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domingo, 1 de junho de 2014

“Déjà vu” com cara de novidade



Por Leonardo Mello de Oliveira
  
          A Rede Globo estreou sua nova programação há mais ou menos dois meses e trouxe para o público uma nova leva de programas, entre eles novelas, séries e reality shows. Apresentados em um mal organizado Vem Aí, as novas atrações vêm estreando ao longo desses dois meses, já criando assunto para muito debate televisivo. Vamos nos centrar em 5 novos programas globais: Meu Pedacinho de Chão, O Caçador, Superstar, Tá no Ar – A TV na TV e Geração Brasil. Todos eles, apesar de apresentarem características “revolucionárias”, têm, em sua essência, a mesma fórmula usada para outras atrações do gênero.
            Meu Pedacinho de Chão estreou causando barulho. O visual diferente e excêntrico da novela chamou a atenção inicialmente. Mesmo com todo o diferencial, a novela não anda bem de audiência. Mas não falemos de ibope. A produção tem a mão inconfundível de Luiz Fernando Carvalho, diretor conhecido por sua ousadia e originalidade. O texto, de um inspirado Benedito Ruy Barbosa, voltando com tudo a escrever novelas, é ótimo e casa bem com a proposta da direção. Apesar de tanta novidade, a novela tem sua em sua essência marcas clássicas de teledramaturgia, como dramas, romances e política. O grande diferencial da obra são as várias fontes de inspiração pegas por Luiz Fernando para compor a novela, que vão desde animações da Pixar, como Toy Story e Valente, passando por filmes western até elementos de literatura infantil, como obras de Monteiro Lobato. Isso tudo sem falar do elenco, com muitos estreantes e alguns medalhões, todos em excelente sincronia.



            O Caçador vem preencher o maior buraco negro da programação global: o horário de sexta à noite. A série, que tem José Alvarenga na direção e Marçal Aquino e Fernando Bonassi no roteiro, tem se mostrado um dos poucos casos de qualidade e originalidade nas séries da Globo. Um roteiro bem conduzido, personagens densos e uma boa direção são os elementos que enchem os olhos de quem a assiste. O horário permite mais ousadia, e é o que a produção nos apresenta. Além disso, atores nem sempre bem vistos pelos críticos como Cauã Reymond, Cleo Pires e Ailton Graça conseguem provar seu talento em personagens diferentes dos que costumam interpretar. Outro fator importante é o fato da série não querer mostrar um estereótipo do policial e do bandido brasileiro. Tudo parece mais real, mais tragável e menos exagerado. É uma pena a produção não ter a evidência que merece.



            Superstar foi proposto, principalmente, para cobrir o buraco entre uma temporada de The Voice e outra. O reality tem mostrado potencial, apresentando bandas com músicas de qualidade e diversificadas. Mas não vem empolgando tanto quanto seu colega na emissora. A Globo já declarou que o programa não terá uma segunda temporada. Uma lástima para aqueles que curtem um programa musical de qualidade, coisa rara na televisão atual. É claro que os problemas técnicos e as regras bem “flexíveis” do reality diminuem seus atributos. Apesar do formato diferenciado, o programa possui a espinha dorsal de um digno programa de calouros.



            Tá no Ar – A TV na TV é, sem dúvida, a maior ousadia já apresentada pela Globo há anos no quesito humor. Comandado e criado por Marcelo Adnet e Marcius Melhem, Tá no Ar é o típico programa humorístico que você nunca pensaria em encontrar na Globo: sátira de tudo o que você pode imaginar, críticas ácidas e politicamente incorreto. Para o tradicional conservadorismo da emissora, é um passo e tanto. Apesar das comparações constantes com humorísticos semelhantes como TV Pirata e Casseta & Planeta, Tá no Ar mostra toda sua originalidade com um humor inteligente e crítico sem ser ofensivo, poucas vezes visto na televisão. Que o programa tenha vida longa e que termine sem estar decante, o que geralmente acontece com humorísticos do gênero.



            Geração Brasil, a volta bem anunciada de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira como autores, tem a missão de levantar o ibope do horário das sete, que vem mal das pernas desde o remake de Guerra dos Sexos. A novela se mostra inovadora, aposta em temas “amaldiçoados” na teledramaturgia, como tecnologia, e tem uma pegada over, com personagens caricatos e exagerados. Além de mostrar um reality show dentro da novela apresentado de maneira que se pareça com a transmissão de um reality de verdade. O elenco é um primor, veteranos grandiosos e jovens atores já consagrados pela crítica. A trama ainda está se desenrolando e tem muita coisa ainda para acontecer. O que já se pode dizer é que Geração Brasil pode não entrar na história como foi com Cheias de Charme, mas com certeza ficará na cabeça de quem gosta de boa teledramaturgia.




            A Globo vem tentando inovar este ano, além de mostrar mais qualidade em suas novas produções. Depois de um negro 2013, a Vênus Platinada tem tentado consolidar sua liderança, ameaçada não apenas por concorrentes, mas também por outras mídias, como a internet. Esperamos mais produções de qualidade para 2014, e que a Globo continue surpreendendo os adoradores da boa televisão.

domingo, 27 de outubro de 2013

Temporada de séries 2013


A temporada de séries (Ou show de TV como queiram) começou com gratas surpresas (E algumas decepções que logo foram canceladas). Estúdios de TV sempre em busca de melhores atrações para atrair o público não medem esforços para que seus programas sejam cada vez mais elaborados, cheios de efeitos especiais e bons roteiros.


Entre as mais antigas, séries consagradas como Once Upon a Time fez tanto sucesso que houve necessidade de criar um derivado para que mais “contos de fadas” pudessem ser trabalhados. Once Upon a time in Wonderland conta a história de Alice no país das maravilhas sob os olhos dos figurões da ABC. Trazendo a fórmula que tanto agradou na série original, Wonderland mostra Alice sendo uma moça de 20 e poucos anos apaixonada pelo gênio da lâmpada do Aladin que foi sequestrado e é mantido preso pela rainha de copas e Jafar. A série é um pouco mais rápida já que a proposta é que ela tenha no máximo (Se os produtores assim acharem conveniente) três temporadas. O roteiro é muito bom, não deixa buracos além do necessário para manter o mistério e os personagens são fortes e marcantes. O único ponto fraco da série é em relação aos efeitos especiais, que parecem mal feito ou feito às pressas; mas não estraga em nada a série no geral.


