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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Vamos falar de coisa boa? ÁGUA VIVA!!!!!!!


                                                                                                                       Por Daniel Pilotto

Eu devo confessar que a minha postagem de hoje seria outra, falaria sobre um tema relacionado a novelas como sempre faço. Mas algo me fez mudar de ideia na última hora e resolvi usar este espaço para defender algo que acho muito importante neste momento.
Como todos sabem o canal VIVA já está escolhendo a substituta de RAINHA DA SUCATA no horário da meia noite. Mas, como o canal sempre apronta das suas, desta vez eles resolveram fazer com que o público vote na próxima trama a ocupar a vaga da novela de Sílvio de Abreu. As concorrentes são ÁGUA VIVA (1980), O DONO DO MUNDO (1991), FERA FERIDA (1993) e A INDOMADA (1997).
Esta votação seria normalíssima se as outras concorrentes fossem tramas dos anos 70 ou 80 como o canal sempre fez questão de deixar claro ao criar o horário da meia noite “apenas novelas anteriores a 1990”. É claro que o público, com seus desejos e vontades cai sempre como um patinho nestas balelas criadas apenas para confundir e esconder os reais motivos das exibições do canal.
Por isto resolvi escrever sobre a novela que acho que deve ocupar o horário e assim manter a continuidade das exibições dos chamados clássicos da TV.

ÁGUA VIVA foi a novela seguinte de Gilberto Braga após o fenômeno DANCIN’ DAYS (1978). Como na anterior o autor precisou de um elemento que desse um charme e uma identidade característica, uma cara para a trama. Portanto saíam as discotecas e a vida noturna carioca e entravam em cena o mar, os barcos e os dias ensolarados do Rio de Janeiro do começo da nova década.
A história é aparentemente simples e trabalha com personagens bastante identificáveis. Mas desta vez Gilberto Braga estava mais afiado no estilo, e o dramalhão da antecessora dava lugar a uma trama mais ágil e cheia de acontecimentos.


Basicamente a história é centrada nos irmãos Miguel (Raul Cortez) e Nelson Fragonard (Reginaldo Farias). O primeiro um conceituado e bem sucedido cirurgião, casado com Lucy (Tetê Medina) e pai de Sandra (Glória Pires) e o segundo um bon vivant que vive de algumas poucas rendas e que sempre se mete em negócios furados. Miguel não vê com bons olhos a vida flutuante do irmão e quase sempre os dois estão às turras.
A partir da história dos dois surgem os outros personagens da trama que se interligam de alguma maneira com a vida de ambos.
Um exemplo é Maria Helena (Isabela Garcia) uma criança órfã de apenas oito anos que vive num orfanato da Ilha do Governador. Desamparada pela própria sorte ela conta apenas com a ajuda de Sueli (Ângela Leal), uma modesta comissária de trem que está sempre ali para visitar e levá-la para passear. Sueli era amiga da mãe de Maria Helena e conhece a identidade do pai da menina, e fará de tudo para que os dois se encontrem, mesmo acreditando que ela não tem um bom pai.


Na outra ponta da novela está Lígia (Betty Faria) a síntese da mulher borboleta que o autor usaria em diversas outras tramas. Mulher ambiciosa que deseja se ver flanando no “soçaite” carioca e que acredita piamente que o jogo dos interesses é o que move as peças adiante. Casada pela segunda vez, se vê numa crise que resulta na sua separação, o marido não aguenta o que considera futilidade e sai de casa. A partir daí seu mundo e sua ascensão começam a declinar. Se dinheiro ela faz o que pode para ainda continuar na vida que levava.

Maria Helena e Lígia irão se encontrar em algum momento desta trama. E mais ainda, o caminho das duas também vai ao encontro dos irmãos Fragonard. Lígia conhece Nelson num dia péssimo para ambos e este é o mote inicial de um romance avassalador. Ela quer mais do que ele pode dar, e ele vive às voltas com complicações causadas por pessoas erradas que cruzam seu caminho. 


Entre as idas e vindas de todo o bom folhetim a separação é inevitável e no decorrer da novela ela se casa com o viúvo Miguel (um tanto por interesse, um tanto por carinho), e adota Maria Helena após descobrir que a menina é filha de seu grande amor, Nelson. É claro que antes de ser adotada por Lígia ela passa por quase todos os cenários da novela, o que faz com que a menina nunca consiga conceber o que é um verdadeiro lar.

No círculo social dos irmãos Fragonard transitam todos aqueles personagens típicos e fascinantes das obras de Gilberto Braga. Um dos dois maiores exemplos são Stella Simpson (Tônia Carrero) e Lourdes Mesquita (Beatriz Segall), dois expoentes da sociedade carioca da trama e cada qual com suas particularidades.

Stella é uma milionária excêntrica que tem sonhos de atuar no teatro, sem perceber que seu dinheiro diminui a olhos vistos. Contando quase sempre com a ajuda financeira do ex-marido Kleber (José Lewgoy) ela vive num apartamento luxuoso ao lado do filho Bruno (Kadu Moliterno) que sempre lhe chama atenção para suas extravagâncias.
Kleber é um homem que vive aparentemente de forma muito digna e correta, mas aos poucos o público toma conhecimento de seu verdadeiro caráter, ele é o principal responsável pela ruína de Nelson e no fim da trama ainda se descobre que é o assassino de Miguel. Sim ÁGUA VIVA tem um dos “Quem matou?” mais famosos da história das novelas.


Lourdes, outrora rica, hoje tem que se manter as custas de uma empresa de organização de festas ao lado da filha Márcia (Nathália do Valle), casada com Edyr (Cláudio Cavalcanti) um professor universitário. Arrogante ela não perde a oportunidade de jogar na cara da filha o péssimo casamento que ela fez, o que quase sempre resulta nas brigas constantes do casal.
Lourdes também vive em conflito com o filho Marcos (Fábio Jr.) estudante de medicina que não gosta nem um pouco da forma preconceituosa e elitista com que a mãe encara a vida. Ela sonha que o filho se envolva com Sandra a romântica filha do médico Miguel Fragonard, pois só assim o rapaz terá um futuro garantido.
Desencanado com o papo de diferenças sociais ele acaba se apaixonando por Janete (Lucélia Santos) uma jovem batalhadora e de poucos recursos financeiros, para desespero de Lourdes que arma coisas terríveis par acabar com o romance dos jovens.

