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domingo, 9 de setembro de 2012

Lauro Cesar Muniz - Ele não é "O Salvador da Pátria"!


Por Isaac Santos

Escutando a trilha sonora de O Salvador da Pátria e pensando em o quanto essa novela representa para a carreira do Lima Duarte, Maitê Proença, como os mesmos já declararam algumas vezes, e também para os demais atores do elenco, para a própria emissora e sua teledramaturgia inconfundível, para nós telespectadores, e principalmente para o autor da trama. O Lauro Cesar Muniz num excelente momento, inspiradíssimo, provocador, escreveu uma novela gostosa de ser curtida no auge do horário nobre da Rede Globo. Bons tempos.


Passados mais de vinte anos o Lauro tem as suas obras apresentadas numa outra emissora. Atualmente na Record, onde está desde 2006, o autor escreve a sua terceira novela desta fase. Máscaras não atingiu as metas estabelecidas pela empresa [sendo por isso escondida num horário ingrato, o que não concordo], o público “não” comprou a idéia do autor, a novela definitivamente não foi bem sucedida [vale ressaltar que, curiosamente, tem alcançado bastante sucesso em Portugal, via Record Internacional] e por isso amarga uma colocação medíocre na audiência. Mas, longe de ser apenas um momento de adversidade para o autor, Máscaras é sentida pelo mesmo como um fracasso (leia aqui), um erro, fazendo-lhe refletir sobre ser esta a sua última feitura na teledramaturgia. Nem preciso dizer que acho um absurdo tal reflexão.


Nenhum autor merece um tratamento indelicado por ter uma obra mal sucedida. Imagine então o Lauro Cesar Muniz. Um cara com registros importantes na história da telenovela não pode ser tratado como um apostador viciado em jogos e que tendo perdido todas as partidas possíveis, fica com saldo negativo, sem crédito algum. Não, não pode.

com os autores Silvio de Abreu e Walter Negrão
Cidadão Brasileiro não bateu recordes de audiência, mas também não decepcionou nesse quesito, não para os padrões da emissora à época, e particularmente, muito me agradou. 


Poder Paralelo foi a responsável por boas críticas da mídia especializada, tendo agradado também a maioria dos noveleiros, e audiência favorável ao horário das dez.


Pode até parecer uma comparação incabível ou desnecessária, mas o fato é que me lembro da esquecível (risos) Sete Pecados, do Walcyr Carrasco, e como está a “moral” do autor na Globo, depois dela?! Emplacando uma novela atrás da outra. Ah! Isso inclui as reprises do Vale a Pena Ver de Novo, onde nem mesmo a citada novela do Walcyr deixou de ser reapresentada.

Tenho a impressão de um retorno do Lauro, o mais breve possível, ao seu antigo reduto. No entanto, caso isso aconteça, que não seja de modo “dado de bandeja”, sem brigar por ele. Espero e torço pela valorização do autor, por parte da Record. Que continuando a ser esta a sua casa por mais alguns anos de contrato, analisem melhor antes de aprovar ou não o seu próximo trabalho, pois assim erram ou acertam juntos, é mais justo.

E não importando a emissora, afinal sou admirador do Lauro independente disso, evidencio aqui o meu querer ver novamente o seu estilo inconfundível de escrita sendo interpretado por grande elenco. Não seria má idéia se numa minissérie de época. Aliás, filão que a Record tem feito com louvor, vide Rei Davi, mas poderia explorar outras épocas, outras histórias, algo que nem mesmo a Globo tem feito ultimamente. Há uma lacuna, portanto. Vida longa ao Lauro Cesar Muniz e suas escritas.          

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Entrevista Exclusiva com o Autor Lauro Cesar Muniz - Sem "Máscaras"!



Por Isaac Abda e José Vitor Rack 

José Vitor Rack – Referências a Ionesco (A Cantora Careca), Fellini, ao materialismo... “Máscaras” é claramente uma novela que retrata fielmente seu autor. Isso foi plenamente consciente ou foi involuntário?

