas e Duda

Duda e Lucas, pra resumir, são de universos diferentes. Por mim, Felipe Augusto voltaria de Salvador, alugaria um quarto-e-sala na Zona Sul com ela e eles levariam adiante a carreira de modelo dos dois, como aconteceu no período em que ele voltou atrás dela. As mães deles, Cleide (Suzana Faini) e a dondoca Clarice (Ilka Soares) são baianas, soteropolitanas, estudaram juntas na mesma escola, formaram-se juntas. Por mais fresca que Clarice seja, ela é amiga de Cleide. Está tudo em casa. Ainda mais agora que Cleide conseguiu realizar-se através de Duda (Cleide é uma manequim de passarela frustrada, como já falou diversas vezes e projeta o sucesso na filha). Pronto! Duas peruas baianas, colegas de juventude, unindo seus filhos. O final perfeito pra eles e viveriam felizes para sempre.





*Marcelo Ramos é formado em Publicidade pela UFRJ e mestrando em Comunicação pela mesma Universidade. É sempre uma honra ter os seus textos postados no blog.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Quero ser ator. E agora?


Por Bernardo Dugin


Muita gente me pergunta qual caminho trilhar para ser ator. O que fazer para chegar às telinhas? Como brilhar no teatro? Tem que ter QI (quem indica)? DRT (registro profissional) resolve? Um desespero só...
Antes faço uma pergunta: você quer ser ator ou quer ser famoso?
...

Depois de um longo silêncio e de deixar a pessoa pensando, digo: tem que ESTUDAR! Muito! Quase que "para sempre".

Tem que amar o que faz porque é muito difícil sobreviver da arte. 

Quer fazer televisão?

Saiba que as grandes emissoras que fazem dramaturgia estão no Rio e em São Paulo. Se você não tem oportunidade de se mudar para as capitais, ou quem sabe para fora do país, continue fazendo teatro em sua cidade.

Leia. Leia!

Cuide da aparência, da voz e do corpo. Eles são seu instrumento de trabalho. A TV é cruel com a imagem. Implica com os gordinhos. Ou você é gordo, gordo, gordo ou magro.  Repare: o meio termo é raro. Para um pequeno conforto, existem as exceções em que o talento falou mais alto.

Não se mate para querer ser o mocinho ou a mocinha perfeita da novela.

Não fuja da sua essência. Existe papel pra todo mundo. Ator trabalha até morrer.

Tenha em mente que trabalho chama trabalho. Não fique parado em casa esperando oportunidades surgirem. Crie oportunidades. Escreva projetos, mas na hora de buscar patrocínio, não peça favor, não peça esmola. Ofereça seu produto, ofereça parceria. Por que vale a pena a marca associar o nome dela ao seu espetáculo? As empresas devem encarar como investimento.

Filme curtas, experimente. Erre, acerte. O youtube está aí para isso!
Não fique com vergonha de pagar mico, a maioria dos bons atores da atualidade já fracassou em alguns trabalhos.
Mas, atenção. Bom senso é fundamental.

Guarde todos os materias gráficos com seu nome. Reúna tudo numa pasta. Isso comprovará a sua história nas artes (inclusive o ajudará a tirar o DRT).

Invista em cursos. Mas, cuidado com os charlatões! 

Invista em seu material de trabalho. Tenha fotos de qualidade.
Saiba que ator não é modelo. Fazer poses, achar que é sensual queima o filme.
Foto de ator deve ser natural. Frontal, com sorriso, pouca maquiagem e roupas casuais.

Um videobook é fundamental para certos trabalhos. Ele será um cartão de visita para que os produtores de elenco tenham noção sobre sua atuação, dicção e perfil. Atenção ao texto: não force no drama, nem tente ser engraçado demais.
Vá na sua verdade.

E tenha na cabeça uma certeza: um dia sua hora vai chegar. 
Mas para ficar no mercado, não basta a sorte. Tem que ter talento e surpreender a cada trabalho.

Bons estudos para nós.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O Retrato de Dorian Gray

                                                                                                             
Por Antenor Azevedo


Uma história envolvendo uma paixão de um pintor por um modelo, a beleza como única solução para os problemas e vida dupla, no século XXI não são uma novidade para a sociedade, mas nos anos finais de 1800 isso causou um reboliço no high society da Inglaterra e arredores.

Muito influenciado pelo Esteticismo, movimento recém-chegado na época, Oscar Wild foi convidado a escrever um livro repleto de ideias esteticistas. Uma visita ao estúdio de um pintor, Wild viu a pintura de um jovem modelo finalizada e pensou: “é uma pena que tal gloriosa criatura um dia envelheça”. E o pintor consentiu respondendo que “seria maravilhoso se ele pudesse permanecer exatamente como ele é a imagem do quadro que deveria ganhar as marcas do tempo”. Depois do ocorrido, a primeira edição do polêmico “O Retrato de Dorian Gray” foi lançada em 20 de junho de 1890 na revista literária norte-americana Lippincott’s Monthly Magazine. 