Janete vive com os pais Evaldo (Mauro Mendonça) e Vilma (Aracy Cardoso) e a tia Irene (Eloísa Mafalda) num pequeno apartamento. A tia trabalha para o médico Miguel Fragonard e é praticamente a responsável pelo sustento da casa já que o irmão, um trambiqueiro de marca maior não consegue parar em emprego nenhum. Janete tem vergonha da situação da mãe e do pai, e principalmente de ter que depender da tia e tenta dar a volta por cima trabalhando e estudando. Ela é uma das personagens mais corretas e emblemáticas da novela, para se ter uma idéia consegue até se formar física nuclear!!!!


Gilberto Braga criou uma trama fascinante e rica em personagens nada maniqueístas e situações para render muita novela, mas em determinado momento precisou contar com a ajuda de um co-autor. Entrava em cena então o experiente Manoel Carlos.
O autor vinha de novelas do horário das seis da tarde e teve que se adaptar rapidamente ao ritmo de Gilberto Braga, aos seus diálogos ágeis e coloquiais. Mesmo assim conseguiu alavancar mais a audiência boa que a novela tinha e ainda acrescentar mais vida ao folhetim.

Outro destaque da novela era a direção de Roberto Talma e Paulo Ubiratan, que davam às imagens da novela um charme todo especial, com muitas externas mostrando as belezas do Rio de Janeiro. Existiam cenas praticamente realizadas no mar, aliás, o mar era quase como um personagem da trama, tamanho sua influência e presença na vida dos personagens. Os diretores também souberam se utilizar de duas trilhas sonoras impecáveis para embalar as cenas que criavam.


As trilhas sonoras de ÁGUA VIVA são um charme à parte. A trilha sonora nacional concebida com maestria pelo produtor musical Guto Graça Mello é com toda a certeza uma das melhores trilhas já feitas, com músicas marcantes que ficaram no imaginário das pessoas que as ouviram na novela. Até mesmo para quem não viu a trama ao ouvi-las irá reconhecer de imediato, pois algumas são tocadas até hoje. Canções como “Sinal de Alerta” com Maria Bethânia, “Altos e Baixos” com Elis Regina, “Vinte e Poucos Anos” com Fábio Jr., “Realce” com Gilberto Gil, “Amor, Meu Grande Amor” com Ângela Rô Ro, “Cais” com Milton Nascimento, “Wave” com João Gilberto, além da já clássica e marcante “Menino do Rio” com Baby Consuelo. Era tão perfeita que o autor Gilberto Braga questionou ser desnecessária a criação de uma trilha internacional para que se mantivessem os temas nacionais até o fim.
Ainda bem que não lhe deram ouvidos pois a trilha internacional é emblemática e trouxe verdadeiras pérolas da música romântica da época como “Do That To Me One More Time” com Susan Case & Sound Around, “Ships” com Barry Manilow, “Babe” com Styx, “Just Like You Do” com Carly Simon, “Cruisin” com Smokey Robinson, além das dançantes D.I.S.C.O. com Ottowan e The Second Time Around”com Shalamar. O cantor Jimmy Cliff que está na trilha com a música “Love I Need” fez uma participação na novela numa das festas da história.

Alguns pontos da trama ficaram marcados até hoje na memória dos telespectadores. Logo nos primeiros meses da trama a personagem Lucy (Tetê Medina) morre na explosão de uma lancha. O acontecimento causou uma verdadeira comoção diante o público, já que ela era uma mulher extremamente boa e correta, que estava até pensando em adotar a pobre Maria Helena. O incidente foi uma das grandes sacadas do autor, pois Miguel Fragonard o marido da personagem precisava ficar viúvo e carente para movimentar a história, assim como Sandra a jovem filha tinha que viver todas as contradições decorrentes do fato e começar a questionar sua entrada na vida adulta, e Maria Helena voltar para a roda viva de lares provisórios e adoções frustradas.
Mais tarde o próprio Miguel Fragonard é assassinado, a filha entra em parafuso e a trama ganha um verdadeiro clima policial digno de livros de Agatha Cristhie com vários dos personagens sendo considerados suspeitos do crime, afinal estavam todos na casa de praia do médico numa ilha afastada. O público tinha agora o trabalho de adivinhar os motivos dos principais suspeitos.
Outro ponto que deu o que falar foi uma surra que Lígia dá em Selma (Tamara Taxman) no banheiro feminino da casa de shows Canecão em plena apresentação de Maria Bethânia. A cena representava uma ruptura no passado de Lígia que acabava de descobrir que sua melhor amiga Selma havia lhe traído todo o tempo. A mesma situação seria reproduzida pelo próprio Gilberto Braga anos depois na novela CELEBRIDADE (2003) com as personagens Maria Clara e Laura.


Para terminar outro destaque interessante, a famosa cena de topless nas areias do posto 9 em Ipanema. A personagens de Maria Padilha, Glória Pires e Tônia Carrero quase foram agredidas pelas pessoas que estavam na praia no momento da gravação e consideravam aquilo um absurdo, uma ousadia. A cena deu tanto que falar que todo mundo já sabia de antemão e ficou ligado na TV no dia da exibição do capítulo.

Enfim, já dá para fazer uma breve ideia do que esta novela tem de bom. Tentei dar uma pincelada na história, do que eu tinha de lembranças na memória, do pouco que vi de um compacto muito editado que existe em dvds vendidos por colecionadores e de dois livros que tenho com um resumo romanceado da trama. Com isto quero lembrar o quanto esta novela é rara e da importância de sua reprise. Uma trama assim, de 1980 abre um precedente que é a volta de outras novelas tão raras quanto. A escolha desta trama por parte do público representa a preservação do horário para a exibição das novelas mais antigas. Portanto mesmo que você considere estranha a primeira vista ou desconhecida e pouco atrativa, pense que seu retorno pode garantir que a próxima novela do horário seja alguma outra antiga por qual você sempre sonhou conhecer.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O passado se faz presente através do canal Viva


Por FÁBIO COSTA

No ar desde maio de 2010, o canal Viva chegou para realizar um sonho acalentado havia muito tempo pelos fãs de teledramaturgia. Depois de anos pensando numa iniciativa semelhante, a Globosat enfim decidiu pela criação de um novo canal que unisse clássicos da teledramaturgia a filmes e séries dublados mais atrações de variedades da TV Globo aberta e de outros canais do grupo como GNT e Multishow. Assim, o público tem no mesmo canal a chance de rever séries infantojuvenis como Sandy & Junior (1999/2002) e Caça Talentos (1996/1998), novelas de grande sucesso das décadas de 1980 e 1990 - as primeiras reprisadas foram Quatro por Quatro (1994/95) e Por Amor (1997/98) -, humorísticos clássicos como Chico Total (1996), Escolinha do Professor Raimundo (1990/95), Viva o Gordo (1981/87), TV Pirata (1988/90 e 1992) e Sai de Baixo (1996/2002) e musicais como Globo de Ouro (1972/1990) e Som Brasil (na leva de programas da década de 1990).