Lauro Cesar Muniz – Quando fiz as contas de quantos anos eu teria na próxima novela cheguei à conclusão de que “Máscaras” seria a última. Tenho feito novelas de dois em dois anos na TV Record, logo, ao terminar a que está atualmente no ar, eu teria 75 anos. Mais dois seriam 77! Com meus 74 anos atuais já estou bastante desgastado logo no início do trabalho, o que poderia acontecer aos 77?

Então resolvi fazer citações em Máscaras das minhas paixões literárias, dos meus filmes cults, das peças teatrais. De uma forma orgânica, ou seja, sem gratuidade. Por isso criei algumas tramas e citei algumas obras primas como “E La Nave vá” de Fellini, “A Cantora Careca” de Ionesco, “Quem tem medo de Virgínia Woolf” de Edward Albee, “Profissão Repórter” de Antonioni, sempre de forma jocosa, distorcendo as bases originais.


José Vitor Rack – A verdadeira história de Nameless se cruza com a de Otávio Benaro ou se trata de um encontro armado pelo destino mesmo?

Lauro Cesar Muniz – Nada é armado pelo destino nessa história. Trata-se claramente de um encontro marcado com objetivos claros. Nameless (depois batizada como Eliza) por uma organização internacional, tem uma clara missão de atravessar na vida de Martim Salles, mas acaba, sem saber se ligando a Otávio Benaro, que assumiu a identidade do cunhado Martim.


Isaac Abda – Há um mês sendo exibida, além da audiência abaixo do esperado pela emissora, “Máscaras” tem sofrido críticas pela ousadia/sofisticação do texto, que em determinados momentos parece confuso, ao menos para alguns. Imagino que um autor experiente saiba lidar com diferentes possibilidades de resposta do telespectador, prevendo-as inclusive. Qual a sua análise sobre a novela? Acredita que o produto esteja sendo injustiçado? De que modo você pretende alcançar também esse público que ainda não “comprou” a proposta da novela?

Lauro Cesar Muniz – Muitas vezes se confunde a palavra texto com diálogo. Texto é o conjunto da criação escrita, com idéia, temas, estruturas, rubricas e até diálogos.

Eu quis evitar fazer um diálogo plano que apenas levasse à ação dramática, então, com todo o cuidado para não generalizar os temas, mas ligá-lo com clareza aos personagens, me propus a discutir assuntos candentes do momento como ideologia, religião (de forma cuidadosa), estética, sempre em função da vida dos personagens. Nunca impondo regras ou fechando questões sobre qualquer tema. Uma espécie de levantar a bola para discussão. Para isso eu precisaria ter atores e atrizes com pleno domínio desses temas, o que não aconteceu.  Quando um ator emite uma opinião sobre um tema que desconhece parece uma frase descosida, um elemento estranho, sem vida, decorado.

Eu acho que me empolguei demais em criar uma trama policial cheia de mistérios e cometi o grave erro de abrir esses mistérios sem fechá-los em pouco tempo. Isso deu a sensação de trama sem clareza. No ar, a maioria das respostas está sendo dada, mas talvez seja tarde. O público tem pressa. Como eu não tinha quando escrevi – a novela ainda não estava no ar – eu perdi essa perspectiva. Foi o erro mais grave que eu cometi.

Meus diálogos são simples e realistas. Se, dão a alguns a impressão de serem “literários” (no mau sentido) é porque a direção da novela se equivocou no tom, dando aos atores certa solenidade. Por mais que eu alertasse, no início, não obtive a atenção dos diretores, pois estavam envolvidos com uma gravação dificílima em um navio. Ao voltar havia um atraso considerável e as reuniões não sanaram este problema.

Não me sinto injustiçado, não. Ao contrário me sinto “justiçado” – cometi um erro grave e estou pagando por isso. É uma pena que eu tenha errado em minha última novela. “Máscaras” vai para meu rol de equívocos como “Os Gigantes”.  Eu gostaria de acordar desse pesadelo.


