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sexta-feira, 3 de maio de 2013

ABBA no Brasil: das rádios para as novelas

Por Daniel Couri *
  
Com a inauguração do museu oficial do ABBA na próxima terça-feira, em Estocolomo, capital da Suécia, o momento é mais do que oportuno para trazer à baila o nome do quarteto que dominou as paradas de sucesso nos anos 70. Ainda que aqui no Brasil o evento não crie a expectativa que vem criando na Europa, não se pode negar que o ABBA tem conquistado mais espaço também entre os brasileiros nos últimos anos.


O crescente interesse pelo grupo só reforça seu carisma internacional. Em 2010, por exemplo, o ABBA entrou para o Rock and Roll Hall of Fame, honra concedida apenas aos gigantes da música (Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, Michael Jackson etc.). Naquele mesmo ano, Mamma Mia!, um dos musicais mais famosos do mundo – composto de canções do ABBA – ganhou uma montagem brasileira e permaneceu um ano em cartaz em São Paulo. Em 2012, finalmente o mercado editorial brasileiro resolveu traduzir um livro sobre o ABBA (O Que Há por Trás de Cada Canção, ed. Larousse), do inglês Robert Scott.

Agora em maio, além da inauguração do museu do grupo, Agnetha Fältskog (a loira do ABBA) lança também seu álbum solo A, depois de quase dez anos em silêncio. A volta de Agnetha também tem causado alvoroço entre os fãs do grupo. Benny e Björn, os homens do ABBA, compuseram We Write the Story, o tema para a edição 2013 do Eurovision Song Contest (o festival musical que catapultou o ABBA para a fama em 1974).


Ainda que o mercado brasileiro seja bem limitado no que diz respeito ao quarteto sueco, as coisas parecem mudar aos poucos. Sorte da nova geração de fãs brasileiros do ABBA, que encurta as distâncias graças à internet. Mas houve um tempo em que a música do grupo era presença constante nas rádios, programas de televisão e lojas de discos no Brasil. Sem falar nas novelas, cujas trilhas sonoras internacionais funcionavam como uma espécie de ‘suprassumo’ do que havia de melhor no hit parade mundial. Aliás, as novelas foram um dos fatores que contribuíram para a descoberta do ABBA no Brasil, na segunda metade dos anos 70.


A canção Honey Honey (que o grupo havia lançado em 1974) foi incluída na trilha sonora internacional da novela O Casarão (1976), de Lauro César Muniz. Isso chamou a atenção dos brasileiros, que começaram a querer conhecer outros trabalhos daquela banda até então misteriosa por aqui. Depois disso, outros sucessos do ABBA apareceriam em trilhas sonoras de telenovelas de sucesso.


 No ano seguinte foi a vez de The Name Of The Game integrar a trilha internacional de outro sucesso da Rede Globo: O Astro (1977-78), de Janete Clair. Nessa época o ABBA já estava entre os mais tocados nas rádios brasileiras. Mas foi em 1980 que um dos maiores hits do grupo, The Winner Takes It All, fez imenso sucesso na trilha internacional de Coração Alado, também de Janete Clair. A música foi tema dos personagens de Vera Fischer e Tarcísio Meira, nos papeis de Vivian e Juca, respectivamente. A canção rendeu bastante por aqui e originou várias versões em português.


Em 1983 o ABBA já havia se dissolvido. Seus ex-integrantes trilharam caminhos separados, mas duas canções solo das mulheres fizeram parte das trilhas sonoras internacionais de duas novelas da Globo naquele ano: I Know There’s Something Going On, do álbum solo de Frida Something’s Going On, entrou no LP internacional da novela Louco Amor, de Gilberto Braga. Wrap Your Arms Around Me, do álbum homônimo de Agnetha, foi usada na trilha de Eu Prometo, última novela de Janete Clair.


Lembranças de um tempo em que o sucesso dos temas internacionais das novelas continuava mesmo após o fim da novela. Exatamente como o sucesso dos indefectíveis hits do ABBA.



