quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Salve Glória, Salve Jorge... Salve salve!!!

Dia desses estávamos batendo um papo sobre novelas, eu e o brother Marcelo Alves*. Falávamos especificamente sobre Salve Jorge, então perguntei o que ele pensava sobre a trama. Daí propus que escrevesse algo que pudesse ser publicado aqui. Ele topou, e o fez de modo bem despretensioso. Eu agradeço. Espero que prestigiem. 



Glória Perez, uma autora com grandes novelas de sucesso em seu currículo e que em várias delas retratou outras culturas e teve merchandising social. Glória foi a primeira autora brasileira a ter uma novela vencedora do Emmy internacional por Caminho das Índias (2009). Então será que uma autora com todo esse porte não merecia um pouco mais de respeito com a sua atual novela? Uma novela de temática que merece toda uma ênfase, mas que não agradou muito aos fãs de Avenida Brasil, sua antecessora. 

Não é preciso gostar de Salve Jorge, muito menos assistir aos capítulos todos os dias, mas nem por isso criticar de modo destrutivo, falar mal da novela que está trazendo à tona um tema que muita gente nem sabia que existia na realidade. O tráfico de pessoas está sendo muito bem representado na atual trama das nove. É claro que a novela tem alguns furos, como tantas outras de sucesso [inclua-se nisto a retumbante Avenida Brasil] também tiveram. A audiência não anda lá em cima, é bem verdade. Embora para o padrão atual esteja dentro do aceitável, principalmente se considerado o painel nacional.  É válido ressaltar que uma novela pra ser boa não precisa ter uma audiência altíssima, vide Lado a Lado [atual das seis] que não tem tanta representatividade no ibope, mas é uma obra de qualidade inquestionável.

Sim, concordo com a crítica de que a novela tem personagens demais, alguns até desnecessários, que poderiam muito bem ser traficados pra Turquia também, mas opto por reverenciar os ótimos personagens, como Hêlo e Stênio, Giovana Antonelli e Alexandre Nero, respectivamente.


A novela não é a melhor de todos os tempos, a autora já teve em mãos histórias mais interessantes, mas também está bem longe de ser a pior.
Acredito que a autora, dona de uma trajetória marcante na teledramaturgia, nem se importe tanto com comentários maldosos, ainda assim, vai do bom senso respeitar toda a estrutura que envolve uma novela e principalmente aos profissionais que deste processo participam. Salve Glória, Salve Jorge... Salve Salve!!!


Marcelo Alves é um garoto inteligente, adora TV e assuntos inerentes ao tema. Tímido, mas se mostra desinibido quando escreve. Atualmente cursa o 2º ano do ensino médio.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Ah, Esmeralda!

Por André Cavalini


A leitura é uma oportunidade de conhecer mundos e mundos sem precisar sair do lugar.
Lendo, você conhece profundamente pessoas, de uma maneira que talvez jamais conheça alguém em sua vida. E embora essas pessoas sejam apenas personagens de alguma ficção, é delicioso ter suas companhias por algum tempo.
Nos envolvemos em intrigas, desencontros, amores, traição. Saímos de nosso mundo para viver em outro lugar. Deixamos nossa realidade de lado, para viver uma outra realidade. E felizes daqueles que conseguem se entregar a uma boa leitura, e viajar em seu universo.
Óbvio que para tudo isso acontecer, é preciso um bom livro, uma boa história. Uma trama que prenda a atenção e proporcione assim, a viagem aquele mundo ainda estranho para nós, mas que a cada página vai ficando mais e mais interessante de ser descoberto.




Convido então a todos para realizar uma grandiosa viagem através das páginas do livro Esmeralda, de autoria de Lucius, psicografado por Zíbia Gasparetto.
Um livro espírita sim, mas que não se foca em  pregar a doutrina e sim em contar um bela história, capaz de envolver a qualquer um, independente da religião que segue.

A história nos leva para a Espanha dos tempos antigos, onde fidalgos, reis e rainhas habitavam seus castelos monumentais. Onde os ciganos viviam a dançar e a festar em suas caravanas.
Eis que Esmeralda, a mais bela cigana de todos, a mulher que tem os homens aos seus pés, tem o coração tocado por um fidalgo. Explode ali uma grande paixão em ambos.
Porém, os ciganos são mau vistos, e o amor dos dois se torna algo proibido, desencadeando ai, toda a trama da história.

Sem falar que Esmeralda é uma dessas personagens arrebatadoras, das quais se ama ou se odeia, se venera ou se despreza, se quer em casa ou bem longe.

E como se não bastasse a boa história, o livro ainda ensina uma importante lição sobre o perdão. Sobre como a vingança e o ódio não levam a nada, e sobre como a vida sempre sabe o que faz.
Tem um final que surpreende e emociona, e por tudo isso é uma excelente opção para sua distração.



Ao regressar de sua viagem, quando terminar de ler a última palavra da última página, Esmeralda não será apenas um livro esquecido e empoeirado na sua estante. Ela será algo vivo em seu interior, pulsante em suas lembranças...
...porque quem conhece Esmeralda, não a esquece jamais!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um pouco mais sobre os escritores e seu trabalho insano!

por José Vitor Rack

Eu (de vermelho) e Carlos Lombardi em Fevereiro de 2012 após a entrevista para o filme.

Escrevi o roteiro de um filme que mostra o cotidiano e a vida de quatro autores de telenovelas. O filme está sendo produzido e não sei dizer quando estará na praça.

Para escrever, entrevistamos estes autores. Tomamos parte de seu convívio por algumas horas e ouvimos muitas histórias.

Dá pra resumir o assunto dizendo que escrever é insano.

