A Rede Globo estreou sua nova
programação há mais ou menos dois meses e trouxe para o público uma nova leva
de programas, entre eles novelas, séries e reality shows. Apresentados em um
mal organizado Vem Aí, as novas atrações vêm estreando ao longo desses dois
meses, já criando assunto para muito debate televisivo. Vamos nos centrar em 5
novos programas globais: Meu Pedacinho de Chão, O Caçador, Superstar, Tá no Ar –
A TV na TV e Geração Brasil. Todos eles, apesar de apresentarem características
“revolucionárias”, têm, em sua essência, a mesma fórmula usada para outras atrações
do gênero.
Meu Pedacinho de Chão estreou
causando barulho. O visual diferente e excêntrico da novela chamou a atenção
inicialmente. Mesmo com todo o diferencial, a novela não anda bem de audiência.
Mas não falemos de ibope. A produção tem a mão inconfundível de Luiz Fernando
Carvalho, diretor conhecido por sua ousadia e originalidade. O texto, de um
inspirado Benedito Ruy Barbosa, voltando com tudo a escrever novelas, é ótimo e
casa bem com a proposta da direção. Apesar de tanta novidade, a novela tem sua
em sua essência marcas clássicas de teledramaturgia, como dramas, romances e
política. O grande diferencial da obra são as várias fontes de inspiração pegas
por Luiz Fernando para compor a novela, que vão desde animações da Pixar, como
Toy Story e Valente, passando por filmes western
até elementos de literatura infantil, como obras de Monteiro Lobato. Isso tudo
sem falar do elenco, com muitos estreantes e alguns medalhões, todos em
excelente sincronia.
O Caçador vem preencher o maior
buraco negro da programação global: o horário de sexta à noite. A série, que
tem José Alvarenga na direção e Marçal Aquino e Fernando Bonassi no roteiro,
tem se mostrado um dos poucos casos de qualidade e originalidade nas séries da
Globo. Um roteiro bem conduzido, personagens densos e uma boa direção são os
elementos que enchem os olhos de quem a assiste. O horário permite mais
ousadia, e é o que a produção nos apresenta. Além disso, atores nem sempre bem
vistos pelos críticos como Cauã Reymond, Cleo Pires e Ailton Graça conseguem
provar seu talento em personagens diferentes dos que costumam interpretar.
Outro fator importante é o fato da série não querer mostrar um estereótipo do
policial e do bandido brasileiro. Tudo parece mais real, mais tragável e menos
exagerado. É uma pena a produção não ter a evidência que merece.
Superstar foi proposto,
principalmente, para cobrir o buraco entre uma temporada de The Voice e outra.
O reality tem mostrado potencial, apresentando bandas com músicas de qualidade
e diversificadas. Mas não vem empolgando tanto quanto seu colega na emissora. A
Globo já declarou que o programa não terá uma segunda temporada. Uma lástima
para aqueles que curtem um programa musical de qualidade, coisa rara na
televisão atual. É claro que os problemas técnicos e as regras bem “flexíveis”
do reality diminuem seus atributos. Apesar do formato diferenciado, o programa
possui a espinha dorsal de um digno programa de calouros.
Tá no Ar – A TV na TV é, sem dúvida,
a maior ousadia já apresentada pela Globo há anos no quesito humor. Comandado e
criado por Marcelo Adnet e Marcius Melhem, Tá no Ar é o típico programa
humorístico que você nunca pensaria em encontrar na Globo: sátira de tudo o que
você pode imaginar, críticas ácidas e politicamente incorreto. Para o
tradicional conservadorismo da emissora, é um passo e tanto. Apesar das
comparações constantes com humorísticos semelhantes como TV Pirata e Casseta
& Planeta, Tá no Ar mostra toda sua originalidade com um humor inteligente
e crítico sem ser ofensivo, poucas vezes visto na televisão. Que o programa
tenha vida longa e que termine sem estar decante, o que geralmente acontece com
humorísticos do gênero.
Geração Brasil, a volta bem
anunciada de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira como autores, tem a missão de
levantar o ibope do horário das sete, que vem mal das pernas desde o remake de
Guerra dos Sexos. A novela se mostra inovadora, aposta em temas “amaldiçoados”
na teledramaturgia, como tecnologia, e tem uma pegada over, com personagens
caricatos e exagerados. Além de mostrar um reality show dentro da novela
apresentado de maneira que se pareça com a transmissão de um reality de
verdade. O elenco é um primor, veteranos grandiosos e jovens atores já
consagrados pela crítica. A trama ainda está se desenrolando e tem muita coisa
ainda para acontecer. O que já se pode dizer é que Geração Brasil pode não
entrar na história como foi com Cheias de Charme, mas com certeza ficará na
cabeça de quem gosta de boa teledramaturgia.
A Globo vem tentando inovar este
ano, além de mostrar mais qualidade em suas novas produções. Depois de um negro
2013, a Vênus Platinada tem tentado consolidar sua liderança, ameaçada não
apenas por concorrentes, mas também por outras mídias, como a internet.
Esperamos mais produções de qualidade para 2014, e que a Globo continue
surpreendendo os adoradores da boa televisão.
A temporada de séries (Ou show de TV como queiram) começou
com gratas surpresas (E algumas decepções que logo foram canceladas). Estúdios
de TV sempre em busca de melhores atrações para atrair o público não medem
esforços para que seus programas sejam cada vez mais elaborados, cheios de
efeitos especiais e bons roteiros.
Entre as mais antigas, séries consagradas como Once Upon a
Time fez tanto sucesso que houve necessidade de criar um derivado para que mais
“contos de fadas” pudessem ser trabalhados. Once Upon a time in Wonderland
conta a história de Alice no país das maravilhas sob os olhos dos figurões da
ABC. Trazendo a fórmula que tanto agradou na série original, Wonderland mostra
Alice sendo uma moça de 20 e poucos anos apaixonada pelo gênio da lâmpada do
Aladin que foi sequestrado e é mantido preso pela rainha de copas e Jafar. A
série é um pouco mais rápida já que a proposta é que ela tenha no máximo (Se os
produtores assim acharem conveniente) três temporadas. O roteiro é muito bom,
não deixa buracos além do necessário para manter o mistério e os personagens
são fortes e marcantes. O único ponto fraco da série é em relação aos efeitos especiais,
que parecem mal feito ou feito às pressas; mas não estraga em nada a série no
geral.
Já a FOX vem com uma proposta um pouco mais sombria. SleepyHollow traz à tona a lenda do cavaleiro sem cabeça, mas, digamos, com um
universo estendido. Na série a cidade começa a presenciar misteriosos
assassinatos. Crane, que teve seu destino ligado a um soldado mascarado depois
de uma sangrenta batalha, volta à vida através de uma magia que sua mulher lhe
fez 200 anos atrás. Aparentemente a cidade esteve no epicentro da guerra da
independência e George Washington possuía mais mistérios do que se imaginava.