Twitter: @danielcouri

(*) Autor de Made in Suécia – O paraíso pop do ABBA (Página Nova, 2008) e Mamma Mia! (Panda Books, 2011).

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Qual o sentido da falta de sentido?

por José Vitor Rack

            Antes de a telenovela brasileira ser real e genuinamente um produto nacional, as trilhas sonoras de novelas eram músicas retiradas de filmes, quase sempre orquestradas e sem vocal. Não havia cuidado especial com o que era veiculado tampouco havia lançamento de discos, salvo raras exceções.


Aí a TV Tupi veio com BETO ROCKFELLER trazendo Beatles, Jorge Ben, Bee Gees, Erasmo Carlos... E as novelas descobriram o maravilhoso mundo da música popular. Mais ou menos na mesma época Nelson Motta começou a produzir as trilhas das novelas da TV Globo para a Philips. Em 1971 a Som Livre de João Araújo profissionalizou o negócio e criou-se uma invejável indústria que unia o maior divertimento do povo com o melhor da música.


Na década de 1970 foram criadas pérolas como as trilhas de O Bem Amado, Gabriela, Selva de Pedra, O Grito, O Primeiro Amor, O Rebu, O Bofe, compostas especialmente por gente do calibre de Roberto Carlos, Raul Seixas, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Victor Assis Brasil, etc. Era o auge da criatividade na telenovela, incluindo-se aí a sonoplastia.

Vieram as décadas seguintes e o conceito de trilha sonora exclusiva se perdeu. Ainda assim, os discos de novela traziam grandes nomes da música nacional e internacional e, em sua maior parte, refletiam o gosto musical da época com competência e algum bom gosto.

Veio a internet, a indústria fonográfica desabou, o Plano Real colocou uma televisão de 42 polegadas em cada cômodo de cada casa desse país. A transformação foi intensa e causou uma enorme e devastadora diarréia mental nas cabeças pensantes da televisão. Criou-se a máxima de que tudo que é bom deveria ser cortado para que as telenovelas atraíssem essa nova leva de consumidores. E as trilhas sonoras vieram ladeira abaixo.


O auge desse conceito novo de vender música via novela foi a bem sucedida Avenida Brasil. O oi-oi-oi tomou conta do país. Às nove da noite a luz azulada das televisões levou aos lares do país inteiro as delícias poéticas de Michel Teló, Luan Santana, Lucenzo e congêneres. Marisa Monte e Rita Lee eram constrangedoramente exceções no repertório da novela.


Na Record o conceito logo foi copiado. Em sua delirante Balacobaco, artistas como Lady Lu, Amado Batista e inúmeras duplas de sertanejo universitário fazem da trilha sonora da novela um bom substituto de qualquer laxante.

Voltando a TV Globo, Salve Jorge parecia que mudaria o panorama. Glória Perez sempre influiu positivamente na trilha sonora de suas tramas incluindo samba, Nana Caymmi e muita (verdadeira) MPB. Mas o que se vê no ar é um espetáculo dantesco.

Ao fim de um capítulo qualquer outro dia, vi uma cena muito bem escrita por ela que terminou num clímax de suspense muito bem urdido. Fechando a cena no clima tenso, vieram os créditos finais ao som de um funk de letra absolutamente debochada e de mau gosto.

Nada contra funk debochado e de mau gosto. Mas combina com a cena? A sonoplastia de cena também anda de uma pobreza atroz. A música simplesmente toca ao fundo. Clímax, corte, usar a letra da música para dar dimensão ao que a tela mostra, nada disso mais é utilizado de modo competente.

Parece que desaprenderam a fazer algo que antes era tão simples e usual. Qual o sentido de se colocar música popular que não combina com a obra? Sentido ainda é um critério para quem faz TV?

Qual o sentido de tamanha falta de sentido?

Quem souber que me conte. 

sábado, 8 de dezembro de 2012

Trilhas Sonoras embalando nossas vidas!