Nesses três anos no ar, o Viva proporcionou ao público a oportunidade de conhecer ou rever algumas das melhores produções da teledramaturgia brasileira - notadamente o forte do canal. São exibidas de segunda a sexta-feira três novelas e uma minissérie, além das séries nacionais infantojuvenis e adultas. Inicialmente eram apenas dois horários vespertinos de novela (15h30 e 16h30) e um noturno para minisséries (23h45), mas em outubro de 2010 a faixa da 0h45 passou também a exibir novelas, tendo sido Vale Tudo (1988) a escolhida para estrear o novo horário, com a nata da produção e da memória afetiva do público. Na sequência foram novamente ao ar Roque Santeiro (1985/86), Que Rei Sou Eu? (1989) e atualmente é reprisada Rainha da Sucata (1990).
No horário das 15h30 o Viva exibiu após Quatro por Quatro as novelas Vamp (1991/92) e Top Model (1989/90), enquanto às 16h30 depois de Por Amor vieram O Rei do Gado (1996/97) e Barriga de Aluguel (1990/91). Atualmente as novelas da tarde são Felicidade (1991/92) e Renascer (1993), respectivamente às 15h30 e 16h15.


Dentre as minisséries, algumas das mais lembradas e pedidas pelo público já foram ao ar pelo canal: as excelentes Anos Dourados (1986), Anos Rebeldes (1992) - ambas mais de uma vez -, Hilda Furacão (1998), Agosto (1993), O Tempo e o Vento (1985), Memorial de Maria Moura (1994), A Casa das Sete Mulheres (2003), Um Só Coração (2004), JK (2006) e A, E, I, O... Urca (1990) foram algumas das histórias exibidas. Por terem duração muito menor que a das novelas (cerca de um oitavo ou um nono do total de capítulos), as minisséries têm mais chance de ir ao ar mais de uma vez, como também foi o caso de Desejo (1990), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1998) e Chiquinha Gonzaga (1999).

O sucesso do canal Viva comprova que existe público interessado em programas antigos, de diversos gêneros. Por isso mesmo representa uma esperança para todos aqueles que já se conformaram com o fato de o Vale a Pena Ver de Novo das tardes globais exibir apenas novelas bastante recentes (e em versões editadas, ao contrário do Viva, que exibe a íntegra das produções) e a grade da emissora aberta não ter espaço para essas e outras atrações que num canal pago podem ir ao ar para atender a um público que deseje assisti-las, na contramão do consenso de que o que é "velho" não tem apelo.

Através de um canal como o Viva é que se poderá rever produções há muito ausentes da televisão, como foi o caso de Vale Tudo e pode ser o de diversas outras novelas, séries e minisséries. O forte da grade é composto por programas da década de 1990, mas os anos 70 já se fazem presentes através de séries estrangeiras como a superclássica Dallas (1978/91) e Malu Mulher (1979/80). Logo, não é de se estranhar que em breve algumas novelas como O Bem-amado (1973), Escrava Isaura (1976/77) e Dancin' Days (1978/79) - em especial por já terem sido lançadas as suas versões em DVD - ganhem a tela do canal.

Cada um tem os seus desejos particulares de reprise, e claro que a lista de fã para fã varia e muito. Mas há os desejos quase unânimes, que podem vir a ser atendidos pelo Viva conforme a oportunidade. Tieta (1989/90), inspirada no romance de Jorge Amado Tieta do Agreste, é um caso, bem como as primeiras minisséries da Globo como Avenida Paulista (1982) e Anarquistas, Graças a Deus (1984) e a temporada dos anos 80 de Chico Anysio Show (1982/90). Novelas das seis como Fera Radical (1988), Livre para Voar (1984/85), A Gata Comeu (1985) e das sete como Vereda Tropical (1984/85), Bebê a Bordo (1988), Deus nos Acuda (1992/93) e mesmo sonhos maiores como as versões originais de histórias recentemente refeitas como Guerra dos Sexos (1983) não são mais sonhos tão inalcançáveis assim. Viva o Viva, e que muitos anos venham pela frente para deleite dos fãs de teledramaturgia e televisão brasileira.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Janete Clair: a artesã da emoção em revista

“Nossa Senhora das Oito” é homenageada em DVDs, reprises e fan page no Facebook

Por Júlio César Martins



Se estivesse entre nós, Janete Clair completaria 88 anos em 25 de abril. E sem dúvida, estaria a pleno vapor fazendo o que mais lhe dava prazer na vida: escrevendo novela. Infelizmente, Janete teve sua vida precocemente interrompida em 1983. E mesmo debilitada, no leito do hospital, foi incapaz de abandonar sua grande paixão. A paixão que ela própria tornou nacional. Um motivo de orgulho para o Brasil que já era o país do futebol e do carnaval, e incorporou mais um adjetivo: o de país da telenovela.

Trinta anos se passaram, e ela continua viva na memória dos que conheceram sua obra. Seu nome é o mais importante dentro do processo de consolidação da teledramaturgia brasileira. E se hoje a telenovela é considerada paixão nacional e carro-chefe da programação da maior emissora do país, isso se deve em grande parte a sua entrega, a sua intuição e a comunicabilidade precisa das suas criações. Impossível falar de telenovela no Brasil e não citar Janete Clair como principal referência. E por mais que possa soar injusto com grandes dramaturgos merecidamente reconhecidos como Ivani Ribeiro, Walter George Durst, Vicente Sesso, Bráulio Pedroso e até mesmo o próprio marido, o premiado Dias Gomes, o fato é que o nome de Janete se estabeleceu como sinônimo do gênero telenovela.