Já a FOX vem com uma proposta um pouco mais sombria. SleepyHollow traz à tona a lenda do cavaleiro sem cabeça, mas, digamos, com um universo estendido. Na série a cidade começa a presenciar misteriosos assassinatos. Crane, que teve seu destino ligado a um soldado mascarado depois de uma sangrenta batalha, volta à vida através de uma magia que sua mulher lhe fez 200 anos atrás. Aparentemente a cidade esteve no epicentro da guerra da independência e George Washington possuía mais mistérios do que se imaginava. Icabogh Crane precisa se unir a Tenente Mills para poder resolver esses misteriosos assassinatos que envolvem magia negra e os quatro cavaleiros do apocalipse. Um roteiro forte, e citações e referências a história dos Estados Unidos são o ponto forte da série que foca a desconfortável relação de um soldado do século XVIII com a modernidade do século XXI.


A NBC resolveu fazer mais do mesmo com Drácula. Usando como base o livro de Bran Stroker, Drácula volta à vida numa série repleta de luxuria, acordos escusos e fortes uniões de personagens que durante alguns séculos foram inimigos. Jonathan Rhys Meyer (Henrique VIII da série Tudors) dá a vida ao personagem título com um toque de modernidade ligada à antigas tradições. O piloto foi ao ar esta semana e já nos primeiros 10 minutos notamos que em nada lembra as funérias histórias vampíricas que tem nos bombardeado ultimamente. Drácula volta com sede de vingança (Vendeta como foi mencionado). Adotando o nome de Alexander, Drácula está atrás dos membros de uma ordem chamada Ordem do Dragão, responsáveis pela morte de seu grande amor, ressuscitado na pele da doce Mina. Todos nós conhecemos a história, resta esperar para saber que modificações a NBC nos trará. Mas não se assustem, ao menos por enquanto, ele não brilha no sol.


Falando em Tudors, parece que a sede de conhecimento da época de Henrique VIII não cessa. Reign, nova série da CW, e minha aposta mais quente, conta a história de Mary Stuart, rainha da Escócia na época em que a mesma era independente da Inglaterra e sua principal inimiga A série se passa no conturbado episódio em que Mary fora prometida para o filho de Henrique VIII dando início a um conflito religioso entre a Inglaterra protestante e a Escócia católica. Com 15 anos, Mary foi obrigada a abandonar o convento onde morava e seguir para a França a fim de conhecer seu futuro marido, o príncipe Francis. Não fugindo de suas origens a CW nos brinda com triângulos amorosos, conflitos políticos e magia. Para reforçar isso, há a aparição de Nostradamus como conselheiro da Rainha que, depois de uma visão, organiza planos para que Mary não se case com seu filho. Além de um roteiro sério, figurinos e locações belíssimas, o canal nos brinda com uma trilha sonora jovem, vibrante e alegre, contraponto com as intrigas e traições da corte francesa.

Além dessas, outras séries merecem destaque como Agents ofShields (com um Phil Coulson tendo que explicar sua milagrosa sobrevivência),Atlantis (Com mitos e lendas Gregas, a série se passa na cidade perdida de Atlantida), Tomorrow people (Que apesar de tratar de mutantes, é algo completamente diferente dos estudantes do professor X) e Bruxas de East End (Uma família de bruxas tentando encontrar caminhos para burlar uma terrível maldição). Há ainda as já consagradas Revolution, que em sua segunda temporada parte do ponto pós bomba nuclear e Onde Upon a Time, onde Emma precisa enfrentar seus medos para salvar seu filho das mãos de Peter Pan.

Programas não faltam. Muitas outras séries novas e renovadas estão com fôlego novo para essa, que promete ser uma das melhores temporadas para aqueles que não perdem a oportunidade de entretenimento de qualidade.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A Liturgia de uma Telenovela

Por José Vitor Rack

A telenovela moderna nasceu, floresceu e se desenvolveu no Brasil, de modo a tornar-se o nosso mais importante e difundido produto audiovisual. Na cultura brasileira ela só perde em relevância e influência para a música, deixando na poeira o teatro e o cinema.
Com o mundo sendo sacudido pela revolução digital, o produto telenovela parece ter perdido fôlego. Como costuma dizer um amigo que trabalha no ramo, novela é língua morta. Sendo mais radical, a própria grade de programação é algo em desuso.
Eu posso gravar aquele capítulo que eu estava aguardando na minha HD para ver depois. Ou posso ver pelo YouTube. Ou ainda no site da própria emissora. Ou posso fazer como muitos já fizeram e continuam fazendo: para de ver novelas, ao menos do modo convencional. Pagando menos de R$20,00 mensais eu posso ver várias novelas e todos os filmes que eu quiser pelo NetFlix. Posso jogar meus games ou ver meus seriados em DVD.
O cenário é amplamente desfavorável aos rituais que cercam uma novela. E eles já foram muitos. Essenciais para a quase que sacralização do gênero no Brasil.
O capítulo ia ao ar mostrando a última cena do capítulo anterior, o famoso gancho. Este é um dos raros rituais que se perpetuaram e continuam sendo respeitados.


Depois desta amostra das emoções que seriam ali apresentadas, entrava a abertura, ligeiramente maior do que é hoje, e o primeiro intervalo comercial. Aí sim, as cenas inéditas iam ao ar, com a vinheta apresentando o número daquele capítulo. Se por acaso o autor da novela estivesse doente ou fosse afastado por algum motivo qualquer, esta vinheta também informaria quem era o substituto através da frase “Capítulo escrito por fulano de tal”.
Findo o capítulo, entrava outra vinheta dizendo a frase tão famosa: A seguir, cenas dos próximos capítulos. E tome mais um comercial. E o incrível é que quase ninguém mudava de canal. Todos seguiam esperando as tais cenas, quase todas mudas, abafadas por alguma música da trilha sonora que precisava ser promovida.


As músicas nacionais tocavam até a metade da novela, sendo substituídas pelas internacionais que seguiam até o fim. Música internacional era quase que proibida na abertura de uma novela.
Depois das cenas dos próximos capítulos, a abertura era repetida com os créditos completos de toda a equipe técnica. A abertura não trazia os nomes de todos os atores, apenas dos vinte ou trinta mais importantes. Todos os outros vinham no final, como elenco de apoio.
Em Mandala (TV Globo, 1987/1988, 20 horas, de Dias Gomes) os nomes de Marcos Breda e Raul Cortez não constavam da abertura, ainda que Hans (Breda) e Pedro (Cortez) fosse praticamente co-protagonistas da novela. Motivo? Eles entraram na novela já começada. E, mais um ritual, não se costumava mexer em abertura de novela.
A novela das seis começava às 17h50min. A das sete às 18h50min. A das oito às 20h00 em ponto. Igualmente a das dez. Os capítulos eram mais curtos e as cenas mais longas. Poucas novelas passavam de 180 capítulos.
Era outro mundo. Um mundo sem internet, com apenas quatro ou cinco opções de canais de TV e umas dez emissoras de rádio. Um mundo onde as pessoas liam jornais e revistas de papel e costumava-se mandar cartões de natal.