Por Vanessa Carvalho


É estranho quando começamos algo pela primeira vez, por mais que saibamos o que estamos fazendo, sempre há aquele frio na barriga por medo de fracassar. Nesses dias que se passaram, fiquei pensando no que escrever, pois o assunto mais corriqueiro do blog são as novelas, e confesso que ando algum tempo afastada delas; e como a que eu costumava assistir, estreou algum tempo, não gostaria de falar no lugar comum.
 
Foi quando pensei em escrever sobre trilhas sonoras e o efeito que elas têm na vida das pessoas, afinal de contas, o que seria de uma produção (Seja ela novela, série, filmes, etc.) se não fosse sua trilha sonora? É a trilha sonora que liga o espectador ao programa (Seja ele de forma positiva ou não). E as trilhas sonoras mais interessantes que eu já vi no que se trata de novelas, são as de “Lado a Lado” e “Salve Jorge”.

Ambas são recheadas por artistas consagrados da música brasileira e dificilmente se encontra uma música ruim nelas... Bem, sejamos sinceros? Tirando “Esse cara sou eu” que parece que já encheu a paciência de todo mundo!

Sempre gostei das trilhas sonoras, algumas das novelas que eu mais gostei, eu sempre lembro primeiro da sua trilha sonora. É ela que me liga a determinada cena ou personagem. Particularmente, estou fascinada com a trilha de “Lado a Lado”, delicada e sincera assim como a novela. Caso as músicas já não existissem há algum tempo, seria possível dizer que todas as músicas foram compostas especificamente para a novela.

De Nando Reis a Diogo Nogueira, a trilha passeia pelos anos que se seguiram à Proclamação da República trazendo a baila assuntos que, ainda hoje, são atuais. Salve Jorge é o tipo de trilha alegre e divertida que nos faz esquecer um pouco do tempo e relaxar com os grandes intérpretes da nossa música.

São duas trilhas sonoras que valem a pena ter para a coleção de músicas. E tenho certeza que vocês irão se divertir bastante.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Madonna x Gaga

O texto abaixo foi originalmente postado numa rede social, em formato de comentário sobre a tão criticada passagem da cantora Lady Gaga, pelo Brasil.  Não tive dúvida de que poderia ser transformado numa bela postagem aqui no blog. De autoria do amigo Robério Silva, que mais uma vez nos dá a honra. Desde já o agradeço. Divirtam-se! :D 


A foto tem sabor de vingança. Mas após assistir à entrevista dessa pobre moça - que não tem o tino comercial e empresarial da biscate mor de Detroit - no Fantástico, fiquei pensando algumas coisas. Não é necessário ficar comparando-a com Madonna. Primeiro porque a diferença de grandezas é gritante. Segundo e principalmente, porque Lady Gaga é a voz e a cara de uma outra geração, duas vezes posterior à de Madonna (lançada para o mundo em 1983, antes de Gaga nascer), 25 anos marcam a distância entre o surgimento de cada uma.


Madonna, como já disseram, é herdeira da última geração modernista (ou da transição para a coisa pós): conviveu com Warhol, namorou Basquiat, largou uma carreira segura de bailarina via mundo acadêmico, frequentou Studio 54, e com essa bagagem, além de vastas e lendárias aventuras, encarou a cena pop. Sua geração é marcada pela tragédia coletiva da Aids, por conquistas a serem completadas pelas mulheres, e aqui Madonna foi a grande voz que se lançou contra o conservadorismo e reacionarismo acachapantes que surgiram nos anos 80. Sua postura e suas canções não apenas faziam as pessoas dançarem, como faziam com que todos questionassem, ao mesmo tempo em que se divertiam, o estado de coisas. Depois, talvez tenha ido longe demais, navegando em praias que não eram a sua; mas soube recuar e dar a volta por cima, provando como poucos sua longevidade na indústria (concordo que o último disco não seja seu momento mais feliz, mas mesmo assim, ela continua no comando). 