      Véu de Noiva”, “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra”, “Pecado Capital”, “O Astro”, “Pai Herói”: novelas emblemáticas que consolidaram a liderança da TV Globo no horário nobre e fizeram de Janete Clair um ícone imortal. Sua ótica atemporal segue rendendo releituras que, se não alcançam a mesma repercussão de antigamente, nunca passam despercebidas aos olhos dos telespectadores. Recentemente, duas de suas novelas mais importantes foram relançadas em DVD pela Globo Marcas: “Irmãos Coragem” e “Selva de Pedra”, surpreendendo pelas vendas expressivas. Em paralelo, o Canal Viva programou para este ano a reprise de dois remakes de criações da autora: “Pecado Capital”, de 1998, e “Selva de Pedra” exibida em 1986. E em nota recente, a TV Globo anunciou para o horário das 23h uma nova versão de "O Semideus", escrita por Maria Adelaide Amaral. O projeto está previsto para a grade de 2015, ano em que Janete Clair comemoraria 90 anos.

E em tempos de redes sociais, nada mais justo do que a criação de uma fan page idealizada para exaltar a memória desta verdadeira operária da ficção. Criada pela neta Renata Dias Gomes a pedido do pai – ela é filha do músico Alfredo Dias Gomes e da atriz Neuza Caribé – a fan page resgata páginas de revistas, entrevistas, fotos da autora, fotos e vídeos de cenas das novelas e até páginas de textos que constam no acervo da família. Renata, que tem 29 anos e é roteirista de TV contratada pela Globo, não chegou a conhecer a avó: “Eu não tinha a noção exata do quão importante ela foi. Eu sabia por ter ouvido falar, mas não vivenciei isso, então senti essa necessidade de descobrir a minha avó. E tem sido maravilhoso pra mim. A minha geração não sabe exatamente quem foi Janete Clair e a fan page surgiu a partir desta preocupação em resgatar a sua importância.”

Renata Dias Gomes
André Araújo, de 42 anos e colaborador da fan page, cresceu diante da TV e era fã das novelas de Janete Clair. “As pessoas se referiam a Janete Clair como sinônimo de novela boa, uma marca registrada. Depois que ela morreu, as novelas perderam a graça.”

Eduardo Dias, 49 anos, também vivenciou a “era de ouro” de Janete Clair: “A programação da TV era bem restrita. Tinham poucos canais. A primeira novela que eu assisti foi “Véu de Noiva”. A novela foi marcante, pois perto do final rolava um julgamento, e isso mobilizou o país. Foi uma coisa de louco! Eu estava no pré-primario e as crianças daquela época já trocavam idéias sobre novelas. Mas a minha preferida mesmo foi Pecado Capital.”

Thávolo Henriques, que nasceu em 1987 e tem, portanto, 26 anos, se encantou pela personalidade e pela obra da autora a partir de pesquisas que fez ao longo da infância e adolescência. “Sou fã dos ensinamentos e filosofia de Janete Clair, considero-a uma espécie de mentora. Decidi investir na carreira de roteirista influenciado pela mesma paixão que ela tinha pelo gênero, me identifico com ela.”

A fan page compartilha verdadeiras raridades: um vasto acervo de fotografias, entrevistas raras de publicações extintas (como as revistas Cartaz, Manchete e Amiga), vídeos com cenas e capítulos das novelas e até trechos do depoimento da autora ao MIS – Museu da Imagem e do Som – estão disponíveis através das publicações na página. É o avanço tecnológico a serviço da memória da novelista de maior importância da história da televisão. Homenagem mais do que merecida àquela que, por tantas vezes, hipnotizou o Brasil às oito da noite, e que pode ser considerada a “padroeira” da telenovela brasileira.

O endereço da fan page no Facebook é:
http://www.facebook.com/janeteclairoficial

sábado, 9 de março de 2013

Mais uma dose de Felicidade

Por Daniel Couri

Comecei a acompanhar a reprise de Felicidade – atualmente no canal Viva – e me peguei mais uma vez envolvido pela novela. Sua história simples já havia me cativado 22 anos atrás, quando estreou na Globo, no horário das 18h. Cheguei a assistir a reprise de 1998 no Vale a Pena Ver de Novo, mas a novela foi tão picotada que ficou sem graça. (Os 203 capítulos da apresentação original foram espremidos em 55). 


No Viva, o público pode (re)ver a trama de Manoel Carlos na íntegra. Apesar do sucesso na exibição original, muitos a consideravam água-com-açúcar demais. Curiosamente, sempre defendi essa novela. Para mim, o charme de Felicidade está justamente nessa singeleza. Reconheço que talvez hoje ela não conseguisse prender o público como fez duas décadas atrás. Os hábitos mudaram, a TV mudou, o público mudou. Mas eu, profundo admirador de Maneco – exímio cronista do cotidiano – continuo sentindo o mesmo carinho por Felicidade.

É engraçado, por exemplo, rever hoje a estreia de Viviane Pasmanter na novela. Ótima atriz, ela conseguiu, apesar da afetação da personagem, defender sua mimada e obsessiva Débora, antagonista da mocinha Helena (Maitê Proença). Ambas disputavam o amor de Álvaro (Tony Ramos). Eliane Giardini e Ana Beatriz Nogueira estreavam na Globo, assim como Bruno Garcia. Também estreante, Maria Ceiça deu vida à porta-bandeira Tuquinha Batista. Tristemente, foi a última novela da atriz Sandra Bréa. Foram vários os tipos comuns, mas de grande destaque.


Felicidade também marcou o retorno de Manoel Carlos à Globo, após uma ausência de 9 anos. E olha que a tarefa não foi fácil: a novela anterior, Salomé, não havia obtido bons índices de repercussão (aliás, foi uma das menores audiências da história da Globo até então). O estilo peculiar de Maneco, que se consolidaria de vez em suas novelas subsequentes, começava a se moldar. O cenário principal não foi o Leblon – uma das características típicas de suas tramas – e sim o Bairro Peixoto, em Copacabana. A primeira fase da novela se passava na fictícia Vila Feliz, interior de Minas Gerais, outro ponto que diferencia Felicidade das outras histórias do autor.


