Em 1985, em comemoração aos seus vinte anos, a Rede Globo levou ao ar a mais ousada e grandiosa produção, até então: O Tempo e o Vento, adaptação da imortal obra de Érico Veríssimo (como homenageia a própria abertura da minissérie), mais especificamente da sua primeira parte, "O Continente", publicada em 1949.
A minissérie quebrou recordes e fez grande sucesso - especialmente entre a crítica especializada - , sendo, inclusive, premiada no exterior (prêmio Coral Negro de Melhor Vídeo no Festival de Cinema e Vídeo de Havana, em 1986). No Brasil, foi reprisada três vezes em diversos horários (1986, 1991 e 1995) e lançada em DVD quando do centenário de Érico Veríssimo em 2005 (não agradando à totalidade dos fãs da obra, ante a severa edição que suprimiu por inteiro uma das histórias, "A Teiniaguá"). E em janeiro de 2012, O Tempo e o Vento foi novamente reprisada, no Canal Viva, canal de TV por assinatura, na íntegra, em seus 26 capítulos.
| DVD de O Tempo e o Vento lançado pela Globomarcas. |
O roteiro, adaptado por Doc Comparato e transformando em vistosas imagens pela direção de Paulo José, valeu-se de quatro histórias de "O Continente": "Ana Terra", "Um Certo Capitão Rodrigo", "A Teiniaguá" e "O Sobrado". O texto primou por uma narrativa diferenciada: as histórias eram apresentadas fora de ordem, desenvolvidas separadamente e interligadas por meio de flashbacks e lembranças pessoais dos personagens.
De imediato, o telespectador é apresentado à fase mais longínqua da saga de Érico Veríssimo: "O Sobrado" , que se passa em 1895, tendo como plano de fundo a Revolução Federalista. O líder político da fictícia Santa Fé, o republicano Licurgo Cambará (Armando Bógus), está cercado em seu sobrado junto com a família sob a ameaça dos opositores do regime, os maragatos, comandados pelo coronel Bento Amaral (José Lewgoy). Alheia ao conflito, a matriarca da família, a velha Bibiana (Lélia Abramo), relembra seus antepassados e fatos marcantes dos Terra Cambará, refletindo sobre a guerra, a vida e a morte, enquanto admira a centenária figueira pela da janela de seu quarto. Esta fase é pautada pelos conflitos internos da família, acuada pela opressão dos inimigos e pelo estado de penúria que ali se instaura. Destaque para as bem dirigidas cenas de batalhas entre os grupos armados, que ainda hoje se mantém interessantes.
De imediato, o telespectador é apresentado à fase mais longínqua da saga de Érico Veríssimo: "O Sobrado" , que se passa em 1895, tendo como plano de fundo a Revolução Federalista. O líder político da fictícia Santa Fé, o republicano Licurgo Cambará (Armando Bógus), está cercado em seu sobrado junto com a família sob a ameaça dos opositores do regime, os maragatos, comandados pelo coronel Bento Amaral (José Lewgoy). Alheia ao conflito, a matriarca da família, a velha Bibiana (Lélia Abramo), relembra seus antepassados e fatos marcantes dos Terra Cambará, refletindo sobre a guerra, a vida e a morte, enquanto admira a centenária figueira pela da janela de seu quarto. Esta fase é pautada pelos conflitos internos da família, acuada pela opressão dos inimigos e pelo estado de penúria que ali se instaura. Destaque para as bem dirigidas cenas de batalhas entre os grupos armados, que ainda hoje se mantém interessantes.
| Lélia Abramo emocionou com a sábia velha Bibiama, unindo as arestas de O Tempo e o Vento com suas memórias. |
Por meio das memórias da velha Bibiana, a narrativa retrocede a 1777, período em que o Brasil-Colônia ainda definia as suas fronteiras territoriais mediante violentas disputas entre portugueses colonizadores e espanhóis. Se inicia a história "Ana Terra" (Glória Pires), a avó de Bibiana, jovem introspectiva que vive com os pais e irmãos agricultores nas isoladas coxilhas gaúchas, e passa a maior parte do tempo a tecer na fiadeira. Nessa fase imperam os conflitos interpessoais sob a ótica feminina, especialmente pela personagem-título, descobrindo o amor com o índio Pedro Missioneiro e também a crueldade dos homens, retratada na pele dos inimigos castelhanos, que queimam sua casa, matam seus irmãos e seu pai e a estupram. Destaque para a direção contemplativa, privilegiando a beleza natural da bucólica região sulista, e para o texto poético e sensível, muito bem interpretado pelo núcleo, especialmente por Aldo César (o chefe da família, Maneco Terra) e por uma jovem e serena Glória Pires.