Um jovem com seus 17 aninhos dono de uma beleza apaixonante tirava o sono de homens e mulheres por onde passava, sabe quando uma pessoa entra num lugar e nos remete aquele efeito câmera lenta, aquela magia?  Assim era com Dorian, Basil Hallward, famoso pintor entre os nobres, logo quis fazer uma obra com a figura do reservado rapaz.
Quadro finalizado, Dorian é apresentado ao interessante e cínico Lorde Henry Wotton, esse é daqueles que coloca perdida a pessoa de alma mais pura. Harry, assim chamado pelos mais próximos, logo ficou amigo de Gray, colocando certas ideias na cabeça do rapaz que mudaria seu destino para sempre.
Seduzido pelo mundo da beleza e da vida profana, Dorian sente-se capaz de tudo, ele vê todos rastejando aos seus pés, eu diria que ele tinha uma estima muito elevada não fosse sua fraqueza mental ao deixar-se influenciar por terceiros.


Com tantas polêmicas, Oscar Wild teve que relançar o livro acrescentando algumas histórias para suavizar um pouco a vida desse moço bonito chamado Dorian Gray. A versão original, a mais polêmica e intensa e essa que eu recomendo que vocês leiam, contém 13 capítulos e a segunda versão finalizou em 20 capítulos.

Claro que eu não iria revelar os lances dessa maravilhosa obra prima, espero que leiam e se deliciem. 

Segue abaixo o trailer do filme 


sábado, 23 de junho de 2012

"Hoje é dia de Maria" e "Once upon a time": refazendo os contos de fadas

Por Paula Teixeira


Estamos em uma onda de contos de fadas. E isso não é de agora.  O filme "Shrek", por exemplo, já é uma adaptação, uma quebra aparente dos paradigmas dos contos. Mas algo nunca muda nessas estórias: a questão moral e, principalmente, a estrutura arquetípica.

Uma das teorias mais adequadas para analisar esse tipo de produção é a psicologia analítica ou junguiana. Sua base foi desenvolvida por Carl Gustav Jung que, diferentemente de Freud, leva em consideração o místico, o religioso e outros aspectos para analisar a estrutura da psiquê humana, individual e coletiva.

Coletiva. Obras arquetípicas chamam muito a atenção do público. Parecem puxar algo que está guardado em um lugar perdido. Reacendem buscas individuais que são as jornadas de todos, desde que o mundo "é" mundo.

Jornada. Tanto "Hoje é dia de Maria" quanto "Once upon a time" apresentam jornadas de personagens femininos, em um enredo rodeado de imagens arquetípicas. A primeira adapta e exalta as especificidades do folclore brasileiro, adaptado para o formato do conto de fadas. A segunda mergulha o estilo de vida ocidental (não só norte-americano, mas de grande parte do mundo atual) na magia dos fairy tail.

Nas duas tramas, os arquétipos femininos dominam. Em "Hoje", Maria (Carolina Oliveira/Letícia Sabatella)  representa uma Cinderela às avessas, a menina do conto pele de asno, entre outros. Ela é forte e rompe as barreiras. Luta contra uma Madrasta má (Fernanda Montenegro), uma mãe postiça que usurpa sua identidade de filha.


Maria - "Hoje é dia de Maria" Foto: Divulgação TV Globo


Em "Once", Emma (Jennifer Morrison) precisa cumprir o seu destino: resgatar os personagens de contos de fadas que estão presos em uma pequena cidade nos EUA, curiosamente chamada de StoryBrooke. Ela é cética, impulsiva e com forte retidão moral. A perfeita heroína em uma jornada que mescla realidade e fantasia.

Nas duas estórias, todas as personagens femininas são ativas, lutam pelo que querem. São guerreiras e não apenas meras princesas. Temos também representações falhas do feminino: a madrasta. Elas sempre têm inveja das mais jovens e são extremamente egoístas. A competição mina a relação entre protagonistas e antagonistas femininas. O sobrenome da personagem, Swan (significa Cisne, em inglês), ainda indica o processo de transformação, individuação. 


Elenco - "Once upon a time" Foto: Divulgação ABC


Ledo engano pensar que estórias assim são maniqueístas. Elas separam sim o bem e o mal, mas é uma divisão simbólica. Na psiquê individual é justamente esses dois polos que colidem. E os contos de fadas clamam por esse conflito. No dia a dia, temos sempre que escolher um caminho: o mais fácil ou o mais difícil. Normalmente, o mais fácil corresponde a coisas que moralmente podem não ser aceitas e que geram consequências ruins mais a frente. O mais difícil costuma ser o mais correto.

As duas estórias têm outros dois componentes recorrentes em estruturas de contos: espaço e representação do mal misturado com a ideia de tempo. No caso de "Hoje", esse espaço é a caatinga do nordeste, regionalizando a obra. Ela precisa atravessar esse espaço para chegar ao seu objetivo, as franjas do mar (mar, na psicologia analítica, representa o inconsciente, se autoconhecer).