Um mundo ainda não extinto, mas que já começa a dar sinais claros de estar em avançado estado de decomposição.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A virada de Claudia Raia


Por Flávio Michelazzo

Não é surpresa para mim que Claudia Raia esteja na boca do povo. Considero-a uma atriz dedicada, versátil e talentosa, e conseguiu fazer da sua Lívia Marini um sucesso nessa reta final da novela "Salve Jorge", escrita - com um roteiro muito mais, digamos, "turbinado" que de costume - por Gloria Perez e dirigida - mal - por Marcos Schechtman.

A arqui-vilã que elimina suas vítimas de uma maneira um tanto quanto inovadora na TV aberta, injetando um coquetel de drogas letais na carótida de quem atravessa seu caminho, começou fria, dura, engessada, e, após a eliminação de Jéssica (Carolina Dieckmann), por medo de ser entregue às autoridades, fez com que a personagem finalmente mostrasse a que veio. Claudia ganhou mais cenas, mostrou o que o público já sabe que ela pode fazer, que era muito além de ficar xingando sua quadrilha pelo telefone e se fazendo de boazinha para a sociedade. O papel de Claudia, até o momento, era tão importante quanto o de Irina (Vera Fischer), que passa capítulos a fio sentada atrás de uma cortina fazendo a contabilidade da "buate".

Mas foi ao cruzar seu caminho com o de Théo (Rodrigo Lombardi) - o "cara" quarentão que mora com a mãe super-protetora e é infiel - que a personagem passou a dominar a cena. A paixão obsessiva da vilã pelo mocinho tem rendido os melhores (?!) momentos da trama, e Claudia está tirando todo proveito disso. Lívia viu seu coração de gelo ser jogado numa churrasqueira e está fazendo de tudo para ir para o espeto e ser a carne mais pedida no rodízio de Théo. Para fechar com chave de ouro, uma música de Luís Miguel, que já embalou com outras canções, cenas românticas de Claudia em "Deus nos Acuda" e "Belíssima". É... Bate e fica. Literalmente.



Apesar de particularmente não ter gostado, num geral, da novela, achei que ela começou muito bem, depois desandou, e agora voltou a ficar interessante. Uma pena não ter feito jus a tantos talentos que foram sendo desperdiçados enquanto poderiam ter rendido ótimos momentos. Felizmente, Claudia Raia, uma grande atriz, acabou não sendo tão injustiçada assim. Resta saber qual será seu final. E torcer para que venham trabalhos muito melhores tanto para Claudia Raia quanto para Gloria Perez. Não necessariamente juntas.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Lado a Lado - Os negros nas telenovelas.


Por Guilherme Fernandes

A emancipação feminina e o divórcio em “Escalada” (TV Globo, 1975, de Lauro César Muniz); a naturalização da homossexualidade em “Brilhante” (TV Globo, 1981, de Gilberto Braga); o modismo de “Dancin’Days” (TV Globo, 1978, de Gilberto Braga). Esses exemplos mostram a radicalização de propostas iniciadas com alguns folhetins. Pensando nessa radicalização, gostaria de indicar “Lado a Lado” (TV Globo, 2012, de João Ximenes Braga e Cláudia Lage) como um marco televisivo na discussão da cultura negra e da abolição da escravatura – embora a novela inicie já nos tempos da República, em 1903, para ser mais exato.

Os livros “Helena” (1876) de Machado e Assis e “Senhora” (1875) de José de Alencar ganharam diversas versões para a televisão, inclusive no seu período não-diário. Os romances tinham como tempo e espaço o Rio de Janeiro de 1860-1970, na obra de José de Alencar, que chega a citar a Guerra do Paraguai (1864-1870), e 1859, no caso de Machado de Assis. As obras, e suas adaptações, não têm a discussão da Abolição como foco. Ainda assim, trazem personagens negros interpretando mucamas, guarda-costas ou figurantes – para compor o cenário do século XIX.

“A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844, também (e obviamente) não retratou (os problemas da) a escravidão. Contudo, em sua segunda adaptação pela TV Globo, em 1975 (a primeira foi em 1965, adaptada e dirigida por Otávio Graça Mello), Marcos Rey insere elementos da crônica “Memórias da Rua do Ouvidor” (de 1878, também de Macedo) para retratar a luta abolicionista. Rey transfere o romance para os anos de 1866 a 1868 e também aborda a Guerra do Paraguai. O escravo Simão (Haroldo de Oliveira), apaixonado por Duda (Léa Garcia), não via com naturalidade o regime escravista e sempre fugia do capitão-do-mato João Bala (Jaime Barcelos). O mocinho da trama, Augusto (Mário Cardoso), foi transformado em um dos heróis da abolição, da mesma forma que Leonardo (Eduardo Tornaghi), que liderou uma campanha para a libertação dos negros e acabou sendo morto por João Bala. Estranhamente (?), Carolina, a moreninha, foi vivida por duas atrizes que nada têm de morena – Marília Pera em 1965 e Nívea Maria em 1975. Essa foi a primeira representação do movimento abolicionista, narrado como uma luta de brancos progressistas e de estudantes. No último capítulo foi mostrada a luta de estudantes a favor da Lei do Ventre Livre, a alforria de Simão e Tobias (Sidney Marques, jovem alfabetizado que de posse da carta vê a possibilidade de ser ator do teatro Alcazar). Duda e Simão se casam, têm um filho de nome Palmares, que, mesmo sem a aprovação da Lei do Ventre Livre, ganha a carta de alforria. O fim romântico de “A moreninha” mostra a “bondade” branca e a “conformação” negra. Estes, gratos pela liberdade!


O romance “A Escrava Isaura”, do autor abolicionista Bernardo Guimarães foi publicado em 1875, treze anos antes da Lei Áurea. Isaura é mestiça, filha da escrava Juliana com o português Miguel. Em sua versão televisiva, novamente, a atriz escalada, Lucélia Santos, não é morena, como na obra literária. Gilberto Braga, ao escrever a novela para a Rede Globo em 1976, é fiel ao livro nesse sentido. Os personagens negros na obra ou eram protetores de Isaura, como Januária (Zeni Pereira) uma espécie de mammie dos filmes norte-americanos, ou antagonistas (vilãs) Rosa (Léa Garcia), uma escrava invejosa dos privilégios de Isaura.

