Em
meio a tantas histórias essa podia ser mais uma contada por um artista que vive
a se reinventar, Adilson Dias já contou para o público deste blog sua historia
de superação. Detalhes de como foi ser menino de rua e virar um diretor de teatro
com a ajuda do teatrólogo Sergio Britto, o que foi conviver com as crianças
chacinadas na Igreja da candelária e montar uma polêmica paixão de Cristo na
Cidade de Deus, no Rio de Janeiro.
Hoje
Adilson Dias se revela um poeta das artes e em suas muitas facetas, a
descoberta da música. Intuitivo e autodidata, ele passou a vestir seus versos
com música e partiu para as ruas com seu violão. Dessa vez sem pés descalços,
sem canivete ou gargalho de garrafa, mas como artista que é hoje. O poeta vem
cantando e encantando nos trens da Super via e nas praças por onde passa.
Em
suas andanças o seu som acabou parando em um estúdio musical. Com a ajuda do
produtor Guilherme Gê, que percebeu o talento do ‘Poeta de Rua’ e decidiu
produzir suas canções. Gê que já produziu
grandes nomes da musica brasileira como Sergio Brito dos Titãs, Luis Melodia e
Roberto Menescal, vem investindo na descoberta de novos talentos da MBP e
Adilson Dias é um deles. Confira o bate-papo com Adilson Dias:
Como aconteceu seu encontro com o
Guilherme Gê?
Eu
assistia ao programa Dando as Letras, do canal Music Box Brasil da TV por
assinatura. Um programa apresentado por Guilherme Gê, Alan Dias e Marcos
Suzano. Decidi procurar o Guilherme no Facebook e ficamos amigos, trocamos
algumas ideias e lhe enviei o áudio de minha canção, gravado no celular mesmo.
Ainda muito receoso de receber um não, mas ele gostou do que ouviu e me chamou
para gravar. Eu dei pulos de alegria e não acreditei no que estava acontecendo.
Tomei coragem e fui.
Você me disse que nunca havia entrado num
estúdio de música profissional. Fala do processo de gravação...
Ainda
estou na gravação da primeira canção que foi feita no Estúdio Hanói, em
Botafogo (RJ). Quando eu cheguei ao estúdio foi um baque. O lugar é
maravilhoso, parece uma nave espacial. Tocar e cantar em um estúdio num
silêncio total é muito diferente de fazer isso numa rua com muita poluição
sonora. Era como se eu estivesse patinando no gelo depois de ralar muito os
meus pés e minha garganta no chão grosso.
A música em sua vida é algo recente...
Foi
no ano de 2012, quando voltei de Cuba e percebi certa musicalidade em meus
versos. Então comprei um violão em um brechó e comecei a bater tentando tocar.
Aprendi algumas notas em uma revistinha de música e hoje faço acordes que não
sei o nome. Ando pelo braço do violão como se fosse a extensão do meu próprio
braço, ouço minhas palavras vestidas com som e tenho muito prazer em fazer
isso. Não me considero um cantor, mas gosto de cantar e poder dizer o que penso
em minhas canções.
Fale sobre as canções que comporão seu
primeiro CD independente. A propósito, alguém está o financiando? Existe
mercado musical para o seu trabalho?
São canções
autorais mais politizadas e também coisas que falam de amor e outros universos.
O titulo vai ao encontro com o que vivo no cotidiano de tocar e cantar pelas
ruas da cidade, minha poesia sempre bem-vinda nas margens urbanas. Não penso em
expor meu trabalho atrelado a um Rio de Janeiro de uma mídia alienada que vende
a cidade como uma referência internacional de arte e cultura, mas que fecha as
portas para o fluxo cultural existente na mesma. Pra mim, o Rio que vivo está
aberto. Aberto para as artes do gueto em suas ruas, favelas e periferias. Quando
não há palco e nem foco de luz, tem sempre uma calçada e uma gambiarra pra eu
fazer um show.
Às
vezes penso que seria muito mais comercial se eu fosse só “uma linda história
de superação”, mas eu penso e falo o que penso. E isso não é legal para esse
sistema alienador. Um suposto ‘mercado musical’ alucinante sofrendo de amor e
agressão. Por isso, na dúvida: “Se dou na cara dela ou bato em você” eu não
pago cinquenta reais! (risos)...
Estou
estudando a possibilidade do financiamento coletivo para terminar de fazer o
CD. Quero entregar um bom trabalho ao publico que estou conquistando. Venho
estudando, buscando e me esforçando para isso. Uma qualidade sonora que vista
com sinceridade os meus versos.
Um caminho alternativo no atual cenário
de produção industrial...
