terça-feira, 30 de julho de 2013

Janete Clair e o seu instigante Sétimo Sentido

Por André Araújo

Janete Clair era como a própria se definia, uma incorrigível romântica. Mas não uma romântica morna. Suas histórias aconteciam de fato e não havia quem não se impressionasse com seus enredos. Janete era mestra também na arte de criar enredos envolvendo personagens duplos. Sempre funcionou. Escritora de vanguarda, já em seu primeiro trabalho para TV, a autora de “Véu de Noiva” (TV Globo, 1969), brincou com gêmeos, sósias, troca de personalidade, influenciada por Os Irmãos Karamazov de Dostoievsky. Foi assim com Lara e Diana de Irmãos Coragem, com Simone e Rosana de Selva de Pedra, com Hugo e Raul de O Semideus e, na sua última novela das oito, SÉTIMO SENTIDO, vieram as inesquecíveis Luana Camará e Priscila Caprice, que roubaram todas as atenções para si.

A novela era basicamente sobre a marroquina Luana Camará que volta ao Brasil para tentar recuperar sua fortuna, roubada pela família Rivoredo. No passado, Antônio Rivoredo passou para o seu nome os bens dos pais de Luana, quando estes foram obrigados a se exilar por problemas políticos, no período Vargas. O patrimônio da família Camará, no entanto, nunca foi devolvido pelo velho Rivoredo, que morreu devendo prestar essa conta.


A trama, tida por alguns como confusa, gerou polêmicas e a autora enfrentou graves problemas com a censura e a imprensa durante todo o período em que sua história esteve no ar, uma vez que o drama da  protagonista Luana Camará, uma paranormal tão bem interpretada por Regina Duarte, que sofria o transtorno da dupla personalidade, gerou muita controvérsia; a maior de todas: Luana Camará tinha seu corpo tomado pelo espírito da famosa atriz italiana Priscila Caprice, já falecida, que não só se recusava a ir embora, como também se casou com Tião Bento (Francisco Cuoco), arqui-inimigo da aparentemente frágil heroína.


Mestra em valorizar tramas paralelas de todas as suas novelas, desta vez, Janete Clair preferiu apostar tudo na trama principal e não fez feio. Apoiada pelo público, o Brasil inteiro se deliciou com a personagem Luana Camará que, aos vinte e sete anos, retorna ao Brasil, vinda de Casablanca, Marrocos, disposta a recuperar a fortuna de seu pai que, anos antes, havia sido roubado pela inescrupulosa família Rivoredo, os todo-poderosos de PEDRA LINDA (RJ), cenário principal da trama. Como se não bastasse sua luta em reaver tudo que sua família perdera, a pobre heroína se vê em apuros, uma vez que se apaixona pelo bonitão Rodolfo Rivoredo, o Rude (Carlos Alberto Ricelli), um dos três herdeiros do patrimônio que na realidade pertencem à Luana. 


Casado com a possessiva Helenice (Beth Goulart), Rude deixa a esposa para viver sua história de amor com Luana. [A censura não liberava as cenas de amor de Carlos Alberto com Regina Duarte se o personagem do ator não se separasse de fato].


Mesmo disposta a não desistir de sua luta em recuperar os bens que foram roubados de seu pai, Luana não obtém sucesso e se vê obrigada a voltar pro Marrocos. Algum tempo depois retorna, mas já possuída pelo espírito da falecida atriz Priscila Caprice. [A novela entra noutra fase acentuada pela nova personalidade de Luana, que se envolve com Tião Bento, o grande vilão da trama.] Numa cena inesquecível, Tião e Priscila se casam num ritual cigano.


Mas a felicidade dos dois não dura muito e uma nova reviravolta acontece na história: Luana volta a assumir seu corpo e se afasta de Tião, gerando novos conflitos. É quando surge na trama a parapsicóloga Célia (Jacqueline Lawrence), que desvenda o fenômeno vivido por Luana, usando a terapia de regressão de memória. Numa encarnação passada, Luana e Priscila, respectivamente  Luciana e Maria Pia, eram irmãs gêmeas e agora se reencontravam, 72 anos depois, para um acerto de contas, que seria a descoberta do paradeiro da pequena Cila (Isabela Bicalho), filha legítima de Priscila. E isto ocorre depois de um sonho revelador de Luana.

[Cenas do Vídeo Show / you tube]
Com o “desaparecimento” do espírito de Priscila Caprice, que acontece depois do reencontro com sua filha, Luana Camará assume de vez sua própria personalidade e passa a se relacionar novamente com Rude Rivoredo, mas Tião Bento, redimido e apaixonado pela heroína, resolve lutar pelo amor de Luana, que fica indecisa pelos dois. No final, Luana tem uma visão onde um homem é morto a tiro e acredita que se trata de Tião, que está na mira de Jorge (Otávio Augusto), funcionário desonesto das empresas comandadas pelo “marido” de Priscila Caprice. Ela então corre em socorro ao amado, gritando que o ama, mas quando se aproxima do vulto caído no chão entra em choque, pois quem está ali é Rude, que ouvira seus gritos de amor ao rival, optando por sair de cena. Rude, que ficou sabendo da armadilha preparada por Jorge, chegou ao local do encontro disposto a salvar Tião, mas foi confundido com o outro, levou o tiro em seu lugar. O personagem consegue escapar da morte.

[vídeo: Memória da TV]
Luana e Tião ficam juntos, criam a filha de Priscila e ainda se tornam pais de um bebê. Segundos antes da cena final, o espírito de Priscila Caprice aparece no jardim da casa do casal como se estivesse ali para se certificar da felicidade deles e desejar boa sorte. Com um largo sorriso, sua marca registrada, a atriz faz-se notar por Luana  e desaparece.

Mesmo perseguida pela censura Janete Clair levou sua história adiante com sucesso de audiência e muitos aplausos de todo o público. A novela foi exibida entre março e outubro de 1982. SÉTIMO SENTIDO foi a última novela das oito escrita pela novelista, que contou com a colaboração de Sílvio de Abreu em sua reta final.

Com uma média de sessenta pontos de audiência, Sétimo Sentido foi um grande sucesso, mais uma vez ratificando a autora Janete Clair como a grande dama do horário nobre da Rede Globo. Um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira. 

10 comentários:

  1. Criadora de tramas de amor como ninguém, Janete investia, de corpo e alma, no universo desses romances, com suas indas e vindas, enlaces e desenlaces, mas sem perder o foco: O AMOR! Grande Mestra!

    Lindo texto!

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  2. Sou muito curioso com relação a essa novela. Meu sonho é ver o capítulo do julgamento da Luna... O último capítulo no youtube não matou a curiosidade.

    Raul Carneiro

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  3. Novelão. Adoraria ver!

    Alexandre Altomare

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  4. Queria ver como foi o trabalho da Regina ... ela e a Janete Clair eram duplas imbatíveis!

    Willian Ribeiro

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  5. Novela maravilhosa.

    Thais Delgado

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  6. Quero muito ver. Seria mais uma da Regina pra mim, a única que falta de 80 pra cá.

    Daniel Jorge

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  7. Grande Janete Clair!! Suas novelas prendiam o telespectador do início ao fim...

    Oscar Gouldman

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  8. Janete era uma grande novelista mesmo: criativa, inovadora, envolvente e romântica, o que considero essencial nas novelas.

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  9. Meu amigo André, grande especialista em Janete Clair! Grande escritor tb!

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  10. Mestra das telenovelas: Janete Clair e a maravilhosa atriz Regina Duarte! Trabalho emocionante!

    Eduardo de Moraes

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