 Jorge Amado

E quando digo isso não me refiro ao óbvio senso comum de que isso não costuma dar dinheiro além de lhe tornar automaticamente esquisito aos olhos das pessoas ditas normais. Escrever é insano, pois durante o período em que você está ali, em frente ao computador vomitando aquele monte de coisas sobre o teclado, você deixa temporariamente de ter controle sobre o que está pensando.

Você mergulha num fluxo de ideias que vão surgindo diretamente na tela do monitor sem muito filtro. Quantas vezes não reli o que havia escrito sem reconhecer o autor daquilo? É uma espécie de psicografia do inconsciente. Você liga uma chave interior que o conecta a coisas antes adormecidas e nunca sabe o que vai sair dali.

Para quem gosta de escrever por hobby ou para quem identificou no ato de escrever essa deliciosa doença mental incurável, o que posso dizer é que não se deve desistir jamais.

A insistência sempre rende frutos. Neste momento falo de maneira absolutamente geral. Em amplo espectro. Insista em seu texto até ele ficar bom. Estude, pesquise, estude mais, pesquise mais e mais e, quando achar que escreve bem o suficiente, leia ainda mais e estude o dobro. Insista com produtores, editores, leitores até conseguir o que quer. Insista. Seja um cão fiel, defenda seu próprio trabalho e confie nele mesmo quando ele ainda lhe pareça uma merda.

Li certa vez um manual de roteiro que pregava a simplicidade acima de todas as coisas.

Ele dizia que não há nada mais simples e direto do que Shakespeare ou do que a Bíblia Sagrada. Hoje uma afirmação dessas parece estranha, já que o palavreado do teatro de Shakespeare e os enigmas dos evangelhos nos parecem até inacessíveis. Mas em uma perspectiva histórica, dá pra ver que na época se tratavam de textos absolutamente contemporâneos e diretos.


Seja claro em sua proposta. Humor é humor. Romance é romance. Melodrama é melodrama. Não tem muito mistério. Assuma o que quer fazer e faça da maneira mais simples que puder. Não custa lembrar que simples é diferente de simplório.

Seja claro na sua maneira de colocar as coisas e tenha a audácia de ser você mesmo. Você não é Jorge Amado, não é Fellini, não é Janete Clair, não é Albee nem Ibsen. Você é você e deve permanecer assim. Estude, escreva com tenacidade, seja claro e confie no seu jeito de fazer as coisas.

Paulo Coelho não mora na Suíça e ganha com literatura o que muitos não ganharam com petróleo porque resolveu ser erudito e escrever o que a academia curte. Ele é ele mesmo até quando isso significa ser medíocre.

Isso não garante nada. Mas ajuda muito.

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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Mas será o Benedito... quando o Ruy Barbosa volta ao ar?!



Por Isaac Santos

Confesso que estou numa fase de completa infidelidade às tramas inéditas da teledramaturgia. Mas, um dos momentos prazerosos aos quais me acostumei, é acompanhar as novelas reprisadas pelo Canal Viva, de segunda a sexta. Muito bom poder conferir três histórias marcantes, três estilos distintos, autores inspiradíssimos... muito bom poder revisitar épocas tão memoráveis. Rainha da Sucata, Felicidade e Renascer super valem a pena!

O Silvio de Abreu, autor principal de Rainha da Sucata, está no ar com a atual novela das sete e já se fala em seu retorno numa das próximas novelas das nove. Manoel Carlos, autor principal de Felicidade, esteve mal de saúde, mas felizmente em breve retoma os seus trabalhos na Globo. Benedito Ruy Barbosa, autor de Renascer, em bre... Não, eu não saberia dizer quando ele terá novamente uma novela inédita no ar. Leio notícias sobre um provável retorno com mais um de seus remakes pro horário das seis. Mas sinto tudo tão na base do "o que há de ser será!", e a história mostra que a telinha é um caixa de surpresas, então prefiro aguardar. 

Talvez seja muito entusiasmo meu, excesso de positividade de minha parte, mas o fato é que eu acredito ser possível um retorno do Benedito ao horário das nove, desde que haja uma base que isto favoreça. 
Antes que alguém diga que eu  não sou conhecedor dos reais motivos que o impedem, reconheço que não faço parte dos bastidores, mas considerando apenas o pouco do que sei, questiono se não seria mais equânime se a ele fosse dispensado o mesmo tratamento dado ao Manoel Carlos. Adoraria uma trama brasileiríssima de volta ao horário nobre da Globo. Opinião de telespectador e não de especialista, obviamente. 


Enquanto isso,  continuemos a nos emocionar, divertir com Renascer!