O
caminho para mim é fazendo shows em espaços mais alternativos, coisa que já
faço. Procurar um selo que se interesse na comercialização do meu trabalho e
divulgar. Não dá para ralar tanto, fazer um CD e colocar na gaveta. Eu tenho
plena consciência da crise fonográfica existente em nosso país, mas o que mais
me preocupa é a crise auditiva. Às vezes parece que todos estão com o ouvido no
mesmo lugar, querendo ouvir repetidas vezes as mesmas coisas. Caindo no feitiço
dos jabás financiados pelos fazendeiros universitários que não se formam nunca.
Não me preocupo com o que está na moda, faço o que acredito e o que me faz bem.
Ter discernimento sobre o que eu ouço é o que me inspira e me faz feliz.
Você ouve...
Não
vou cair no clichê de dizer que ouço de tudo um pouco, porque estarei mentindo.
Ouço Beatles, Caetano Veloso, João Gilberto, Nina Simone, Lenine e por ai vai.
Querendo ou não, pra mim o que ouço influencia diretamente na minha
musicalidade, por isso preciso ter critérios no que estou ouvindo e também ter
um pensamento critico sobre o mundo que estou vivendo.
Margens Urbanas é o título do seu CD.
Qual é a proposta desse trabalho?
Eu
espero conseguir comunicar, tocar nas pessoas. Acho que pra fazer algum sentido.
Não quero ser genial, quero só fazer música e ser feliz.
Ele é jornalista, romancista e roteirista. Foi colaborador em novelas como Vamp, Olho no Olho, Salsa e Merengue [Globo], Caminhos do Coração, Mutantes [Record]. Prestes a lançar os livros A Última Canção de Bernardo Blues e Ipanema em Lágrimas,Waldir Leite, expert em temáticas gays, topou bater um papo. Confira!
Por Isaac Santos
Paixão pelas artes, desde quando?
Waldir Leite – Desde
sempre. Aprendi a ler sozinho, então a leitura sempre esteve presente na minha
vida. Adoro a companhia dos livros. Sempre fui rato de biblioteca. Mas também
curto música, artes plásticas, cinema e teatro. Sou mesmo do mundo das artes.
Mas qual a sua formação acadêmica,
Waldir?
Waldir Leite – Sou
jornalista e estudo Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Como se deu o início da carreira
profissional?
Waldir Leite – Com
dezesseis anos, antes mesmo de começar a estudar Comunicação Social na PUC, eu
já tinha coluna num jornal de Recife. O Diário do Comércio. Era crítico de cinema.
Depois comecei a estudar teatro. Quem me levou para a TV foi o Antônio Calmon.
No final do Armação Ilimitada ele começou a fazer um novo seriado pra Globo
chamado Shop Shop e me chamou pra participar da equipe. Mas a Globo só exibiu o
piloto e desistiu do seriado. Foi nesse programa que foram lançados o ator
Rodrigo Pena e o hoje diretor da Globo Pedro Vasconcelos.
Qual o caminho trilhado a partir disso?
Waldir Leite – Um
caminho de muito aprendizado, boas oportunidades de trabalho, algumas
frustrações e também muitas realizações.
Das realizações importantes, boa parte
foi em parceria com o Antônio Calmon. Quais as lembranças mais sensíveis dessa
fase?
Waldir Leite – Antonio
Calmon é um amigo muito querido. Com
ele, além de Shop Shop, fiz Vamp, Olho no Olho e a minissérie Sex-Appeal.
Vivemos bons momentos fazendo esses trabalhos. Aprendi muito trabalhando com
ele. Ele me indicava livros e filmes. E gostava de ouvir minha opinião sobre
tudo, pois me achava inteligente e talentoso. Sou muito grato a ele.
Trajetória bem sucedida, em andamento.
Onde se encaixam frustrações?
Waldir Leite –As
frustrações fazem parte da vida. Procuro conviver bem com elas. Na TV a maior
frustração foi a decisão da Globo de não produzir a novela “Escândalo”, do
Miguel Falabella. Eu cheguei a ser contratado pela emissora, para fazer parte
da equipe do Miguel. Seria a primeira novela-solo dele. Mas forças ocultas, de
dentro da própria Globo, boicotaram o projeto, alegando que ele não ia
conseguir fazer a novela sem a Maria Carmem Barbosa.
Como você percebe o atual cenário da teledramaturgia
brasileira?
Waldir Leite – Não
acho que estamos na melhor fase da teledramaturgia. Pelo contrário. O estilo de
novelas produzidas pela Globo anda muito padronizado. A falta de concorrência
deixa a emissora sem um ponto de referencia. Além disso, tem muita gente sem
talento escrevendo para a TV.
"Falta de concorrência"!?
Waldir Leite – A
Globo domina o mercado de teledramaturgia. O que existe nas outras emissoras
são apenas tentativas.
Essa "gente sem talento" tem
espaço na Globo?
Waldir Leite – Sim!