Lady Gaga surge em 2008, pós muitas coisas. Conheço pouco a biografia da moça. Implicava, e implico, com o fato de não poder ver seu rosto tal como é - o que já devia ter sido sintomático para mim, afinal. Não gosto daquela história do "Born this way". Preciso explicar? Mas acho "Bad romance" e "Poker face" bobagens saborosíssimas. E só. Pensando nessas coisas, a partir da entrevista no Fantástico, vejo uma moça meio tonta (apesar da "fortuna"... mas é melhor não comparar, rsrsrs), preocupada em se mirar na televisão todo o tempo. Daí me veio o insight: "Lady Gaga é outra geração!". 
A geração pós top models, pós histeria da Aids, pós propaganda como leitura do mundo, pós ascensão dos neopentecostais e outros grupos conservadores, pós Giulliani na prefeitura de Nova York, pós gangsta rappers, pós tanta coisa que veio e que passou depois que Madonna surgiu para os olhos e ouvidos mundiais. A geração de Gaga é a das meninas que fazem operações plásticas aos 13 anos de idade. Dos meninos, gays ou não, que ficam com a cabeça torta (e problemas na cervical, imagino) tentando parecer Justin Bieber. De todos, crianças, adolescentes, jovens e adultos, que ficam aprisionados no mundo das imagens, da exposição da vida privada e das transformações do corpo (aqui, Madonna e Gaga se aproximam: se a outrora saudável e viçosa moça de Michigan transformou-se na encarnação da paranoia pela forma física através de ashtanga yoga, muita malhação e severas restrições alimentares, a garota de NY encarna o papel de adolescente problemática, com problemas de peso e de autoaceitação diante do espelho - daí tanta máscara? - e me parece que é justamente desse papel que Gaga não consegue se libertar, ao contrário da camaleônica Madonna, cuja maturidade e evolução nós acompanhamos em seus videoclipes, filmes e documentários ensaiados).


Gaga tem 26 anos, mas ainda se comporta como uma menina insegura de 13 anos querendo chamar atenção na escola. Muito diferente da fálica, ambígua e assertiva Madonna, que assombrou o mundo na performance de "Like a Virgin", na MTV, em 1985. Lady Gaga tem que tomar muito Neston, se não quiser ser engolida pela máquina, que ela pensa já dominar.

Robério Silva é professor universitário, Doutor em Literatura pela UFF. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

GAL COSTA E AS NOVELAS!


26 de setembro, dia de aniversário de Gal Costa, uma das artistas mais completas da Música Popular Brasileira. Convidei o amigo Robério Silva, um de seus fãs mais fervorosos, a desenvolver um texto sobre a presença marcante da cantora nas trilhas sonoras da teledramaturgia brasileira.  Ele topou, e o fez primorosamente. Obrigado pela sua participação especial, meu caro. Confiram!

Robério Silva é professor universitário, Doutor em Literatura pela UFF. 
Escrever sobre a participação de uma de nossas maiores cantoras no repertório já extenso das trilhas televisivas no Brasil é uma tarefa das mais saborosas, pois me faz voltar a momentos preciosos de nossa teledramaturgia bem como, no caso das canções mais antigas, a lembranças saborosas da infância e adolescência.
Talvez uma das vozes mais presentes nas trilhas de nossas telenovelas, Gal Costa está presente em obras históricas da teledramaturgia, chegando mesmo a participar de cenas, sobretudo de uma já antológica, em Dancin’ Days, e outras também da fatura de Gilberto Braga.
Tentei aqui reunir dois critérios na classificação e apresentação das canções que mais marcaram a obra televisiva e a carreira da cantora junto ao aspecto afetivo que sempre permeia os textos que escrevemos sobre teledramaturgia. Também segui nosso querido blogueiro e roteirista Vìtor de Oliveira  e criei um rank de melhores canções da Gal. Vamos a elas.

10 – Caminhos Cruzados (Mulheres de Areia – 2a. versão, 1993; O Profeta – 2a. versão, 2006): nessa bela canção, Gal Costa mostra seu canto límpido e disciplinado nos acordes da bossa nova de Tom Jobim, que a considerava uma de suas melhores intérpretes. A gravação se adaptava bem aos rumos amorosos das duas tramas globais, acentuando o clima romântico de ambas.