Em "Once upon a time", o espaço é sempre uma floresta que tem uma estrutura parecida tanto quando a estória está ambientada na "realidade" quanto na fantasia. Todos precisam procurar, fugir, achar algo nesse lugar.

O outro componente é um ser maléfico, poderoso. Em "Once", ele é o Mr. Gold ou Rumpelstiltskin (Robert Carlyle). Para além da concessão de desejos, ele parece dominar o tempo. Ele oferece a caminhada mais fácil, mas sempre cobra o preço por esse "adiantamento".

"Hoje é dia de Maria" tem, literalmente, o capeta! Asmodeu (Stênio Garcia) aparece nas diferentes formas, com uma caracterização judaíca-cristã. E suas artimanhas também são bem brasileiras! Ele também oferta a realização dos desejos. Maria sempre recusa suas propostas.

A relação entre esse tipo de estrutura narrativa e de conteúdo com a psicologia analítica é complexa. Cada personagem representa um faceta ou um arquétipo. O mais forte em ambos é o feminino, demonstrado na relevância das personagens femininas. Tantos as do "bem" quanto as do "mal". Ambas são faces da mesma moeda.

Estórias assim inspiram as crianças. Elas parecem resgatar algo escondido, velado. A luta pela construção da personalidade que enfrentarão. Os contos representam de forma extremamente simbólica os conflitos externos e, especialmente, os internos.

Para os adultos que são fisgados pelas estórias, que se identificam ou projetam sua vida nos personagens, é a oportunidade de uma reflexão muitas vezes não percebida, que acontece nas profundezas do inconsciente e questiona: o que sou e o que quero ser.


Confira vídeos de "Hoje é dia de Maria" e "Once upon a time". Repare nas semelhanças:

"Hoje é dia de Maria"


"Once upon a time"

sexta-feira, 22 de junho de 2012

CANTANDO NAS NOVELAS!

Por David Oak* (Blogueiro Convidado) 
Pense numa mulher “braba”! Pensaram em Chayene, certo? Agora pense numa novela em que os protagonistas são três cantoras empreguetes, um cantor galã ídolo das empregadas e uma rainha do tecno-brega. Pensaram em Cheias de Charme, a novela de Chayene, Rosário, Penha, Cida e Fabian, escrita por Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, certo? Certo! E agora pense nas novelas em que nossos amadinhos atores e atrizes interpretaram cantores. Pensaram? Lembraram? Não lembraram, curicas?




A Globo já apresentou tramas com cantores e cantoras desde o tempo que muitos dos que acompanham as divertidas aventuras de Cheias de Charme nem tinham nascido.
     
Em 1974, a saudosa Sandra Bréa corria atrás de muito dinheiro e finalizava a trama das sete de estreia de Gilberto Braga junto com Lauro Cesar Muniz cantando o tema central de Corrida do Ouro, no papel de Isadora, a herdeira incumbida de abandonar sua carreira artística pela maluca cláusula do testamento que dava mote a historia.



Em 1976/77, Duas Vidas da mestra Janete Clair, foi a hora e a vez de Mario Gomes estar nas paradas de sucesso com o seu cantor Dino César, seu colarzinho de conchas e seu Chiclete e Cabochard conquistarem a trilha da novela, o coração de Betty Faria dentro e fora da ficção e uma tal historia de cenourinha plantada (com trocadilhos)  por um diretor e marido ciumento.



1978, Neuza Borges  abriu suas asas, soltou suas as feras e o gogó divinamente em Dancin’ Days. amiga presidiaria da protagonista Julia Matos (Sonia Braga), a personagem de Neuza, a Madalena cantou para Gal Costa e Paulete e terminou a novela sendo aplaudida aos prantos de verdade pelo elenco da novela numa das  cenas emocionantes da trama de lurex de Gilberto Braga. Anos mais tarde, numa das inúmeras vezes que foi ao ar dizendo que estava desempregada, confessou que na época ganhava salário de figurante mesmo sendo a “piniqueira” da mocinha da trama.



Em 1980, Osmar Prado divertiu a morna Chega Mais de Carlos Eduardo Novaes com seu aspirante a cantor Amaro, parodiando Sidney Magal. 


O Amor é Nosso de 1981 (novela de Roberto Freire e Wilson Aguiar Filho) Fabio Jr. cantava  na abertura, na trilha, e a Mirian Rios, no Lp vinha um poster com o cobiçado pai do Fiuk e na novela até o Rei Roberto Carlos, até então, marido da deputada inimiga das babás lésbicas, ensinava os macetes da carreira dos palcos. Pedro (Fabio) sonhava com o sucesso enquanto a veterana Maira, vivida pela também cantora Marlene sonhava com a volta das glorias do passado.