Você está prestes a lançar dois livros: “A
Última Canção de Bernardo Blues” e “Ipanema em Lágrimas”. Fale-nos sobre.
Waldir Leite – "Bernardo
Blues" é um romance policial ambientado nos bastidores da vida mundana da
zona sul do Rio. Ao mesmo tempo é a história de um rapaz que sai do interior e
fica encantado com a vida na cidade grande. "Ipanema em Lágrimas" é
um livro sobre a ditadura militar no Brasil.
Ficção com doses de realidade...
Waldir Leite – A
vida real é sempre uma grande fonte de inspiração. Tudo o que acontece à minha
volta, tudo o que eu vejo, tudo o que eu sinto, está presente na minha
literatura. Em ambos os livros existem relações com fatos reais. Mas eu pego
esses fatos e os transformo em literatura pura e simples.
Quando e onde serão lançados?
Waldir Leite – Serão
lançados nesta quinta-feira, às 19 horas, na Livraria da Travessa, em Ipanema, Rio
de Janeiro.
Previsão de lançamento em outras
cidades?
Waldir Leite – São
Paulo, Curitiba e Recife, por enquanto.
Focado ou já pensando em projetos
outros?
Waldir Leite – Estou
trabalhando num outro livro. Uma história picante ambientada nos bastidores do
MMA. O livro se chama "Ring Girl - A Garota do Ringue".
Também com temática gay?
Waldir Leite – Não.
Esse livro é sobre o universo dos lutadores e as Marias-tatames. A temática gay
já me cansou um pouco. É um livro de temática essencialmente heterossexual.
Ele é formado em Arte e mídia pela UFCG (Universidade Federal da Paraíba), trabalha no audiovisual desde 2009 e participou da feitura de vários curtas locais, seja como assistente de direção ou diretor de fotografia. E, mais especificamente, no campo dos roteiros, foi co-roteirista de "Ato institucional" e "O desejo do morto". Recentemente se inscreveu no concurso NETlabTV, e está entre os vencedores do mesmo. O convidei prum bate-papo, ele topou e desde já agradeço pela solicitude. Confira!
Por Isaac Abda
O
que faz o Jhésus?
Jhésus
Tribuzi Lula – Eu trabalho com cinema e fotografia,
basicamente. O primeiro é prioridade e o segundo ajuda a pagar umas contas. Claro
que esse negócio de "trabalhar com cinema" é complicado. Eu sou de Campina
Grande, trabalho aqui. É uma situação completamente diferente de quem trabalha
com isso em Pernambuco ou em São Paulo, por exemplo. Com cinema eu trabalho
mais como diretor de fotografia, quer dizer, passei um tempinho fazendo isso e
só de um ano e meio pra cá que comecei a levar a questão do roteiro mais a
sério. Se eu pudesse escolher, ficaria só com roteiro, mas, por enquanto, a
realidade daqui não permite esse luxo não.
A
paixão por Cinema/roteiros é desde sempre?
Jhésus
Tribuzi Lula – Ah, sempre. É um troço meio masoquista. Minha
mãe vivia me levando pro cinema, então peguei o hábito. Depois você começa a se
interessar mais e quer ver mais filmes, pesquisar, estudar, então o caminho foi
mais ou menos esse: ver filmes e querer trabalhar na área. Passei por cineclube
também, então posso dizer que tive experiência como espectador, "exibidor"
e "produtor".
Tua
família dá apoio, acredita em teu potencial sem precisar de realizações que
comprovem?
Jhésus
Tribuzi Lula – No começo foi estranho. Todo mundo da minha
família é engenheiro, praticamente. Gente prática, exata (com o perdão do
trocadilho). Meu avô trabalhou num banco, então eu era o doido da família, né?
Claro que deram apoio, mas demoraram pra entender o que eu fazia exatamente. Como
eu te disse, a realidade daqui não é a realidade de São Paulo. E, mesmo que
fosse, não é a mesma realidade de Los Angeles, então o povo daqui era meio 8 ou
80, ou achava que eu ia pedir esmola no sinal ou achava que ia ganhar um Oscar
(risos).
Mas
em algum momento você teve dúvida de estar realmente no caminho certo?
Jhésus
Tribuzi Lula – Sim, sim, várias vezes. Tem um peso de mais
de 100 anos de cinema nas minhas costas (risos) e vários outros séculos de
literatura, narrativa e, cá entre nós, a experiência de fazer um filme é horrível.