No entanto, a principal diferença de Felicidade em relação aos outros trabalhos mais conhecidos de Manoel Carlos é o fato de ter sido inspirada em histórias de Aníbal Machado, grande contista, ensaísta e professor mineiro (e pai da também escritora e dramaturga Maria Clara Machado). Contos como O iniciado do vento; Tati, a garota; A morte da porta-estandarte; Viagem aos seios de Duília e O piano foram adaptados e costurados numa mesma história. Maneco conseguiu imprimir sua marca na novela e ainda manteve toda a sensibilidade da prosa de Aníbal Machado. A mistura resultou numa novela boa e simples, que reergueu o horário das 18h.


Letícia Dornelles, colaboradora de Manoel Carlos em Por Amor (1997-98), também defende a simplicidade na teledramaturgia: “É o bom folhetim recheado de clichês, de construção básica, mas sem a obviedade que constrange, sem as ‘forçadas de barra’ para cair na boca do povo e ser popular... Porque novela tinha emoção. Envolvia. Infelizmente, é difícil se envolver com uma trama, se emocionar com os personagens... Há muita caricatura e pouca densidade. Muita superficialidade e pouca cumplicidade com o público”.

Nas novelas de Manoel Carlos não há grande disparidade entre ricos e pobres. É possível identificar detalhes e similaridades entre suas tramas. A presença obrigatória de uma Helena é a marca registrada do autor, que não dispensa uma personagem com esse nome – sempre a heroína da história. “As Helenas são uma imitação de pessoas humanas e verdadeiras, pois essa é minha maneira de ver as novelas. Nem realista ou naturalista, como querem alguns. E nem delirantes. Apenas verossímeis. Possíveis”, afirmou ele, em entrevista para o blog Eu Prefiro Melão, de Vitor de Oliveira.


“No caso de Felicidade há que se notar que foi uma novela apresentada às 18 horas, numa época (1991-1992) em que não se podia avançar muito. Além disso, todas as seis ou sete histórias que se entrecruzavam eram inspiradas livremente em contos de Aníbal Machado. Portanto, muita coisa desses contos ficou agregada ao meu trabalho. O elenco era afinadíssimo”, explicou Maneco, na mesma entrevista.

Manoel Carlos
De maneira geral, seus personagens são retratados de tal forma que o telespectador se sente parte da conversa que acontece na novela. Tem-se a sensação de estar acompanhando não uma novela, mas a vida dos amigos, vizinhos, parentes... novelizada. Tudo muito bem arrematado com o verniz refinado e os diálogos simples, porém sofisticados do autor. Porém, há que se chegar a um consenso no que diz respeito ao “realismo” retratado por ele. Uma telenovela jamais será “real”, visto que é explicitamente uma obra de ficção. Mas ela pode se aproximar – e muito – da realidade cotidiana geral. Não custa lembrar que realidade é um conceito que varia muito de telespectador para telespectador. E para cada um deles, a realidade tem um conteúdo diferente.

Os elevados índices de audiência obtidos por Felicidade – de poucos acontecimentos e muitos personagens – provam que a novela caiu no gosto do grande público. Nem seu ritmo relativamente lento (para uma novela) impediu que os telespectadores se encantassem exatamente pela “normalidade” da trama. Por isso a reprise do Viva não deixa de ser um exercício interessante para o público de hoje, acostumado a textos ágeis (e menos elaborados), cenas rápidas e emoções fortes. 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Mas será o Benedito... quando o Ruy Barbosa volta ao ar?!



Por Isaac Santos

Confesso que estou numa fase de completa infidelidade às tramas inéditas da teledramaturgia. Mas, um dos momentos prazerosos aos quais me acostumei, é acompanhar as novelas reprisadas pelo Canal Viva, de segunda a sexta. Muito bom poder conferir três histórias marcantes, três estilos distintos, autores inspiradíssimos... muito bom poder revisitar épocas tão memoráveis. Rainha da Sucata, Felicidade e Renascer super valem a pena!

O Silvio de Abreu, autor principal de Rainha da Sucata, está no ar com a atual novela das sete e já se fala em seu retorno numa das próximas novelas das nove. Manoel Carlos, autor principal de Felicidade, esteve mal de saúde, mas felizmente em breve retoma os seus trabalhos na Globo. Benedito Ruy Barbosa, autor de Renascer, em bre... Não, eu não saberia dizer quando ele terá novamente uma novela inédita no ar. Leio notícias sobre um provável retorno com mais um de seus remakes pro horário das seis. Mas sinto tudo tão na base do "o que há de ser será!", e a história mostra que a telinha é um caixa de surpresas, então prefiro aguardar. 

Talvez seja muito entusiasmo meu, excesso de positividade de minha parte, mas o fato é que eu acredito ser possível um retorno do Benedito ao horário das nove, desde que haja uma base que isto favoreça. 
Antes que alguém diga que eu  não sou conhecedor dos reais motivos que o impedem, reconheço que não faço parte dos bastidores, mas considerando apenas o pouco do que sei, questiono se não seria mais equânime se a ele fosse dispensado o mesmo tratamento dado ao Manoel Carlos. Adoraria uma trama brasileiríssima de volta ao horário nobre da Globo. Opinião de telespectador e não de especialista, obviamente. 


Enquanto isso,  continuemos a nos emocionar, divertir com Renascer!


