Por Eduardo Vieira
Esse era o prefixo do seu programa com o qual
eu cresci, adolesci, fiquei adulto. Estava longe e confesso, triste de ela
estar numa emissora diferente da do Sbt. Temos uma visão idealizada de algumas
coisas e a relação dela com o Silvio Santos não foi diferente. Por mais
desgastada que estivesse, sempre fora muito bonita.
Quando criança eu via programas como o dela e
da Elizeth Cardoso na Tv Record para o qual ela não poderia voltar por conta de
suas alusões a sua Santa querida. (A religião definitivamente é um paradoxo –
não liga ninguém) Desde criança também assistia a seu programa na Tv Bandeirantes, quando as pessoas mandavam carta para ganhar a famosa casinha colmeína - marca de uma cera famosa na época - uma casa linda de vidro – objeto
de cobiça de toda família assim como o mais do que esperado telefonema de Flávio Cavalcante para bradarmos “boa noite, brasil”, título do programa que nos garantia uma boa soma em dinheiro.
Não conhecia a Hebe em preto e branco até
então. Uma mulher cuja carreira engatinhou junto à Tv, uma Tv mais discreta,
muito mais espontânea (como a própria Hebe) e muitíssimo culta a qual havia
teleteatros, programas musicais e de entrevistas com personalidades de um
quilate do cronista Rubem Braga, mesmo péssimo entrevistado, segundo ela. Já peguei o programa com esse formato, do sofá
e convidados que interagiam com a apresentadora, de Rita Lee a Leonardo,
artistas bissextas como Maria Bethânia e Marisa Monte passaram pelo Sbt em seu
sofá para lançar seus trabalhos.
Hebe era sempre assunto, pela sua postura, pela
sua pouca cultura elitista que ela mesma confessava, pela sua falta de
vergonha, pelos seus vestidos, pela ostentação, pelas perucas ou penteados que
lançavam discussões tão profundas como se ela ficava melhor de Evita ou de chanel
à Vanusa. Várias facetas a acompanharam: Tina Turner, cara-pintada, Xuxa, Carlitos, Julieta... Sempre homenageando os quadros de humor do passado em que seu Romeu era Ronald Golias numa Tv pura, ou quadros musicais como os com Ivon Curi. Ela trazia a história do Rádio, do Cinema e da Tv em seus comentários, até por vezes datados.
Noveleira, sempre reclamava quando tal novela
estava mais ou menos e tietava os artistas quando estes compareciam a seu
programa, quebrava a barreira de não se falar bem ou mal de tal emissora como
poucos faziam. Fausto Silva aprendeu isso com ela, o que é bom. Era a sua marca
a espontaneidade e todos tiveram aval para gostar dela e tornou-se numa certa
época tradução da cidade de São Paulo pela revista Veja-São Paulo.Os artistas iam a seu programa ainda pra poder
garantir uma boa platéia em peças e vi muita gente lá como Paulo Autran, Renata
Sorrah, Lucélia Santos, Nívea Maria, Antonio Fagundes que sabiam que seu
programa estava acima do bem e do mal.
Mesmo quando seu programa não estava do jeito
que ela gostava sempre deixava um recado em um comentário quando recebia
pseudo-artistas, por exemplo, ou havia algum programa, até na própria emissora
em que estivesse, que ela decididamente não gostava como os de cunho muito
popular, por exemplo. Mas tinha um grande feeling para o que era bom, claro que
com algumas exceções.
Por mais que se escreva não se pode abarcar
vida tão plural como a da cantora, apresentadora, amiga, fã da arte que se
permitia errar, talvez por essa razão nunca tenha ido para Rede Globo, templo
da perfeição à toda prova e todo custo.
Sentirei falta de sua naturalidade, de sua
positividade (até excessiva por vezes), de sua frivolidade, de sua consciência
social (política, nem sempre) do seu apoio aos artistas e das rosas de Kátia Gianini.
Tchau, Hebe!!!