Icabogh Crane precisa se unir a Tenente Mills para poder resolver esses
misteriosos assassinatos que envolvem magia negra e os quatro cavaleiros do
apocalipse. Um roteiro forte, e citações e referências a história dos Estados
Unidos são o ponto forte da série que foca a desconfortável relação de um
soldado do século XVIII com a modernidade do século XXI.
A NBC resolveu fazer mais do mesmo com Drácula. Usando como
base o livro de Bran Stroker, Drácula volta à vida numa série repleta de luxuria,
acordos escusos e fortes uniões de personagens que durante alguns séculos foram
inimigos. Jonathan Rhys Meyer (Henrique VIII da série Tudors) dá a vida ao
personagem título com um toque de modernidade ligada à antigas tradições. O
piloto foi ao ar esta semana e já nos primeiros 10 minutos notamos que em nada
lembra as funérias histórias vampíricas que tem nos bombardeado ultimamente.
Drácula volta com sede de vingança (Vendeta como foi mencionado). Adotando o
nome de Alexander, Drácula está atrás dos membros de uma ordem chamada Ordem do
Dragão, responsáveis pela morte de seu grande amor, ressuscitado na pele da
doce Mina. Todos nós conhecemos a história, resta esperar para saber que
modificações a NBC nos trará. Mas não se assustem, ao menos por enquanto, ele
não brilha no sol.
Falando em Tudors, parece que a sede de conhecimento da
época de Henrique VIII não cessa. Reign, nova série da CW, e minha aposta mais
quente, conta a história de Mary Stuart, rainha da Escócia na época em que a
mesma era independente da Inglaterra e sua principal inimiga A série se passa
no conturbado episódio em que Mary fora prometida para o filho de Henrique VIII
dando início a um conflito religioso entre a Inglaterra protestante e a Escócia
católica. Com 15 anos, Mary foi obrigada a abandonar o convento onde morava e
seguir para a França a fim de conhecer seu futuro marido, o príncipe Francis.
Não fugindo de suas origens a CW nos brinda com triângulos amorosos, conflitos
políticos e magia. Para reforçar isso, há a aparição de Nostradamus como
conselheiro da Rainha que, depois de uma visão, organiza planos para que Mary não
se case com seu filho. Além de um roteiro sério, figurinos e locações
belíssimas, o canal nos brinda com uma trilha sonora jovem, vibrante e alegre,
contraponto com as intrigas e traições da corte francesa.
Além dessas, outras séries merecem destaque como Agents ofShields (com um Phil Coulson tendo que explicar sua milagrosa sobrevivência),Atlantis (Com mitos e lendas Gregas, a série se passa na cidade perdida de
Atlantida), Tomorrow people (Que apesar de tratar de mutantes, é algo
completamente diferente dos estudantes do professor X) e Bruxas de East End
(Uma família de bruxas tentando encontrar caminhos para burlar uma terrível
maldição). Há ainda as já consagradas Revolution, que em sua segunda temporada
parte do ponto pós bomba nuclear e Onde Upon a Time, onde Emma precisa
enfrentar seus medos para salvar seu filho das mãos de Peter Pan.
Programas não faltam. Muitas outras séries novas e renovadas
estão com fôlego novo para essa, que promete ser uma das melhores temporadas
para aqueles que não perdem a oportunidade de entretenimento de qualidade.
A
telenovela moderna nasceu, floresceu e se desenvolveu no Brasil, de modo a
tornar-se o nosso mais importante e difundido produto audiovisual. Na cultura
brasileira ela só perde em relevância e influência para a música, deixando na
poeira o teatro e o cinema.
Com
o mundo sendo sacudido pela revolução digital, o produto telenovela parece ter
perdido fôlego. Como costuma dizer um amigo que trabalha no ramo, novela é língua morta. Sendo mais
radical, a própria grade de programação é algo em desuso.
Eu
posso gravar aquele capítulo que eu estava aguardando na minha HD para ver
depois. Ou posso ver pelo YouTube. Ou ainda no site da própria emissora. Ou
posso fazer como muitos já fizeram e continuam fazendo: para de ver novelas, ao
menos do modo convencional. Pagando menos de R$20,00 mensais eu posso ver
várias novelas e todos os filmes que eu quiser pelo NetFlix. Posso jogar meus
games ou ver meus seriados em DVD.
O
cenário é amplamente desfavorável aos rituais que cercam uma novela. E eles já
foram muitos. Essenciais para a quase que sacralização do gênero no Brasil.
O
capítulo ia ao ar mostrando a última cena do capítulo anterior, o famoso gancho. Este é um dos raros rituais que
se perpetuaram e continuam sendo respeitados.
Depois
desta amostra das emoções que seriam ali apresentadas, entrava a abertura,
ligeiramente maior do que é hoje, e o primeiro intervalo comercial. Aí sim, as
cenas inéditas iam ao ar, com a vinheta apresentando o número daquele capítulo.
Se por acaso o autor da novela estivesse doente ou fosse afastado por algum
motivo qualquer, esta vinheta também informaria quem era o substituto através
da frase “Capítulo escrito por fulano de
tal”.
Findo
o capítulo, entrava outra vinheta dizendo a frase tão famosa: A seguir, cenas dos próximos capítulos.
E tome mais um comercial. E o incrível é que quase ninguém mudava de canal.
Todos seguiam esperando as tais cenas, quase todas mudas, abafadas por alguma
música da trilha sonora que precisava ser promovida.
As
músicas nacionais tocavam até a metade da novela, sendo substituídas pelas
internacionais que seguiam até o fim. Música internacional era quase que
proibida na abertura de uma novela.
Depois
das cenas dos próximos capítulos, a abertura era repetida com os créditos
completos de toda a equipe técnica. A abertura não trazia os nomes de todos os
atores, apenas dos vinte ou trinta mais importantes. Todos os outros vinham no
final, como elenco de apoio.
Em
Mandala (TV Globo, 1987/1988, 20
horas, de Dias Gomes) os nomes de Marcos Breda e Raul Cortez não constavam da
abertura, ainda que Hans (Breda) e Pedro (Cortez) fosse praticamente
co-protagonistas da novela. Motivo? Eles entraram na novela já começada. E,
mais um ritual, não se costumava mexer em abertura de novela.
A
novela das seis começava às 17h50min. A das sete às 18h50min. A das oito às
20h00 em ponto. Igualmente a das dez. Os capítulos eram mais curtos e as cenas
mais longas. Poucas novelas passavam de 180 capítulos.