Depois de uma bem sucedida passagem pela extinta TV Manchete, onde fez Pantanal, foi com Renascer que o Benedito voltou ao seleto grupo de autores da Globo. O título da novela seria Bumba-meu-boi, mas o Boni achou muito folclórico e o Benedito concordou em mudar. Muito do que é retratado na novela é baseado em experiências dele com sua família, enquanto passavam pela Bahia. Em depoimento ao "Memória Globo", ele declarou: " - Em Renascer, duas passagens da trama foram inspiradas no que eu vivi enquanto estava na Bahia. A primeira foi com a minha mulher e meus quatro filhos, quando eles ainda eram pequenos. [...] Nós estávamos numa região chamada Floresta Negra [...]. Uma noite fui ver os tabaréus da fazenda rastelando cacau, numa fornalha igual àquela que aparecia na novela. [...] Eles se submetem a uma temperatura de 100º dentro da fornalha, enquanto lá fora bate uma brisa fria. Mas são muito fortes. Tomam pinga na garrafa e lhe oferecem: e se você limpar a garrafa é uma ofensa; tem que pegar e beber direto. Fiquei ali ouvindo histórias e levantando a bola pra eles chutarem. Eu tinha ouvido um causo sobre um tal de seu Firmo, o fundador das fazendas da região, que havia dividido suas terras entre os sete filhos, e eu queria saber o que os tabaréus tinham a dizer. A história era que esse seu Firmo tinha a proteção do capeta, e guardava o diabo na garrafa. Eles confirmaram: "É mentira não, sô! O homem tinha o capeta na garrafa. Tinha o coisa ruim ali, o 'cramulhão'". Contaram que,  um dia, seu Firmo havia aparecido com essa garrafa, botado dentro de casa e, a partir de então, virado protegido: nenhuma bala entrava nele. Todo mundo ali confirmava a história. Um dos tabaréus disse que, nas noites de florada, seu Firmo abria a garrafa, o diabinho pulava para fora e virara um bode enorme, com os olhões brilhando feito brasa. Seu Firmo montava nele, e o bode saía voando, mijando no cacau. Quando ele voltava para casa, abria a garrafa, e o bode virava de novo o capetinha. Na manhã seguinte, o que nascia de flor era uma maravilha! Por isso que não tinha cacau. Quando ele voltava para casa, abria a garrafa, e o bode virava de novo o capetinha. Na manhã seguinte, o que nascia de flor era uma maravilha! Por isso que não tinha cacau que desse mais do que o do seu Firmo, por causa do mijo do diabo, que adubava. Ninguém ali sabia que fim levara a garrafa: se fora enterrada com ele , se alguém arrumara um jeito de botar dentro do caixão. Os tabaréus contaram que uma mulher que trabalhava na casa , Donana, largara o serviço porque tinha visto o diabo. Ela disse ao patrão que não serviria enquanto o capeta estivesse ali, em cima da mesa. Seu Firmo deu um jeito de sumir com a garrafa, e Donana ficou trabalhando com ele até morrer. Todos aqueles homens acreditavam de verdade nessa história." 


O elenco também é um trunfo da novela. Para protagonizar a saga do fazendeiro José Inocêncio, ninguém melhor que o Antônio Fagundes, e o autor sabia muito bem disso. Tanto que foi pessoalmente convidá-lo: " - Eu estava com todo o elenco escalado, mas faltava o intérprete para o personagem principal, o Painho. Já tínhamos o Painho da primeira fase, que foi um sucesso danado, mas precisava do Painho mais velho. Fui ver o Fagundes, que estava encenando uma peça de Shakespeare no Teatro Rui Barbosa, e o convidei para jantar depois do espetáculo. Expliquei que precisava de um ator para o papel, mas ele disse que não queria fazer novela naquele momento. "Mas você nunca fez novela minha", argumentei. Ele disse que teria prazer, mas que não dava. Fagundes estava irredutível. Então, resolvi contar a ele o primeiro e o último capítulos da história, coisa que nunca faço. Quando escrevo novela, já sei exatamente o começo, o meio e o fim da trama. O primeiro capítulo não seria com ele, mas com o personagem ainda jovem, que chegava na região, desbravava as terras para fazer sua roça de cacau e se apaixonava por uma menina que dançava o bumba-meu-boi. Ela seria a mãe dos quatros filhos dele. Com a passagem de tempo, os filhos já crescidos, o Fagundes faria o personagem mais velho: um homem que nunca havia esquecido aquela menina, que morrera no parto do último filho. Toda vez que o Painho se sentasse na cadeira de balanço e se cobrisse com o cobertor, o público saberia que ele estava pensando nela. Ela aparecia para ele em sonho, e ele achava que ela não tinha morrido, No começo da história, ele havia fincado um facão na terra, junto a um jequitibá, e jurado que, enquanto eles existissem, ele não morreria nem de morte matada, nem de morte morrida. E contei ao Fagundes o final da história. Ele começou a chorar. Esse choro se repetiu depois, quando ele gravou a cena. Fagundes perguntou se eu garantiria que seria assim, e eu assegurei que não mudaria a história. Então, ele aceitou fazer. Eu quis saber se já podia começar a escrever pensando nele, ele confirmou, e fiz as cenas. Foi assim."



Não há como falar de Renascer e não mencionar as belíssimas músicas que tão bem casaram com cada trama da novela. As trilhas sonoras estão entre as mais vendidas da Rede Globo. 



De igual modo, seria injusto não destacar a qualidade das cenas primorosas dirigidas com a sensibilidade ímpar do Luiz Fernando Carvalho, com quem o Benedito tem uma identificação muito grande e falando ao "Memória Globo" ele dá testemunho disso: " - Ele lê o texto e parece que aquilo é dele. Eu me identifico muito com a sua direção. Gostei demais quando fizemos Renascer, um trabalho brilhante, que depois ele repetiu em O Rei do Gado, novela que também achei maravilhosa. Tenho paixão de trabalhar com o Luiz Fernando, porque sinto que ele tem a minha origem. Ele tem a sola do pé cheia de barro, como a minha. Já viveu muito. Faz bem porque conhece. Há diretores que trabalharam com ele que estão muito bem, seguindo a mesma linha. Além disso, o Luiz Fernando tem uma forma especial de trabalhar com o elenco."     


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

“Rainha da Sucata” faz a festa dos saudosistas no Canal Viva!

Lambada tempera a rivalidade entre a noveau rich cafona e a aristocracia decadente na Era Collor!

Glória Menezes, Tony Ramos e Regina Duarte
por Júlio César Martins

Nesta segunda, 21 de janeiro, o Canal Viva recicla na tela da TV a fábula da sucateira e sua corte. Exibida originalmente em 1990 pela Rede Globo, “Rainha da Sucata” reuniu um elenco estelar, nunca antes visto em uma mesma novela. Lançada em meio às comemorações dos 25 anos da emissora, foi a primeira trama das oito escrita pelo então rei da comédia, Sílvio de Abreu. Repetindo a consagrada parceria com o diretor Jorge Fernando, a intenção era importar um pouco do clima do horário das sete para o horário nobre, pegando carona no êxito do bom humor explorado pela antecessora, “Tieta”. Apesar de ser lembrada nos dias de hoje como um grande sucesso, “Rainha da Sucata” enfrentou alguns percalços que reverberaram na audiência ao longo da exibição original.