Isaac Abda – Se em ‘Poder Paralelo’ sobraram críticas elogiosas à direção do Ignácio Coqueiro, o mesmo não acontece com o seu atual trabalho na emissora. ‘Máscaras’ é sempre discutida nas redes sociais, e há quem defenda a tese de que a novela é boa, mas mal realizada. Certamente que você assistiu aos primeiros capítulos antes de a novela estrear. E o que tem ido ao ar tá dentro do desejado por você? Caso haja necessidade, existe a hipótese de mudança na direção geral da novela, tal qual aconteceu em Cidadão Brasileiro?

Lauro Cesar Muniz – Eu jamais mudaria o diretor de minha novela, como não fiz isso em “Cidadão Brasileiro”. Corre uma idéia de que em “Cidadão” fui eu que troquei o diretor. Engano. Fui o último a aceitar a idéia da troca. Admiti o clamor geral quando não havia mais condições. O diretor estava sendo muito cobrado e reagia de forma desequilibrada.

O Ignácio Coqueiro, diretor de Máscaras, encontrou muitas dificuldades durante a produção. Gravar no navio foi extremamente difícil. Na volta havia atrasos na produção e ele nem teve tempo de reunir seus diretores para dar um tom bem definido como qualquer novela exige. Até hoje não acertaram o passo e a cada dia os problemas se agravam mais. A novela poderia ter tido muito mais tempo para a preparação. Entreguei o projeto ainda em 2010.


Isaac Abda – Óbvio que sendo uma obra aberta, estando apenas no início, tudo é passível de alterações. O que vem por aí em “Máscaras”?  

Lauro Cesar Muniz – Estou lutando mais para corrigir os muitos erros cometidos por mim, pela direção e pela produção, do que olhar para o futuro próximo. Tenho uma boa trama e o público, amante de policiais, vai seguir daqui para frente, desde que sejam sanados todos os erros. É possível. Já perdi grandes sucessos que estavam em minhas mãos e me surpreendi com novelas que começaram equivocadas e depois encontraram seu caminho, até recordes de audiência. Minha carreira é longa e seria exaustivo nomear exemplos aqui.

Foi ótimo poder desabafar em um blog de boa qualidade como este.

Posso Contar Contigo? – Nós nos sentimos honrados por tê-lo mais uma vez como entrevistado. Obrigado pela deferência. Saiba que torcemos pela resolução de todos os problemas envolvendo ‘Máscaras’, e que isto ocorra em tempo hábil.   


Imagens: Portal R7.com

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Máscaras: Uma velha nova novela!



Por Eduardo Vieira

Uma trama passada num transatlântico de luxo: um homem que deseja se curar do trauma do desaparecimento da mulher e do filho recém nascido, uma prostituta que deseja recomeçar a vida e apaixona-se por um empresário, duas irmãs que vivem às turras pelo cuidado obsessivo da mais velha em relação à caçula, um grupo de amigas que pregam uma maior liberdade nos relacionamentos e pretendem, como no filme de Fellini, “E La Nave Va” jogar no mar as cinzas de uma amiga que morreu de câncer, um cantor que vive em uma crise de carreira entre a arte e o dinheiro, um homem casado que vai com a amante e tem como surpresa a presença e a aprovação da esposa para que esse romance aconteça, uma mulher que observa a vida do juiz que a condenara por vários anos por um crime que ela diz não ter cometido, juiz com problemas com o filho que é desajustado socialmente e um casal que tem um filho imaginário.

Tal trama parece ter vindo daqueles livros de sinopses de novelas antigas da Tupi ou até com melhor vontade, da própria Globo. Para quem não sabe essa história é a linha mestra da novela do horário nobre da Record, substituta da bem sucedida e longa “Vidas em Jogo”, cujo título é “Máscaras”.