Só é bonito quando você assiste making of que tá todo mundo rindo e feliz, mas
é um labor, de fato. Não estou dizendo que é a pior coisa do mundo, mas envolve
muito mais trabalho do que as pessoas acham. Fazer cinema é meio que aprender a
lidar com contenção de desastres. Você se planeja para que as coisas deem o
menos errado possível, e acho que no começo isso foi horrível pra mim. Ter de
lidar com a frustração e, pior, com ego de tudo quanto é tipo de gente. Passei
um tempo afastado disso, pra falar a verdade. Antigamente eu terminava um
projeto dizendo que nunca mais ia fazer nada. Depois passou e, eu não tenho
muitas opções. É o que eu gosto de fazer, o que me interessa, me anima (no
sentindo que o Barthes usa e tal), ou seja, às vezes é uma merda, mas é o que eu
gosto, então é aguentar e seguir.
Você
soma mais frustrações que vitórias?
Jhésus
Tribuzi Lula – Não. Veja só, eu comecei em 2009. Não é
muito tempo, mas dá pra ver a diferença. Eu e meus amigos começamos como um
"bando de doido", e hoje a gente conseguiu se entender e se estabelecer
de uma forma que já dá pra pensar em abrir uma produtora e de ter projetos em
vista. Os curtas deram certo, em sua maioria, não só porque foram finalizados, mas
porque foram vistos, passaram em festivais e, principalmente, porque deram
experiência pra todo mundo. Então, tá sempre melhorando. E quando dá merda, a
gente se arrepende, mas a experiência fica.
Fale
mais dessa trajetória...
Jhésus
Tribuzi Lula – Então, eu cursei arte e mídia, na UFCG. Não é
um curso de cinema, mas acabou formando muita gente que trabalha com isso, e
foi lá que tive meus primeiros contatos com historia da arte, estética, análise
visual, fotografia, direção e os primeiros contatos com a desgraça que é
trabalhar em equipe (risos) ou lidar com gente no final do curso. Meu tcc foi
sobre adaptação cinematográfica de obras da literatura fantástica e acabei
dirigindo um filme, e deu tudo tão errado que quase desisti. Felizmente, esse
filme se perdeu nas memórias do tempo. Meu primeiro contato com um negócio mais
profissional foi com um filme de Helton Paulino chamado "Terra Erma".
Fui assistente de direção dele, que é amigo do coração, parceiro e deve ter
sido por isso que o ajudei, porque assistência de direção consiste,
basicamente, em levar grito e sofrer (mais risos). Daí ajudei outros amigos em
curtas também. Tudo sem muita grana, ou com o suficiente pra pagar diária de
equipamento e olhe lá. Aprendendo, né? Já que uma coisa é você fazer trabalho
de faculdade e outra é ir prum set de verdade, com diária, tempo, enfim, como
eu tinha comprado uma filmadora pra mim, acabei ajudando o povo mais ainda, ou a
alugando ou indo ser assistente, fotógrafo. Na época a filmadora era top, então
todo mundo se interessava. Acho que tive a sorte de pertencer a uma geração de
amigos/parceiros que queria fazer as coisas e pronto, na teimosia, então todo
mundo se ajudou. Com o tempo, entrei como assistente de fotografia num longa: "Tudo
o que Deus criou", de André da Costa Pinto, e aí foi aquele choque. Já que
era, de certa forma, o maior set que já tinha pisado, eu só sabia do básico, e tinha
muita gente experiente na equipe técnica.
Você
acha que se estivesse no eixo Rio/Sampa haveria um caminho mais curto?
Jhésus
Tribuzi Lula – Acho que seria mais difícil, tenho quase
certeza disso, não por preconceito nem nada. Mas veja só: Campina Grande tem
uns 400 mil habitantes, compare isso com São Paulo. O tanto de gente que tem lá
querendo fazer cinema é infinitamente maior que aqui, então o mercado é mais complicado
e opera de outra forma. Claro que teria a facilidade de ter um contato com as
produtoras, com profissionais estabelecidos e tal. Aqui foi um esquema de
bandeirante, de desbravar, levar porrada.
Se
sente preparado pro mercado?
Jhésus
Tribuzi Lula – Cara, posso dizer que me sinto mais preparado
hoje em dia que em 2011, por exemplo. Como te disse, a experiência é
cumulativa. Depois que ajudei meus amigos com "O hóspede" (Ramon
Porto Mota) e "Mais Denso que Sangue" (Lan Abé), as coisas começaram
a andar, de fato.
[trecho do curta Mais Denso que Sangue]
O
teu estilo é alternativo, foge do comercial?