Depois de uma bem sucedida passagem pela extinta TV Manchete, onde fez Pantanal, foi com Renascer que o Benedito voltou ao seleto grupo de autores da Globo. O título da novela seria Bumba-meu-boi, mas o Boni achou muito folclórico e o Benedito concordou em mudar. Muito do que é retratado na novela é baseado em experiências dele com sua família, enquanto passavam pela Bahia. Em depoimento ao "Memória Globo", ele declarou: " - Em Renascer, duas passagens da trama foram inspiradas no que eu vivi enquanto estava na Bahia. A primeira foi com a minha mulher e meus quatro filhos, quando eles ainda eram pequenos. [...] Nós estávamos numa região chamada Floresta Negra [...]. Uma noite fui ver os tabaréus da fazenda rastelando cacau, numa fornalha igual àquela que aparecia na novela. [...] Eles se submetem a uma temperatura de 100º dentro da fornalha, enquanto lá fora bate uma brisa fria. Mas são muito fortes. Tomam pinga na garrafa e lhe oferecem: e se você limpar a garrafa é uma ofensa; tem que pegar e beber direto. Fiquei ali ouvindo histórias e levantando a bola pra eles chutarem. Eu tinha ouvido um causo sobre um tal de seu Firmo, o fundador das fazendas da região, que havia dividido suas terras entre os sete filhos, e eu queria saber o que os tabaréus tinham a dizer. A história era que esse seu Firmo tinha a proteção do capeta, e guardava o diabo na garrafa. Eles confirmaram: "É mentira não, sô! O homem tinha o capeta na garrafa. Tinha o coisa ruim ali, o 'cramulhão'". Contaram que,  um dia, seu Firmo havia aparecido com essa garrafa, botado dentro de casa e, a partir de então, virado protegido: nenhuma bala entrava nele. Todo mundo ali confirmava a história. Um dos tabaréus disse que, nas noites de florada, seu Firmo abria a garrafa, o diabinho pulava para fora e virara um bode enorme, com os olhões brilhando feito brasa. Seu Firmo montava nele, e o bode saía voando, mijando no cacau. Quando ele voltava para casa, abria a garrafa, e o bode virava de novo o capetinha. Na manhã seguinte, o que nascia de flor era uma maravilha! Por isso que não tinha cacau. Quando ele voltava para casa, abria a garrafa, e o bode virava de novo o capetinha. Na manhã seguinte, o que nascia de flor era uma maravilha! Por isso que não tinha cacau que desse mais do que o do seu Firmo, por causa do mijo do diabo, que adubava. Ninguém ali sabia que fim levara a garrafa: se fora enterrada com ele , se alguém arrumara um jeito de botar dentro do caixão. Os tabaréus contaram que uma mulher que trabalhava na casa , Donana, largara o serviço porque tinha visto o diabo. Ela disse ao patrão que não serviria enquanto o capeta estivesse ali, em cima da mesa. Seu Firmo deu um jeito de sumir com a garrafa, e Donana ficou trabalhando com ele até morrer. Todos aqueles homens acreditavam de verdade nessa história." 


O elenco também é um trunfo da novela. Para protagonizar a saga do fazendeiro José Inocêncio, ninguém melhor que o Antônio Fagundes, e o autor sabia muito bem disso. Tanto que foi pessoalmente convidá-lo: " - Eu estava com todo o elenco escalado, mas faltava o intérprete para o personagem principal, o Painho. Já tínhamos o Painho da primeira fase, que foi um sucesso danado, mas precisava do Painho mais velho. Fui ver o Fagundes, que estava encenando uma peça de Shakespeare no Teatro Rui Barbosa, e o convidei para jantar depois do espetáculo. Expliquei que precisava de um ator para o papel, mas ele disse que não queria fazer novela naquele momento. "Mas você nunca fez novela minha", argumentei. Ele disse que teria prazer, mas que não dava. Fagundes estava irredutível. Então, resolvi contar a ele o primeiro e o último capítulos da história, coisa que nunca faço. Quando escrevo novela, já sei exatamente o começo, o meio e o fim da trama. O primeiro capítulo não seria com ele, mas com o personagem ainda jovem, que chegava na região, desbravava as terras para fazer sua roça de cacau e se apaixonava por uma menina que dançava o bumba-meu-boi. Ela seria a mãe dos quatros filhos dele. Com a passagem de tempo, os filhos já crescidos, o Fagundes faria o personagem mais velho: um homem que nunca havia esquecido aquela menina, que morrera no parto do último filho. Toda vez que o Painho se sentasse na cadeira de balanço e se cobrisse com o cobertor, o público saberia que ele estava pensando nela. Ela aparecia para ele em sonho, e ele achava que ela não tinha morrido, No começo da história, ele havia fincado um facão na terra, junto a um jequitibá, e jurado que, enquanto eles existissem, ele não morreria nem de morte matada, nem de morte morrida. E contei ao Fagundes o final da história. Ele começou a chorar. Esse choro se repetiu depois, quando ele gravou a cena. Fagundes perguntou se eu garantiria que seria assim, e eu assegurei que não mudaria a história. Então, ele aceitou fazer. Eu quis saber se já podia começar a escrever pensando nele, ele confirmou, e fiz as cenas. Foi assim."



Não há como falar de Renascer e não mencionar as belíssimas músicas que tão bem casaram com cada trama da novela. As trilhas sonoras estão entre as mais vendidas da Rede Globo. 



De igual modo, seria injusto não destacar a qualidade das cenas primorosas dirigidas com a sensibilidade ímpar do Luiz Fernando Carvalho, com quem o Benedito tem uma identificação muito grande e falando ao "Memória Globo" ele dá testemunho disso: " - Ele lê o texto e parece que aquilo é dele. Eu me identifico muito com a sua direção. Gostei demais quando fizemos Renascer, um trabalho brilhante, que depois ele repetiu em O Rei do Gado, novela que também achei maravilhosa. Tenho paixão de trabalhar com o Luiz Fernando, porque sinto que ele tem a minha origem. Ele tem a sola do pé cheia de barro, como a minha. Já viveu muito. Faz bem porque conhece. Há diretores que trabalharam com ele que estão muito bem, seguindo a mesma linha. Além disso, o Luiz Fernando tem uma forma especial de trabalhar com o elenco."     


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Trinta anos de novelas no SBT - Parte II


Por FÁBIO COSTA

Na primeira parte, falei da primeira leva de produções da teledramaturgia do SBT, entre 1982 e 1985. Entre 1990 e 1991, a emissora reprisou algumas dessas novelas dos primórdios à tarde e no início da noite, enquanto preparava a retomada do departamento sob a batuta de Walter Avancini, que ainda em 1990 estreou Brasileiras e Brasileiros, texto seu em parceria com Carlos Alberto Soffredini.