Porém a novela divide opiniões: uns acham que ela não tem ritmo, que a história é circular, outros ainda reclamam do certo non sense de algumas tramas e cenas, já ainda outros compartilham da ideia que é uma volta às antigas tramas climáticas que eram exibidas nos anos de ouro das telenovelas. 

A novela é dividida pelo plot principal, o sequestro de uma mãe com depressão pós parto, Miriam Freeland, por meio de uma organização que apenas o público fica conhecendo. Essa onda de mistério envolve o marido, o médico e melhor amigo do casal e o irmão sem muito caráter da vítima, Maria, vividos respectivamente por Fernando Pavão, Petrônio Gontijo e Heitor Martinez, este último já expert em vilões na telinha da Record.

A novela tem claramente um aspecto teatral desde os diálogos nem sempre naturalistas, fruto talvez da origem do autor Lauro César Muniz, novelista com experiência em teledramaturgia, mas também dramaturgo, além de contar com o também escritor de teatro Mário Viana, e de mais dois colaboradores.


O problema é que nem sempre tal fusão, a trama do sequestro junto às várias subtramas, exibe um ritmo ao qual o público de hoje, seja classe a ou d, esteja mais acostumado. Cenas compridas por demais em um único cenário como no início na fazenda com apenas 3 ou 4 atores, ou cenas de gosto duvidoso como o final de uma celebração em uma cena muita bem imaginada: um descasamento (referência ao desaniversário de Alice?) Dos personagens de Beth Coelho e Henri Pagnocnelli, uma agente cultural e um político, que culminará numa comemoração apenas feminina com todas dançando um Rock In Roll para expiar suas culpas e desopilar a influência machista que permeia a vida delas. Nos anos 70, seria uma boa ideia tal final de cena. Hoje soa um tanto ridículo.

Entretanto, há a melhor trama com duas belas atrizes, Daniela Galli e Karen Junqueira. Elas fazem as duas irmãs que rivalizam e ao mesmo tempo mostram um amor uma pela outra, bem fora do usual com cobranças, jogos de sedução, competições. Mais uma vez a figura do homem como elemento repressor, meio surpreendente em um autor que sempre traz os personagens masculinos com grande destaque.

No caso, há um herói debilitado pelos traumas passados, com a aparência de um Jesus Cristo justiceiro que busca explicação pelo repentino desaparecimento de sua amada. Tal imagem só vem reforçar certo clichê que em nada ajuda a trama, pois o ator Fernando Pavão se sai bem num difícil papel.

Também há uma trama bem comum às histórias de Lauro Cesar Muniz, uma organização por trás do seqüestro e ligada à figura de Martin, irmão de Suzana, o principal vilão da história. Essa organização misteriosa traz como agente um personagem que pretende ser misterioso, mas também termina por ser outro clichê ambulante, a tal Nameless, bem interpretada pela sempre talentosa Paloma Duarte, mas que outra vez, vem com uma carga irônica que a sua Fernanda Lira já tinha na anterior “Poder Paralelo”.

Como essas histórias vão se unir ou não, é difícil pressupor, mas ao menos nota-se cada vez mais uma procura por um ritmo maior nessa trama desse misterioso sequestro e uma troca de identidades que tumultuará a história. Contudo por enquanto, vemos cenas muito bem feitas como gravações de conversas vistas de modo subjetivo, mas também outras cenas constrangedoras com o ator Dado Dollabella como uma espécie de “adulto índigo”.

O ritmo de uma novela não precisa ser vertiginoso com lances rápidos como em “Avenida Brasil”, mas também, e ainda mais numa trama que exige mais ação, não precisa ser tão entremeado de tramas com papos-cabeça pseudo filosóficos. 

Mesmo assim a novela traz boas interpretações até inesperadas como de Gisele Itiê, como a garota propaganda Manu, que consegue humanizar bastante a personagem, a já falada Daniela Galli e principalmente de Petrônio Gontijo como a figura dúbia do médico apaixonado pela vítima do sequestro, Dr. Décio.