Cambalacho (1986), de Silvio de Abreu, tivemos mãe e filha, Tina Pepper e Lili Bolero, interpretadas pelas ótimas atrizes comediantes, Regina Casé e Consuelo Leandro, incendiando tudo. A primeira era fã da Tina Turner, a segunda inimiga  de Angela Maria, que inclusive participou da novela numa cena em que ela corria o risco de levar ovada da rancorosa Lili. Tina Pepper não teve a honra de conhecer Tina Turner mas em compensação foi desmaiar no Chacrinha e terminou a novela num clipe hilário dando selinho em Caetano Veloso, Rita Lee e mais uma pá de famosos.


Em 1991, Vamp de Antonio Calmon, a doce vampira Claudia Ohana colocava seus dentinhos afiados pra fora junto com sua voz cantando Rolling Stones, Elton John e Rita Lee. A roqueira "morcega" Natasha foi um presente pra beleza imortal de Ohana depois de ter dado vida a uma marcante Tieta jovem.



Almir Sater e Sergio Reis são cantores e atuam também. Em 1996 repetiram o que vinham fazendo nas novelas do Benedito Ruy Barbosa, na  Manchete e venderam horrores. As trilhas de Rei do Gado com seu Pirilampo e Saracura e sua moda de viola e sertanejo bem ao gosto do neo-caipira dos anos 90.


Repetindo o neo-caipira também, Johnny Percebe e Boneca fizeram uma dupla diferente, um tipo de Cyrano de Bergerac  sertanejo em 1998 com a mal sucedida Torre de Babel de Silvio de Abreu onde Oscar Magrini interpretava o bonitão que aparecia e não cantava e Ernani Moraes o verdadeiro talento por detrás da farsa da dupla.


Que beijinho Doce! Um beijinho que era pura Faísca e Espoleta. A Favorita  do nosso capitão gancho João Emanuel Carneiro trouxe uma dupla pra lá de explosiva em 2008. Flora e Donatela. Quem era a boa,quem era a má? Agora já sabemos, mas na época estranhamos e ficamos boquiabertos com as reviravoltas dessa dupla. 




* David Oak Já foi estilista, produtor de moda, figurinista, ilustrador... Sua vida teve uma reviravolta quando foi selecionado pelo novelista Aguinaldo Silva para a segunda edição da Master Class, no Rio de Janeiro. Homenageado pela Master Class 1 com o personagem Crô Vallério. Ama discotheque, anos 70, novela, filme americano B, pornochanchada, fofoca e BBB. Detesta axé, funk, pagode, futebol e sertanejo. 

Junto com o nosso amigo Lucas Nobre, David desenvolveu/escreveu a novela Golpe Baixo, publicada aqui no "PCC", atendendo ao meu convite. O "Desafio Novela em Blog" foi um verdadeiro sucesso. Confira no link abaixo! 


http://possocontarcontigo.blogspot.com.br/p/desafio-novela-em-blog.html

David, queridão... valeu por mais uma participação ilustre por aqui. Beijos!!!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

OS REIS DOS MUSICAIS - Möeller & Botelho


by Sidney Rodrigues

Impossível falar dos musicais produzidos no Brasil e não relacioná-los à Charles Möeller e Cláudio Botelho, eles são praticamente a alma das grandes produções que tem sido feitas no Brasil nos últimos 15 anos.

Uma dupla pautada pelo bom gosto, trabalho, dedicação e talento, assim eu definiria o resultado do trabalho deles ao longo dos últimos anos.

Todos sabemos que as pessoas sempre torciam o nariz quando se falava em montar os grandes musicais no Brasil, mas estes dois provaram que é possível sim fazer grandes montagens e em muitos casos a maioria dos trabalhos chega a ser muito melhor que os espetáculos montados fora do nosso país.

Charles é Autor, diretor, ator, cenógrafo e figurinista.
Claudio é  Ator, cantor, compositor, diretor e tradutor.

Resumindo, não são os profissionais que entendem apenas de uma coisa ou outra quando vão montar um grande espetáculo, eles traduzem, dirigem, compõem, cuidam minuciosamente dos figurinos e da cenografia fazendo com que cada montagem corresponda ao sonho que as pessoas buscam quando vão assistir a um grande espetáculo, e tenham total certeza, o objetivo é sempre alcançado, não sem antes, é claro, consumirem noites e noites da vida destes mestres dos sonhos.  

De 1997 para cá lá se vão 28 grandes montagens e sempre espetáculos com requintes de detalhes e aguçado talento brasileiro nos palcos.

Muito mais que montar uma peça esta equipe dá trabalho constante a inúmeros profissionais cada vez mais gabaritados na arte dos musicais no Brasil. Só para se ter uma ideia na nova montagem deles, O MÁGICO DE OZ, há 38 atores em cena, uma orquestra com 16 integrantes, além de, é claro, 10 pessoas na equipe de criação e tantos outros profissionais envolvidos neste trabalho.




Tive o prazer de ver O MÁGICO DE OZ no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro e confesso que não há como não viajar na história da menina Dorothy muito bem composta por Malu Rodrigues, linda, encantadora e dona de uma voz belíssima que embala à todos.