A trama gira em torno de Maria do Carmo (Regina Duarte), uma mulher de origem pobre, filha de portugueses, mas com excelente faro para negócios e que acaba enriquecendo. Apesar de ser uma empresária bem-sucedida, não consegue o status social que deseja e recorre a socialite Laurinha Albuquerque Figueiroa (Glória Menezes), que, apesar de falida, ainda frequenta as colunas sociais. Uma vai usar a outra para alcançar seus objetivos. O elo entre as duas é Edu Figueiroa (Tony Ramos), enteado de Laurinha e grande paixão de Maria do Carmo na juventude. Ele é um playboy internacional que, inconformado com a falência da família, tenta o suicídio. Logo se promove um casamento de fachada entre Edu e Maria do Carmo, para satisfazer o jogo de interesses.

Pego de surpresa pelo Plano Collor às vésperas da estréia, o autor Sílvio de Abreu teve que reler 900 páginas dos 30 primeiros capítulos já escritos para refazer cenas e diálogos, contextualizando a novela de acordo com a situação econômica no país no momento. Assim, a empresária de sucesso aparece afogada em desconfortos provocados pelo recente baque econômico: a drástica redução no consumo por conta dos confiscos afetou a venda de carros de sua concessionária, a Do Carmo Veículos, instalada num luxuoso prédio na Avenida Paulista - o coração econômico de São Paulo. Para driblar as circunstâncias, ela inaugura a “Sucata”, uma casa de shows no último andar do prédio de sua revendedora - mais tarde transformada numa lambateria para ricos.

Banner promocional do Canal Viva, divulgando a reprise de "Rainha da Sucata"
Sílvio de Abreu contou com a assessoria de texto da socialite Danuza Leão, que sugeria situações e até frases para os personagens ricos da novela, garantindo a coerência nos costumes e deslizes dos personagens deste universo. A partir do capítulo 36, Sílvio escreveria "Rainha da Sucata" em colaboração com José Antônio de Souza, porém, a necessidade de reescrever os capítulos iniciais fez com que o autor perdesse a frente de capítulos. Acostumado a escrever capítulos de novelas das sete, Sílvio estava entregando scripts mais curtos do que o de costume para o horário, justamente quando a Globo tinha intenção de conter a ascensão progressiva de audiência da novela da concorrência, “Pantanal”. A estratégia era esticar o Jornal Nacional e “empurrar” os capítulos de “Rainha da Sucata” para que terminassem um pouco mais tarde, levando as duas novelas a concorrer por algum tempo. Posteriormente, a novela passou de 45 para 60 minutos diários.

Capa ilustrando a predileção da imprensa especializada por "Pantanal"
Gilberto Braga, colega de profissão e amigo pessoal de Sílvio de Abreu, soube por acaso que, exatamente neste período, o irmão de Silvio estava muito doente e que os capítulos da novela estavam atrasados. O próprio Gilberto esclareceu: “- Liguei para ele, que me disse que o irmão estava em fase terminal. Sílvio acordava, ia para o hospital, ficava um pouco com o irmão, voltava para casa, escrevia a novela, ia ao hospital de novo. A vida dele estava um caos, e a novela, atrasada. Eu me ofereci para ajudá-lo e trabalhei com ele durante duas semanas. Novela é feita em blocos de seis capítulos, e o Silvio fez um resumo de história para um bloco, que eu peguei para escrever. Ao mesmo tempo, ele escrevia o bloco seguinte. Conseguimos fazer 12 capítulos, e botamos a novela em dia.”

Após a participação do amigo, Sílvio contou com a colaboração de Alcides Nogueira, até o final. Na guerra pela audiência, foi constatado que o horário das 20h não se adequava tão bem a comédia e o autor converteu a história em um grande drama, com toques de suspense, recheado de referências cinematográficas.

Para reforçar a direção da novela, entraram Mário Márcio Bandarra e Fábio Sabag.  Em depoimento ao “Memória Globo”, Sabag declarou: “- Eu entrei em uma época de crise na novela, quando o “Pantanal” começou a querer aparecer. O Daniel Filho me chamou primeiro, porque queria que eu modificasse algumas coisas da novela. Ele disse assim: ‘A Regina Duarte tem que aparecer nos finais dos blocos, início de blocos. Temos que mexer nisso. Algumas coisas são muito arrastadas, são lentas.’ Então, eu pegava o capitulo, lia, pegava o capítulo montado e, na minha sala, eu ia marcando, cronometrando, tirando. Às vezes, eu tirava até oito minutos de coisas, de pausa, mudava as posições das cenas da Regina. Ela sempre fechava bloco, abria o bloco. Isso criou um problema sério com o Silvio de Abreu, porque ele me telefonava irritado. Claro, como autor, ele tem o seu direito. Eu dizia: ‘Fala com o Daniel, porque eu estou atendendo a uma recomendação dele.’ É muito simples pegar um trabalho feito e dizer onde está um pouquinho demais, onde deve mudar, porque você está vendo. Você não dirigiu, você está assistindo. E criticar é muito mais fácil.”


 Chamada do quarto capítulo da novela, anunciando a exibição meia hora mais tarde

Causou burburinho também a cena em que Cláudia Raia, fora de forma, aparece nua, segurando um peixe. A imprensa acusou a Globo de tentar pegar carona na onda de nudismo que alavancava a audiência de "Pantanal". A atriz foi vítima de bullying por parte dos jornalistas, que debocharam por considerá-la gorda para a cena.

“Rainha da Sucata” exibiu ainda o que foi considerado o primeiro suicídio explícito da TV brasileira. O tema, considerado tabu, até então era habitualmente tratado de forma velada no horário nobre da TV. Várias vezes sugerido, mas até então nunca retratado abertamente pelas câmeras. Após discutir e arrancar os brincos de sua rival Maria do Carmo, Laurinha Figueiroa se joga do prédio e sela com a morte sua derrocada amorosa e financeira. “Coisas de Laurinha”. Antológico.

Aracy Balabanian marcou época com sua inesquecível dona Armênia, que para provar sua autoridade como proprietária do terreno onde está a “Sucata”, promove sua implosão. E todo o Brasil riu com seu hilariante bordão "quero ver a prédio na chon".

Estreia às 0h15m, com reprise ao meio-dia.
Direção de Jorge Fernando, Jodele Larcher, Fábio Sabag e Mário Márcio Bandarra

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Uma Moderníssima Sátira de Capa e Espada!