Era
outro mundo. Um mundo sem internet, com apenas quatro ou cinco opções de canais
de TV e umas dez emissoras de rádio. Um mundo onde as pessoas liam jornais e
revistas de papel e costumava-se mandar cartões de natal.
Um
mundo ainda não extinto, mas que já começa a dar sinais claros de estar em
avançado estado de decomposição.
Não é surpresa para mim que Claudia Raia esteja na boca do povo. Considero-a uma atriz dedicada, versátil e talentosa, e conseguiu fazer da sua Lívia Marini um sucesso nessa reta final da novela "Salve Jorge", escrita - com um roteiro muito mais, digamos, "turbinado" que de costume - por Gloria Perez e dirigida - mal - por Marcos Schechtman.
A arqui-vilã que elimina suas vítimas de uma maneira um tanto quanto inovadora na TV aberta, injetando um coquetel de drogas letais na carótida de quem atravessa seu caminho, começou fria, dura, engessada, e, após a eliminação de Jéssica (Carolina Dieckmann), por medo de ser entregue às autoridades, fez com que a personagem finalmente mostrasse a que veio. Claudia ganhou mais cenas, mostrou o que o público já sabe que ela pode fazer, que era muito além de ficar xingando sua quadrilha pelo telefone e se fazendo de boazinha para a sociedade. O papel de Claudia, até o momento, era tão importante quanto o de Irina (Vera Fischer), que passa capítulos a fio sentada atrás de uma cortina fazendo a contabilidade da "buate".
Mas foi ao cruzar seu caminho com o de Théo (Rodrigo Lombardi) - o "cara" quarentão que mora com a mãe super-protetora e é infiel - que a personagem passou a dominar a cena. A paixão obsessiva da vilã pelo mocinho tem rendido os melhores (?!) momentos da trama, e Claudia está tirando todo proveito disso. Lívia viu seu coração de gelo ser jogado numa churrasqueira e está fazendo de tudo para ir para o espeto e ser a carne mais pedida no rodízio de Théo. Para fechar com chave de ouro, uma música de Luís Miguel, que já embalou com outras canções, cenas românticas de Claudia em "Deus nos Acuda" e "Belíssima". É... Bate e fica. Literalmente.
Apesar de particularmente não ter gostado, num geral, da novela, achei que ela começou muito bem, depois desandou, e agora voltou a ficar interessante. Uma pena não ter feito jus a tantos talentos que foram sendo desperdiçados enquanto poderiam ter rendido ótimos momentos. Felizmente, Claudia Raia, uma grande atriz, acabou não sendo tão injustiçada assim. Resta saber qual será seu final. E torcer para que venham trabalhos muito melhores tanto para Claudia Raia quanto para Gloria Perez. Não necessariamente juntas.
A emancipação
feminina e o divórcio em “Escalada” (TV Globo, 1975, de Lauro César Muniz); a
naturalização da homossexualidade em “Brilhante” (TV Globo, 1981, de Gilberto
Braga); o modismo de “Dancin’Days” (TV Globo, 1978, de Gilberto Braga). Esses
exemplos mostram a radicalização de propostas iniciadas com alguns folhetins.
Pensando nessa radicalização, gostaria de indicar “Lado a Lado” (TV Globo,
2012, de João Ximenes Braga e Cláudia Lage) como um marco televisivo na
discussão da cultura negra e da abolição da escravatura – embora a novela inicie
já nos tempos da República, em 1903, para ser mais exato.
Os livros “Helena” (1876) de Machado e Assis e “Senhora” (1875) de José de Alencar
ganharam diversas versões para a televisão, inclusive no seu período
não-diário. Os romances tinham como tempo e espaço o Rio de Janeiro de
1860-1970, na obra de José de Alencar, que chega a citar a Guerra do Paraguai
(1864-1870), e 1859, no caso de Machado de Assis. As obras, e suas adaptações,
não têm a discussão da Abolição como foco. Ainda assim, trazem personagens
negros interpretando mucamas, guarda-costas ou figurantes – para compor o
cenário do século XIX.
“A Moreninha”, de Joaquim Manuel de
Macedo, publicado em 1844, também (e obviamente) não retratou (os problemas da)
a escravidão. Contudo, em sua segunda adaptação pela TV Globo, em 1975 (a
primeira foi em 1965, adaptada e dirigida por Otávio Graça Mello), Marcos Rey
insere elementos da crônica “Memórias da Rua do Ouvidor” (de 1878, também de
Macedo) para retratar a luta abolicionista. Rey transfere o romance para os
anos de 1866 a 1868 e também aborda a Guerra do Paraguai. O escravo Simão
(Haroldo de Oliveira), apaixonado por Duda (Léa Garcia), não via com
naturalidade o regime escravista e sempre fugia do capitão-do-mato João Bala
(Jaime Barcelos). O mocinho da trama, Augusto (Mário Cardoso), foi transformado
em um dos heróis da abolição, da mesma forma que Leonardo (Eduardo Tornaghi),
que liderou uma campanha para a libertação dos negros e acabou sendo morto por
João Bala. Estranhamente (?), Carolina, a moreninha, foi vivida por duas
atrizes que nada têm de morena – Marília Pera em 1965 e Nívea Maria em 1975.
Essa foi a primeira representação do movimento abolicionista, narrado como uma
luta de brancos progressistas e de estudantes. No último capítulo foi mostrada
a luta de estudantes a favor da Lei do Ventre Livre, a alforria de Simão e
Tobias (Sidney Marques, jovem alfabetizado que de posse da carta vê a
possibilidade de ser ator do teatro Alcazar). Duda e Simão se casam, têm um
filho de nome Palmares, que, mesmo sem a aprovação da Lei do Ventre Livre,
ganha a carta de alforria. O fim romântico de “A moreninha” mostra a “bondade”
branca e a “conformação” negra. Estes, gratos pela liberdade!
O romance “A
Escrava Isaura”, do autor abolicionista Bernardo Guimarães foi publicado em
1875, treze anos antes da Lei Áurea. Isaura é mestiça, filha da escrava Juliana
com o português Miguel. Em sua versão televisiva, novamente, a atriz escalada,
Lucélia Santos, não é morena, como na obra literária. Gilberto Braga, ao
escrever a novela para a Rede Globo em 1976, é fiel ao livro nesse sentido. Os
personagens negros na obra ou eram protetores de Isaura, como Januária (Zeni
Pereira) uma espécie de mammie dos
filmes norte-americanos, ou antagonistas (vilãs) Rosa (Léa Garcia), uma escrava
invejosa dos privilégios de Isaura.