Não sou adepto da ideia de que toda novela deva ter o mesmo andamento, os mesmos tipos de personagens, e com isso, espero que sobressaia na novela o contar da história e que esta utilize os personagens a contento, pois para fazer uma obra diferente deve se contar com uma boa escrita. Essa lei é válida para todos os textos, mais ou menos convencionais, como é o caso de “Máscaras”.


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Entrevista com o Autor Lauro Cesar Muniz - Um dos Ícones da Teledramaturgia Brasileira!

Elaborada por Isaac Abda
Colaboração: Vitor de Oliveira

O Lauro é respeitadíssimo no meio artístico, escritor de premiadas peças teatrais, roteiros cinematográficos, e requintado autor de teledramaturgia. "Poder Paralelo", "Cidadão Brasileiro", "O Salvador da Pátria", "Carinhoso", "O Casarão", "Escalada" e "Roda de Fogo" são alguns dos seus sucessos. Sempre solícito, dispensou ao nosso Blog excelente tratamento e nos honrou com uma entrevista "deliciosa". Vale muito a pena conferir!


Você é um autor de reconhecido sucesso, também no teatro. Sente que há um prazer diferenciado na escrita de peças teatrais, como alguns autores afirmam?
Lauro César Muniz – Sou um só, no teatro, na televisão e como roteirista de cinema: ideológica e esteticamente. O meio, o veículo de comunicação ou expressão, é que me impõe atitudes diferentes.  O teatro me dá a plena liberdade de expressão, pois não tenho nenhum compromisso com ninguém a não ser com a minha necessidade de expressão. Escrevo uma peça de teatro por compulsão: o tema se impõe a mim, torna-se uma obsessão, tenho uma necessidade de jorrar na escrita aquilo que não quer calar. É um trabalho meu e só meu, que depois recebe o apoio e trabalho que artistas que se identificam comigo. Na televisão também escolho o tema com o mesmo rigor, mas tenho que atender algumas exigências das emissoras, de um público eclético e enorme, e as limitações de horários de exibição. Posso mais facilmente fazer adaptações ou me inspirar em livros de outros autores. No cinema estou à disposição de um diretor, aquele que vai realizar o filme. É ilusão de um roteirista de que possa ter controle sobre o resultado final do filme, mesmo que se tenha escrito com absoluta identificação com o realizador. A única saída para se expressar plenamente, no cinema, é dirigindo o filme.
Dentre os autores que estão, há pouco tempo no mercado, há quem te chame a atenção de uma forma diferenciada?
Lauro César Muniz – Na televisão são muito poucos os autores com quem me identifico, jovens ou veteranos. Com relação aos novos é ainda mais difícil porque me escandalizo com a falta de técnica dramatúrgica e com o nível de concessão. Gostei de assistir o início do último trabalho do João Emanuel Carneiro e admiro a coragem das autoras de “Cordel Encantado”, Duca e Thelma.   
Na Rede Globo está em exibição O Astro, em comemoração aos 60 anos da telenovela brasileira. O que você acha do remake de grandes sucessos?
Acho uma ótima idéia desde que tenham o formato curto de “O Astro”. Fazer remakes de novelas longas é uma prática justa, mas que em nada contribui para aprimorar o gênero telenovela. Curiosamente, no ano passado, a melhor novela exibida foi um remake, “Ti-ti-ti”. Isso mostra como vão mal os novos projetos. Mas acredito que as novelas vão melhorar quando reduzirmos o número de capítulos para menos de 150. Muda-se a forma e o melhor conteúdo aflora.