O pesquisador Joel Zito Araújo observou que os negros da trama não tinham orgulho de sua raça e mostravam-se inferiores aos seus senhores. Uma possível exceção era a vilã Rosa, que tinha consciência de sua condição escrava e por isso fazia de tudo para fugir do tronco, ou seja, dormia com todos os homens (do sinhozinho ao capataz) e infernizava a vida de Isaura. Chega um dia em que Álvaro, na condição de senhor, resolve libertar todos os escravos e propõe que eles continuem em sua fazenda, com remuneração e direito a um pedaço de terra.


A trama praticamente não refletiu os costumes negros. Januária era a única que praticava religião de matriz africana. Também não se discutiu a resistência à escravidão e a abolição foi narrada, mais uma vez, como uma luta dos brancos “bondosos”. O último capítulo mostrou a gratidão dos negros ao senhor Álvaro; na última cena, um beijo de Isaura e Álvaro, com os negros dançando ao redor. Destaque para a abertura da trama, com quadros do pintor francês Jean-Baptiste Debret e, especialmente, a música “Retirantes” de Jorge Amado e Dorival Caymmi, que representa os lamentos dos escravos.

A próxima telenovela a abordar a escravidão foi “Sinhazinha Flô” de Lafayette Galvão. Essa trama celebrou o centenário de morte de José de Alencar e se baseou em três obras dele: “A Viuvinha”, “Til” e “O Sertanejo”. Dirigida por Herval Rossano, a trama foi ambientada em 1880, época de grande efervescência política no Império Brasileiro. A abolição foi o fio condutor de toda a trama. A partir daí, as tramas abolicionistas passaram a demonstrar um papel mais ativo no negro na luta por sua liberdade. A novela também retratou a luta pela emancipação feminina. Juca (José Maria Monteiro) foi o personagem que mais lutou pelo fim da escravidão, inclusive foi enviado pelo próprio André Rebouças (personagem da História do Brasil, um engenheiro que funda no Rio de Janeiro uma associação pró-abolição, com Joaquim Nabuco e outros abolicionistas. A mãe de Rebouças era uma escrava alforriada). Já Flor, a sinhazinha Flô (Bete Mendes) era uma mulher a frente do seu tempo. Como boa parte das tramas das 18h, havia um triângulo amoroso que foi se desenvolvendo ao longo da narrativa, formado por Flor, Arnaldo (Eduardo Tornaghi) e Jorge (Márcio de Lucca), todos vividos por atores brancos. Novamente o estereótipo do branco como responsável pela libertação dos negros do cativeiro e da sua condição de pária, como atesta Joel Zito Araújo.

Outra importante ruptura na representação do escravo negro foi “Sinhá Moça” de Benedito Ruy Barbosa, exibida em 1986, dez anos após o sucesso de “Escrava Isaura” e novamente com Lucélia Santos e Rubens de Falco. “Sinhá Moça”, baseado no romance homônimo de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, é ambientada no interior paulista em 1886, dois anos antes do fim da escravidão.

Sinhá Moça (Lucélia Santos) é filha de Ferreira, o barão de Araruna (Rubens de Falco). Apaixona-se por Rodolfo (Marcos Paulo), um republicano que sem que ninguém saiba atua como o “Irmão do Quilombo”, libertando escravos do engenho. Sinhá Moça, a frente do seu tempo, também luta pelo fim da escravidão, a contragosto de seu pai. Embora o cenário principal seja composto por brancos, alguns personagens negros adquiriram bastante destaque na trama. O ex-escravo Rafael (Raymundo de Souza), adota o nome de Dimas e retorna à cidade com o intuito de vingar-se do barão. Rafael, na verdade é filho do barão com a escrava Maria das Dores (Dhu Moraes), passou a infância ao lado de Sinhá Moça e depois foi vendido pelo pai.

A primeira cena da trama mostra a morte de Pai José (Milton Gonçalves) no tronco. Pai José era considerado rei em sua terra natal, quando foi trazido como escravo ao Brasil. Na trama, tinha dois filhos, Justino (Antonio Pepeu) e Fulgêncio (Gésio Amadeu); Maria das Dores era sua neta e Rafael seu bisneto. Pai José não pediu clemência, foi forte e apanhou até que o feitor Bruno (Walter Santos) não aguentou mais. No leito de morte, revela a Rafael que ele é irmão de Sinhá Moça. A partir daí, os escravos partem para vingar a morte de Pai José. O último capítulo foi no dia 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. De forma diferente às demais produções, não foi mostrado um conformismo (ou gratidão) dos escravos. O capítulo também mostrou a morte do barão que morre na senzala, em chamas. A destruição da senzala também representou a libertação dos escravos que haviam sido mortos ali, entre eles Pai José. Em seguida, uma fila de escravos libertos, liderados por Nhá Balbina (Ruth de Souza), aparece andando pela estrada, vagando por um destino. De outro lado, diversos imigrantes italianos chegam esperançosos à fazenda, sem saber o futuro que os espera.


Na Rede Globo, Benedito Ruy Barbosa escreveu duas telenovelas com a tônica nos imigrantes italianos, “Terra Nostra” (1999), retratando o período pós-escravidão e “Esperança” (2002) com o foco na década de 1930. Em 2006 a Rede Globo produziu um remake de “Sinhá-Moça”, adaptada pelas filhas de Benedito, Edmara e Edilene Barbosa. Milton Gonçalves viveu novamente o Pai José.

Para comemorar os 100 anos da Lei Áurea, a Rede Globo produziu a trama “Pacto de Sangue”, escrita por Regina Braga. O início é em 1870, na cidade fluminense de Campos dos Goytacazes, quando o jovem Antônio (Marcelo Serrado) morre ao ajudar um negro a escapar da fazendo de seu pai, o juiz Queiroz Antunes (Carlos Vereza). Antes de morrer, ele pede ao pai que crie o pequeno escravo Bento (Armando Paiva) como filho. A convivência foi responsável para a revisão de valores do conservador Antunes, que se envolve com a abolicionista Aimée (Carla Camurati). Joel Zito Araújo destaca a trama e diz que foi a que reuniu um maior elenco de atores negros. Havia um grupo de heroínas negras, reunidas no Quilombo Loana, chefiado pela babalorixá Mãe Quitina (Ruth de Souza). Também faziam parte do grupo a líder guerreira Baoni (Angela Corrêa) – verdadeira mãe de Bento – e outros dois líderes, que moravam na cidade, Damião (Haroldo de Oliveira) e Maria (Zezé Mota). O idioma ioruba foi utilizado pelos atores quando estavam no terreiro de Mãe Quitina – traço forte da cultura afro. Os personagens também mostravam orgulho de seu povo. Os romances principais, entretanto, eram protagonizados por brancos.