O pesquisador
Joel Zito Araújo observou que os negros da trama não tinham orgulho de sua raça
e mostravam-se inferiores aos seus senhores. Uma possível exceção era a vilã
Rosa, que tinha consciência de sua condição escrava e por isso fazia de tudo
para fugir do tronco, ou seja, dormia com todos os homens (do sinhozinho ao
capataz) e infernizava a vida de Isaura. Chega um dia em que Álvaro, na
condição de senhor, resolve libertar todos os escravos e propõe que eles
continuem em sua fazenda, com remuneração e direito a um pedaço de terra.
A trama
praticamente não refletiu os costumes negros. Januária era a única que
praticava religião de matriz africana. Também não se discutiu a resistência à
escravidão e a abolição foi narrada, mais uma vez, como uma luta dos brancos
“bondosos”. O último capítulo mostrou a gratidão dos negros ao senhor Álvaro;
na última cena, um beijo de Isaura e Álvaro, com os negros dançando ao redor.
Destaque para a abertura da trama, com quadros do pintor francês Jean-Baptiste
Debret e, especialmente, a música “Retirantes” de Jorge Amado e Dorival Caymmi,
que representa os lamentos dos escravos.
A próxima
telenovela a abordar a escravidão foi “Sinhazinha Flô” de Lafayette Galvão.
Essa trama celebrou o centenário de morte de José de Alencar e se baseou em
três obras dele: “A Viuvinha”, “Til” e “O Sertanejo”. Dirigida por Herval Rossano, a trama foi ambientada
em 1880, época de grande efervescência política no Império Brasileiro. A abolição
foi o fio condutor de toda a trama. A partir daí, as tramas abolicionistas
passaram a demonstrar um papel mais ativo no negro na luta por sua liberdade. A
novela também retratou a luta pela emancipação feminina. Juca (José Maria
Monteiro) foi o personagem que mais lutou pelo fim da escravidão, inclusive foi
enviado pelo próprio André Rebouças (personagem da História do Brasil, um
engenheiro que funda no Rio de Janeiro uma associação pró-abolição, com Joaquim
Nabuco e outros abolicionistas. A mãe de Rebouças era uma escrava alforriada).
Já Flor, a sinhazinha Flô (Bete Mendes) era uma mulher a frente do seu tempo.
Como boa parte das tramas das 18h, havia um triângulo amoroso que foi se
desenvolvendo ao longo da narrativa, formado por Flor, Arnaldo (Eduardo
Tornaghi) e Jorge (Márcio de Lucca), todos vividos por atores brancos.
Novamente o estereótipo do branco como responsável pela libertação dos negros
do cativeiro e da sua condição de pária, como atesta Joel Zito Araújo.
Outra importante
ruptura na representação do escravo negro foi “Sinhá Moça” de Benedito Ruy
Barbosa, exibida em 1986, dez anos após o sucesso de “Escrava Isaura” e
novamente com Lucélia Santos e Rubens de Falco. “Sinhá Moça”, baseado no
romance homônimo de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, é ambientada no interior
paulista em 1886, dois anos antes do fim da escravidão.
Sinhá Moça
(Lucélia Santos) é filha de Ferreira, o barão de Araruna (Rubens de Falco).
Apaixona-se por Rodolfo (Marcos Paulo), um republicano que sem que ninguém
saiba atua como o “Irmão do Quilombo”, libertando escravos do engenho. Sinhá
Moça, a frente do seu tempo, também luta pelo fim da escravidão, a contragosto
de seu pai. Embora o cenário principal seja composto por brancos, alguns
personagens negros adquiriram bastante destaque na trama. O ex-escravo Rafael
(Raymundo de Souza), adota o nome de Dimas e retorna à cidade com o intuito de
vingar-se do barão. Rafael, na verdade é filho do barão com a escrava Maria das
Dores (Dhu Moraes), passou a infância ao lado de Sinhá Moça e depois foi
vendido pelo pai.
A primeira cena
da trama mostra a morte de Pai José (Milton Gonçalves) no tronco. Pai José era
considerado rei em sua terra natal, quando foi trazido como escravo ao Brasil.
Na trama, tinha dois filhos, Justino (Antonio Pepeu) e Fulgêncio (Gésio
Amadeu); Maria das Dores era sua neta e Rafael seu bisneto. Pai José não pediu
clemência, foi forte e apanhou até que o feitor Bruno (Walter Santos) não
aguentou mais. No leito de morte, revela a Rafael que ele é irmão de Sinhá Moça.
A partir daí, os escravos partem para vingar a morte de Pai José. O último
capítulo foi no dia 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel assinou a Lei
Áurea. De forma diferente às demais produções, não foi mostrado um conformismo
(ou gratidão) dos escravos. O capítulo também mostrou a morte do barão que
morre na senzala, em chamas. A destruição da senzala também representou a
libertação dos escravos que haviam sido mortos ali, entre eles Pai José. Em
seguida, uma fila de escravos libertos, liderados por Nhá Balbina (Ruth de
Souza), aparece andando pela estrada, vagando por um destino. De outro lado,
diversos imigrantes italianos chegam esperançosos à fazenda, sem saber o futuro
que os espera.
Na Rede Globo,
Benedito Ruy Barbosa escreveu duas telenovelas com a tônica nos imigrantes
italianos, “Terra Nostra” (1999), retratando o período pós-escravidão e
“Esperança” (2002) com o foco na década de 1930. Em 2006 a Rede Globo produziu
um remake de “Sinhá-Moça”, adaptada pelas filhas de Benedito, Edmara e Edilene
Barbosa. Milton Gonçalves viveu novamente o Pai José.
Para comemorar
os 100 anos da Lei Áurea, a Rede Globo produziu a trama “Pacto de Sangue”,
escrita por Regina Braga. O início é em 1870, na cidade fluminense de Campos
dos Goytacazes, quando o jovem Antônio (Marcelo Serrado) morre ao ajudar um
negro a escapar da fazendo de seu pai, o juiz Queiroz Antunes (Carlos Vereza).
Antes de morrer, ele pede ao pai que crie o pequeno escravo Bento (Armando
Paiva) como filho. A convivência foi responsável para a revisão de valores do
conservador Antunes, que se envolve com a abolicionista Aimée (Carla Camurati).
Joel Zito Araújo destaca a trama e diz que foi a que reuniu um maior elenco de
atores negros. Havia um grupo de heroínas negras, reunidas no Quilombo Loana,
chefiado pela babalorixá Mãe Quitina (Ruth de Souza). Também faziam parte do
grupo a líder guerreira Baoni (Angela Corrêa) – verdadeira mãe de Bento – e
outros dois líderes, que moravam na cidade, Damião (Haroldo de Oliveira) e
Maria (Zezé Mota). O idioma ioruba foi utilizado pelos atores quando estavam no
terreiro de Mãe Quitina – traço forte da cultura afro. Os personagens também
mostravam orgulho de seu povo. Os romances principais, entretanto, eram
protagonizados por brancos.