A proposta era fazer uma novela cuja trama fosse centrada nas camadas mais baixas da população e seus problemas de sobrevivência. Os protagonistas eram Ângelo (Fúlvio Stefanini) e Totó (Edson Celulari), que para subirem na vida resolvem promover luta livre entre mulheres, treinando beldades para as disputas, dentre as quais Tereza de Ogum (Isadora Ribeiro). Falar apenas dos pobres não deu muito certo e pouco tempo depois da estreia entraram novos personagens, com destaque para a trama da jornalista Paula (Lucélia Santos) e seu romance com o milionário Ramiro (Rubens de Falco). Tendo perambulado pela grade da emissora em diversos horários, a novela terminou como um grande insucesso que em outras circunstâncias talvez tivesse vingado.

Pela mesma época foram planejadas outras novelas, mas nenhuma foi ao ar. As outras produções de teledramaturgia foram duas séries: o revival de Alô, Doçura com Virgínia Novicki e César Filho e a ótima O Grande Pai, original argentino de Gustavo Barrios (o mesmo de Chiquititas) com Flávio Galvão e Débora Duarte.

Foi em 1994 que houve enfim a verdadeira retomada do setor de teledramaturgia do SBT, sob o comando de Nilton Travesso. Desta vez o caminho escolhido foi o dos remakes, resgatando histórias conhecidas do grande público, tendo assim garantia de interesse e de uma parcela da audiência. A novela escolhida para inaugurar o novo ciclo foi Éramos Seis, adaptação de Sílvio de Abreu e Rubens Ewald Filho do romance homônimo de Maria José Dupré, que até ali já havia ganhado outras três versões para a TV.

Dirigida por Travesso, Henrique Martins e Del Rangel, a novela estreou em maio de 1994 trazendo Irene Ravache na pele de Dona Lola, mulher sofrida que vive ao lado do marido Júlio (Othon Bastos) e dos quatro filhos: Carlos (Jandir Ferrari/Caio Blat), Alfredo (Tarcísio Filho/Wagner Santisteban), Isabel (Luciana Braga/Carolina Vasconcelos) e Julinho (Leonardo Brício/Rafael Pardo). A história acompanha a vida da família por anos e fio, tendo como pano de fundo a transformação de São Paulo e os acontecimentos da vida da cidade entre as décadas de 1910 e 1940. Foi muito bem produzida e consagrou-se como uma das melhores novelas da emissora (a melhor, para alguns) e mesmo da teledramaturgia brasileira.


Em dezembro de 1994 estreou As Pupilas do Senhor Reitor, cuja base era o romance homônimo de Júlio Dinis, em adaptação de Bosco Brasil, Ismael Fernandes e Aziz Bajur contando ainda com a versão escrita por Lauro César Muniz para a TV Record em 1970/71 como ponto de partida e referência. Juca de Oliveira viveu o Padre Antônio, o “Reitor”, responsável pela tutela das jovens Guida (Débora Bloch) e Clara (Luciana Braga), apaixonadas pelos filhos do sitiante José das Dornas (Elias Gleizer): o médico Daniel (Eduardo Moscovis) e o rústico Pedro (Tuca Andrada). Outra produção muito bem cuidada e de grande qualidade, recriando uma aldeia portuguesa no século XIX em detalhes.



Em julho de 1995 foi a vez de estrear Sangue do Meu Sangue, nova versão da novela escrita por Vicente Sesso para a TV Excelsior em 1969/70. No final do Segundo Reinado (ou seja, na década de 1880), Carlos Rezende (Jayme Periard) sobrevive a um atentado e pretende desmascarar o vilão Clóvis Camargo (Osmar Prado), que aplicara um golpe no banco de propriedade de seu sogro, Mário Albuquerque Soares (Rubens de Falco). Clóvis não ama a esposa Júlia (Lucélia Santos) e quer que todos pensem que ela está louca, para que possa se livrar dela. O filho mais velho de Carlos, Lúcio (Tarcísio Filho), se envolve com a atriz Pola Renon (Bia Seidl), que no passado fora amante de seu pai. Outra novela muito bem feita, mas que não conservou uma “graça” especial da versão original, em que Carlos e Lúcio eram interpretados pelo mesmo ator, Francisco Cuoco, enquanto aqui cada personagem teve um intérprete diverso.



Em 1996 o SBT estreou três produções no mesmo dia, 6 de maio. Às 18h30, Colégio Brasil, de Yoya Wursch e Roberto Talma, dirigida por este, fruto de uma parceria com a produtora independente JPO. No colégio do título, as trajetórias dos alunos, professores e funcionários, que se relacionam entre si. Algumas relações têm base no passado, como a do professor Lancellotti (Giuseppe Oristânio) com a inspetora de alunos Nair (Maria Padilha). O diretor é Edmo (Edwin Luisi), boa-gente, mas muito sério, pai de Tininha (Ana Kutner), moça que se envolve com o tímido Manoel Boi (Taumaturgo Ferreira), agregado da escola.



Às 20h era a vez de Antonio Alves, Taxista, adaptada por Ronaldo Ciambroni de original de Alberto Migré (o mesmo autor da primeira novela diária brasileira, 2-5499 Ocupado, exibida aqui em versão de Dulce Santucci em 1963). Outra parceria, aqui com a argentina Ronda Studios, inclusive com os trabalhos sendo feitos na Argentina. Fábio Jr. era Antonio Alves, o taxista que cuidava da família e se apaixonava por Mônica (Guilhermina Guinle), enquanto despertava a cobiça da madrasta da jovem, Claudine (Branca de Camargo, em papel inicialmente destinado a Sônia Braga).




Em seguida ia ao ar Razão de Viver, que era uma adaptação de Meus Filhos, Minha Vida, que tão bons resultados obteve em 1984/85. Analy Alvarez e Zeno Wilde foram os responsáveis pelas modificações no texto de Ismael Fernandes, com direção geral de Nilton Travesso e Henrique Martins. A sofrida Dona Luzia era agora Irene Ravache, que de certa forma revivia sua Dona Lola. Os filhos eram Marco Ricca (André), Petrônio Gontijo (Pedro) e Gabriel Braga Nunes (Mário).