Um espetáculo feito para a família toda, podia se ver na platéia, adultos, jovens, idosos e muitas, muitas crianças felizes por compartilhar tão brilhante experiência.

O espetáculo é tão envolvente que as pessoas embarcam na viagem, vão e voltam de OZ juntos com Dorothy e Totó.

Pierre Baitelli (Espantalho), Nicola Lama (Homem de lata) e Lucio Mauro Filho (Leão Covarde) mostram total sintonia em cena, cada qual brilhando em seu momento na montagem.

Bruna Guerin mostra que não é apenas uma atriz linda, mas confere a Glinda a bruxa boa um carisma que nos faz torcer para que ela sempre apareça quando as coisas estão quentes.

Ainda podemos ver o bom e velho Mielle na pele dO Mágico de Oz, um grande resgate para os palcos e que confere grande charme à peça, mas acredito que o talento de Möelle & Botelho foi extremamente sagaz em colocar Maria Clara Gueiros como a grande Bruxa má do Oeste, com seu humor afiado ela se transforma num show à parte quando entra em cena, levando a platéia presente à muitas gargalhadas.

Enfim, mais um grande trabalho desta dupla super talentosa e que nos orgulha imensamente.
"O Mágico de Oz"
Teatro João Caetano (Praça Tiradentes, s/nº, Centro)
De 8 de junho a 7 de outubro, às sextas (20h), sábados (16h e 20h) e domingos (15h)
Duração: 150 minutos (com intervalo de 15 minutos)
Ingressos: R$ 50 a R$ 110
Classificação: livre





Conheça, em ordem cronológica decrescente, os musicais da dupla Möeller & Botelho:


2011- Judy Garland – O Fim do Arco-Íris
2011- As Bruxas de Eastwick
2011 – Um Violinista no Telhado
2010 – Hair
2010 – É Com Esse Que Eu Vou
2010 – Gypsy


Conheça mais o trabalho destes excepcionais artistas, que Graças a Deus vivem e trabalham no Brasil para que possamos ter acesso, em nosso próprio país à tantas viagens maravilhosas.


OS REIS DOS MUSICAIS

*as fotos, links e referências foram extraídas do site www.moellerbotelho.com.br 

Teledramaturgia em DVD


Por FÁBIO COSTA

Antes do advento do DVD, era complicado poder ter as novelas e minisséries preferidas em casa para assistir na hora em que se desejasse, já que o volume de fitas VHS necessário seria muito grande e sairia caro comprar o material necessário para gravar uma novela inteira, por exemplo. Não que não tenham feito isso; muitos o fizeram, inclusive, a internet traz as recordações mais variadas gravadas em videocassete ao longo de décadas. No entanto, é inegável que um número grande de fitas de vídeo vai se tornando difícil de acondicionar e preservar, pelo espaço que ocupa. Uma fita de vídeo não ocupa muito espaço; dez delas também nem tanto assim; cem delas, ainda vá lá; pense em mais que isso.

Logotipo de Dona Beija em sua reprise pelo SBT.
Explica-se assim a razão das produtoras de teledramaturgia não terem lançado com muita força suas produções em VHS, porque a edição seria tão impiedosa que não compensaria aos interessados adquirir. Alguma coisa saiu, mesmo supercompactada, como foi o caso de algumas produções da Rede Globo – dentre as quais Anos Dourados (1986) e Anos Rebeldes (1992) – e até da Rede Manchete, através de sua Manchete Vídeo: o mercado trouxe compactos em vídeo de Marquesa de Santos (1984) e Dona Beija (1986). Mas o pouco tempo de material realmente decepcionava.

O DVD, que ocupa menos espaço que a fita de vídeo e tem maior qualidade de som e imagem e capacidade de armazenamento, surgiu e trouxe nova esperança aos amantes de cinema e televisão. Tiveram início os lançamentos de diversas séries de TV, em boxes com vários discos que traziam as temporadas completas uma a uma até que se completassem as coleções. As minisséries globais não tardaram a chegar ao DVD, tendo sido Presença de Anita (2001) e mais uma vez Anos Dourados as primeiras. Os compactos passaram a não ser mais tão compactos, mas ao mesmo tempo ainda se mantiveram longe da íntegra das obras. A edição também deixa a desejar, uma vez que apresenta cenas perfeitamente “cortáveis” e dispensa passagens interessantes e lembradas pelo espectador.

Apenas em 2010 a Globo Marcas resolveu apostar no lançamento de uma novela em DVD, e escolheu para a empreitada Roque Santeiro (1985/86), que então comemorava 25 anos de sua bem-sucedida primeira exibição. Uma caixa com 16 discos, num total de quase 52 horas de material,  proporcionou àqueles que conheciam a novela uma oportunidade de revê-la sempre que quisessem e aos que não a conheciam a chance de assisti-la e entender seu significado para a história da televisão. Desde então foram também lançados em DVD compactos de Irmãos Coragem (1970/71), em oito discos; Dancin’ Days (1978/79), em 12 discos; O Astro (2011), também em 12 discos; e Escrava Isaura (1976/77), em cinco discos com a versão de 30 capítulos feita para reprises especiais. Em algumas semanas estará nas lojas o box que traz o compacto de Tieta (1989/90) em onze discos.

