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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O "Terrir" Invade a Telinha na Calada da Noite Preta


Por E. Felipe

Dando continuidade às reprises de novelas que marcaram época, o Canal Viva exibiu a cultuada Vamp, obra de Antônio Calmon que impressionou o telespectador em 1991, especialmente o público infanto-juvenil. Uma inovadora história que unia terror, romance e comédia, uma febre que gerou a chamada "vampiromania": álbuns de figurinhas, adesivos e dentaduras postiças fizeram a cabeça das crianças e adolescentes na época. Em razão da grande repercussão, Vamp ganhou uma reprise 11 meses após seu fim, na faixa dedicada às séries estrangeiras da Sessão Aventura, novamente com sucesso. E foi exportada com êxito para diveros países, entre os quais a  Venezuela, onde a protagonista Cláudia Ohana ganhou grande admiração do público e concedeu entrevista à rede de televisão responsável pela exibição de Vamp).
Natasha: a vampira do bem há séculos perseguida pelo temível líder do mal Vladmir Polanski.
Entretanto, ao deixar de lado a memória afetiva que inevitavelmente perdurou e marcou o telespectador de 20 anos atrás, analisando Vamp hoje, de forma isenta, verifica-se que a novela padeceu de sérios problemas que, por pouco, não comprometeram o resultado final. 

A trama  central de Vamp (a vampira do bem que precisa destruir as forças do mal, a fim de voltar à sua condição de humana), que podia ter rendido ótimos enlaces ao longo dos vários meses de exibição, não foi bem desenvolvida na prática. Calmon parecia priorizar tramas paralelas pouco atrativas e a personagens não tão interessantes, mesmo possuindo um ótimo filão em mãos. Os principais vértices da história, o antagonista chefe dos vampiros Vladimir Polasnki (Ney Latorraca) e a protagonista Natasha (Cláudia Ohana), gradativamente perdiam espaço para os conflitos banais de amores mal resolvidos, para a trama avulsa do bandido Jurandir (Nuno Leal Maia) que se disfarça de padre para escapar de mafiosos, para o pedante núcleo do Circo Planador liderado pelo palhaço sem-graça Simão (Evandro Mesquita) e para os pequenos dramas adolescentes dos filhos de Capitão Jonas (Reginaldo Faria) e Carmem Maura (Joana Fomm). 
O casal Jonas Rocha (o herói de Vamp) e Carmem Maura
Natasha, uma personagem de visual estilizado e de fortes nuances psicológicos - a vampira que se arrepende de vender a alma ao diabólico Vlad em troca de fama - , pouco a pouco perdia sua função, enquanto o antagonista Vlad permanecia semanas sem aparecer. Nesta etapa, Vamp tornou-se um tanto enfadonha, perdida em meio a tramas de menor calibre, cujos capítulos arrastavam-se num emaranhado de situações repetitivas, com ganchos mal elaborados e pouco atrativos. Interessantes coadjuvantes ligados aos protagonistas, como o vampiro dissidente Ivan (Paulo José) e o irônico e ambicioso vampiro Girom (o já falecido Felipe Pinheiro), que poderiam render ótimos filões por um bom período, rapidamente saíram de cena ou deixaram de ter importância, enfraquecendo ainda mais a trama vampiresca.
Ney Latorraca viveu a um dos personagens mais emblemáticos da teledramaturgia em Vamp: o vilão Vlad.
Uma série de contradições e incoerências também permearam a trama de Vamp. Os vampiros sempre demonstravam aversão a crucifixos; entretanto, em um dos capítulos, Natasha, a fim de enganar o caçador de vampiros Augusto Sérgio (Marcos Frota), manuseia sem qualquer problema uma cruz, sendo que em diversas outras vezes ela sentiu repulsa pelo mesmo objeto. O argumento de que vampiros somente adentram uma casa se convidados foi por água abaixo, haja vista a invasão da pousada pelos Matoso no final da novela, os quais nunca foram convidados após vampirizados. Os vampiros, ao contrário da tradição, sempre refletiram sua imagem no espelho, sendo que apenas no último capítulo de Vamp é que um deles deixou de refletir apenas como recurso textual para que os habitantes da pousada descobrissem que Gerald (Guilherme Leme) voltou a ser vampiro!

A mola propulsora do vampirismo somente ganhou força total próximo à reta final, quando da queda do misterioso meteoro 666 na Armação dos Anjos, repleto de energia negativa, transferindo  a Vlad amplos poderes para dominar o mundo: começa, assim, a grande guerra entre as forças do bem e do mal. A pacata cidade transforma-se num palco de batalha entre humanos, vampiros e mortos-vivos, cujos rumos são decididos em um macabro jogo de xadrez, em que os combatentes são as peças do tabuleiro. A partir daí, Vamp torna-se uma comédia rasgada de terror: efeitos especiais cada vez mais bizarros, interpretações cada vez mais caricatas e circenses, tiradas cada vez mais atrevidas, fase na qual Vlad, ainda mais cômico e afetado, avisa que “liberou geral!” Inesquecível a hilária cena em que o mestre dos vampiros conclama os mortos-vivos para a luta, fazendo uma macabra paródia do videoclipe de Thriller, hit de Michael Jackson, no cemitério.