Apesar de outras tramas também retratarem esse período, uma nova ruptura só aconteceu com “Lado a Lado”, que não se passou no período abolicionista. Graças aos personagens Afonso (Milton Gonçalves) e Tia Jurema (Zezeh Barbosa) o período foi constantemente relembrado. Os personagens eram orgulhosos de sua raça e não demostravam nenhuma espécie de apego ou saudade de seus senhores. Todos os negros da trama, habitantes do Morro da Providência, sentiam orgulho de seu povo e faziam questão de referenciar sua cultura: artística, religiosa, desportista, gastronômica etc. Na contramão, a vilã Constância (Patrícia Pillar), a baronesa da Boa Vista, não estava contente com os tempos republicanos e sentia saudades da época em que era uma senhora de engenho.


A trama de João Ximenes Braga e Cláudia Lage mostrou diversos acontecimentos importantes da história brasileira, especialmente no período de 1903 a 1910. O casal protagonista, vivido por Zé Maria (Lázaro Ramos) e Isabel (Camila Pitanga) tinha suas idas e vindas, sempre com um pano de fundo histórico. Logo nos primeiros capítulos, o cortiço onde Zé Maria e Isabel moravam foi invadido por ordens do presidente Rodrigues Alves, processo conhecido como “Bota - Abaixo”. A demolição aconteceu exatamente no dia do casamento de Zé Maria e Isabel. Zé Maria, que era capoeirista, lutou e acabou preso. O ocorrido não permitiu que ele fosse ao próprio casamento.

Com o fim dos cortiços, os antigos moradores se viram obrigados a ocupar o Morro da Providência, que, na época, já tinha alguns moradores, que haviam participado da Guerra de Canudos. Esses moradores esperavam a casa própria, prometida pelo governo. Uma das vilãs da história, a invejosa Berenice (Sheron Menezzes) e seu namorado Caniço (Marcello Melo Jr.) também viviam no morro e foram os responsáveis pelo rompimento da ordem do casal Zé Maria e Isabel.

Zé Maria foi o verdadeiro herói em praticamente todos os episódios retratados pela trama. Assim foi com a Revolta da Vacina (1904) e Revolta da Chibata (1910). Isabel, por sua vez, foi uma das precursoras do samba. O samba que conhecemos hoje teve seu surgimento basicamente em 1916 com a gravação de “Pelo Telefone” de Donga. Isabel, segundo a jornalista e pesquisadora de samba, Maria Fernanda França, dançava uma mistura de Lundu, Maxixe e Batuque, danças africanas que em sua “brasilidade” deu origem ao nosso genuíno samba. Chico (César Mello), que havia lutado com Zé Maria na revolta da Chibata, viveu o famoso episódio em que um jogador negro do Fluminense foi pintado de branco (pó de arroz) para participar de uma partida de futebol. Os dois elementos cruciais da identidade brasileira, o samba e o futebol – estavam presentes na narrativa. Os cordões carnavalescos, que mais tarde deram início às escolas de samba, foram mostrados em duas oportunidades, tanto em 1903 como em 1911, sendo severamente reprimidos pela força policial.


Todos esses elementos identitários foram mostrados na abertura da telenovela, seguramente a melhor dos últimos anos. Ao som do samba enredo da Imperatriz Leopoldinense, campeã do carnaval de 1989, “Liberdade, Liberdade, abra as asas sobre nós”, à época comemorando o centenário da abolição, a abertura mesclava elementos da cultura negra e da vida na cidade. A expressão da arte e as vaidades. Ressaltando o batuque, o samba, a capoeira e o futebol como elementos brasileiros. A trilha sonora também foi primorosa, com destaque para a gravação original de Beth Carvalho do samba “O mundo é um moinho” de Cartola.

Enfim, os 154 capítulos desta trama nos reservaram grandes surpresas. Mas, o grande legado de Lado a Lado foi apresentar outra versão para a história do negro. Mostrar que não existiu nenhum conformismo em relação aos senhores de engenho e que a luta abolicionista não foi uma luta empenhada somente por brancos. “Lado a Lado” mostrou o orgulho pela raça e pelo passado. Importantes traços culturais como a música, a dança, a gastronomia, a capoeira e o candomblé foram tratados com respeito. Destaque para o fato de o tradicional romance novelesco ser protagonizado por um casal de negros, ruptura que nem “Pacto de Sangue” conseguiu mostrar. Para ser justo com a trama como um todo, também tenho que destacar o papel pró emancipação feminina. Laura (Majorie Estiano) lutou contra um casamento de fachada, lutou para trabalhar fora de casa, levantou a discussão sobre divórcio, enfim, eis um outro mérito da novela.

Embora a telenovela se passasse na década de 1910 percebemos ainda hoje o comportamento de muitas Constâncias. Ver um deputado recentemente afirmar que o lugar da mulher é no seio da família cuidando dos filhos e impossibilitadas de trabalharem fora é mostrar que ainda vamos brigar pelos mesmos assuntos que Laura, Isabel e Edgar fizeram nos primeiros anos da República. Lado a Lado deixou um gosto de quero mais. Que venham as próximas tramas de João Ximenes Braga e Cláudia Lage, juntos ou separados.

Aos que se interessam pela trajetória do negro na telenovela brasileira, é de fundamental importância a leitura de “A negação do Brasil” (Senac SP, 2000) de Joel Zito Araújo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Trinta anos de novelas no SBT - Parte II


Por FÁBIO COSTA

Na primeira parte, falei da primeira leva de produções da teledramaturgia do SBT, entre 1982 e 1985. Entre 1990 e 1991, a emissora reprisou algumas dessas novelas dos primórdios à tarde e no início da noite, enquanto preparava a retomada do departamento sob a batuta de Walter Avancini, que ainda em 1990 estreou Brasileiras e Brasileiros, texto seu em parceria com Carlos Alberto Soffredini.

A proposta era fazer uma novela cuja trama fosse centrada nas camadas mais baixas da população e seus problemas de sobrevivência. Os protagonistas eram Ângelo (Fúlvio Stefanini) e Totó (Edson Celulari), que para subirem na vida resolvem promover luta livre entre mulheres, treinando beldades para as disputas, dentre as quais Tereza de Ogum (Isadora Ribeiro). Falar apenas dos pobres não deu muito certo e pouco tempo depois da estreia entraram novos personagens, com destaque para a trama da jornalista Paula (Lucélia Santos) e seu romance com o milionário Ramiro (Rubens de Falco). Tendo perambulado pela grade da emissora em diversos horários, a novela terminou como um grande insucesso que em outras circunstâncias talvez tivesse vingado.

