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terça-feira, 9 de abril de 2013

Esta família é muito unida, mas também inusitada

                                                                                  
Por Daniel Pilotto

A ideia parece simples, apresentar ao público o cotidiano de mais uma família brasileira num dos subúrbios distantes de uma grande cidade. Bom, seria simples se não fosse uma família um tanto quanto estranha, que trabalha e mora numa funerária, bem ao lado de um grande cemitério. Está feita a fórmula que afugenta uma grande parte do público, mas que também atrai aqueles que buscam novidades na telinha, o brincar com a vida e com a morte.

Seguindo, talvez os passos de produções estrangeiras como a série americana A SETE PALMOS, o autor Miguel Falabella criou um universo bastante peculiar que gira em torno do chamado comércio que advém da morte.
Ruço (Miguel Falabella) é o dono da F.U.I , Funerária Unidos do Irajá e vive da venda de caixões e das cerimônias funerárias, morando com sua família na parte de cima da loja.
A família por sua vez não poderia ser mais singular. Ruço tem dois filhos, Alessanderson (Daniel Torres) um garoto que se acha esperto e pensa em se tornar vereador e Odete Roitman (Luma Costa) uma jovem que ganha muito dinheiro tirando a roupa numa webcam pela internet. Eles são filhos da primeira mulher de Ruço, a divertidíssima Darlene (Marília Pêra), que acaba de sair de uma clínica de reabilitação de alcoólicos, mas vive com um copo de gim nas mãos.
Ruço também vive um relacionamento com a jovem Abigail (Lorena Comparato) trinta anos mais nova que ele.

Na funerária trabalha Juscelino (Alexandre Zachia) que é uma espécie de ajudante do Dr, Frankstein, um homem estranho e abobalhado que Darlene vive chamando de Quasímodo. Juscelino tem uma irmã, Luz Divina (Eliana Rocha), uma mulher que vive uma realidade completamente delirante. Os dois sofrem de alguma espécie de distúrbio dos nervos, pois sempre são questionados se já tomaram o remédio do dia.
Na casa ainda moram a empregada Adenóide (Sabrina Korgut), que sempre tem alguma história estranha para contar aos patrões (o que parece ser uma obsessão do autor desde a Bozena de TOMA LÁ DÁ CÁ) e a Babá (Niana Machado), uma velha senhora que vive como um vegetal encostado pelos móveis da casa.
O entorno da funerária também não podia deixar de ser mais bizarro. Ao lado da funerária fica oficina mecânica de Tamanco (Mart’nália), que tem um romance com a filha de Ruço. Lá também trabalha seu irmão Marcão (Maurício Xavier), que durante a noite vira o travesti Markassa.

Do outro lado da rua fica o trailer de lanches das Cachorras, o apelido das irmãs Giussandra (Karina Marthin) e Soninja (Karin Hils), que são irmãs gêmeas de pais diferentes, uma é branca e outra é negra.
Na rua ainda tem o implicante Floriano (Rubens de Araújo) que não se conforma com as excentricidades dos vizinhos e vive tentando expulsá-los dali.


Com estes personagens que beiram o surrealismo (um charme que nos faz, noveleiros mais antigos recordar do universo particular de um Dias Gomes em novelas com O BEM AMADO, SARAMANDAIA entre outras), o autor cria um microcosmo de pequenos dramas cômicos que retratam o dia a dia num bairro mais popular do Rio de Janeiro. Inserido dentro do contexto e da nova estética imposta pela emissora, de conquistar a chamada classe C, Falabella não só trabalhou sobre esta nova imposição como transformou o que poderia ser apenas popularesco, captando a verdadeira essência dos que vivem sem acesso, longe dos grandes centros, sem classificá-los numa classe específica. Os personagens de PÉ NA COVA são antes de tudo universais.

Aliás, Miguel Falabella talvez seja um dos poucos autores que consegue dar voz a este tipo de personagem, pois não os estigmatiza, vai ao fundo no que eles podem oferecer sem medo de ressaltar suas tintas. Eles não possuem cultura, não tem nenhum tipo de pudor, cometem erros e gafes, mas existe neles uma profundidade, um estofo raramente encontrado em produções que tentam retratar o popular e que sempre soam superficiais.
Fica nítido também que além de contar uma história, uma das maiores preocupações no texto é mostrar o quanto as pessoas estão ficando cada vez mais ignorantes (no sentido de desconhecimento). Os personagens falam verdadeiras barbaridades, não conhecem o mais elementar, confundem palavras e significados, num retrato engraçado, patético e gritante do tamanho da nossa falta de educação (no sentido de aprendizado) mais básica, elementar. Por trás de um texto aparentemente cômico são ditas muitas verdades, e esta é a função primordial da comédia.