Regina Duarte e Lima Duarte em Roque Santeiro.
O compacto de Roque Santeiro, de cuja edição participou inclusive um de seus diretores, Marcos Paulo, cumpre bem seu papel de relembrar uma das mais importantes telenovelas brasileiras com bom aproveitamento de tramas e personagens. Mas também pecou em deixar de lado cenas históricas que fazem parte do inconsciente coletivo brasileiro, como uma em que Sinhozinho Malta (Lima Duarte) lambe a mão de Porcina (Regina Duarte) e é chamado por ela de “cachorrinho” ou a primeira cena da mesma Porcina na novela, injuriada por não ter satisfeito pelo empregado Rodésio (Tony Tornado) seu desejo de possuir um casal de cisnes. Bem, pode ser apenas uma decepção de alguém que é fã da novela (e este que vos escreve o é), mas admirações à parte é de se esperar que as versões em DVD, se não podem trazer a íntegra dos trabalhos, que ao menos se preocupem mais com certos detalhes na hora de editar. Mas há também um diferencial curioso no box de Roque Santeiro: todos os discos apresentam a abertura da novela e os créditos de encerramento, como se fossem dezesseis capítulos enormes.

Outras emissoras poderiam também lançar títulos seus em DVD, ainda que em tiragens limitadas. Os muitos produtos da Globo Marcas nesse sentido mostram que há mercado para isso, basta fazer a coisa de modo adequado. A própria Globo ainda tem muita coisa a lançar, e a cada compacto podem ser experimentados meios de se montar um box interessante para os colecionadores que se dispõem a pagar (e pagar caro, já que os DVDs não são baratos) por um item de que fazem questão. Não acredito que a produção de novas versões de obras marcantes como Gabriela, Ti-ti-ti, O Astro e Guerra dos Sexos necessariamente impeçam que as originais sejam lançadas e/ou reprisadas no canal Viva. Há público para ambas as possibilidades.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

"Sítio do Picapau Amarelo": o maravilhoso mundo das fábulas tupiniquins!

Por Ana Paula Calixto
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"As fábulas em português (...) são pequenas moitas de amora do mato, espinhentas e impenetráveis. 
Um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se feito com arte e talento, dará coisa preciosa."
[Monteiro Lobato]



   Imaginar no tempo em que eu me referiria saudosa à minha infância, parecia algo bem longínquo, distante na ilusão de adolescente. Hoje, mãe de uma menina serelepe com pouco mais de 2 aninhos, me vejo olhando para trás com todo saudosismo que observava nos adultos, nos "mais velhos" da minha época de infância e adolescência. risos... Mas não dizem também que o mundo é cíclico, que nada há de novo debaixo do sol? Deve haver verdade nisso (em ambos "nissos").

   Então... tenho encontrado uma grande dificuldade de achar programas infantis que não só sejam compatíveis com a idade da minha filha, hoje em dia, mas que tenham um conteúdo aproveitável, ludicamente educativo para uma criança. Não há grandes opções na tv, infelizmente. E acabo restringida a Discovery Kids e parcos DVD's que se aproximam daquela fórmula mágica que tinham os programas, como chegou meu tempo de dizer [risos] "da minha época". E isso me causa. Causa um misto de orgulho e de desapontamento. Se por um lado me sinto privilegiada de ter tido acesso em minha infância ao mundo criativo, inspirador, mágico do "Sítio do Picapau Amarelo", por exemplo, sinto uma certa tristeza que minha miúda não tenha a mesma oportunidade e nem outras a altura. [Sim, o Sítio era tão bom assim!!!]

   
"Sítio do Picapau Amarelo"... o conto de fábulas infantis criado pelo gênio Monteiro Lobato, que conseguiu reunir num mesmo universo personagens originais com outros já existentes nas lendas, no folclore brasileiro. RELÍQUIA DA NOSSA LITERATURA INFANTIL! E, sem falsa modéstia, a melhor versão em minha humilde opinião, foi a que mais tempo acompanhei, a qual estreou no final da década de 70 (por volta de 1977/78, salvo engano). Lembro como hoje, da minha mãe (uma "traça de livros") me estimulando empolgadamente a acompanhar o programa para crianças que estreava inspirado numa obra da literatura, a qual ela se referia como "o conto de fadas do nosso país".

   Nesta versão, os personagens ficaram imortalizados pela interpretação dos atores. O elenco principal no primeiro ano do programa era composto por Zilka Sallaberry (Dona Benta), Dirce Migliaccio (Emília), Jacyra Sampaio (Tia Nastácia), Rosana Garcia (Narizinho), Júlio Cézar Vieira (Pedrinho), André Valle (Visconde de Sabugosa), Samuel Santos (Tio Barnabé), Dorinha Durval (Cuca), Romeu Evaristo (Saci), Ary Coslov (Jabuti), Germano Filho (Elias Turco), Jaime Barcellos (Coronel Teodorico), Tonico Pereira (Zé Carneiro), Canarinho (Malazarte ou Garnizé) entre outros.