Jhésus
Tribuzi Lula – Vou adaptar uma frase do Zappa “pra mim só
existem dois tipos de filmes: filmes bons e filmes ruins”. Comecei indo
assistir Batman no cinema. Com a cinefilia você conhece Bergman, Buñuel, os
japoneses malucos, o Cassavetes e depois volta pro que você gostava antigamente,
ou redescobre cineastas, filmes. Então, pra mim, um John Carpenter, um James Wan
(que fez o "Invocação do Mal") tem o mesmo valor de um Tarkovski, e
eu gosto muito de filme de gênero... Quanto mais você assiste ou estuda essas
coisas, mais você descobre o mundo de possibilidades que elas te dão, e como um
filme "comercial" pode ser mais aloprado que muita coisa "artística"
(odeio esse termo) que soltam por aí. Claro que se você quiser saber dos
cineastas que me animam, a lista vai passar por Tarkovski, Tsukamoto e um monte
de gente que nunca passou no cinema daqui. Mas, óbvio que tenho posições
~políticas~ em relação ao cinema. Esses filmes com um bilhão de cortes, por
exemplo, e essa tendência de querer explicar tudo são um saco. Cinema é mais que
um personagem coadjuvante pegando a mão do espectador e dizendo o que ele tem
de ver.
"Nostalgia" [de Andrei Tarkovski]
Você
é "concurseiro" nato?
Jhésus
Tribuzi Lula – Sou não. Eu e meus amigos (Ian, Ramon, Fabiano)
temos que nos virar com editais. Dependemos disso pra tentar botar alguns
projetos pra frente. Mas sou péssimo com planilhas, justificativas: Como explicar
a contrapartida social de um filme com gente morrendo, sendo despedaçada? (risos)
Como
chegou ao NetLab?
Jhésus
Tribuzi Lula – Acho que foi o Ramon, um amigo, quem me disse. Provavelmente
as palavras dele foram "vamo fazer isso ai!" (risos). Botou pilha e
tudo mais.
Você
é difícil de se animar prum novo projeto?
Jhésus
Tribuzi Lula – Não, não. Sou difícil de achar que a ideia
serve pra algo, na verdade. Normalmente acabo achando a ideia legal, mas que
não vai dar certo, que é tosca, estranha. Preciso de alguém de fora me dando os
toques.
Fala
então do Voragem...
Jhésus
Tribuzi Lula – Então, Voragem foi culpa de Ramon e Fabiano, meus amigos.
Eu tinha essa ideia de um longa, um policial, que envolvesse gente
desaparecendo, o diabo, e duas famílias brigando politicamente. Era um negócio
meio "O homem de palha" com "memórias de um assassino", mas
aí deixei a ideia de lado, porque né... Vai saber quando iria ter dinheiro pra
isso? Enfim, Ramon sabia dessa ideia e quando o Netlab apareceu ele comentou e
disse que rolava transformar em série e que seria melhor que fazer um longa. Foi
o que bastou pra chamar Fabiano e a gente se juntar pra escrever tudo. Várias
semanas se reunindo, pensando no argumento, nas possibilidades e tal. Óbvio que
a ideia foi crescendo, e a gente nunca tinha feito nada de série. Lembro que o
conceito de "logline" era alienígena pra gente.
Jhésus
Tribuzi Lula – Então, vou pra São Paulo agora pra ter
reunião, participar dos laboratórios e ter contato com os canais interessados.
Creio que a ideia é fazer mais tratamentos do roteiro e discutir sobre o
potencial do negócio todo. Daí pra frente estou no insondável (risos)
O
desenvolvimento do projeto é de vocês?
Jhésus
Tribuzi Lula – Olha, isso a gente só sabe lá. A gente quer
desenvolver e acredito que as pessoas querem que a gente desenvolva sim, mas
como vai ser isso, como vai se dar o processo todo, eu não sei ainda. Tem de
discutir detalhes de produção, ver quem tá interessado (e o quão interessados
estão), essas coisas. É um pouco nebuloso pra mim, pois nunca fiz série, nunca
participei desse processo então não sei como vão ser os contatos, não posso dizer
que vou chegar lá e um cara vai dizer "olá, menino, por acaso você vai querer 4 milhões de reais para fazer essa
série?" Até porque nem em sonho isso aconteceria (risos).
A
teledramaturgia ainda é um bom caminho pros roteiristas. Dá visibilidade, boa
grana, contratos estáveis... Estaria aberto pra esse mercado?
Jhésus
Tribuzi Lula – Como eu te disse, estou bem longe do eixo Rio/Sampa
pra saber como as coisas estão por lá, como estão os roteiristas e tal. Mas lembro
de ter lido umas matérias que confirmaram isso que tu falou, sobre contratos
estáveis, sobre as emissoras de canal aberto respeitarem o roteirista, darem
uma rede de segurança. Ao mesmo tempo, li que as TVs fechadas também estão
interessadas em dar essa rede de segurança. Não sei se tá funcionando bem. Porém,
como roteirista, adoraria trabalhar num local que me desse segurança pra criar,
sendo TV fechada ou não. Claro que sempre haverá problemas, adequação de ideias
a um determinado orçamento, mas isso são ossos do ofício, né? Agora se tu quer
saber se eu daria um bom roteirista de novela... Acho que não. Os caras têm uma
disciplina incrível (risos). E é um negócio tão grande, tão cheio de arestas
pra serem aparadas, que, bom, não saberia nem por onde começar. De qualquer
forma, penso que tanto o mercado de TV fechada quanto o de TV aberta tá se
preocupando em melhorar a qualidade dos produtos, em sair da zona de conforto.