9 – Meu bem, meu mal (Brilhante – 1981; Queridos Amigos – 2008) esta parceria sexy com seu irmão artístico e principal influência nos primeiros anos de carreira, Caetano Velloso, foi um hit romântico durante quase toda a década de 80, e ajudou a compor o clima chique de Brilhante e os desencontros amorosos da minissérie Queridos Amigos.


8 – Futuros Amantes (História de Amor – 1995): curiosamente, tinha quase certeza de que esta bela canção de Chico Buarque que encontrou uma suave tradução na voz de Gal, também fazia parte da trilha de A idade da Loba, exibida pela Bandeirantes no mesmo ano em que a Globo transmitia mais uma trama envolvendo uma Helena de Manoel Carlos, a primeira encarnada por Regina Duarte e que alcançou grande sucesso. Ao som da bela interpretação de Gal Costa, acompanhávamos a luta de Helena por seu amor e pela formação final da terrível filha. Na verdade, a canção que soava na trama da Band era Lindeza, mais uma bela composição do Mano Caetano.


7 – Dez Anos (Ciranda de Pedra – 1981; Dinheiro Vivo [Tupi]- 1979) – esse bolerão romântico até a raiz encontrou uma interpretação sofisticada na voz cristalina de Gal, criando um clima todo especial para a personagem Laura, de Ciranda de Pedra. Tenho uma relação especial com esse tema por já possuir o disco “Gal Tropical” à época em que a adaptação do romance homônimo de Lygia Fagundes Telles ia ao ar no horário das seis. Deliciava-me com Gal e me assustava um pouco com a trama algo sombria da novela.

6 – Baby (Transas e Caretas – 1984 ; Ninho da Serpente – 1982 ; Anos Rebeldes – 1992): chegamos ao terreno dos clássicos de Gal, encontrando aquele que foi seu primeiro hit radiofônico e encontrou repercussão em três produções da teledramaturgia. Acredito que a versão presente na trilha de Transas e Caretas seja a de 1982, gravada em parceria com o Roupa Nova. A versão clássica compôs a trilha do grande melodrama Ninho da Serpente, exibido pela Bandeirantes, trilha, aliás, composta por grandes clássicos. No entanto, é na minissérie Anos Rebeldes que a canção ganha um status de grande tema de toda a história, sendo repetida em diversas cenas, ajudando a compor e embalar os conflitos dos jovens, revolucionários ou não. “Baby” é quase uma personagem da obra. Impossível pensar na minissérie e não nos remetermos à gravação da jovem Gal.

5 – Força Estranha (Os Gigantes – 1979): se a novela foi um fracasso – uma pena, pois lá estava uma das maiores interpretações de Dina Sfat, no papel de Paloma – o mesmo não se pode dizer desse registro de Gal Costa, uma de suas mais fortes interpretações, dessa maravilhosa letra de Caetano Velloso. Em nossa modesta opinião, nenhuma versão, nem mesmo a de Roberto, superou a de Gal. Neste caso, venceu a música.

4 – Só Louco (O Casarão – 1976): Gal Costa como abertura de novela e cantando Dorival Caymmi, eis um paradigma das trilhas de novela. Embora não tenha sido a primeira vez, a canção se colava imediatamente à novela, uma das mais líricas da história televisiva. Todo o clima romântico da obra já aparecia embalado na interpretação intimista da cantora e no arranjo sutil.


3 – Folhetim (Dancin’ Days - 1978): não bastava a canção para representar a sofrida, mas batalhadora Júlia Mattos, vivida inesquecivelmente por Sônia Braga, Gal acabou aparecendo em uma cena da novela cantando numa festa de Yolanda Pratini (Joana Fomm), que pede à irmã heroína que preste atenção à letra de Chico. Momento e gravação antológicos.