Apesar de outras
tramas também retratarem esse período, uma nova ruptura só aconteceu com “Lado
a Lado”, que não se passou no período abolicionista. Graças aos personagens
Afonso (Milton Gonçalves) e Tia Jurema (Zezeh Barbosa) o período foi
constantemente relembrado. Os personagens eram orgulhosos de sua raça e não
demostravam nenhuma espécie de apego ou saudade de seus senhores. Todos os
negros da trama, habitantes do Morro da Providência, sentiam orgulho de seu
povo e faziam questão de referenciar sua cultura: artística, religiosa,
desportista, gastronômica etc. Na contramão, a vilã Constância (Patrícia
Pillar), a baronesa da Boa Vista, não estava contente com os tempos
republicanos e sentia saudades da época em que era uma senhora de engenho.
A trama de João
Ximenes Braga e Cláudia Lage mostrou diversos acontecimentos importantes da
história brasileira, especialmente no período de 1903 a 1910. O casal
protagonista, vivido por Zé Maria (Lázaro Ramos) e Isabel (Camila Pitanga)
tinha suas idas e vindas, sempre com um pano de fundo histórico. Logo nos
primeiros capítulos, o cortiço onde Zé Maria e Isabel moravam foi invadido por
ordens do presidente Rodrigues Alves, processo conhecido como “Bota - Abaixo”.
A demolição aconteceu exatamente no dia do casamento de Zé Maria e Isabel. Zé
Maria, que era capoeirista, lutou e acabou preso. O ocorrido não permitiu que
ele fosse ao próprio casamento.
Com o fim dos
cortiços, os antigos moradores se viram obrigados a ocupar o Morro da
Providência, que, na época, já tinha alguns moradores, que haviam participado
da Guerra de Canudos. Esses moradores esperavam a casa própria, prometida pelo
governo. Uma das vilãs da história, a invejosa Berenice (Sheron Menezzes) e seu
namorado Caniço (Marcello Melo Jr.) também viviam no morro e foram os
responsáveis pelo rompimento da ordem do casal Zé Maria e Isabel.
Zé Maria foi o
verdadeiro herói em praticamente todos os episódios retratados pela trama.
Assim foi com a Revolta da Vacina (1904) e Revolta da Chibata (1910). Isabel,
por sua vez, foi uma das precursoras do samba. O samba que conhecemos hoje teve
seu surgimento basicamente em 1916 com a gravação de “Pelo Telefone” de Donga.
Isabel, segundo a jornalista e pesquisadora de samba, Maria Fernanda França,
dançava uma mistura de Lundu, Maxixe e Batuque, danças africanas que em sua
“brasilidade” deu origem ao nosso genuíno samba. Chico (César Mello), que havia
lutado com Zé Maria na revolta da Chibata, viveu o famoso episódio em que um
jogador negro do Fluminense foi pintado de branco (pó de arroz) para participar
de uma partida de futebol. Os dois elementos cruciais da identidade brasileira,
o samba e o futebol – estavam presentes na narrativa. Os cordões carnavalescos,
que mais tarde deram início às escolas de samba, foram mostrados em duas
oportunidades, tanto em 1903 como em 1911, sendo severamente reprimidos pela
força policial.
Todos esses
elementos identitários foram mostrados na abertura da telenovela, seguramente a
melhor dos últimos anos. Ao som do samba enredo da Imperatriz Leopoldinense,
campeã do carnaval de 1989, “Liberdade, Liberdade, abra as asas sobre nós”, à
época comemorando o centenário da abolição, a abertura mesclava elementos da
cultura negra e da vida na cidade. A expressão da arte e as vaidades.
Ressaltando o batuque, o samba, a capoeira e o futebol como elementos
brasileiros. A trilha sonora também foi primorosa, com destaque para a gravação
original de Beth Carvalho do samba “O mundo é um moinho” de Cartola.
Enfim, os 154
capítulos desta trama nos reservaram grandes surpresas. Mas, o grande legado de
Lado a Lado foi apresentar outra versão para a história do negro. Mostrar que
não existiu nenhum conformismo em relação aos senhores de engenho e que a luta
abolicionista não foi uma luta empenhada somente por brancos. “Lado a Lado”
mostrou o orgulho pela raça e pelo passado. Importantes traços culturais como a
música, a dança, a gastronomia, a capoeira e o candomblé foram tratados com
respeito. Destaque para o fato de o tradicional romance novelesco ser
protagonizado por um casal de negros, ruptura que nem “Pacto de Sangue”
conseguiu mostrar. Para ser justo com a trama como um todo, também tenho que
destacar o papel pró emancipação feminina. Laura (Majorie Estiano) lutou contra um casamento de fachada, lutou para trabalhar fora de casa, levantou a discussão sobre divórcio, enfim, eis um outro mérito da novela.
Embora a
telenovela se passasse na década de 1910 percebemos ainda hoje o comportamento
de muitas Constâncias. Ver um deputado recentemente afirmar que o lugar da
mulher é no seio da família cuidando dos filhos e impossibilitadas de
trabalharem fora é mostrar que ainda vamos brigar pelos mesmos assuntos que
Laura, Isabel e Edgar fizeram nos primeiros anos da República. Lado a Lado
deixou um gosto de quero mais. Que venham as próximas tramas de João Ximenes
Braga e Cláudia Lage, juntos ou separados.
Aos que se
interessam pela trajetória do negro na telenovela brasileira, é de fundamental
importância a leitura de “A negação do Brasil” (Senac SP, 2000) de Joel Zito
Araújo.
Na primeira parte, falei da primeira
leva de produções da teledramaturgia do SBT, entre 1982 e 1985. Entre 1990 e
1991, a emissora reprisou algumas dessas novelas dos primórdios à tarde e no
início da noite, enquanto preparava a retomada do departamento sob a batuta de
Walter Avancini, que ainda em 1990 estreou Brasileiras
e Brasileiros, texto seu em parceria com Carlos Alberto Soffredini.
A proposta era fazer uma novela cuja
trama fosse centrada nas camadas mais baixas da população e seus problemas de
sobrevivência. Os protagonistas eram Ângelo (Fúlvio Stefanini) e Totó (Edson
Celulari), que para subirem na vida resolvem promover luta livre entre
mulheres, treinando beldades para as disputas, dentre as quais Tereza de Ogum
(Isadora Ribeiro). Falar apenas dos pobres não deu muito certo e pouco tempo
depois da estreia entraram novos personagens, com destaque para a trama da
jornalista Paula (Lucélia Santos) e seu romance com o milionário Ramiro (Rubens
de Falco). Tendo perambulado pela grade da emissora em diversos horários, a
novela terminou como um grande insucesso que em outras circunstâncias talvez
tivesse vingado.