No final de 1996 estreou Dona Anja, adaptação do romance de Josué Guimarães que se passa na década de 1970 numa cidade do interior gaúcho em que os problemas sexuais e afetivos dos moradores se mesclam à discussão em torno do divórcio no país e a situação política nacional, ainda em pleno regime militar. Dona Anja (Lucélia Santos), ao enviuvar do Coronel Quineu Castilhos (Jonas Mello), passa a se entregar aos homens da cidade, a fim de aplacar seu apetite sexual insaciável.





1997 foi o ano de Os Ossos do Barão, escrita por Walter George Durst a partir da obra de Jorge Andrade, que de peça teatral originou uma telenovela global em 1973/74. Antenor Taques Redon (Leonardo Villar), um velho quatrocentão falido e caduco, assiste às transformações sociais do Brasil dos anos 50, com imigrantes como seu ex-colono italiano Egisto Ghirotto (Juca de Oliveira) tomando as rédeas da economia. O sonho de Egisto é possuir um título de nobreza e ser aceito entre a alta sociedade paulista por quem é e não apenas pelo dinheiro, que já possui em quantidade. O casamento de seu filho Martino (Tarcísio Filho) com Izabel (Ana Paula Arósio), neta de Antenor e bisneta do Barão de Jaraguá, torna seu sonho realidade. Ainda no elenco Cleyde Yaconis, Othon Bastos, Clarisse Abujamra, Petrônio Gontijo, Bia Seidl, Laerte Morrone, Denise Del Vecchio, Mayara Magri, Daniela Camargo, Dalton Vigh, Imara Reis, Ewerton de Castro, Jussara Freire e Rubens de Falco.

Ainda em 1997 estreou Chiquititas, sucesso infantojuvenil que permaneceria no ar até 2002, com sucessivas temporadas, e era gravado na Argentina, terra de origem da história. Uma parceria do SBT com a Telefe, emissora local. Flávia Monteiro interpretava Carolina, a jovem diretora do Orfanato Raio de Luz, verdadeira mãe para as crianças que lá viviam. Foram aqui revelados diversos talentos que hoje prosseguem carreira em outras emissoras, como Fernanda Souza, Carla Diaz, Sthefany Brito, Kayky Brito e Paulo Nigro.



Enquanto iam ao ar seguidas temporadas de Chiquititas, ou seja, entre o fim dos anos 90 e o começo da década de 2000, o SBT produziu outras novelas, além de ter prosseguido com a exibição das mexicanas dubladas. Mas esta fase, que vem até os dias de hoje, abordarei na próxima (e última) parte. Até lá!

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Entrevista com Eucir de Souza - Um ator de corpo e alma!


by Sidney Rodrigues

Entrevistar o Eucir é uma tarefa que me deixa muito feliz, pois acompanho a carreira dele há muito tempo e sempre que o vejo em cena me surpreendo como ele mergulha de cabeça em tudo o que faz, e faz bem feito.
Ele foi atencioso, receptivo. Desde já agradeço.Confira!

Você fez uma participação muito bacana em TAPAS & BEIJOS, como foi a experiência?
Fazer o Papai Noel do Tapas e Beijos foi um presente de Natal. A experiência foi muito boa mesmo. Quando li o roteiro já achei muito engraçado, ria alto, sozinho em casa. A gravação foi bem divertida e harmoniosa. Todos os profissionais envolvidos, direção, atores, produção e técnicos com muita leveza, boa vontade e talento. Delícia!

Costuma ver TV aberta/fechada? Que gênero de programa te atrai?
Assisto de tudo, TV aberta ou fechada. Não tenho horário fixo para ver TV, fico dias sem ver, então não sigo nenhum programa. Quando ligo, vou procurando do começo ao fim e paro no que mais me interessar, pode ser um filme, um programa desses da vida real, um documentário sobre uma terra distante, um desenho animado antigo...
O que mais me atrai são filmes, principalmente os nacionais ou clássicos do mundo todo, que porventura ainda não tenha visto ou que gostaria de rever.

A série "FDP", que você fez na HBO, foi um grande sucesso, teremos uma segunda temporada do Juarez da Silva? É amante do futebol ou teve que ralar muito pra entrar na pele do juiz?
Não sei nada sobre uma segunda temporada de FDP. Só sei que todos os profissionais envolvidos ficaram muito satisfeitos, durante as gravações e depois da série pronta e gostariam de continuar!
Não sou exatamente um amante de futebol. Quando criança ainda torcia, por influência do meu pai. Depois nunca mais acompanhei nenhum time. Vi muito futebol a vida toda porque sou brasileiro e simpatizante.
Mas acontece um fenômeno comigo! Quando pego um personagem, me apaixono pelo seu universo. Na época do Juarez, acompanhava todos os jogos, todos os campeonatos, tenho 5 canais de esporte na TV e era só o que eu via. E pensava, nossa, como é maravilhoso o futebol, como pude ficar tanto tempo sem acompanhar. Via filmes documentários antigos e ficava comparando o futebol de hoje com o de ontem. Hoje não vejo mais nada! E já foi assim com diversos assuntos, escultura, equitação...
E esse é meu objetivo maior como ator, abrir mão da minha personalidade por um tempo e ser outra pessoa. Quando me confundem com o personagem fico feliz e satisfeito!