Acho isso massa, empolgante.
Das
séries americanas que têm feito a cabeça do público, qual te instiga mais e a
que você passa longe?
Jhésus Tribuzi Lula – The Wire. Corro o risco de queimar a
língua, mas The Wire deve ser a grande produção audiovisual dos anos 2000. Se
eu tivesse que escolher três séries, ficaria com The Wire, Deadwood e Breaking Bad.
As duas primeiras, partem do gênero pra discutir algo maior (Baltimore, os EUA)
e Breaking Bad deveria fazer parte das aulas de criação de personagem e de como
ser fiel ao personagem, e deve ser uma das poucas séries que só melhoraram. De
qualquer forma, The Wire está no meu coração e acho que todos os seres humanos
deveriam assistir e repassar para outros seres humanos. Das que passo longe: Comecei
a assistir American Horror Story, mas desisti ao fim da primeira temporada. Não
sei se resolveram isso, mas fiquei com a sensação de que eles metem muita ideia
e não conseguem desenvolver direito ou fecham o arco só pra fechar mesmo e acho
isso meio ruim... Olha o tanto de coisa que eles tinham pra usar na primeira
temporada e muita coisa foi deixada de lado, ou diluída. Fiquei com a sensação
de que o Ryan Murphy estava mais interessado em "chocar" que em fazer
um negócio de horror mesmo. Sem contar os setecentos planos por segundo e falta
de tato pra construir uma cena de horror com ritmo menos acelerado. Dexter eu
desisti depois da terceira temporada. Me disseram que a quarta é muito boa, mas
acho que enjoei do personagem. Parece que ficam com medo de fazer um assassino
se comportar como assassino e acabam querendo justificar tudo:
"código", "só mato gente ruim". Ah, faz um "Henry - Portrait
of a Serial Killer". E vejo “Sons of Anarchy” por masoquismo. Eu gosto dos
personagens, da forma como eles se relacionam (ou se relacionavam), mas estão
enrolando, né? E o Kurt Sutter mandou muito bem em The Shield, mas parece que perdeu
um pouco a mão nessas ultimas temporadas.
trecho de The Wire
Aflore
seu lado cinéfilo: Cite um filme que de tão bom você gostaria de ter
roteirizado...
Jhésus
Tribuzi Lula – Só um? Stalker do Tarkovsky, Mother do Bong Joon Ho, e tem Chinatown.
É
meio lugar comum falar do roteiro de Chinatown, mas não tem como não citá-lo. Gosto
de Miami Vice do Michael Mann tambémporque é um policial onde
ninguém perde tempo explicando as coisas bonitinhas. O espectador que se vire
pra pegar as coisas.
trailer de Chinatown
E
dos nossos?
Jhésus
Tribuzi Lula – As pessoas falam das nouvelles vagues francesa,
japonesa, falam dos filmes que estavam à margem disso tudo aí, mas acho que tem
coisa do cinema brasileiro que é tão ou mais ousado que muito trabalho vindo de
fora. Claro que um Shuji Terayama da vida sempre vai ser referência, um Oshima,
um Kiju Yoshida. Mas, você pega um filme do Sganzerla, do Bressane, é muita “alopração”,
é muita inventividade, e não precisa ficar só nesses exemplos... Você assiste
um "Rainha Diaba" (do Plínio Marcos) ou um "Eu Matei Lúcio Flávio" (do Antônio
Calmon), que são filmes de gênero e são muito divertidos. Tem o Jece Valadão
dando tiro ao som de música disco. Isso é lindo. As pessoas têm um preconceito
com o cinema brasileiro, como se ele só trabalhasse dentro de certos extremos
(putaria, cabeçudo), mas não é assim. Sempre vai ter um cara mais interessado
nessas coisas, mas faz parte. Então você tem gente como o Fauzi Mansur, como o Walter
Hugo Khouri, que deveriam ser revisitados. Tem o Mojica, que dá um pau em muito
cineasta de horror de hoje em dia, enfim, acho que tem muita coisa boa a ser
vista e revista.
"A Rainha Diaba" [de Plínio Marcos]
Cinema
nacional, hoje em dia, nem pensar...
Jhésus
Tribuzi Lula – Tem coisa boa sim, mas tá no circuito de
festival, né? Ou então é sumariamente ignorado. Não sei por quais motivos Reichenbach
fez o "Falsa Loura" em 2007. Acho filmão, mas ignorado.
trailer de Falsa Loura
Com
quem você almeja trabalhar?