Pela mesma época foram planejadas outras
novelas, mas nenhuma foi ao ar. As outras produções de teledramaturgia foram
duas séries: o revival de Alô, Doçura
com Virgínia Novicki e César Filho e a ótima O Grande Pai, original argentino de Gustavo Barrios (o mesmo de Chiquititas) com Flávio Galvão e Débora
Duarte.
Foi em 1994 que houve enfim a verdadeira
retomada do setor de teledramaturgia do SBT, sob o comando de Nilton Travesso.
Desta vez o caminho escolhido foi o dos remakes, resgatando histórias
conhecidas do grande público, tendo assim garantia de interesse e de uma
parcela da audiência. A novela escolhida para inaugurar o novo ciclo foi Éramos Seis, adaptação de Sílvio de
Abreu e Rubens Ewald Filho do romance homônimo de Maria José Dupré, que até ali
já havia ganhado outras três versões para a TV.
Dirigida por Travesso, Henrique Martins
e Del Rangel, a novela estreou em maio de 1994 trazendo Irene Ravache na pele
de Dona Lola, mulher sofrida que vive ao lado do marido Júlio (Othon Bastos) e
dos quatro filhos: Carlos (Jandir Ferrari/Caio Blat), Alfredo (Tarcísio
Filho/Wagner Santisteban), Isabel (Luciana Braga/Carolina Vasconcelos) e
Julinho (Leonardo Brício/Rafael Pardo). A história acompanha a vida da família
por anos e fio, tendo como pano de fundo a transformação de São Paulo e os
acontecimentos da vida da cidade entre as décadas de 1910 e 1940. Foi muito bem
produzida e consagrou-se como uma das melhores novelas da emissora (a melhor,
para alguns) e mesmo da teledramaturgia brasileira.
Em dezembro de 1994 estreou As Pupilas do Senhor Reitor, cuja base
era o romance homônimo de Júlio Dinis, em adaptação de Bosco Brasil, Ismael
Fernandes e Aziz Bajur contando ainda com a versão escrita por Lauro César
Muniz para a TV Record em 1970/71 como ponto de partida e referência. Juca de
Oliveira viveu o Padre Antônio, o “Reitor”, responsável pela tutela das jovens
Guida (Débora Bloch) e Clara (Luciana Braga), apaixonadas pelos filhos do
sitiante José das Dornas (Elias Gleizer): o médico Daniel (Eduardo Moscovis) e
o rústico Pedro (Tuca Andrada). Outra produção muito bem cuidada e de grande
qualidade, recriando uma aldeia portuguesa no século XIX em detalhes.
Em julho de 1995 foi a vez de estrear Sangue do Meu Sangue, nova versão da
novela escrita por Vicente Sesso para a TV Excelsior em 1969/70. No final do
Segundo Reinado (ou seja, na década de 1880), Carlos Rezende (Jayme Periard)
sobrevive a um atentado e pretende desmascarar o vilão Clóvis Camargo (Osmar
Prado), que aplicara um golpe no banco de propriedade de seu sogro, Mário
Albuquerque Soares (Rubens de Falco). Clóvis não ama a esposa Júlia (Lucélia
Santos) e quer que todos pensem que ela está louca, para que possa se livrar
dela. O filho mais velho de Carlos, Lúcio (Tarcísio Filho), se envolve com a
atriz Pola Renon (Bia Seidl), que no passado fora amante de seu pai. Outra
novela muito bem feita, mas que não conservou uma “graça” especial da versão
original, em que Carlos e Lúcio eram interpretados pelo mesmo ator, Francisco
Cuoco, enquanto aqui cada personagem teve um intérprete diverso.
Em 1996 o SBT estreou três produções no
mesmo dia, 6 de maio. Às 18h30, Colégio
Brasil, de Yoya Wursch e Roberto Talma, dirigida por este, fruto de uma
parceria com a produtora independente JPO. No colégio do título, as trajetórias
dos alunos, professores e funcionários, que se relacionam entre si. Algumas
relações têm base no passado, como a do professor Lancellotti (Giuseppe
Oristânio) com a inspetora de alunos Nair (Maria Padilha). O diretor é Edmo
(Edwin Luisi), boa-gente, mas muito sério, pai de Tininha (Ana Kutner), moça
que se envolve com o tímido Manoel Boi (Taumaturgo Ferreira), agregado da
escola.
Às 20h era a vez de Antonio Alves, Taxista, adaptada por Ronaldo Ciambroni de original
de Alberto Migré (o mesmo autor da primeira novela diária brasileira, 2-5499 Ocupado, exibida aqui em versão
de Dulce Santucci em 1963). Outra parceria, aqui com a argentina Ronda Studios,
inclusive com os trabalhos sendo feitos na Argentina. Fábio Jr. era Antonio
Alves, o taxista que cuidava da família e se apaixonava por Mônica (Guilhermina
Guinle), enquanto despertava a cobiça da madrasta da jovem, Claudine (Branca de
Camargo, em papel inicialmente destinado a Sônia Braga).
Em seguida ia ao ar Razão de Viver, que era uma adaptação de Meus Filhos, Minha Vida, que tão bons resultados obteve em 1984/85.
Analy Alvarez e Zeno Wilde foram os responsáveis pelas modificações no texto de
Ismael Fernandes, com direção geral de Nilton Travesso e Henrique Martins. A
sofrida Dona Luzia era agora Irene Ravache, que de certa forma revivia sua Dona
Lola. Os filhos eram Marco Ricca (André), Petrônio Gontijo (Pedro) e Gabriel
Braga Nunes (Mário).
No final de 1996 estreou Dona Anja, adaptação do romance de Josué
Guimarães que se passa na década de 1970 numa cidade do interior gaúcho em que
os problemas sexuais e afetivos dos moradores se mesclam à discussão em torno
do divórcio no país e a situação política nacional, ainda em pleno regime
militar. Dona Anja (Lucélia Santos), ao enviuvar do Coronel Quineu Castilhos
(Jonas Mello), passa a se entregar aos homens da cidade, a fim de aplacar seu
apetite sexual insaciável.