Que atores/atrizes ou diretores são referências para você? Como um ator que já fez drama/comédia com bastante propriedade, tem algum gênero de preferência?
Não tenho hoje nenhuma referência específica. Admiro muitos atores e diretores e tenho uma preferência pelos brasileiros, mas sou muito aberto a novidades, um ator ou diretor que nunca vi pode me impressionar e passar a me influenciar, esteticamente, pelo assunto, pela ética envolvida, etc. Depois vem outro e muda.
Mas fui muito influenciado no início pelo Artaud, pelo Peter Brook e também pelo teatro antropológico.
No Gênero se dá o mesmo. Vou num rumo, me esgoto, vou para outro, depois volto.
Como não gosto muito de me repetir, a preferência depende do que acabo de fazer, do que estou vivendo na vida pessoal, do que acho necessário dizer naquele momento e do que acho mais interessante como carreira também.
Que livros nós podemos encontrar na cabeceira do Eucir? Tem alguma indicação a fazer?
Atualmente, na cabeceira tem “O Jardim e a Primavera – A História dos Quatro Dervixes” – de Amir Khusru. É uma compilação de contos de ensinamento do antigo Oriente Médio. É esse que agora estou lendo e relendo.
Tenho esse hábito e os que mais li até hoje foram o Werther do Goethe, o Dorian Gray do Oscar Wilde, e o Sidarta do Hermann Hess. Esses passaram anos ao meu lado, sendo relidos, e os recomendo muito!
O Hamlet do Shakespeare também não sai nunca da minha cabeceira, por vezes abro em alguma página e leio, e sempre ajuda e ensina. Toda a obra dele eu recomendo também! É o melhor escritor de todos os tempos, tudo que existe no homem e no mundo está na sua obra.

Qual trabalho no cinema te fez mais realizado? Que filme marcou sua vida como espectador?
Difícil escolher o filme que mais gostei de fazer. Cada um é bom do seu jeito. Fico feliz quando o ambiente criado durante a gravação é amigável e propício para a criação, sem muita tensão, porque assim consigo fazer o melhor que posso naquele momento. Gosto também quando o resultado final agrada a critica e quando o público se identifica. Até pensei em alguns aqui, mas tenho medo de esquecer-me de outros e ser injusto.
Como espectador, Asas do Desejo do Win Wenders é o mais forte para mim porque foi a primeira vez que passei por uma transformação visível. Entrei no cinema, vi o filme e ao sair era outra pessoa, pensava e via tudo diferente e não voltaria mais a ser o que eu era. Foi muito impactante. Depois isso voltou a acontecer outras vezes, com filmes e peças, mas esse virou minha referencia do que uma obra pode causar.


Você consegue tempo para ver os amigos em cena no teatro, cinema ou tv? O que pensa dos colegas que pedem convites e não ficam pra falar com o ator depois da peça?
Sim, consigo. E gosto muito! Meu programa preferido é ver os amigos no teatro, depois sair com eles para jantar ou beber. Também vou muito ao cinema ver os filmes nacionais, onde sempre tem um, e na TV também assisto, e se tiver amigo paro para ver. Torço e me emociono sempre! Sou um péssimo critico para os amigos!
Como espectador, tenho um critério para pedir convite. Se o dinheiro do ingresso vai para o grupo que está fazendo a peça eu pago, se vai para o patrocinador ou para a instituição eu aceito convite ou meia.
Particularmente, não me importo de dar convites. Seja qual for o motivo, às vezes a pessoa pede porque realmente não tem como pagar, ou porque quer se sentir privilegiada. Se for possível, se tiver uma cota e se a peça e os profissionais envolvidos não estiverem precisando do dinheiro não me importo. Mas é claro que prefiro que a pessoa pague, porque é um serviço como qualquer outro!
Quanto a ficar ou não para falar comigo no final, prefiro que seja sincero. Se a pessoa, pagando ou não, preferiu ir embora, ou porque ficou tocada ou porque odiou a peça, acho um direito dela! Às vezes é melhor do que receber todas as criticas ali no calor da hora, saindo de cena, quando estamos muito vulneráveis!
No fundo a gente sempre sabe se o que estamos fazendo é bom ou ruim...

Tive um professor que dizia que “o ator só cria no caos!”. Acha que essa frase faz sentido?
Acho que faz sim, mas não para mim!
Conheço atores e diretores que gostam de climas, de loucuras, de quebrar tudo... acho um processo bom também, pode dar ótimos resultados, já passei por alguns e o resultado variou.
Eu prefiro amor, calma, respeito. Crio muito mais quando estou lúcido, tranqüilo e estou sendo bem tratado e tratando bem dos parceiros, fico mais livre, vou me sentindo bem, relaxado, seguro, e daí vêm os meus melhores desempenhos.
Também, hoje, não ponho o resultado final acima de tudo. Acho mais importante que as pessoas se conheçam e fiquem amigas, melhor investimento para o futuro!


Há alguma novela, série ou filme que gostaria de ter participado como ator?
Eu gostaria de fazer tudo! Tenho essa loucura. Por mim estaria envolvido em todos os processos, faria todos os personagens na TV, no cinema e no teatro. Mas me controlo porque sei que isso não existe. Luto muito contra a avidez e a compulsão no trabalho!

Qual a trilha sonora para a sua vida?
Ouço de tudo! Atualmente tenho curtido muito o Odair José! Mas sempre ouço uma radio na internet que se chama radiodarvish, música clássica persa, alimento para a alma.


Tem algum vídeo que tenha visto na internet que tenha feito você rir muito? 
Muitos. Outro dia morri de rir com os vídeos da Roxane e da Taty Piriguete, personagens da Tata Werneck, bem louca. Só não acho engraçada gente sofrendo acidente, ou sendo humilhada. Meu humor não vai nesse sentido.


Como é sua relação com as redes sociais?  Compartilha da ideia de que as pessoas têm se sentido donas da verdade no Facebook ou Twitter, ou acha que isso é apenas um passatempo? Tem algum blog?
Não tenho blog não! Acho que não tenho tantas ideias interessantes assim!
O Facebook é o que tenho de mais próximo disso, mas lá falo basicamente de meus trabalhos e publico uma ou outra coisa que acho relevante.