Os efeitos visuais artesanais, toscos e ultrapassados de Vamp, bem como a direção de arte por vezes deficitária e as dentaduras de vampiro que atrapalhavam a dicção dos atores foram aliados na criação do clima intencionalmente trash da novela. Vamp foi um autêntico “terrir”, semelhante aos filmes de horror de baixo orçamento cujos efeitos e produção precária apostam na comicidade, causando risadas ao invés de sustos. Uma novela assumidamente “terrir”, sem vergonha de admitir seus defeitos técnicos e roteirísticos e até um certo desleixo na confecção de alguns dos cenários. Por diversas vezes Vlad zombava desses recursos (“Chega de efeito especial!”) e na reta final, em que a novela foi prolongada, Calmon parecia desabafar sobre isso por meio de seus personagens (“Essa novela não acaba nunca?”, “Finalmente vamos acabar com essa novela!” foram frases ditas pelos personagens referindo-se às constantes idas e vindas da guerra contra os vampiros). Sobrou inclusive para o diretor da novela, Jorge Fernando, numa participação especial: "Até o diretor?!" reclama Vlad, ao ser ameaçado pelo personagem!

Cláudia Ohana esbanjou talento, beleza e sensualidade com sua performática Natasha, marcando presença mesmo diante da fragilidade do texto e das diversas mudanças de rumo da personagem. Belíssima a sequência em que vampira roqueira dança sensualmente em Veneza ao som de “Sadeness” do projeto musical Enigma na Praça de São Marcos, em meio aos pombos e diante dos transeuntes, arrancando-lhes aplausos. Ney Latorraca interpretou magistralmente um dos melhores vilões da teledramaturgia,  o inesquecível mestre dos vampiros Vlad, indo da vilania tradicional ao surrealmente cômico: impossível não se divertir nos momentos em que humilhava seus súditos, desferindo-lhes socos e pontapés à distância.
Cláudia Ohana marcou época como a vampira roqueira Natasha.
Destaque também para Guilherme Leme, cheio de presença como o charmoso vampiro Gerald, dividido entre o bem e o mal, que viveu uma interessante história de amor com a humana Scarlett (Bel Kutner), que vira vampira em prol desse amor; para Toni Tornado e seu carismático Pai Gil; para Vera Holtz e sua ótima caçadora de vampiros Alice Pentaylor; e para a participação especial do saudoso Paulo Gracindo, impagável como o temido bandido Cachorrão, que também se rendeu à chanchada nos momentos finais de Vamp.
A trupe de vampiros do mal de Vamp, liderados por Vlad.
Quem certamente teve destaque absoluto, brilhando mesmo nos momentos mais entediantes de Vamp foi a ótima Patricia Travassos com sua deliciosamente escandalosa vampira pornográfica Mary Matoso. A peruíssima e atrapalhada vampira imprimiu uma ótima carga de humor rasgado à trama, uma verdadeira vilã-comédia que manteve as atenções voltadas para a novela mesmo em sua já comentada fase down. Hilárias suas tentativas frustradas de ser uma bruxa pós-moderna, cujos feitiços nem sempre funcionavam e acabavam virando contra a feiticeira! Divertidíssima a cena em que Mary Matoso lidera os figurantes da novela caracterizados de mortos-vivos na luta contra o bem: "Figuração, atacar!". Ademais, Patrícia Travassos demonstrou perfeita química com Otávio Augusto, o patético e caricato Matoso, o vampiro covarde de um canino só que, além de protagonizar os melhores momentos de Vamp, lhe rendeu o APCA de melhor ator de 1991. 
Patrícia Travassos deu um show como a cômica vampira do mal Mary Matoso.
Um dos maiores diferenciais de Vamp foi o constante flerte com o politicamente incorreto, repleta de situações impensáveis nas novelas de hoje em razão da patrulha da "moralidade": os seios de Cláudia Ohanna à mostra quando Natasha é salva de um afogamento; os adolescentes que passavam horas no banheiro da pousada (numa clara menção a masturbação) quando da chegada de belas figurantes para a gravação de um videoclipe; menções explícitas a satanismo e figuras demoníacas por parte dos vampiros do mal; a retratação de divindades de religiões africanas como heróis na luta contra o mal; a personagem Alice Pentaylor encantada por Pai Gil (“Que belo negão!”, ela dizia) e tachada de “inglesa sapatona” por Mary Matoso em razão do figurino masculinizado; a própria Mary Matoso, uma decadente atriz de filmes pornográficos antes de ser vampirizada; os vampiros apreciando a bebida alcóolica Bloody Mary, etc. 

Vamp mereceu ser revisitada em sua totalidade, 20 anos depois, no Canal Viva. Apesar do parco desenvolvimento da sinopse, da fragilidade do roteiro e do ritmo por vezes equivocado, Vamp é uma novela que marcou época e fez história em razão de sua ousadia e ineditismo. Uma inovadora chanchada de terror que tratou do soturno tema vampirismo de forma cômica e que ria de si mesma, assumindo com muito bom humor as suas falhas e sua estética trash.

Álbum de figurinhas da novela Vamp.

Referências:

-Memória Globo


-Blog Vamp no Viva: http://vamp2011.blogspot.com/


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