1997 foi o ano de Os Ossos do Barão, escrita por Walter George Durst a partir da obra
de Jorge Andrade, que de peça teatral originou uma telenovela global em
1973/74. Antenor Taques Redon (Leonardo Villar), um velho quatrocentão falido e
caduco, assiste às transformações sociais do Brasil dos anos 50, com imigrantes
como seu ex-colono italiano Egisto Ghirotto (Juca de Oliveira) tomando as
rédeas da economia. O sonho de Egisto é possuir um título de nobreza e ser
aceito entre a alta sociedade paulista por quem é e não apenas pelo dinheiro,
que já possui em quantidade. O casamento de seu filho Martino (Tarcísio Filho)
com Izabel (Ana Paula Arósio), neta de Antenor e bisneta do Barão de Jaraguá,
torna seu sonho realidade. Ainda no elenco Cleyde Yaconis, Othon Bastos,
Clarisse Abujamra, Petrônio Gontijo, Bia Seidl, Laerte Morrone, Denise Del
Vecchio, Mayara Magri, Daniela Camargo, Dalton Vigh, Imara Reis, Ewerton de
Castro, Jussara Freire e Rubens de Falco.
Ainda em 1997 estreou Chiquititas, sucesso infantojuvenil que
permaneceria no ar até 2002, com sucessivas temporadas, e era gravado na
Argentina, terra de origem da história. Uma parceria do SBT com a Telefe,
emissora local. Flávia Monteiro interpretava Carolina, a jovem diretora do
Orfanato Raio de Luz, verdadeira mãe para as crianças que lá viviam. Foram aqui
revelados diversos talentos que hoje prosseguem carreira em outras emissoras,
como Fernanda Souza, Carla Diaz, Sthefany Brito, Kayky Brito e Paulo Nigro.
Enquanto iam ao ar seguidas temporadas
de Chiquititas, ou seja, entre o fim
dos anos 90 e o começo da década de 2000, o SBT produziu outras novelas, além
de ter prosseguido com a exibição das mexicanas dubladas. Mas esta fase, que
vem até os dias de hoje, abordarei na próxima (e última) parte. Até lá!
Nós somos escravos. Somos escravos da tecnologia, dos
meios de transporte, da energia. Viver em um mundo em que isso não exista seria
um inferno. Impensável. Não para as mentes de JJ Abrams (Fringe, Lost e
recentemente Star Wars) e Erick Kripke (Supernatural) e para as mãos habilidosas
de Jon Favreau (Homem de Ferro). O trio nos apresenta Revolution, um mundo pós - apocalíptico em que as pessoas, há 15
anos vivem sem nenhuma fonte de energia ou tecnologia.
Na
série, Charlie (Tracy Spiridakos) vê seu mundo virar de pernas pro ar quando
seu pai Ben (Tim Guinee) é assassinado e seu irmão Danny (Grahan Rogers) é
sequestrado por Tom Neville (Giancarlo Esposito, mais conhecido como espelho
falante de Once Upon a Time),
comandante chefe de uma milícia comandada por Monroe (David Lyons, The Cape),
que tenta, a todo custo entender o blackout e encontrar uma fonte de energia. E
para isso não mede esforços nenhum, até mesmo trair seu melhor amigo. Para
Charlie conseguir resgatar seu irmão, seu pai lhe fala, antes de morrer, que
tem um irmão Milles (Billy Burke – aka Charlie Swan) que poderá lhe ajudar.
Então Charlie sai a procura desse tio e junto com ele tenta resgatá-lo.
A
trama não parece lá muita coisa à primeira vista. O piloto não tem um “chama”
muito forte, mas o que me chamou a atenção foi justamente o fato de ver como
seria um mundo pós tecnologia. Viveríamos como na idade média, mas sabendo que
já tivemos todo o conforto que esta ‘senhora’ pode nos trazer. O caos surgiu,
vilas feudais voltaram à moda, e pasmem, a moral e a civilidade perderam lugar
para a teoria de Darwin – Somente o mais forte sobreviverá.
Onde deixei meu ursinho?
A
protagonista também não é o tipo de personalidade que talvez prenda a atenção. Ela
é muitas vezes infantil e chorona, mas contrabalança com Milles, o tipo de cara
“durão” que toma as rédeas da missão salvando parte da produção. Outra coisa
que não combinou muito foi David Lyons como vilão. Ele tem um rosto bonzinho
demais para alguém poderoso, frio e calculista como o personagem Monroe deve
ser, além de que nos constantes ‘flashbacks’ da série ele, nitidamente
demonstra ser fraco, submisso e completamente dedicado ao seu grande amigo (Que
não vou contar quem é para não estragar uma das boas surpresas da série).
Você não é a Bella, não é?
O
roteiro pode ser previsível, mas com algumas boas surpresas. A série não é de
todo ruim, seu ritmo acelerado ajuda a não ficarmos muitos episódios ‘no escuro’
imaginando sobre os problemas causados pelo blackout.
Li
que o roteiro é previsível demais e que, para um mundo apocalíptico, é tudo
limpo demais, mas o apocalipse não se deu por conta de um vírus que transformou
todo o mundo em zumbis ou vampiros, o apocalipse aconteceu apenas pela falta de
luz, não tirou das pessoas a capacidade de “tomar banho” nem transformou as
cidades em grandes cidades fantasmas, apenas tirou das pessoas a luz e o
conforto.
É um
syfy, talvez as pessoas que não gostem do gênero torçam o nariz para a série,
mas é um bom entretenimento. Em uma era de zumbis e vampiros, assistir algo um
pouco mais ‘humano’ é bom.
A
série tem potencial e espero que JJ Abrams mantenha este ritmo à produção e não
se perca como aconteceu com Lost. É esperar para ver.
Muitos críticos e
céticos há tempos profetizam o fim da telenovela em razão dos baixos níveis de audiência em
comparação com os dos anos 70 e 80, o esgotamento das fórmulas do folhetim clássico
e o acesso a novas plataformas, como internet. Ainda assim, vez em
quando surge uma novela diferenciada para pôr em xeque tais assertivas e provar
que o gênero ainda é capaz de mobilizar com fervor o público: assim foi Cheias de Charme, que conquistou o público na
faixa das 7. A saga das três empregadas domésticas, Maria da Penha, Maria do Rosário e Maria Aparecida, que se
tornam estrelas musicais da noite para o dia, garantiu excelente audiência e uma intensa e positiva
repercussão nas redes sociais.
As três Marias de
Cheias de Charme eram, cada uma a seu modo, fortes e carismáticas, com quem o público facilmente se identificavam. Penha foi defendida com muita
emoção por Taís Araújo: a típica brasileira que vai à luta, uma batalhadora que vence na vida com o próprio esforço, apoiada em
valores humanos. Leandra Leal construiu muito bem a decidida Rosário, cuja grande
aspiração era tornar-se cantora, representando a trajetória de muitos
brasileiros que realizam um sonho com os próprios méritos sem lançar de
meios insidiosos. E Isabelle Drummond cada vez melhor enquanto atriz, ao criar a doce e romântica Cida, por vezes ingênua, mas com
personalidade e sem cair no lugar-comum da mocinha fraca e estereotipada. Unindo seus sonhos e ideais, construíram
uma das parcerias mais acertadas já vistas: o divertido grupo musical As
Empreguetes, cujos hits “Vida de Empreguete” e “Maria Brasileira” marcaram a novela
e fizeram sucesso também fora dela.