Gosto muito do Facebook, encontro amigos distantes no tempo e no espaço, e estreitamos novamente os laços.
Quanto aos que não conheço pessoalmente ajo como na vida, tem gente que sabe chegar, com delicadeza, sutileza e respeito, para esses as portas estão abertas.
Mas tem gente estranha também, às vezes aparece uns excessivos, que mandam mensagens como se fossem amigos íntimos, normalmente apago sem responder. Se você reparar, meus amigos íntimos não me mandam mensagens abertas via Facebook...
Gosto muito da internet e das redes sociais, elas possibilitaram uma imensa abertura de ideias, opiniões e conceitos. Hoje podemos saber o que pensam e como vivem as pessoas em qualquer parte do mundo e de qualquer meio sociocultural. Isso ajuda muito a quebrar preconceitos, o que é essencial para a convivência pacífica e a tolerância.
Acho que os impactos reais disso ainda sentiremos daqui a alguns anos, mas as novas gerações já mostram como o mundo está mudando. Os jovens de hoje, na faixa dos seus 18 anos, são infinitamente mais abertos a outras formas de vida, de política, de religião, de sexualidades. Isso é muito positivo.
Tem um movimento acontecendo hoje em alguns lugares de São Paulo, que é fascinante. Você vai a uma rua, como a Peixoto Gomide, por exemplo, e lá estão todos! O rico, o pobre, o hippie com seu violão, o punk, o nerd, o gay, o hetero, meninos, meninas... Todos convivendo em paz e no mesmo espaço. Isso é maravilhoso e a internet ajuda muito nisso.
Acho ótimo cada um ter e manifestar sua opinião. Acho bom também poder trocar, se eu curtir a ideia, comento positivamente, se não curtir ignoro, se repudiar muito falo contra e assim vamos nos norteando!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Cinquenta tons de Lavoisier

Por Daniel Couri

O químico francês Antoine Lavoisier, considerado o pai da química moderna, tornou mundialmente conhecido no século XVIII o que hoje se chama Lei de Lavoisier: "Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". A tal lei continua atualíssima até hoje.

Lavoisier
Seja na TV, no cinema, na música ou na literatura nada se cria, tudo se transforma. Ou, como dizem os mais radicais, "tudo se copia". Está na moda, gente. Cada vez mais vemos releituras de filmes, peças, shows, canções, novelas... Sem querer desmerecer os talentos da atualidade, muitas vezes ficamos com a impressão de que as coisas antigas eram "melhores". Na verdade elas pareciam melhores porque eram novidade. Ao vermos velhas ideias relidas e repaginadas, ficamos com aquela sensação de dejà vu, como se no passado tivéssemos apreciado algo semelhante, porém melhor. Era o sabor da novidade.

Cinquenta tons de cinza – o fenômeno literário do ano passado – escrito pela britânica E.L. James, vendeu 40 milhões de exemplares rapidamente. Romance erótico com toques de sadomasoquismo, o livro consagrou sua autora como a inventora (?) de um novo gênero que mistura romance açucarado e erotismo pretensamente transgressor.


O mérito literário de E.L. James não vem ao caso. É um caso típico da Lei de Lavoisier somado à memória curta do público. Muito antes desse modismo gerado por Cinqüenta tons de cinza, leitores do mundo todo já tinham seus momentos de "prazer proibido" com os livros do americano Harold Robbins, só para citar um exemplo. Quando começou a ser publicado aqui no Brasil, Robbins era um ilustre desconhecido. Numa jogada esperta para atrair leitores e realçar o teor caliente dos livros, a editora Record usou um artifício mais tarde revelado: o nome de Nelson Rodrigues como tradutor.

Os mais radicais chamam de fraude, outros acham quem a estratégia não passou de uma malandragem inocente, coisa dos distantes anos 60/70. Mas o fato é que Nelson Rodrigues nunca fez muita questão de esconder que não falava nada de inglês (nem de qualquer outra língua além do português).

Na biografia O anjo pornográfico, Ruy Castro conta que a ideia fora de Alfredo Machado (dono da Editora Record na época), para "ajudar Nelson a faturar um dinheirinho fácil. Mas era também muito conveniente para sua editora: ao ler 'Tradução de Nelson Rodrigues' com destaque na capa de livros de Harold Robbins, como Os insaciáveis, Os libertinos e Escândalo na sociedade, o comprador via naquilo uma garantia. Sabia que era literatura 'pesada'. Como poderia imaginar que Nelson era o mais acabado monoglota da língua portuguesa...?"


O filho de Alfredo, Sérgio Machado – à frente do Grupo Editorial Record, o maior da América Latina – contou em uma entrevista, não faz muito tempo, que a tradução dos livros de Harold Robbins era feita por outra pessoa. O nome de Nelson era apenas para atrair o público:

O momento talvez fundamental da nossa história foi quando meu pai perguntou ao meu tio: "Décio, por que a gente não faz livro que vende?" Meu tio disse que era porque não tinha; porque o José Olympio já tinha comprado. Meu pai então falou: "Estou lendo um livro que me deram, Os Insaciáveis, do Harold Robbins. O negócio de conseguir direitos é comigo mesmo." Comprou e publicou pela primeira vez um livro com o objetivo exclusivo de vender para o leitor. Ele tinha aquela coisa de publicitário, de jornalista. Veja o que fez para lançar esse livro, que era bem apimentado: pôs que a tradução era de Nelson Rodrigues. Nelson nunca aprendeu inglês! A cada tiragem, ele ia lá na editora pegar um dinheirinho. 