   

    Os efeitos especiais (toscos para atualidade) eram um must, perfeitos o suficiente para nos fazer mergulhar no mundo de fantasia da estórias do Lobato. Episódios como "O Anjinho de Asa Quebrada", interpretado por Gabriela Alves, me fizeram passar dias explorando o quintal de casa na expectativa de que um anjinho caísse do "meu céu", também! E "Teseu", vivido por Gracindo Júnior?! Era um encanto que fazia a mim e minhas amigas viajar no romantismo doce, inocente típico da pureza infantil! "Barba Azul", personagem de José de Abreu, eu conheci pelo santo "Sítio do Picapau Amarelo"!

    Coisas, vivências, catarses que fizeram parte da minha infância e que, hoje, eu procuro e não identifico em programa algum, sinceramente.

     Uma pena...
     
     Como seria magnífico alguém conseguir resgatar essa riqueza da literatura clássica brasileira! Mas, desde que fosse a altura, com o mesmo tempo, os mesmos holofotes dedicados à versão que relembro nesse texto. E não às tentativas fracassadas que sucederam. Seria até revolucionário, para fase pobre de programas infantis desse nível que passam na tv, hoje em dia!

Beijos saudosos.  


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ignorância, estranha ignorância

Por Daniel Couri

Na polêmica entrevista de Xuxa no quadro O que vi da vida, no Fantástico do último dia 20 de maio, a apresentadora revelou ter sofrido abuso sexual na infância. Primeiro veio a enxurrada de críticas negativas à Xuxa, com direito a piadas, deboches e sátiras. Depois começaram a ressaltar o outro lado da moeda: o número de denúncias contra abuso sexual infantil cresceu como nunca. 


Se, por um lado, a bombástica revelação de Xuxa chocou os telespectadores, também serviu para dividir opiniões. Uns correram em sua defesa, outros aproveitaram para atacá-la sem dó nem piedade. Minha ideia aqui não é defendê-la ou tampouco apedrejá-la. O que sempre me irritou profundamente é o fato de as pessoas se referirem ao filme Amor Estranho Amor (1982), de Walter Hugo Khouri, como PORNÔ.

Pelo amor da sétima arte! Não vamos engrossar esse cordão da ignorância. O filme se tornou controverso depois que Xuxa virou a "rainha dos baixinhos" na segunda metade dos anos 80. Afinal, após conquistar tanto sucesso como apresentadora infantil e se tornar o ícone de uma geração, não pegava bem ter no currículo um filme onde ela seduz um menino. Tratou então de começar a desconstruir sua imagem de ninfeta que aparecia seminua no Carnaval e nua em ensaios fotográficos.


Todos sabem que há mais de duas décadas ela vem tentando apagar seu passado. Mais especificamente, sua participação no filme em questão, Amor Estranho Amor, onde interpretou uma jovem prostituta que seduz um garoto de 9 anos, vivido por Marcelo Ribeiro. [Na verdade a produção é de 1979, mas o filme só foi lançado em 1982, quando Marcelo já estava com 12 anos.]

Marcelo Ribeiro e Xuxa em Amor Estranho Amor
Da mesma forma que muitos brasileiros consideraram hipócritas as declarações de Xuxa ao Fantástico, é um exagero enxergá-la como uma pecadora malévola ou uma aliciadora de menores. O que aconteceu em nossa sociedade foi a gradual mistura do PAPEL que Xuxa representou no filme de Khouri com a pessoa real que ela é de fato. A ficção assumiu o posto da realidade. Xuxa passou a ser vista por uma parcela da população como uma prostituta sedutora de menores disfarçada de benfeitora das crianças. E esse (falso) puritanismo foi crescendo e passando de geração a geração.

Xuxa em Amor Estranho Amor
Ninguém é obrigado a gostar de Xuxa ou mesmo concordar com sua maneira de ser, mas sair por aí dizendo que ela fez filme "pornô" e que “abusou” do menino já é pegar pesado demais. Será que todo mundo esqueceu a diferença entre ficção e realidade? Será que ninguém mais se lembra de que Walter Hugo Khouri (1929-2003), diretor do filme, foi um dos mais respeitados cineastas deste país?

É possível que a forma como Xuxa conduziu o caso ao longo de sua carreira tenha levado tantos brasileiros a criticá-la. Talvez ela tivesse instigado menos detratores se houvesse encarado com mais naturalidade seus trabalhos iniciais de atriz e modelo, sem parecer se envergonhar deles ou querer apagá-los de sua história.