Para balançar com as estruturas do super trio de protagonistas e brigar de igual, só mesmo uma vilã de peso: o furacão Chayene, interpretada com muito charme por Cláudia Abreu. A experiente e carismática atriz deitou e rolou com o delicioso texto, explorando toda a caricatura possível da extravagante cantora e super estrela de techno-brega que vê o seu reinado ameaçado pelas Empreguetes. Os apelidos jocosos que atribuía aos seus desafetos e mesmo aos seus próximos (curica, urubu, franguinho) e as divertidas armações com a sua fã Socorro (Titina Medeiros) eram puro deleite. Como não rir da incapacidade da Brabuleta de falar corretamente o nome de Rosário?! "Rosalba", "Rosete", "Rosene", "Roxana", "Rosisca", "Rosiranha" e "Rosimunda" foram algumas das pérolas de Chayene. Só uma super atriz versátil e competente como Cláudia Abreu para se entregar de corpo e alma ao nonsense, dançando e cantando a plenos pulmões, e fazer de Chayene uma grande personagem.
Parte do sucesso e importância de Chayene se deve também à maravilhosa coadjuvante com peso de protagonista: a personal-curica Socorro, vivida com competência pela estreante em telenovela Titina Medeiros. A parceria entre a Brabuleta e a fã maluca SOS deu certo, gerou hiláriaas situações e facilmente caiu nas graças do público. Cômico o momento em que Socorro escapa de um linchamento e surge poderosa das águas do rio cheio de piranhas tal qual Isadora Ribeiro na famosa abertura do Fantástico, assim como o seu visual de Lady Praga ao tentar ser cantora profissional!
A direção de Cheias de Charme contribuiu para a construção de um visual único que marcou a novela. O uso constante de briho, plumas, cenários e figurinos exagerados e acessórios extravagantes pela direção de arte resultou numa novela de forte e personalíssimo apelo visual, com um universo próprio e propício a uma história musical. Atrações à parte foram as ''gags'', as edições aceleradas e os surreais sonhos de Chayene, que chegou a virar uma mulher-gorila! Aliás, os já citados hits das Empreguetes junto com os de Chayene ("Vida de Patroete" e "Xote da Brabuleta") e do príncipe das domésticas, Fabian (Ricardo Tozzi), renderam ótimas performances musicais e videoclipes, fazendo de Cheias de Charme uma verdadeira comédia musical. Uma proposta ousada e poucas vezes vistas na televisão, assim como Cambalacho de 1986.
A novel dupla de autores, Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, teceram um texto popular, divertido e de qualidade, dialogando com todas as classes, idades e públicos. Utilizando-se por vezes de narrativa ágil e de tiradas/frases de efeito, e de artifícios ousados como as citadas ''gags'' (filmadas com criatividade pela direção), o roteiro de Cheias de Charme inovou e conquistou o público. Ainda que o texto tenha pisado no freio a partir do fim das Empreguetes, criado entrechos supérfluos - como o súbito e forçado romance entre Penha e Gilson (Marcos Pasquim) - e se repetido, recuperou-se com força total e retomou a criatividade de outrora. Os autores exploraram com frescor as situações clichês, como a impactante solução do
mistério sobre a semelhança física entre Inácio (Ricardo Tozzi) e Fabian, e o sequestro
da mocinha no penúltimo capítulo (com um desfecho musical em vez dos
tradicionais tiroteios).
Frise-se, ainda, a boa dose entre humor e drama: apesar do predomínio da comédia musical, Cheias de Charme não esqueceu o tradicional drama. A amizade de Penha com a honesta advogada Lígia (Malu Gali em luminosa interpretação), testada ao longo da novela por problemas amorosos e familiares; os entrechos folhetinescos entre Cida e a opressora família Sarmento; e a ruína moral, social e econômica desta última renderam emoção e cenas catárticas em Cheias de Charme. Ademais, o rico texto foi explorado com vigor por Alexandra Richter: com uma interpretação soberba, a atriz mostrou sua versatilidade no drama após bons papéis cômicos, em ótima química com Tato Gabus.
Além de retratar a questão do predomínio da música brega e popular no atual cenário musical - inclusive com participações de artistas do gênero na novela - Cheias de Charme retratou de forma inteligente a ascensão da nova classe C, sem estereótipos forçados. As Empreguetes, após uma vida modesta, ascendem socialmente pelo próprio esforço e talento, enquanto a elite antiética decai economicamente. E com muito bom humor: as madames Sônia e Branca (Mônica Torres), por exemplo, disputam os ''serviços'' do pobretão Sandro (Marcos Palmeira); a empregada Gracinha (Lidi Lisboa) é tratada de igual para igual pelos patrões Ariela (Simone Gutierrez) e Humberto (Rodrigo Pandolfo); e a sedutora periguete Brunessa (Chandelly Braz) finalmente conquista a chefia da Galerie dos Sarmentos. Ademais, os autores foram felizes ao fugir da ideia de que toda a suposta nova classe C é parca de bagagem cultural: tocante a cena em que Penha se emociona com o recital de ópera no Real Gabinete Português de Leitura, ao lado do sofisticado Otto (Leopoldo Pacheco).
O flerte com a
internet e outras plataformas como DVD's e pendrives foi outro grande acerto de Cheias de Charme. Muitas tramas desenrolaram-se a partir de tais elementos e só foram contadas e reveladas ao público por meio da interação entre televisão e internet (o lançamento do videoclipe "Vida de Empreguete" se deu não na novela, mas no site oficial de Cheias de Charme; as campanhas no twitter #EmpreguetesLivres e #EmpreguetesPraSempre entraram nos trend topics). Os autores conseguiram construir uma novela diferente, unindo os elementos básicos do folhetim às atuais tecnologias - o sucesso das 9, Avenida Brasil, não logrou êxito nessa mesma proposta.
Com um texto criativo e moderno antenado com os novos tempos da informatização, um elenco muito bem escalado e uma direção personalíssima, Cheias de Charme tornou-se um dos grandes sucessos das 7. A prova cabal de que a teledramaturgia está longe do fim e que ainda pode surpreender, inovar, recriar e emocionar num cenário demasiadamente industrializado e pasteurizado da teledramaturgia. Cheias de Charme mostra que a telenovela está mais viva do que nunca e muito bem, obrigado.