O negócio deu tão certo que nada menos que catorze livros de Robbins vêm com a tradução falsamente assinada por Nelson Rodrigues. Também foram feitos vários licenciamentos para a Abril Cultural, o Círculo do Livro e a Nova Cultural até a segunda metade dos anos 80, sempre com altíssimas tiragens e várias reedições. As tramas apimentadas, sempre recheadas com sofisticados cenários, mulheres fogosas, homens insaciáveis e muito dinheiro vendiam como água. 

A edição número 1 da revista Veja, de 11/09/1968, dedicou duas páginas a uma matéria sobre o sucesso dos livros de Harold Robbins. Na época, ele era o autor mais vendido do mundo, com 40 milhões de exemplares (exatamente como E. L. James hoje). Um dos trechos diz:

Qualitativamente, Harold Robbins não existe para a crítica americana, que invariavelmente despreza os seus romances. Como seu tradutor brasileiro, Nelson Rodrigues, que diz: "Harold Robbins é um momento da estupidez humana". O autor de "Ninguém é de ninguém" confessa ter "tropeçado por acaso" na literatura quando começou a descrever a elite endinheirada da Europa e América. Mas desde então, como excelente homem de negócios, Robbins percebeu depressa que tinha na máquina de escrever uma galinha que punha ovos de dólares.


Apesar de ser considerado literatura adulta e erótica, Cinquenta tons de cinza, ao contrário dos livros de Harold Robbins, se revela totalmente infantilizado, como se tivesse sido escrito para um público adolescente e bem menos exigente. Mais ou menos como os populares livrinhos de banca das séries Júlia, Sabrina e Bianca. O surpreendente é como E.L. James conseguiu virar o furacão editorial da atualidade usando um fórmula tão batida, sem nenhum requinte literário ou narrativo. A série Cinquenta tons já conta com mais dois livros: Cinquenta tons de liberdade e Cinquenta tons mais escuros, sem falar nos inúmeros pastiches que lotam as vitrines das livrarias mundo afora. Uma prova de que, apesar da internet, o público ainda tem bastante fôlego para consumir enlatados apimentados. Ainda que hoje eles estejam mais para fast food.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Que venha a revolução.

ATENÇÃO: Contem alguns Spoilers.

Nós somos escravos. Somos escravos da tecnologia, dos meios de transporte, da energia. Viver em um mundo em que isso não exista seria um inferno. Impensável. Não para as mentes de JJ Abrams (Fringe, Lost e recentemente Star Wars) e Erick Kripke (Supernatural) e para as mãos habilidosas de Jon Favreau (Homem de Ferro). O trio nos apresenta Revolution, um mundo pós - apocalíptico em que as pessoas, há 15 anos vivem sem nenhuma fonte de energia ou tecnologia.

Na série, Charlie (Tracy Spiridakos) vê seu mundo virar de pernas pro ar quando seu pai Ben (Tim Guinee) é assassinado e seu irmão Danny (Grahan Rogers) é sequestrado por Tom Neville (Giancarlo Esposito, mais conhecido como espelho falante de Once Upon a Time), comandante chefe de uma milícia comandada por Monroe (David Lyons, The Cape), que tenta, a todo custo entender o blackout e encontrar uma fonte de energia. E para isso não mede esforços nenhum, até mesmo trair seu melhor amigo. Para Charlie conseguir resgatar seu irmão, seu pai lhe fala, antes de morrer, que tem um irmão Milles (Billy Burke – aka Charlie Swan) que poderá lhe ajudar. Então Charlie sai a procura desse tio e junto com ele tenta resgatá-lo.

A trama não parece lá muita coisa à primeira vista. O piloto não tem um “chama” muito forte, mas o que me chamou a atenção foi justamente o fato de ver como seria um mundo pós tecnologia. Viveríamos como na idade média, mas sabendo que já tivemos todo o conforto que esta ‘senhora’ pode nos trazer. O caos surgiu, vilas feudais voltaram à moda, e pasmem, a moral e a civilidade perderam lugar para a teoria de Darwin – Somente o mais forte sobreviverá.
Onde deixei meu ursinho?

A protagonista também não é o tipo de personalidade que talvez prenda a atenção. Ela é muitas vezes infantil e chorona, mas contrabalança com Milles, o tipo de cara “durão” que toma as rédeas da missão salvando parte da produção. Outra coisa que não combinou muito foi David Lyons como vilão. Ele tem um rosto bonzinho demais para alguém poderoso, frio e calculista como o personagem Monroe deve ser, além de que nos constantes ‘flashbacks’ da série ele, nitidamente demonstra ser fraco, submisso e completamente dedicado ao seu grande amigo (Que não vou contar quem é para não estragar uma das boas surpresas da série).
Você não é a Bella, não é?

O roteiro pode ser previsível, mas com algumas boas surpresas. A série não é de todo ruim, seu ritmo acelerado ajuda a não ficarmos muitos episódios ‘no escuro’ imaginando sobre os problemas causados pelo blackout.

Li que o roteiro é previsível demais e que, para um mundo apocalíptico, é tudo limpo demais, mas o apocalipse não se deu por conta de um vírus que transformou todo o mundo em zumbis ou vampiros, o apocalipse aconteceu apenas pela falta de luz, não tirou das pessoas a capacidade de “tomar banho” nem transformou as cidades em grandes cidades fantasmas, apenas tirou das pessoas a luz e o conforto.

É um syfy, talvez as pessoas que não gostem do gênero torçam o nariz para a série, mas é um bom entretenimento. Em uma era de zumbis e vampiros, assistir algo um pouco mais ‘humano’ é bom.

A série tem potencial e espero que JJ Abrams mantenha este ritmo à produção e não se perca como aconteceu com Lost. É esperar para ver.

Vanessa Carvalho.
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