Pela mesma época foram planejadas outras novelas, mas nenhuma foi ao ar. As outras produções de teledramaturgia foram duas séries: o revival de Alô, Doçura com Virgínia Novicki e César Filho e a ótima O Grande Pai, original argentino de Gustavo Barrios (o mesmo de Chiquititas) com Flávio Galvão e Débora Duarte.

Foi em 1994 que houve enfim a verdadeira retomada do setor de teledramaturgia do SBT, sob o comando de Nilton Travesso. Desta vez o caminho escolhido foi o dos remakes, resgatando histórias conhecidas do grande público, tendo assim garantia de interesse e de uma parcela da audiência. A novela escolhida para inaugurar o novo ciclo foi Éramos Seis, adaptação de Sílvio de Abreu e Rubens Ewald Filho do romance homônimo de Maria José Dupré, que até ali já havia ganhado outras três versões para a TV.

Dirigida por Travesso, Henrique Martins e Del Rangel, a novela estreou em maio de 1994 trazendo Irene Ravache na pele de Dona Lola, mulher sofrida que vive ao lado do marido Júlio (Othon Bastos) e dos quatro filhos: Carlos (Jandir Ferrari/Caio Blat), Alfredo (Tarcísio Filho/Wagner Santisteban), Isabel (Luciana Braga/Carolina Vasconcelos) e Julinho (Leonardo Brício/Rafael Pardo). A história acompanha a vida da família por anos e fio, tendo como pano de fundo a transformação de São Paulo e os acontecimentos da vida da cidade entre as décadas de 1910 e 1940. Foi muito bem produzida e consagrou-se como uma das melhores novelas da emissora (a melhor, para alguns) e mesmo da teledramaturgia brasileira.


Em dezembro de 1994 estreou As Pupilas do Senhor Reitor, cuja base era o romance homônimo de Júlio Dinis, em adaptação de Bosco Brasil, Ismael Fernandes e Aziz Bajur contando ainda com a versão escrita por Lauro César Muniz para a TV Record em 1970/71 como ponto de partida e referência. Juca de Oliveira viveu o Padre Antônio, o “Reitor”, responsável pela tutela das jovens Guida (Débora Bloch) e Clara (Luciana Braga), apaixonadas pelos filhos do sitiante José das Dornas (Elias Gleizer): o médico Daniel (Eduardo Moscovis) e o rústico Pedro (Tuca Andrada). Outra produção muito bem cuidada e de grande qualidade, recriando uma aldeia portuguesa no século XIX em detalhes.



Em julho de 1995 foi a vez de estrear Sangue do Meu Sangue, nova versão da novela escrita por Vicente Sesso para a TV Excelsior em 1969/70. No final do Segundo Reinado (ou seja, na década de 1880), Carlos Rezende (Jayme Periard) sobrevive a um atentado e pretende desmascarar o vilão Clóvis Camargo (Osmar Prado), que aplicara um golpe no banco de propriedade de seu sogro, Mário Albuquerque Soares (Rubens de Falco). Clóvis não ama a esposa Júlia (Lucélia Santos) e quer que todos pensem que ela está louca, para que possa se livrar dela. O filho mais velho de Carlos, Lúcio (Tarcísio Filho), se envolve com a atriz Pola Renon (Bia Seidl), que no passado fora amante de seu pai. Outra novela muito bem feita, mas que não conservou uma “graça” especial da versão original, em que Carlos e Lúcio eram interpretados pelo mesmo ator, Francisco Cuoco, enquanto aqui cada personagem teve um intérprete diverso.



Em 1996 o SBT estreou três produções no mesmo dia, 6 de maio. Às 18h30, Colégio Brasil, de Yoya Wursch e Roberto Talma, dirigida por este, fruto de uma parceria com a produtora independente JPO. No colégio do título, as trajetórias dos alunos, professores e funcionários, que se relacionam entre si. Algumas relações têm base no passado, como a do professor Lancellotti (Giuseppe Oristânio) com a inspetora de alunos Nair (Maria Padilha). O diretor é Edmo (Edwin Luisi), boa-gente, mas muito sério, pai de Tininha (Ana Kutner), moça que se envolve com o tímido Manoel Boi (Taumaturgo Ferreira), agregado da escola.



Às 20h era a vez de Antonio Alves, Taxista, adaptada por Ronaldo Ciambroni de original de Alberto Migré (o mesmo autor da primeira novela diária brasileira, 2-5499 Ocupado, exibida aqui em versão de Dulce Santucci em 1963). Outra parceria, aqui com a argentina Ronda Studios, inclusive com os trabalhos sendo feitos na Argentina. Fábio Jr. era Antonio Alves, o taxista que cuidava da família e se apaixonava por Mônica (Guilhermina Guinle), enquanto despertava a cobiça da madrasta da jovem, Claudine (Branca de Camargo, em papel inicialmente destinado a Sônia Braga).




Em seguida ia ao ar Razão de Viver, que era uma adaptação de Meus Filhos, Minha Vida, que tão bons resultados obteve em 1984/85. Analy Alvarez e Zeno Wilde foram os responsáveis pelas modificações no texto de Ismael Fernandes, com direção geral de Nilton Travesso e Henrique Martins. A sofrida Dona Luzia era agora Irene Ravache, que de certa forma revivia sua Dona Lola. Os filhos eram Marco Ricca (André), Petrônio Gontijo (Pedro) e Gabriel Braga Nunes (Mário).


No final de 1996 estreou Dona Anja, adaptação do romance de Josué Guimarães que se passa na década de 1970 numa cidade do interior gaúcho em que os problemas sexuais e afetivos dos moradores se mesclam à discussão em torno do divórcio no país e a situação política nacional, ainda em pleno regime militar. Dona Anja (Lucélia Santos), ao enviuvar do Coronel Quineu Castilhos (Jonas Mello), passa a se entregar aos homens da cidade, a fim de aplacar seu apetite sexual insaciável.