Jhésus
Tribuzi Lula – Dos roteiristas, cineastas já colocados no
mercado, eu queria trabalhar com o Mojica, fazer umas parcerias com o Dennison Ramalho,
Rodrigo Aragão. Adoraria escrever um roteiro pro Rodrigo Aragão, e pro Petter
Baiestorf também. Ah! Não posso deixar de citar a Rosanne Mulholland, que está
no meu coração, por motivos que não posso explicitar, mas que são sinceros
(risos).
Preparado
pra lidar com a censura?
Jhésus
Tribuzi Lula – Não sei. Tem coisas que você tem de lutar e
acaba abrindo mão. Mas tem outras que fazem parte do projeto, que não dá pra
abrir mão. É como eu te disse: se eu fosse escrever sobre um assassino, eu
preferia que ele fosse mais um "Henry" da vida que um assassino
bonzinho e simpático, charmoso. De qualquer forma, não sei como isso vai
funcionar, falando especificamente de voragem. Não sei até onde vai ter muita
censura, não sei o que não vão querer mostrar, caso queiram produzir.
Esse
é o teu melhor momento?
Jhésus
Tribuzi Lula – Sim. Não só meu, mas dos meninos também. Tem
muita ideia surgindo, o filme mais novo de Ramon tá passando em festivais, o
Ian Abé tá terminando mais um, Fabiano tá com umas ideias, e além desse roteiro
há outros sendo preparados. Então posso dizer que, sim, é o meu melhor momento.
Que
os teus planos não sejam frustrados. Desejo mais e mais sucesso na carreira!
Prestes a completar 25 anos, Raphael Scire, formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, dramaturgo, roteirista, é um dos escritores mais prestigiados nas últimas
semanas. Ele acaba de lançar o livro “Crimes no Horário Nobre – Um Passeio pela
Obra de Silvio de Abreu”. Competente, talentoso, mostra-se mesurado ao falar da
carreira. Eu o convidei para uma entrevista, ele gentilmente aceitou. Desde já
o agradeço. Confiram!
Jornalista jovem, iniciando a carreira
de modo tão bem sucedido. Você teve que fazer abdicações?
Raphael Scire – Não,
de modo algum. Acho que a única abdicação que eu fiz foi ter deixado de lado o
jornalismo propriamente dito, aquele de redação, de escrever reportagens
factuais. Mas isso foi uma escolha deliberada, um direcionamento de carreira.
Não considerando o seu recente trabalho
sobre o autor Silvo de Abreu. Contente com a profissão escolhida?
Raphael Scire – Sim,
apesar de não exercer o jornalismo. Eu trabalho com produção audiovisual, para
cinema e televisão, na criação e formatação de projetos, algo já bem direcionado
para o futuro da minha carreira de roteirista.
Jornalista com pretensões na área de
dramaturgia ou já desenvolvendo atividades nesse sentido?
Raphael Scire – Além
do que eu respondi na pergunta anterior, eu também escrevo dramaturgia. Tenho
uma peça que foi selecionada pelo concurso ‘Dramaturgias Urgentes’, do CCBB, no
ano passado, chamada “Sucesso com C”, sobre a nova classe média brasileira.
Também tenho algumas histórias iniciadas, mas nada ainda foi produzido. Vontade
não me falta.
“Crimes no Horário Nobre – Um Passeio
pela Obra de Silvio de Abreu” não é necessariamente um registro biográfico. Sua
intenção era desde o princípio destacar a obra do novelista ou optou-se por um
distanciamento do que já havia sido publicado sobre a vida dele?
Raphael Scire – Sim,
desde o início eu quis abordar a obra do Silvio, que tem uma vida interessante
justamente pelo profissional que é. É claro que abordo questões privadas dele,
como o casamento, o nascimento da única filha e o falecimento do irmão, mas são
questões que estão inseridas dentro do contexto da obra dele. Eu brinco que o
livro não é uma revista de fofocas. E também o Silvio já tinha uma biografia
publicada, escrita pelo jornalista Vilmar Ledesma, e que me serviu de base para
esse livro. Eu considero “Crimes no horário nobre” uma ‘biografia memorialista
sobre a obra do autor’.
Como se deu o processo de elaboração,
desenvolvimento, lançamento do livro?
Raphael Scire – O
livro, na verdade, foi minha tese de conclusão do curso de jornalismo, da
Faculdade Cásper Líbero. Durante o último ano da faculdade, eu fui atrás dos
atores, diretores, autores, além do próprio Silvio. A primeira parte foi a
seleção de material já publicado sobre ele. O que foi bastante complicado,
porque novela no Brasil é muito comentada, mas pouco documentada. Depois, segui
para as entrevistas. Aí veio a parte mais legal, que foi escrever, selecionar
os trechos das entrevistas, costurar tudo. Foi uma delícia. Depois que a tese
estava escrita, enviei um exemplar para o Silvio, que adorou. Ele me
disponibilizou o arquivo pessoal para que eu pudesse complementar minha
pesquisa. Foi então que eu conheci o Alex Giostri, da Giostri Editora, que tem
um olhar muito voltado para a preservação da dramaturgia brasileira, publicando
grandes nomes do nosso teatro, como Maria Adelaide Amaral, Alcides Nogueira,
Lauro Cesar Muniz, além de autores mais novos, como Célia Forte e Mario Viana.