A série apesar de ser uma comédia, não fica apenas nisto. Se o autor não estigmatiza os personagens e não os coloca em apenas um nicho, a história muito menos. É possível o episódio transitar entre o escrachado e o melancólico numa simples mudança de cenas, pois apesar do inusitado do tema aquilo tudo é muito crível.


O elenco não poderia ser mais brilhante. Dar vida a tipos tão específicos sem cair na caricatura não é um trabalho fácil, talvez por isto o autor tenha se cercado de bons atores (alguns já consagrados e outros não muito conhecidos do grande público, mas com uma carreira bem consistente no teatro).
Marília Pêra é o grande destaque e dispensa maiores comentários. A experiente atriz consegue na tv ir da milionária mais sofisticada à suburbana mais cafona num piscar de olhos. A maquiadora de cadáveres Darlene é uma personagem fascinante, e que a atriz encena sem o menor medo do ridículo. E o que poderia ser um detalhe polêmico (o fato dela ser uma ex-alcoólatra e continuar bebendo) passa quase desapercebido diante do talento da atriz. O copo na mão da personagem já é um apêndice, é como se fizesse parte de seu figurino e dá o tom politicamente incorreto tão calado na teledramaturgia atual.

A série também conta com dois nomes interessantes, Alexandre Zachia e Eliana Rocha, os irmãos Juscelino e Luz Divina. Alexandre é daqueles atores que sempre estiveram presentes nas novelas e programas da tv, mas sempre em participações curtas quase sempre como bandido. Em PÉ NA COVA ele tem a chance de mostrar ao público o quanto é talentoso, na pele de um homem estranho, quase grotesco, mas que possui tiradas filosóficas bastante interessantes.

Já Eliana, uma atriz que veio essencialmente do teatro, domina o veículo com propriedade. Sua Luz Divina é divertidíssima e patética na mesma medida.
O elenco mais novo também tem a chance de se destacar num trabalho que marcará definitivamente suas carreiras. Alguns deles como Daniel Torres, Karin Hils e Karina Marthin já trabalharam com o universo de Falabella (em novelas como AQUELE BEIJO), portanto já sabem como dizer seu texto, saber o exato momento da comédia ou de dizer a frase com mais impacto. 


A única ressalva, ao meu ver, é a participação da cantora Mart’nália como a lésbica Tamanco. A cantora parece ainda não estar totalmente segura como atriz, e isto muitas vezes transparece em suas cenas, o que poderia ser interessante acaba se tornando a parte mais fraca da história. Talvez fosse necessário se repensar esta nova fase da participação de cantores em produções dramatúrgicas, não são todos que conseguem.

Enfim, ao meu ver PÉ NA COVA tem um saldo bastante positivo. Trouxe um frescor para as comédias do canal, pois não se estabilizou no óbvio. E mesmo com o tema bizarro, que afasta alguns telespectadores mais tradicionais que acham um desrespeito pois com a morte não se brinca, a série inova nas noites de quinta feira. O negócio é curtir as caveirinhas da abertura tão típicas da festa mexicana dos mortos e encarar como eles, como festa. Para mim esta deveria ser A GRANDE FAMÍLIA da vez.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Quem te conhece que te cuide Tata Werneck


                                                                                              Por Antenor Azevedo

Nascida e criada na Barra da Tijuca, um dos bairros mais caros e luxuosos do Rio de Janeiro, filha de jornalista e editor de livros, Talita Werneck Arguelhes tinha tudo pra ser uma daquelas patricinhas bem fúteis e arrogantes que a alta roda carioca poderia ter. Mas não foi isso que aconteceu.
  
 
Desde criança Talita já sabia o que queria, expulsa várias vezes dos colégios, sempre fazendo bagunça junto aos meninos de sua turma, sua mãe Claudia Werneck foi incentivada a coloca-la no curso de teatro e assim aos nove anos, Tata entrou no curso de Sura Berditchevsky e seu primeiro trabalho profissional nos palcos foi aos onze anos.



Formada em Publicidade e Propaganda e Artes Cênicas, Tata tornou-se uma mulher bonita, inteligente e muito engraçada. Fã da comédia escrachada, ela começou sua carreira no grupo chamado Improváveis, depois Improvisáveis, depois Avacalhados onde ficou durante alguns anos e finalmente o grupo DezNecessários.  


Além dos DezNecessários, Tata tem um projeto chamado “Os Inclusos e os Sisos”, o espetáculo foi pensado para as minorias, pessoas com todos os tipos de deficiência que não tinham a oportunidade de ir ao teatro. A peça feita pelo grupo “Escola de Gente”, tem toda uma produção especial que contam com intérpretes de Libras, braile e Closed Caption. E todos os teatros tem que ser acessíveis. O grupo já tem mais de oito anos e faz um grande sucesso entre as minorias, que segundo a Tata somos todos nós. 