Por Emerson Felipe

Hoje chega ao fim, no Canal Viva, a reprise de uma das mais criativas novelas já realizadas: Que Rei Sou Eu?, de Cassiano Gabus Mendes, folhetim de capa-e-espada  sobre a luta pelo poder entre o povo e a nobreza em Avilan, um país do século XVIII marcado pela corrupção e injustiça social. Reunindo elementos de novela de época e dados da atualidade, Que Rei Sou Eu? subverteu a linguagem televisiva, virando mania nacional, sucesso de crítica e marcando uma geração.

Que Rei Sou Eu? mostrou-se uma novela extremamente moderna, antenada com o efervescente momento que o Brasil atravessava em 1989, fazendo do Reino de Avilan uma paródia do que aqui acontecia: caos social; instabilidade financeira; desvalorização monetária (o ducado se transformando em duca e perdendo dígitos); escândalos financeiros (Ravengar chega a citar algo similar ao escândalo da mandioca em Avilan); a altíssima dívida externa; a precariedade dos serviços públicos (a guilhotina de Avilan jamais funcionava nas execuções!), e a população suportando todos os encargos. Ponto para Cassiano Gabus Mendes ao fazer de uma novela de época algo contemporâneo, inovando o gênero.

Pichot: de mendigo a rei.
Algumas referências de Que Rei Sou Eu?, por estarem atreladas à específica conjuntura de 1989, inexoravelmente soam datadas, servindo mais de curiosidade, como o já supracitado Escândalo da Mandioca e o selo que o Conselho Real ordenou colar às testas dos cavalos nas estradas de Avilan - numa clara alusão ao selo-pedágio da época - , por exemplo. A grande maioria, porém, continua assustadoramente atual: as falcatruas dos corruptos Conselheiros Reais - que desviavam verbas públicas em licitações fraudulentas e obras inacabadas (como a Trans Avilan!) - e o nepotismo na máquina administrativa (Vanolli empregando o seu sobrinho no Conselho sem prévio preparo) - , por exemplo, práticas ainda usuais no Brasil contemporâneo.

O demoníaco bruxo Ravengar
Mas não só de humor-denúncia viveu Que Rei Sou Eu?: Cassiano Gabus Mendes teceu um charmoso novelo repleto de drama, aventura e romance ao longo de 185 capítulos. O público foi fisgado pela emocionante luta do legítimo herdeiro do trono de Avilan, Jean Pierre (Edson Celulari), pela coroa, dominada pelas corruptas figuras da Rainha Valentine (Teresa Rachel) e do bruxo Ravengar (Antônio Albujamra), que tansformaram o mendigo Pichot (Tato Gabus Mendes) em rei para manter-se no poder. E, em meio à guerra entre rebeldes e tropas reais, a disputa entre duas mulheres pelo amor de Jean Pierre: a destemida companheira de batalhas, Aline (Giulia Gam), e a frágil Suzanne (Natália do Valle), obrigada a um casamento infeliz com o cruel Conselheiro Real Vanolli (Jorge Dória). 

O herói Jean Pierre
Que Rei Sou Eu? manteve-se instigante do primeiro ao último capítulo com toos esses entrechos românticos, humorísticos e dramáticos, reunidos num texto pautado por ganchos atraentes e nenhum resquício de marasmo ou barriga. A direção de Jorge Fernando, embora soe um tanto “fake” em certos aspectos, mesmo para a época (a cenografia visivelmente artesanal e tosca em alguns ambientes), deu um certo charme ao ousado texto, conferindo um tom teatral à novela. A maquiagem de Eric Rzepecki foi uma atração à parte, especialmente as caracterizações do bobo da corte Corcoran (Stênio Garcia).

Aline e Jean Pierre
O elenco de Que Rei Sou Eu?, magistralmente escalado, interpretou com vigor o excelente texto de Cassiano. Os Conselheiros Reais, cada qual com sua personalidade, renderam ótimos momentos: o cruel e perigoso Vanolli (Jorge Dória), que dominava o Conselho e oprimia severamente a sofrida esposa Suzanne; o fraco Bidet (John Herbert), sempre passado para trás pelos colegas nas negociatas escusas; o bronco e grosseiro Gaston (Oswaldo Loureiro); o sofisticado e mulherengo Crespy (Carlos Augusto Strazzer); e Gerard (Laerte Monrrone), que se fazia de valentão perante todos, mas não passava de um capacho da adúltera esposa Lucy (Ísis de Oliveira), incapaz de satisfazê-la sexualmente.


Álbum de figurinhas da novela
A geração mais nova também brilhou: Edson Celulari defendeu com elegância o herói Jean Pierre; Tato Gabus Mendes convenceu na transformação do mendigo Pichot no insano Rei Petrus III (apesar de certos momentos de canastrice, exagerando no levantar da sobrancelha); Cláudia Abreu emprestou a necessária graça à esperta e romântica Princesa Juliette; e Giulia Gam deu um show como a destemida e cheia de personalidade Aline (inclusive ganhando a torcida do público no tocante ao seu romance com Jean Pierre). A sensualidade madura de Ítala Nandi caiu como uma luva na carismática cigana Lou Lou Lion; Marieta Severo brilhou como a feminista Madeleine; e Stênio Garcia arrasou na pele do rebelde espadachim Corcoran, que se infiltra no palácio como bobo da corte e desperta a paixão de Valentine.

Os corruptos Conselheiros Reais
Antônio Albujamra, em irretocável composição, imortalizou o demoníaco Ravengar, uma espécie de Rasputin de Avilan que exerce forte influência sobre o Reino (a sua paixão não correspondida por Madeleine gerou momentos arrepiantes, ao hipnotizá-la). Mas o grande nome de Que Rei Sou Eu? é o da escandalosa e inesquecível Rainha Valentine: impossível não se render aos hilários trejeitos e à atuação over da veterana Teresa Rachel. Trabalho este merecidamente contemplado com o Troféu Imprensa de melhor atriz pela deliciosa caricatura que emprestou à alienada e devassa monarca.

A histriônica e divertida Rainha Valentine
Ao unir elementos de época e crítica social numa irresistível história de capa-e-espada, Que Rei Sou Eu? quebrou paradigmas e, merecidamente, inseriu seu nome no rol de clássicos da teledramaturgia. Agora, só nos resta deliciarmos com os últimos momentos das aventuras no Reino de Avilan e gritar com emoção "Viva o Brasil!" com Jean Pierre durante a cena final! E viva Que Rei Sou Eu?, viva Cassiano Gabus Mendes!

Elenco de Que Rei Sou Eu?
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