Xuxa nos tempos de modelo
O fato de ter posado nua ainda muito jovem não desmerece a carreira de Xuxa. Modelos fazem fotos sensuais, namoram jogadores de futebol, às vezes posam nuas e nem por isso são “satanizadas” pela opinião pública. O que está em pauta aqui é o falso moralismo com que muitos brasileiros condenam a apresentadora, como se ter participado de Amor Estranho Amor fizesse dela uma messalina que merece ser queimada na fogueira, em prol da moral e dos bons costumes.

Como a grande maioria das crianças da década de 1980, eu assistia ao programa da Xuxa, comprava os discos, cantava as músicas e via os filmes, embora não fosse um fã propriamente. Ela pode não ter sido muito feliz em suas escolhas iniciais, mas não acho que deva lutar contra esse passado, por mais que haja muita pressão e cobrança da sociedade e da mídia.


Durante os primeiros anos de seu trabalho como modelo, ela não fazia ideia de que se tornaria ídolo das crianças. Não podia imaginar que seria a responsável pela criação da categoria "apresentadora infantil", que revolucionaria a forma de fazer programas para crianças na TV brasileira. Quando isso aconteceu, deve ter sido como ganhar na loteria. Mas ao mesmo tempo, ela se viu numa saia justa. Afinal, as fotos sensuais e os filmes picantes já não combinavam com sua nova imagem.

Não sei exatamente quando foi que começaram a tachar o filme de Walter Hugo Khouri de “pornográfico”, mas só pode ter sido a partir da caça às bruxas empreendida pela própria Xuxa. E ela conseguiu, na justiça, que Amor Estranho Amor fosse literalmente banido do mercado. (O que só serviu para torná-lo ainda mais lendário). As especulações de quem nunca assistiu ao filme cresceram e se propagaram até que ele se tornou “o filme pornô da Xuxa”. Detalhe: ela faz um papel pequeno e não é a personagem principal.

O cartaz original (à esquerda) foi mudado após o sucesso de Xuxa como apresentadora
Mas Amor Estranho Amor passou a ser a eterna pedra no sapato de Xuxa, a mancha negra no reinado da rainha dos baixinhos. O mais curioso é que o filme nem fez muito sucesso. O que despertou enorme interesse – tanto da mídia quanto do público – foi o estardalhaço criado anos depois. O filme de Khouri passou a ser erroneamente categorizado por muitos como pornochanchada e até mesmo pornográfico, quando na verdade é um drama com toques eróticos. O elenco principal conta com Tarcísio Meira, Vera Fischer, Mauro Mendonça e Íris Bruzzi.

“Tudo nasceu do convite do produtor Aníbal Massaini para a realização de um filme sobre o amor visto pelo prisma de um menino”, explicou Walter Hugo Khouri, na edição de outubro de 1982 da revista Penthouse. “Neste filme, por exemplo, há todo um pano de fundo político, no clima incerto e tenso do final dos anos 30 no Brasil – época em que a ação se desenrola –, mas o que realmente importa são os sentimentos amorosos e eróticos do menino”.

Xuxa com Vera Fischer e Walter Hugo Khouri no set de filmagens
Vale lembrar que, apesar das polêmicas cenas de nudez e sexo (que o menino Marcelo protagonizou não apenas com Xuxa, mas também com Vera Fischer e Matilde Mastrangi), elas não foram gratuitas. Faziam parte do contexto da história. E naquele tempo (final dos anos 70/começo dos 80) não existia esse cuidado que há hoje com a imagem das crianças. Nesse sentido, havia menos pudor. Outro fato que não custa lembrar é que os filmes nacionais daquela época eram recheados de cenas de sexo. E nem por isso as pessoas saem por aí dizendo que artistas como Fernanda Montenegro, Antônio Fagundes, Reginaldo Faria, Christiane Torloni, Paulo Gracindo ou Tarcísio Meira – só para citar alguns poucos exemplos – fizeram filmes “pornôs”.

Vera Fischer, Tarcísio Meira e Xuxa

Marcelo Ribeiro e Vera Fischer
O próprio Marcelo Ribeiro, que protagonizou a famigerada cena com Xuxa, disse em entrevista ao TV Fama (Rede TV!) em 2007: "Em nenhum momento houve sacanagem. Filme erótico, pra mim, não tem nada a ver com sacanagem". 

Marcelo Ribeiro
O crítico de cinema Rubens Ewald Filho, que fez uma ponta no filme, escreveu em seu blog: “Seguindo sua tradição de lançar ou aproveitar as mais belas mulheres/atrizes do cinema brasileiro, [Walter Hugo Khouri] apresentou neste filme Xuxa Meneghel. Uma ousadia que lhe custou caro. Anos depois, Xuxa conseguiu a interdição do filme, que é um dos filmes de Khouri mais maduros e sensíveis”.

Todos têm a liberdade de discordar das declarações de Xuxa ao Fantástico, de não gostar de seu trabalho e até mesmo de não simpatizar com sua figura. Mas não vamos passar atestado de ignorância e continuar repetindo por aí que Xuxa fez filme pornô ou que molestou um garoto. Falta de discernimento têm limites.
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