| A jovem Glória Pires como Ana Terra. |
Em seguida, com a decisão de Ana Terra de reconstruir sua vida em um novo povoado (a futura Santa Fé), a história avança no tempo, mais precisamente para 1828, ponto de partida da história "Um Certo Capitão Rodrigo". O Capitão Rodrigo Cambará (Tarcísio Meira) é um virtuoso, sedutor e alegre militar que acabou de voltar da batalha e pretende se estabelecer em Santa Fé, se chocando com os poderosos da região em razão de seus liberais costumes. Imediatamente se apaixona pela jovem Bibiana (Louise Cardoso), neta da já finada Ana Terra, disputando-a com o seu noivo Bento Amaral (aqui vivido por Breno Bonin). O militar vence e se casa com a moça, vivendo um grande amor, por vezes conflituoso, já que não abandona a vida mundana. Nesta fase, se visualiza a formação do povo gaúcho, perpassando a Revolução Farroupilha e a imigração europeia. Mostra um interessante retrato do típico homem gaúcho: libertário, decidido, virtuoso e guerreiro, muito bem representado por um inspirado Tarcísio Meira.
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| O sedutor Capitão Rodrigo (Tarcísio Meira) e sua amada Bibiana (Louise Cardoso). |
Com a morte do Capitão Rodrigo, a história migra para 1853, onde se desenrolam os acontecimentos de "A Teiniaguá". A Bibiana de meia-idade, aqui vivida por Lilian Lemmertz, já calejada pela vida, arranja o casamento do filho que teve com o Capitão Rodrigo - o demasiadamente sensível Bolívar (Daniel Dantas) - com a bela e mórbida Luzia (Carla Camurati), moça vinda da Corte que entra em conflito com a sogra em razão de suas excêntricas atitudes. O destaque fica por conta da complexa e intrigante psique de Luzia, apaixonada pelo perigo, pelo mórbido e pela morte, transformando a vida do fraco marido num suplício e enfrentando a racionalidade e a dureza da robusta Bibiana.
Com essa interessante estrutura do roteiro baseada na memória de seus personagens e a meticulosa direção de Paulo José, O Tempo e o Vento traduziu um verdadeiro espetáculo televisivo, coroado com um elenco estelar e incríveis atuações.
Armando Bógus e José Lewgoy estiveram ótimos como os políticos rivais e Tarcísio Meira, em uma sedutora atuação, exibiu um carismático Capitão Rodrigo. Carla Camurati construiu uma fascinante, mórbida e misteriosa Luzia, com classe e exuberância. Louise Cardoso esteve sensível com sua amorosa Bibiana, enquanto Lilian Lemmertz impressionou com a mesma personagem numa visão diametralmente oposta - dura, calejada pela vida atribulada e pelas sucessivas perdas, e até mesmo interesseira, materialista. Lélia Abramo brilhou como a velha Bibiana, expressando com emoção os momentos poéticos e de sabedoria da personagem, ligada à família e admiradora de seus antepassados, num apaixonante trabalho de interpretação.
Interessante, ainda, se mostrou o desenrolar da história: o Tempo e o Vento ilustrou, sobretudo, dramas pessoais mesclados aos fatos históricos, sem que estes sobrepusessem àqueles. Cada personagem vivia dado momento histórico inserido naturalmente naquele contexto de formação da cultura e da sociedade, de forma que o roteiro preocupava-se em mostrar como viviam e o que sentiam os personagens, e não em simplesmente narrar o entrecho político, como normalmente trabalhos dessa espécie se propõem. Não se tratou de uma minissérie meramente histórica, didática, mas uma obra sobre sentimentos humanos.
Armando Bógus e José Lewgoy estiveram ótimos como os políticos rivais e Tarcísio Meira, em uma sedutora atuação, exibiu um carismático Capitão Rodrigo. Carla Camurati construiu uma fascinante, mórbida e misteriosa Luzia, com classe e exuberância. Louise Cardoso esteve sensível com sua amorosa Bibiana, enquanto Lilian Lemmertz impressionou com a mesma personagem numa visão diametralmente oposta - dura, calejada pela vida atribulada e pelas sucessivas perdas, e até mesmo interesseira, materialista. Lélia Abramo brilhou como a velha Bibiana, expressando com emoção os momentos poéticos e de sabedoria da personagem, ligada à família e admiradora de seus antepassados, num apaixonante trabalho de interpretação.
Interessante, ainda, se mostrou o desenrolar da história: o Tempo e o Vento ilustrou, sobretudo, dramas pessoais mesclados aos fatos históricos, sem que estes sobrepusessem àqueles. Cada personagem vivia dado momento histórico inserido naturalmente naquele contexto de formação da cultura e da sociedade, de forma que o roteiro preocupava-se em mostrar como viviam e o que sentiam os personagens, e não em simplesmente narrar o entrecho político, como normalmente trabalhos dessa espécie se propõem. Não se tratou de uma minissérie meramente histórica, didática, mas uma obra sobre sentimentos humanos.
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| Tarcísio Meira, Louise Cardoso e Lélia Abramo. |