1997 foi o ano de Os Ossos do Barão, escrita por Walter George Durst a partir da obra de Jorge Andrade, que de peça teatral originou uma telenovela global em 1973/74. Antenor Taques Redon (Leonardo Villar), um velho quatrocentão falido e caduco, assiste às transformações sociais do Brasil dos anos 50, com imigrantes como seu ex-colono italiano Egisto Ghirotto (Juca de Oliveira) tomando as rédeas da economia. O sonho de Egisto é possuir um título de nobreza e ser aceito entre a alta sociedade paulista por quem é e não apenas pelo dinheiro, que já possui em quantidade. O casamento de seu filho Martino (Tarcísio Filho) com Izabel (Ana Paula Arósio), neta de Antenor e bisneta do Barão de Jaraguá, torna seu sonho realidade. Ainda no elenco Cleyde Yaconis, Othon Bastos, Clarisse Abujamra, Petrônio Gontijo, Bia Seidl, Laerte Morrone, Denise Del Vecchio, Mayara Magri, Daniela Camargo, Dalton Vigh, Imara Reis, Ewerton de Castro, Jussara Freire e Rubens de Falco.

Ainda em 1997 estreou Chiquititas, sucesso infantojuvenil que permaneceria no ar até 2002, com sucessivas temporadas, e era gravado na Argentina, terra de origem da história. Uma parceria do SBT com a Telefe, emissora local. Flávia Monteiro interpretava Carolina, a jovem diretora do Orfanato Raio de Luz, verdadeira mãe para as crianças que lá viviam. Foram aqui revelados diversos talentos que hoje prosseguem carreira em outras emissoras, como Fernanda Souza, Carla Diaz, Sthefany Brito, Kayky Brito e Paulo Nigro.



Enquanto iam ao ar seguidas temporadas de Chiquititas, ou seja, entre o fim dos anos 90 e o começo da década de 2000, o SBT produziu outras novelas, além de ter prosseguido com a exibição das mexicanas dubladas. Mas esta fase, que vem até os dias de hoje, abordarei na próxima (e última) parte. Até lá!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Que venha a revolução.

ATENÇÃO: Contem alguns Spoilers.

Nós somos escravos. Somos escravos da tecnologia, dos meios de transporte, da energia. Viver em um mundo em que isso não exista seria um inferno. Impensável. Não para as mentes de JJ Abrams (Fringe, Lost e recentemente Star Wars) e Erick Kripke (Supernatural) e para as mãos habilidosas de Jon Favreau (Homem de Ferro). O trio nos apresenta Revolution, um mundo pós - apocalíptico em que as pessoas, há 15 anos vivem sem nenhuma fonte de energia ou tecnologia.

Na série, Charlie (Tracy Spiridakos) vê seu mundo virar de pernas pro ar quando seu pai Ben (Tim Guinee) é assassinado e seu irmão Danny (Grahan Rogers) é sequestrado por Tom Neville (Giancarlo Esposito, mais conhecido como espelho falante de Once Upon a Time), comandante chefe de uma milícia comandada por Monroe (David Lyons, The Cape), que tenta, a todo custo entender o blackout e encontrar uma fonte de energia. E para isso não mede esforços nenhum, até mesmo trair seu melhor amigo. Para Charlie conseguir resgatar seu irmão, seu pai lhe fala, antes de morrer, que tem um irmão Milles (Billy Burke – aka Charlie Swan) que poderá lhe ajudar. Então Charlie sai a procura desse tio e junto com ele tenta resgatá-lo.

A trama não parece lá muita coisa à primeira vista. O piloto não tem um “chama” muito forte, mas o que me chamou a atenção foi justamente o fato de ver como seria um mundo pós tecnologia. Viveríamos como na idade média, mas sabendo que já tivemos todo o conforto que esta ‘senhora’ pode nos trazer. O caos surgiu, vilas feudais voltaram à moda, e pasmem, a moral e a civilidade perderam lugar para a teoria de Darwin – Somente o mais forte sobreviverá.
Onde deixei meu ursinho?

A protagonista também não é o tipo de personalidade que talvez prenda a atenção. Ela é muitas vezes infantil e chorona, mas contrabalança com Milles, o tipo de cara “durão” que toma as rédeas da missão salvando parte da produção. Outra coisa que não combinou muito foi David Lyons como vilão. Ele tem um rosto bonzinho demais para alguém poderoso, frio e calculista como o personagem Monroe deve ser, além de que nos constantes ‘flashbacks’ da série ele, nitidamente demonstra ser fraco, submisso e completamente dedicado ao seu grande amigo (Que não vou contar quem é para não estragar uma das boas surpresas da série).
Você não é a Bella, não é?

O roteiro pode ser previsível, mas com algumas boas surpresas. A série não é de todo ruim, seu ritmo acelerado ajuda a não ficarmos muitos episódios ‘no escuro’ imaginando sobre os problemas causados pelo blackout.

Li que o roteiro é previsível demais e que, para um mundo apocalíptico, é tudo limpo demais, mas o apocalipse não se deu por conta de um vírus que transformou todo o mundo em zumbis ou vampiros, o apocalipse aconteceu apenas pela falta de luz, não tirou das pessoas a capacidade de “tomar banho” nem transformou as cidades em grandes cidades fantasmas, apenas tirou das pessoas a luz e o conforto.

É um syfy, talvez as pessoas que não gostem do gênero torçam o nariz para a série, mas é um bom entretenimento. Em uma era de zumbis e vampiros, assistir algo um pouco mais ‘humano’ é bom.

A série tem potencial e espero que JJ Abrams mantenha este ritmo à produção e não se perca como aconteceu com Lost. É esperar para ver.

Vanessa Carvalho.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Elenco, Texto e Direção Cheios de Charme


Por Emerson Felipe.

Muitos críticos e céticos há tempos profetizam o fim da telenovela em razão dos baixos níveis de audiência em comparação com os dos anos 70 e 80, o esgotamento das fórmulas do folhetim clássico e o acesso a novas plataformas, como internet. Ainda assim, vez em quando surge uma novela diferenciada para pôr em xeque tais assertivas e provar que o gênero ainda é capaz de mobilizar com fervor o público: assim foi Cheias de Charme, que conquistou o público na faixa das 7. A saga das três empregadas domésticas, Maria da Penha, Maria do Rosário e Maria Aparecida, que se tornam estrelas musicais da noite para o dia, garantiu excelente audiência e uma intensa e positiva repercussão nas redes sociais.





As três Marias de Cheias de Charme eram, cada uma a seu modo, fortes e carismáticas, com quem o público facilmente se identificavam. Penha foi defendida com muita emoção por Taís Araújo: a típica brasileira que vai à luta, uma batalhadora que vence na vida com o próprio esforço, apoiada em valores humanos. Leandra Leal construiu muito bem a decidida Rosário, cuja grande aspiração era tornar-se cantora, representando a trajetória de muitos brasileiros que realizam um sonho com os próprios méritos sem lançar de meios insidiosos. E Isabelle Drummond cada vez melhor enquanto atriz, ao criar a doce e romântica Cida, por vezes ingênua, mas com personalidade e sem cair no lugar-comum da mocinha fraca e estereotipada. Unindo seus sonhos e ideais, construíram uma das parcerias mais acertadas já vistas: o divertido grupo musical As Empreguetes, cujos hits “Vida de Empreguete” e “Maria Brasileira” marcaram a novela e fizeram sucesso também fora dela.