2 – Brasil (Vale Tudo – 1988): embora cantada pelo próprio compositor, Cazuza, e por outros artistas, foi na voz de Gal que o grito de impaciência da nação diante da cultura da Lei de Gèrson encontrou a mais forte transmissão. Já no primeiro capítulo, com a abertura da novela, os telespectadores sabiam o que esperar; a intensidade da interpretação de Gal não cansou o público que se viu preso às aventuras e dramas de Raquel e Maria de Fátima Aciolly  e os Roitman, nessa que, com certeza, é uma das cinco mais importantes telenovelas da história.


1 – Modinha para Gabriela (Gabriela – 1975 e 2012). Será mesmo uma coincidência escrever sobre o clássico de Caymmi, no momento em que mais uma vez a Globo adapta o romance de Jorge Amado, e mais uma vez a gravação histórica de Gal é utilizada para a abertura da novela? Talvez. Mas o que poderia traduzir e resumir melhor uma telenovela através de sua canção-tema? Pouquíssimas vezes uma canção pode estar tão ligada a uma telenovela como neste caso. Gal empresta toda a brejeirice baiana para dar vida à voz de Gabriela, interpretando quase como atriz a canção do baiano maior da música. É sintomático que se tenha recorrido à mesma gravação para o remake da clássica novela. Na minha cabeça de criança pequena, a imagem de Sônia Braga e a voz de Gal se fundiam para formar essa figura maior chamada Gabriela. Clássico dos Clássicos das trilhas e das aberturas.


Gal Costa é definitivamente uma das vozes maiores da teledramaturgia musical.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Os Ídolos e Nós: Uma Relação!


Por Guilherme Fernandes 

A Indústria Cultural produz celebridades – atores, cantores, apresentadores – que nós, público, consumimos e, por vezes, admiramos o trabalho. A relação de admiração não é tão simplista. Por eles estarem em nossa sala sempre, acreditamos que fazem parte de nossa família ou que são nossos amigos.


Ir a um evento, um show ou uma peça teatral nos faz estar cara a cara com a tal celebridade que tanto gostamos e admiramos. Muitos já passaram por essa experiência. Estar cara a cara com nosso (s) ídolo (s).

Nós, público, seres “normais”, temos nossos dias bons e ruins. Acordamos às vezes de bem com a vida e, outras tantas, mal – por tantos motivos diversos. Já os nossos ídolos têm de estar sempre com o melhor dos humores. Tem que nos tratar como um ente próximo e querido. É isso que julgamos achar que merecemos... e num é que merecemos mesmo. Afinal, somos divulgadores e consumidores do trabalho deles, em troca, pedimos apenas um sorriso, uma foto.

O que não podemos esquecer é que eles são “normais” como a gente, têm seus bons e maus dias e, nem sempre, querem aparecer sorrindo em uma fotografia, afinal, como cantam (os simpáticos) Leoni e Leo Jaime “o que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia”.
Agora, mudando um pouco o foco, o que importa em uma peça teatral ou em um show é que o tal do nosso ídolo esteja bem e que “agrade” aos pagantes com o melhor de si. Decepção de nossa parte sempre acontece. Por vezes não ficamos satisfeitos ao sair de um show ou de uma peça teatral. Criamos expectativas demais?

Todo fã de uma banda ou cantor (a) gosta de uma música, esquecida em uma faixa de CD, e que nunca será executada. Nesse sentido, me considero privilegiado, já ouvi (e vi) minha canção lado “B” sendo cantada por dois ídolos gentis. Também já me decepcionei com shows, com peças teatrais e também com a falta de simpatia – mas, garanto, o saldo é mais do que positivo.

Esse post não vai apresentar uma conclusão, ele quer ser interativo. Gostaria que cada um narrasse um momento feliz e outro de expectativa frustrada perante um ídolo. Vou começar.

Momento feliz: Já comecei a narrá-lo. Trata-se de dois shows do Leoni, um no Cine Theatro Central e outro no Cultural Bar, ambos em Juiz de Fora, Minas Gerais; e um do George Israel, também no Cultural Bar. Nessas três distintas ocasiões pude escutar a minha música preferida. “Uniformes”, a nona faixa do disco “Educação Sentimental” do Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, lançado em 1985 – um ano antes do meu nascimento.  Não me perguntem o porquê de esta ser minha música favorita. Não sei.


