segunda-feira, 12 de maio de 2014

Se tem que findar

Por Isaac Santos

Embora seja o conjunto de uma obra que define ou não um primor artístico, todo autor que se preza põe sobre os primeiros e últimos capítulos de sua criação um olhar ainda mais apaixonado.
Mas considerando a pressão exercida pelo público sobre um profissional que durante meses se dedica a um processo árduo de inventividade, é fácil compreender que a maioria das apresentações e desfechos de tramas não se distancie de um padrão. Quando autores mais arrojados o fazem, precisam estar aptos a lidar com os aplausos do público, da crítica “especializada” e da empresa contratante, ou com a massacrante rejeição dos mesmos. No processo industrial de telenovelas não há espaço para meio termo: É sucesso ou fracasso.
Num aspecto prático do “parir histórias” dentro de um sistema mecânico, todos os autores estariam condicionados a finalizar suas obras convencionalmente. No entanto, alguns poucos dão ao público oportunidades únicas de experimentação.

Muitos anos antes de o personagem Félix (Mateus Solano) conquistar a grande maioria dos telespectadores de Amor à Vida, mais precisamente em 1986, o personagem Renato Villar (Tarcísio Meira), da novela Roda de Fogo (dos mestres Lauro Cesar Muniz e Marcílio Moraes), de vilão passou a ser bem querido pelo público, com direito a redenção.  Destaque para a sensível cena final do último capítulo: Renato Villar morre no colo de sua amada, Lúcia Brandão (Bruna Lombardi). Veja aqui.

Em 1986, a novela Dona Beija (adaptação dos romances “Dona Beija, a Feiticeira do Araxá” de Thomas Leonardo e “A Vida em Flor de Dona Beja” de Agripa Vasconcelos) se mostra um dos maiores sucessos da teledramaturgia da Manchete e figura entre as melhores telenovelas brasileiras. Ao final da história, os autores Wilson Aguiar e Carlos Heitor Cony colocam a sua protagonista Beija (Maitê Proença) sendo julgada por ter mandado matar o homem a quem amava. Ela é absolvida e apenas o escravo que cumpriu suas ordens é considerado culpado. Amargurada, ela deixa a cidade na tentativa de recomeçar uma vida diferente. 

versão dublada
Em 1990, a novela Barriga de Aluguel era enorme sucesso de audiência. As pessoas assistiam e se envolviam com as tramas. Daí um problema para a autora Glória Perez: Com qual das mães ficaria o bebê. Ela decide que o público não saberá. Mas o final mostra Clara (Cláudia Abreu) e Ana (Cássia Kiss) dispostas a repensar a relação de ambas em função do filho. 

Foi em 1990, na novela Meu Bem Meu Mal, que o mestre Cassiano Gabus Mendes, com a colaboração de Maria Adelaide Amaral entre outros, possibilitou ao público ver um dos desfechos mais apaixonantes da teledramaturgia brasileira. Pode soar como exagero para alguns, mas é sempre inspirador para mim, rever a cena final em que a vilã Isadora Venturini (Sílvia Pfeifer) alcança a tão almejada presidência da empresa, por um alto preço: A indiferença de todos; A solidão.


Benedito Ruy Barbosa é outro professor em envolver o telespectador. Para finalizar a bem sucedida Pantanal (1990), ele escreve um cena fascinante, com destaque para três personagens: Filó (Jussara Freire), Zé Leôncio e o velho do rio (ambos vividos por Cláudio Marzo).


Em 1994, Silvio de Abreu e Rubens Edwald Filho, autores de Éramos Seis (adaptação do romance homônimo de Maria José Dupret), poderiam ter suavizado a cena final da novela sem comprometer o destino da protagonista, que bem ratifica o título, mas optaram por fazer um desfecho harmonioso com toda a trajetória sofrida da batalhadora Lola (Irene Ravache). 


Imagens: Globo.com
 Mofo TV
Memória da TV
Fábio Menezes Oliveira

Um comentário:

  1. ainda hoje não me agrada o percurso e o final de DONA BEIJA. Acho que ela foi mesmo acusada ou suspeita e chegou a ser julgada. Penso que essa parte não é ficção. Foi absolvida. A parte de abandonar o arraial dos araxás tb foi verdade. Mas se diz que ela foi em busca de um "grande diamante" em Diamantina(?) quando na verdade ela escapuliu-se ao perceber que a juventude e o poder que esta lhe dava lhe escapavam e era altura de outros ares. Detestei a parte do arrependimento. Não encaixa.

    O final de Eramos Seis deixa uma sensação de pouco mas ao mesmo tempo de muito. Tinha de ser um final assim porque é a realidade de muita gente, é mais fiel à vida do que os finais "tudo acaba bem". Acabou, como sempre, bem, porque Lola via assim a sua realidade. Mas na segunda exibição eu percebi uma Lola com os seus defeitos e esses a afastaram dos que lhe queriam bem. Ela não resistia em dizer o que pensava sobre algo que achasse mal, ela queria que os filhos seguissem o rumo que ela imaginou e não aquele que eles sentiam ser o seu, mas lá foi cedendo. Porém nunca no aspecto de "está tudo bem", mas sim num de conformidade. Ela fazia cobranças emocionais, que são naturais mas também podem ser sufocantes e ignorarem factos. Ela mimou demais o filho rebelde e perdoou-lhe todas as vezes que ele a ela recorria como fonte de rendimentos. Nunca lhe negou um tostão e fingia que não percebia quando este lhe roubava dinheiro. Enquanto isso, os outros trabalhavam para ajudar em casa. Ela se dedicou totalmente à família mas a uma que ela criou na sua cabeça. E fez mal, porque uma pessoa deve sempre dedicar-se também a si e dar liberdade aos outros. Os filhos dela seguiram um rumo diferente, um onde tomaram as suas próprias decisões e fizeram as suas escolhas. Só se "tramaram" os rapazes. A filha vaidosa, rebelde, que ousou juntar-se a um homem separado mas não desquitado é que acabou por tomar a decisão certa e apesar de tudo, ser feliz. Os outros foram infelizes à sua maneira. Será que isso ocorreu porque a filha foi a única que recebeu sempre o amor do PAI?

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