Além de todos os cuidados que cercam essa nova produção, a quantidade reduzida de capítulos vem a calhar neste momento em que você, apoiado por alguns dos seus colegas, encabeça uma campanha por novelas mais dinâmicas, com menos tramas paralelas, elenco “enxuto” e num período menor de exibição. Sente-se encorajado a alcançar tal objetivo? De que modo acredita torná-lo realidade?
Lauro César Muniz – Estou bem acompanhado nessa campanha. Tem crescido muito a adesão à minha insistente e antiga “briga” para reduzir as novelas. Já começo a ser ouvido por diretores executivos responsáveis pelas telenovelas, não apenas na TV Record, minha emissora. São vários os fatores positivos, volto a insistir:
·         Adequação aos tempos atuais – a dinâmica de comunicação mudou muito com a internet. Em tempos de comunicação relâmpago dos sites, buscas, facebook, twiter, etc... tem sentido uma novela de 200 capítulos ou mais?
·         Os autores se encorajarão a voltar a escrever as novelas, em vez de precisar criar como em um processo de linha de montagem distribuindo tarefas a colaboradores.  Isso trará de volta o estilo autoral. Da mesma forma o Diretor Titular, mais capacitado, poderá dirigir mais cenas, com menos diretores auxiliares.
·         O mercado vai crescer para autores: os bons colaboradores terão oportunidade de assinar seus trabalhos. E os melhores diretores auxiliares serão elevados a titulares.
·         Os atores e atrizes também serão beneficiados: cresce o mercado com mais novelas, significa mais trabalho e tempo de permanência no ar mais freqüente, sem o esgotamento de carregar um personagem, por vezes tão frágeis, durante 200 capítulos.
·         As emissoras terão novelas com menos personagens, consequentemente menos cenários, menos locações, menos figurinos. Assim, com menos pessoal e produção reduzida, o ponto de equilíbrio financeiro será proporcional ao da novela de 200 capítulos, que se paga depois do capítulo 100. Por exemplo, numa novela de 120 capítulos, será possível contar uma história concentrada em 20 personagens e o break even point (perdão) será por volta do capítulo 60.



Vitor de Oliveira – Roteirista da TV Globo, um dos Colaboradores da nova versão de O Astro, pergunta: Lauro, de que forma podemos, ao mesmo tempo, ousar com tramas interessantes e atender aos apelos comerciais de uma emissora?   
Lauro César Muniz – Tramas fortes, contundentes e interessantes sempre atendem ao grande público. O que a emissora deseja? A plena satisfação do público. O público está esgotado com algumas novelas tolas que estão sendo impostas atualmente. O público não é burro! Dê a eles uma obra clara, com personagens reais e a identificação será imediata! Sucesso não tem receita, mas eu acho que há qualidade e contribuição quando o autor mergulha para valer em um tema, um assunto que domina, que vem do fundo das suas inquietações! Conte a sua história! Será a história de todos!
Você preza pelo envolvimento do autor em todos os assuntos que julgue importantes para o sucesso ou não de suas novelas? De que modo? Há quem se irrite com isso?
Lauro César Muniz – Claro! Devo estar atento a tudo, não apenas ao meu texto. Tenho que participar da escolha do elenco, da trilha sonora, do tom da direção, da cenografia e até da divulgação. Eu conheço melhor que todos a história que vou contar. Ela nasceu em mim.

Alguns acreditam que a discussão em torno do “beijo gay” nas novelas estaria saturada. Concorda?
Lauro César Muniz – Isso é uma bobagem. Ainda hoje assisti um beijo entre duas atrizes em um filme americano de 1934! Uma das atrizes era a Greta Garbo! Concordo com a Maria Adelaide que outro dia disse: o importante é, numa relação gay o personagem dizer: eu te amo.
Você defende que “quem sabe dar título as novelas é o próprio autor”. Você tem essa liberdade na Record? Quem estaria errando diante de tantos títulos mal ajustados às tramas e pouco ou nada criativos, das novelas atuais?
Lauro César Muniz – Respondo só por mim. Fiz duas novelas na TV Record: “Cidadão Brasileiro” e “Poder Paralelo”. Gosto muito dos dois títulos: o primeiro eu criei, o segundo saiu de uma lista enorme e quando eu o descobri, por incrível coincidência (acreditem!) apareceu premiado por um funcionário da TV Record. Eu queria Vendetta, mas Poder Paralelo é melhor.