Talento e vocação fazem da Tata Werneck umas das atrizes comediantes mais populares do Brasil, com milhares de seguidores nas redes sociais, ela conquistou uma legião de fãs com suas personagens hilárias entre elas a Fernandona e a Roxanne.

 

Considerada a queridinha do canal MTV, ela nos faz rir com suas apresentações ao lado de outros grandes atores no programa “Comédia MTV”. E no youtube podemos conferir vídeos do “Quinta Categoria”, programa exibido entre 2010 e 2011, onde podemos ver o impecável talento para improvisação da nossa baixinha, fora outros vídeos da musa da comédia da nova geração.


 Motivos para amar a Tata Werneck
                 
                                              

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Humor!


Texto de André Comte-Sponville*

"Que ele seja uma virtude poderá surpreender. Mas é que toda a seriedade é condenável, referindo-se a nós mesmos. O humor nos preserva dela, além do prazer que sentimos com ele.

É impolido dar-se ares de importância.

Não ter humor é não ter humildade, é não ter lucidez, é não ter leveza, é ser demasiado cheio de si, é quase sempre carecer de generosidade, de doçura, de misericórdia...

Porém não exageramos a importância do humor. Um canalha pode ter humor; um herói pode não ter. Um irresponsável pode ter; um responsável pode não ter. Mas isso não prova nada contra o humor.

Humor não é sinônimo de irresponsabilidade, infantilidade, alheamento ... ou falta de bom senso, pelo contrário, no humor sempre tem que haver bom senso, caso contrário, cai no ridículo, no vulgar, na idiotice.

É uma virtude engraçada em certo sentido, pois caçoa da moral, mas é uma grande qualidade que pode faltar a um homem de bem, sem que isso atinja a estima que temos por ele, inclusive a estima moral.

O humor não impede a seriedade, ou nossos compromissos, nossas responsabilidades, até mesmo no que diz respeito à condução de nossa própria existência. Mas impede de nos iludirmos ou de ficarmos demasiado satisfeitos.


Que valeria o amor sem alegria? Que valeria a alegria sem o humor? Tudo que não é trágico é irrisório. Eis o que a lucidez ensina. E o humor acrescenta, num sorriso, que não é trágico... Verdade do humor. A situação é desesperadora, mas não é grave.

Por certo não faltam motivos para rir ou chorar. Mas qual é a melhor atitude? Riso ou lágrimas, riso e lágrimas. Nós oscilamos entre esses dois pólos, uns pendendo mais para isso, outros mais para aquilo... Melancolia ou alegria?

Mas há rir e rir, e cumpre distinguir aqui o HUMOR da IRONIA.

A ironia não é uma virtude, é uma arma - voltada quase sempre contra alguém. É o riso mau, sarcástico, destruidor, o riso da zombaria, o riso que fere, que pode matar. É o riso do ódio, é o riso do combate. Quantos não usam essa arma? Útil? Como não, quando necessário! Que arma não o é? Algumas vezes se combate a ironia com ironia. Mas nem uma arma é a paz, nenhuma ironia é humor.

A linguagem pode enganar. Os humoristas não passam deironistas, de satiristas - e por certo, são necessários. Mas os melhores misturam os dois gêneros: mais ironista quando fala da direita, mais humorista quando fala da esquerda, puro humorista quando fala de si mesmo e de nós todos.

A ironia é um riso que se leva a sério, um riso que zomba, mas não de si, é um riso que goza da cara dos outros. A ironia despreza, acusa, condena, desconfia do outro. A ironia ri do outro, o humor ri de si, ou do outro, mas si incluindo.

Não que o humorista não leve nada a sério (humor não é frivolidade), simplesmente ele recusa levar a sério a si mesmo, sua angústia. A ironia procura fazer-se valer, o humor, abolir-se.

Não há orgulho sem seriedade, o humor quebra a seriedade. É isso que é essencial ao humor, ser reflexivo, ou pelo menos englobar-se no riso que ele acarreta ou no sorriso mesmo amargo que ele suscita. É questão de estado de espírito. A mesma brincadeira pode mudar de natureza segundo a disposição de quem enuncia: o que será ironia em um, poderá ser humor no outro. Aristófanes faz ironia em As nuvens, quando zomba de Sócrates. Mas Sócrates (grande ironista) dá prova de humor quando assistindo a apresentação, ri gostosamente com os outros.


Mas o tom e o contexto podem mudar o sentido da brincadeira. Assim quando Groucho Marx declara: "Tive uma noitada excelente, mas não foi esta." Se ele diz isso à dona da casa, depois de uma noitada malograda, é ironia. Se diz ao público, no fim de um de seus espetáculos, será humor.