Momento decepcionante: O momento que vou escrever aqui é na verdade um momento híbrido. Não foi decepcionante. Meu gosto musical é amplo, gosto de tudo, rock, pop, sertanejo, funk, gospel e tudo que é música, se estou escutando e gostando. Já comentei nesse site que a Rosanah é uma das minhas cantoras preferidas em uma lista que inclui tantos nomes que vou citar alguns – Elis Regina, Maria Bethania, Paula Toller, Dulce Quental, Aline Barros, Cláudia e Silvia Telles, Maysa e Cia ltda. Enfim, ADORO a Rosanah. Ela foi, em dois distintos momentos, hiper simpática comigo, tirou foto, assinou meu CD e tal... Mas eu esperava muito mais do show dela em sua breve temporada no Teatro Café Pequeno, no Leblon. 

Rosanah tem uma voz incrível, mas abusa tanto que as músicas entonadas são impossíveis de serem ouvidas caso fosse registrado em um CD ou DVD. O show, repleto de releituras faltou músicas gravadas pela artista. Os clássicos (dela e de outros cantores) mesmo após os pedidos de participação do público, não puderam ser atendidos, graças ao ritmo peculiar que Rosanah os conduzia. No maior sucesso de Belchior, com assinatura de Elis Regina e com registro de Rosanah no disco “Ao Vivo” – Como nossos pais” – teve uma apresentação medíocre. A cantora não foi capaz de entoar um único verso de forma linear. Ela simplesmente fez “firulas” e subiu a última potência em quase todas as palavras. Não foi possível descobrir que música ela estava cantando. Sucessos dela, como “Nem um Toque” e “Custe o que Custar” também ganharam uma versão que nós, público, não sabíamos como cantar. Como fã, senti falta de algumas gravações, também me senti decepcionado. Rosanah não precisava fazer do Café Pequeno uma boate ou uma festa de formatura, bastava que ela cantasse suas músicas da forma como ela registrou nos discos. Isso seria perfeito. Um diretor musical urgente para ela.


Agora, compartilhe conosco seus momentos de interação os ídolos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Caetano e as Novelas!



Por Eduardo Vieira

Não sei se Caetano gosta de novelas, entretanto sei que “Caetanamente” falando, gosto que as músicas dele ou cantadas por ele estejam nas nossas obras. Contudo não me atrevo a  tentar situar de modo cronológico a presença desse grande compositor e intérprete no vasto mundo noveleiro.

A primeira música que sempre me vem à cabeça é a que tocava na abertura de “O Homem Proibido” que estranhamente foi substituída por uma versão instrumental. A letra sobre a submissão e visões de um mesmo amor cabia perfeitamente ao triângulo de Nelson Rodrigues, as duas mulheres aos pés da virilidade do personagem de David Cardoso.


Um pouco antes recordo de uma canção que sabia toda, mesmo sem lê-la, que falava de uma mulher, de unhas negras e íris cor de mel, tema da desbocada e destemida Cintia Levy, personagem de Sônia Braga em Espelho Mágico, que galgava o seu estrelato de modo não muito ético, desta vez a música era cantada pela voz emprestada à persona de Sônia na época, Gal Costa. Mesmo sabendo que a composição fora feita para uma das frenéticas, a imagem de Sônia é a primeira de que me recordo quando ouço os primeiros acordes de guitarra.


Aconteceu algo parecido com a música que o compositor havia feito para sua irmã Irene cujo riso era bem característico e quando no exílio ele disparava de modo infantil que queria voltar para ouvir “Sua Risada”. Na época Betty Faria que fazia uma anti mocinha em Véu de Noiva, de Janete Clair, a outra, oposto da heroína certinha de Regina Duarte, ganhou esse nome na trama e a música-tema. Não vi a novela, mas tenho certeza de que personagem e tema devem ter casado muito bem, pois a risada de Betty não nos deixa indiferentes até hoje.