À época da novela Cidadão Brasileiro, que marcou a sua volta à Record, surgiram comentários de que o Tiago Santiago, então Consultor de Teledramaturgia, estaria interferindo demasiadamente no seu trabalho e dos demais colegas. O que você pode contar sobre isso?
Lauro César Muniz – Ele tinha um cargo na emissora e se arvorou a dar opiniões sobre autores mais experientes que ele. Ele vê a teledramaturgia por um ângulo oposto ao meu.



O Tiago Santiago insiste em manter o seu estilo extremamente didático, em Amor e Revolução, sua atual novela. Fosse você a desempenhar função de Consultor de Teledramaturgia no SBT, interferiria nesse sentido?
Lauro César Muniz – Eu nunca seria um consultor de dramaturgia em nenhuma emissora.
A sua novela Cidadão Brasileiro enfrentou problemas de Audiência e sofreu alguns ajustes no decorrer da trama, incluindo a troca do diretor Flávio Colattrelo (que contraditoriamente, foi muito feliz na direção de Essas Mulheres, do Marcílio Moraes, também na Record), pelo Ivan Zettel. O que teria motivado você a solicitar tal mudança? Por acaso, pesou a experiência obtida em Aquarela do Brasil?
Lauro César Muniz – Essa história sempre foi muito mal contada. Eu fui o último cara da produção de Cidadão Brasileiro a concordar com a substituição dele. O Flávio foi trocado por pressão do estúdio! Um dia, um diretor executivo da emissora me disse: Lauro, não dá mais para segurar.
Em Aquarela do Brasil e em nenhum momento solicitei troca de diretor.



Seria o status de Diretor de Núcleo, a “justificativa” para a prepotência de alguns, capazes de mexer drasticamente na obra deste ou daquele autor? Você se permitiria desenvolver novamente um projeto com o Jaime Monjardim? 
Lauro César Muniz – Não, Jayme e eu somos pessoas muito diferentes. Tomaria um bom vinho com ele, mas não trabalharia mais com ele. Ele é um cavalheiro, um homem muito agradável, gentil e educado, mas não pensa como eu em nada, nem nos assuntos mais elementares.


Em entrevista ao Blog Agora é que São Eles você falou sobre a mágoa que o Marcílio Moraes nutre por você, desde a época da novela Roda de Fogo, da Rede Globo. Houve algum constrangimento à época do seu retorno para a Rede Record, devido a esse episódio? Voltaria a desenvolver algum projeto em parceria com o Marcílio? 
Lauro César Muniz – Não! Eu não trabalharia mais com ele. Essa bobagem sobre Roda de Fogo veio à tona agora, há pouco tempo, quando li uma entrevista dele em um site. Ele dizia que havia sido prejudicado na divulgação de seu nome em Roda de Fogo. Ora, como posso ter controle sobre isso?! Veja que curioso, acima em uma pergunta eu li; “Essas Mulheres” de Marcílio Moraes. Não é apenas dele, é também da Rosane Lima que escreveu a sinopse! E vocês se esqueceram dela! Culpa do Marcílio?! Claro que não! Muitas vezes eu li que “Insensato Coração” é do Gilberto Braga! Omitiram muitas vezes o nome do Ricardo Linhares! Quando “Roda de Fogo” estreou, eu já havia escrito 12 novelas, alguns de meus melhores trabalhos como Escalada, O Casarão, Espelho Mágico, Carinhoso, etc... Não é fácil para o jornalista se lembrar sempre do parceiro menos conhecido. Quantas vezes a gente ouve que certo samba é do Noel Rosa e se esquece do nome do Vadico!
E o conflito com o Marcílio ressurgiu de um impasse na Associação de Autores onde ele é presidente. Com palavras pouco gentis ele insinuou que eu, (um dos fundadores da Associação), criei a associação para não enfrentar a TV Globo. Ora, isso é o cúmulo dos absurdos! Depois de criarmos a Associação, eu continuei minha batalha para criar dentro da Globo um espaço que reunisse os autores. Isso acabou acontecendo, logo depois foi criado o Centro de Convivência que inicialmente era dirigido por um Autor, o Ricardo Linhares. Depois, infelizmente, o Centro fugiu das mãos dos autores. Mas ainda é, até hoje, um local onde a dramaturgia impera.