Ele leu, gostou e decidiu publicar. ‘Crimes’ é o primeiro livro voltado para a
preservação da memória da teledramaturgia brasileira publicado pela Giostri.
Da fase de realização de entrevistas que
serviram de base para a escrita do livro, houve alguém que decepcionasse por
evidenciar uma postura destoante?
Raphael Scire – Não,
de modo algum. Todos foram receptivos e solícitos. O mais complicado foi a
produção para conciliar com a agenda de alguns entrevistados, mas nada que me
tirasse o sono.
Certamente está sendo vendido em todas
as livrarias do país. Mas onde adquiri-lo virtualmente?
Raphael Scire – Em
qualquer rede de livrarias esse serviço é possível. É comprar e receber em
casa!
Identificação com o biografado é
critério imprescindível para o sucesso de uma obra como a sua?
Raphael Scire – Sem
dúvidas. Se eu não apreciasse o trabalho do Silvio seria incapaz de escrever
sobre ele. Não existe nada pior do que escrever sobre algo de que não gostamos.
Sabendo de sua admiração pela Malu
Mader, imagino que o nome da atriz possa despertar seu interesse num projeto
futuro. É exeqüível?
Raphael Scire – Exequível
é, mas depende dela também. Na verdade, nunca cogitei essa possibilidade, para
falar a verdade. Malu é uma atriz com múltiplos talentos, além de uma reservada
vida privada. Acredito que, se eu um dia vier a escrever sobre ela, será algo
no estilo que fiz com o Silvio, sobre a carreira, não sobre a vida.
Tititi, versão de Maria Adelaide Amaral
[ela também está entre os seus prediletos] e Vincent Villari, é um dos recentes
sucessos da Rede Globo. A dupla está mais uma vez no ar no horário das sete.
Quais as suas impressões sobre Sangue Bom?
Raphael Scire – Sou
muito grato aos dois. Vincent escreveu a orelha do livro, além de ter
participado da banca da minha tese, sem nem ao menos me conhecer pessoalmente.
Quanto a “Sangue Bom”, eu gosto da novela, me identifico com a linguagem ácida
que eles criticam a indústria midiática. Adoro a personagem da Marisa Orth, pra
mim uma prima da tresloucada Jaqueline (Claudia Raia) de “Tititi”. Também está
sendo uma ótima surpresa o trabalho do Joaquim Lopes, o Lucindo, um tipo que eu
constantemente vejo nas ruas aqui em São Paulo. Isabelle Drummond tem um
presente em mãos, Giane está sendo um processo de amadurecimento na carreira
dessa atriz que em breve veremos protagonista no horário nobre. Fora que não é
sempre que vemos Malu Mader na telinha e a transformação pela qual a personagem
atualmente passa está sendo deliciosa de acompanhar.
De modo mais abrangente, qual a sua
observação sobre o cenário da teledramaturgia atual?
Raphael Scire – Acho
que o espaço dado a novos autores é muito bom. Essa renovação é necessária e o
próprio Silvio faz um trabalho interessante ao revelar novos talentos. Gilberto
Braga é outro que faz. O João Ximenes Braga, que escreveu ‘Lado a Lado’ logo
logo assinará uma novela das nove junto com Gilberto e Ricardo Linhares. Estou
ansioso para ver o Lombardi na Record. E essa retomada do SBT em investir em
novela, ainda que com temáticas infantis, é muito boa para o mercado.
Uma enquete pertinente foi lançada pelo
Canal Viva. O público tomou conhecimento do resultado há algumas horas, mas
aproveito para “reproduzi-la” aqui e obter um pouco mais de sua opinião. Eis a
pergunta: Água Viva, O Dono do Mundo, Fera Ferida ou A Indomada. Qual novela você
escolheria como substituta para Rainha da Sucata na faixa da meia noite?
Raphael Scire – Interessante,
mas meu voto é [seria] para ‘O dono do mundo’, não só pela Malu Mader, mas
gostaria de ver uma novela que foi tão rechaçada na época que foi exibida. E eu
não guardo lembrança alguma de “O dono do mundo”, tinha apenas quatro anos na
época.
Já abriu espaço para algum novo projeto?
Raphael Scire – Sempre,
mas o que eu preciso agora é de férias.
Obrigado pela solicitude. Desejo
realizações plenas. Felicidades!
Raphael Scire – Eu
que agradeço a oportunidade. Sucesso!