Para balançar com as estruturas do super trio de protagonistas e brigar de igual, só mesmo uma vilã de peso: o furacão Chayene, interpretada com muito charme por Cláudia Abreu. A experiente e carismática atriz deitou e rolou com o delicioso texto, explorando toda a caricatura possível da extravagante cantora e super estrela de techno-brega que vê o seu reinado ameaçado pelas Empreguetes. Os apelidos jocosos que atribuía aos seus desafetos e mesmo aos seus próximos (curica, urubu, franguinho) e as divertidas armações com a sua fã Socorro (Titina Medeiros) eram puro deleite. Como não rir da incapacidade da Brabuleta de falar corretamente o nome de Rosário?! "Rosalba", "Rosete", "Rosene", "Roxana", "Rosisca", "Rosiranha" e "Rosimunda" foram  algumas das pérolas de Chayene. Só uma super atriz versátil e competente como Cláudia Abreu para se entregar de corpo e alma ao nonsense, dançando e cantando a plenos pulmões, e fazer de Chayene uma grande personagem.

Parte do sucesso e importância de Chayene se deve também à maravilhosa coadjuvante com peso de protagonista: a personal-curica Socorro, vivida com competência pela estreante em telenovela Titina Medeiros. A parceria entre a Brabuleta e a fã maluca SOS deu certo, gerou hiláriaas situações e facilmente caiu nas graças do público. Cômico o momento em que Socorro escapa de um linchamento e surge poderosa das águas do rio cheio de piranhas tal qual Isadora Ribeiro na famosa abertura do Fantástico, assim como o seu visual de Lady Praga ao tentar ser cantora profissional!
  


A direção de Cheias de Charme contribuiu para a construção de um visual único que marcou a novela. O uso constante de briho, plumas, cenários e figurinos exagerados e acessórios extravagantes pela direção de arte resultou numa novela de forte e personalíssimo apelo visual, com um universo próprio e propício a uma história musical. Atrações à parte foram as ''gags'', as edições aceleradas e os surreais sonhos de Chayene, que chegou a virar uma mulher-gorila! Aliás, os já citados hits das Empreguetes junto com os de Chayene ("Vida de Patroete" e "Xote da Brabuleta") e do príncipe das domésticas, Fabian (Ricardo Tozzi), renderam ótimas performances musicais e videoclipes, fazendo de Cheias de Charme uma verdadeira comédia musical. Uma proposta ousada e poucas vezes vistas na televisão, assim como Cambalacho de 1986.

A novel dupla de autores, Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, teceram um texto popular, divertido e de qualidade, dialogando com todas as classes, idades e públicos. Utilizando-se por vezes de narrativa ágil e de tiradas/frases de efeito, e de artifícios ousados como as citadas ''gags'' (filmadas com criatividade pela direção), o roteiro de Cheias de Charme inovou e conquistou o público. Ainda que o texto tenha pisado no freio a partir do fim das Empreguetes, criado entrechos supérfluos - como o súbito e forçado romance entre Penha e Gilson (Marcos Pasquim) - e se repetido, recuperou-se com força total e retomou a criatividade de outrora.  Os autores exploraram com frescor as situações clichês, como a impactante solução do mistério sobre a semelhança física entre Inácio (Ricardo Tozzi) e Fabian, e o sequestro da mocinha no penúltimo capítulo (com um desfecho musical em vez dos tradicionais tiroteios).

Frise-se, ainda, a boa dose entre humor e drama: apesar do predomínio da comédia musical, Cheias de Charme não esqueceu o tradicional drama. A amizade de Penha com a honesta advogada Lígia (Malu Gali em luminosa interpretação), testada ao longo da novela por problemas amorosos e familiares; os entrechos folhetinescos entre Cida e a opressora família Sarmento; e a ruína moral, social e econômica desta última renderam emoção e cenas catárticas em Cheias de Charme. Ademais, o rico texto foi explorado com vigor por Alexandra Richter: com uma interpretação soberba, a atriz mostrou sua versatilidade no drama após bons papéis cômicos, em ótima química com Tato Gabus.




Além de retratar a questão do predomínio da música brega e popular no atual cenário musical - inclusive com participações de artistas do gênero na novela - Cheias de Charme retratou de forma inteligente a ascensão da nova classe C, sem estereótipos forçados. As Empreguetes, após uma vida modesta, ascendem socialmente pelo próprio esforço e talento, enquanto a elite antiética decai economicamente. E com muito bom humor: as madames Sônia e Branca (Mônica Torres), por exemplo, disputam os ''serviços'' do pobretão Sandro (Marcos Palmeira); a empregada Gracinha (Lidi Lisboa) é tratada de igual para igual pelos patrões Ariela (Simone Gutierrez) e Humberto (Rodrigo Pandolfo); e a sedutora periguete Brunessa (Chandelly Braz) finalmente conquista a chefia da Galerie dos Sarmentos. Ademais, os autores foram felizes ao fugir da ideia de que toda a suposta nova classe C é parca de bagagem cultural: tocante a cena em que Penha se emociona com o recital de ópera no Real Gabinete Português de Leitura, ao lado do sofisticado Otto (Leopoldo Pacheco).

O flerte com a internet e outras plataformas como DVD's e pendrives foi outro grande acerto de Cheias de Charme. Muitas tramas desenrolaram-se a partir de tais elementos e só foram contadas e reveladas ao público por meio da interação entre televisão e internet (o lançamento do videoclipe "Vida de Empreguete" se deu não na novela, mas no site oficial de Cheias de Charme;  as campanhas no twitter #EmpreguetesLivres e #EmpreguetesPraSempre entraram nos trend topics). Os autores conseguiram construir uma novela diferente, unindo os elementos básicos do folhetim às atuais tecnologias - o sucesso das 9, Avenida Brasil, não logrou êxito nessa mesma proposta.

Com um texto criativo e moderno antenado com os novos tempos da informatização, um elenco muito bem escalado e uma direção personalíssima, Cheias de Charme tornou-se um dos grandes sucessos das 7. A prova cabal de que a teledramaturgia está longe do fim e que ainda pode surpreender, inovar, recriar e emocionar num cenário demasiadamente industrializado e pasteurizado da teledramaturgia. Cheias de Charme mostra que a telenovela está mais viva do que nunca e muito bem, obrigado.


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