Por falar em Betty Faria, não há como não lembrar de Tieta e seu teaser com a música que literalmente levantava poeira em um arranjo pop no princípio da chamada axé music, a vibrante “Meia Lua Inteira”, que se não fosse falada que era da autoria de Carlinhos Brown, poderíamos piamente acreditar que Caetano teria feito tal canção, tamanha propriedade como canta a música, tema de  locação de Santana do Agreste, cidade onde acontecia a ação da trama adaptada perfeitamente por Aguinaldo Silva da obra de Jorge Amado, cuja adaptação mais famosa, Gabriela, não tem uma canção sequer do artista baiano. Aliás, as ditas grandes trilhas não possuem uma só música de Caetano, a dizer, O Bem Amado, Gabriela, Roque Santeiro, o que Meia Lua Inteira veio cobrir, dando ao artista um sucesso, voltando às rádios na época.
Como sou apreciador de temas que se relacionem diretamente aos personagens, não posso deixar de citar em “Chega Mais” o tema de um artista musical feito otimamente por Osmar Prado, o igualmente baiano Amaro que recebe a linda “trilhos urbanos” que nos remete a uma mítica cidade da infância de Caetano, Santo Amaro da purificação, uma música-memória.


Também é difícil uma novela do grande Gilberto Braga, famoso pelas escolhas de repertório de suas histórias, não haver em suas trilhas algo de Caetano, seja na voz dele ou de outro. Foi assim que como Tom Jobim já o fizera em Brilhante, Caetano grava o tema da personagem Raquel Acciolly, tema este que transborda do personagem pra locação e vira hino nacional dentro do caminho de integridade que a personagem simboliza, no samba de Ary Barroso, “Isto Aqui o Que é?”, que nos lembra um tempo em que o país era mais puro e as pessoas mais crédulas. Dentro da mesma novela ele cria o tema de amor dos personagens Raquel e Ivan, o bolero urbano “Tá Combinado”, retratando um amor maduro e adulto, mas não menos mágico e frágil, como na letra da canção que fala do “Equilibrista em Cima do Muro”, que embalava as idas e vindas do casal por vezes tão diferente, mas que se amavam pela admiração que um nutria pelo outro.


O baiano também se aventurou em outras línguas como o italiano, e ilustrou o riquíssimo personagem de Raul Cortez, um banqueiro que redescobre o amor nos braços de uma moça linda e simples feita pela estreante na Globo,  Maria Fernanda Cândido... A canção “Luna Rossa” acompanhava o casal em seus encontros na rua, nos banhos que ela preparava para o seu amado e marca muito o personagem do inocente sedutor Francesco.


Caetano Veloso fez 70 anos e até hoje nos brinda com participações com suas composições ou apenas interpretações nas novelas, com perfumarias como a regravação de moça para “Três Irmãs”, canção de Wando, só vou gostar de quem gosta de mim, famosa versão de Rossini Pinto, para “A Lua Me Disse”.


Porém atualmente acertaram em cheio por duas vezes: na abertura de “A Vida da Gente”, estréia da autora Lícia Manzo com Maria Gadu cantando a linda “Oração ao Tempo”, dando o tom do assunto da novela, os conflitos geracionais e o próprio tempo que tudo pode resolver no caso da não muito leve trama das seis e ainda em cordel encantado, outra trilha que já é um clássico com o poema de Haroldo de Campos, que se não fosse por esse trabalho tão esmerado nunca constaria numa trilha. Falo de “Circuladô De Fulô” que era tema de locação geral! mas que me lembra por vezes o beato feito pelo bissexto ator de televisão, Matheus Nachtergaele.


Esse post é uma homenagem ao artista que mesmo bastante combatido ainda exibe a coragem do ineditismo errando  acertando  e sobretudo experimentando com sua musicalidade e  letras altamente sofisticadas que transitam do mais requintado ao mais popular. Salve Caetano e que suas escolhas sejam sempre bem encaixadas nas nossas histórias.
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