Podemos gracejar de tudo: sobre fracasso, guerra, morte, amor, doença...Mas é preciso que esse riso acrescente um pouco de alegria, um pouco de doçura ou de leveza à miséria do mundo, e não mais sofrimento, desprezo. Podemos rir de tudo, mas não de qualquer maneira. Uma piada de judeu nunca será humorística na boca de um anti-semita.

O riso não é tudo e não desculpa nada. Tratando-se de males que não podemos impedir ou combater, seria condenável gracejar. O humor não substitui a ação e a insensibilidade diante do sofrimento dos outros, é uma falta. Assim como é condenável levar demasiado a sério seus próprios bons sentimentos, suas próprias angústias... Lucidez começa por si mesmo. Daí o humor, que pode fazer rir de tudo contanto que ria primeiro de si mesmo.

"A única coisa que lamento, é não ser outra pessoa", diz WoodyAllen. Mas com isso, ele também o aceita. O humor é uma conduta de luto - trata-se de aceitar aquilo que nos faz sofrer - (conseguir superar seu sofrimento e ainda brincar com ele). A ironia fere, o humor cura. a ironia pode matar, o humor ajuda a viver. A ironia quer dominar, o humor liberta. A ironia é implacável, o humor é misericordioso. A ironia é humilhante, o humor é humilde.

O humor transmuta a tristeza em alegria, ele desarma a seriedade. Rir de si primeiro, mas sem ódio. Ou de tudo, mas apenas enquanto se inclui nesse tudo e se o aceita. A ironia diz não (muitas vezes fingindo dizer sim). O humor diz sim, sim apesar de tudo, sim apesar dos pesares. Duplicidade, quase sempre na ironia ( não há ironia sem simulação, sem uma parte de má-fé); quase nunca no humor.


É Pierre Desproges anunciando seu câncer: " Mais canceroso que eu, você morre! " É Woody Allen encenando suas angústias seus fracassos... É a eterna tríplice questão e sem resposta eternamente: " Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?" , respondo: " No que me diz respeito, eu sou eu, venho da minha casa e volto para ela."

Famosa fórmula de Spinoza: " Não ridicularizar, não deplorar, não amaldiçoar, mas compreender." Sim, mas e se não houver nada a compreender? Resta rir, não contra mas de, com (humor).

"Humor, triunfo do narcisismo", escreve Freud,  que o ego se afirma vitoriosamente e acaba desfrutando exatamente daquilo que o ofende e que ele supera. " Triunfo do prazer, mas que só é possível desde que se aceite, que seja para rir da realidade como é ", diz ainda Freud.

É como aquele condenado à morte que levam à forca numa segunda-feira e que exclama: " A semana está começando bem!" Há coragem no humor, grandeza, generosidade. Com ele o eu é como que libertado de si mesmo.

A ironia que sempre rebaixa, nunca é sublime, nunca é generosa. É uma manifestação de avareza. " Uma crispação da inteligência, que prefere cerrar os dentes a soltar uma só palavra de elogio", segundo Bobin. O humor ao contrário é uma manifestação de generosidade: sorrir daquilo que amamos é amá-lo melhor. A ironia ao contrário, sabe apenas odiar, criticar, desprezar, zombar.

Humor é amor, ironia é desprezo. Em todo caso, não há humor sem um mínimo de simpatia, justamente por sempre conter uma dor oculta. O humor também comporta uma simpatia de que a ironia é desprovida... Simpatia na dor, simpatia na fragilidade, na angústia, na vaidade... o humor tem a ver com o absurdo, com ononsense. Não claro que uma afirmação absurda seja sempre engraçada, só podemos rir, ao contrário, do sentindo das coisas. O humor está entre o sentido e o disparate.

O humor não é nem a seriedade (para a qual tudo faz sentido), nem a frivolidade (para a qual nada tem sentido). Mas é um meio-termo instável, ou equívoco, ou contraditório, que desvenda o que há de frívolo em toda a seriedade, e de sério em toda frivolidade. O homem de humor, diria Aristóteles, ri como se deve (nem mais nem menos), quando se deve e do que se deve.

O humor é uma desilusão alegre, desilusão tem a ver com lucidez, como alegria tem a ver com amor e com tudo.



O espírito zomba de tudo. Quando zomba do que detesta e despreza é ironia. Quando zomba do que ama ou estima é humor. O que mais amo, mais estimo facilmente? Eu mesmo. Isso diz tudo sobre a grandeza do humor e sobre sua raridade."

trecho do Programa Faça Humor Não Faça Guerra

Fotos: Google Imagens
Vídeo: You Tube
*André Comte-Sponville é um filósofo materialista francês.

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