Ao longo de sua carreira, os personagens criados por você sempre foram interpretados pelos melhores atores, e isto em todas as emissoras pelas quais passou até a atual, Rede Record. Como se dá o processo de criação desses personagens, você idealiza o intérprete? 
Lauro César Muniz – Isso é verdade! Tenho tido sorte de ser bem recebido pelos atores e atrizes, podendo assim contar com os melhores. O Autor, sendo aquele que cria as personagens sabe quais são os atores que melhor se adequam ao perfil desejado. Não apenas por atributos físicos, mas também pelo temperamento que cada ator revela. Nada a ver com carater (vilania), mas capacidade de doação, técnica, talento, etc...



O que pensa sobre a postura da Record, em “ignorar” a necessidade de um programa sobre os bastidores da teledramaturgia?  
Lauro César Muniz – Não tenho informação nenhuma sobre isso. Se o exemplo é o Vídeo Show da Globo é preciso entender que a TV Record ainda não tem um arquivo grande que justifique um programa dessa natureza. Acredito que no futuro isso seja possível.
São muitos os protestos de telespectadores das novelas da Record, pela não permanência de atores que após desempenharem brilhantemente seus papéis, talvez os melhores em toda a carreira dos tais, não permanecem na emissora (aqui se exclua aqueles que optam pela não renovação de contrato). Você tem ciência disso, qual a sua opinião? 
Lauro César Muniz – A livre concorrência é a responsável pela migração de atores entre as emissoras. Vários atores e atrizes deixaram a TV Record e também a TV Globo.
O ano de 2010 foi muito negativo para a teledramaturgia por uma série de razões que não compreendo, por não ter acesso. Na TV Record houve apenas uma novela inédita no ar. Isso esvaziou a necessidade de se agitar novas contratações.




As suas telenovelas têm a característica de entreter um público diferenciado, pelo texto sempre apurado, inteligente, contraditório. Já houve pela Cúpula da Record (exclua-se o episódio do TS) a tentativa de interferência no seu estilo, sob o pretexto de atingir também um maior número de espectadores de baixa percepção? 
Lauro César Muniz – Não houve nenhuma tentativa de interferência. Houve reuniões em que expliquei quais as minhas intenções com relação a algumas personagens. A teledramaturgia da TV Record nasceu sob a influência de Tiago e Herval Rossano. Como dois profissionais iniciais, eles ditaram certas “regrinhas” que não correspondem ao gosto geral dos autores ou diretores. Sem essa influência, a TV Record descobriu outros caminhos.
A sua próxima novela na Record tem previsão de estréia para o 1º semestre de 2012. Quais as suas pretensões para este novo projeto? O que o público pode esperar de “Navegantes”? Quem do Elenco da Record se depender da sua vontade, já pode ser confirmado?  
Lauro César Muniz – Ainda não tenho nada definido sobre “Navegantes”. Estamos começando a discutir a possibilidade da produção, considerando que trata-se de novela que depende de fatores externos à emissora, como por exemplo a gravação em um transatlântico de luxo por muitos capítulos. Estamos trabalhando para que tudo corra bem.



A imprensa tem falado dos pontos semelhantes da sua trama e a do João Emanuel Carneiro, que também estreará em 2012. Coincidências ou não, como você lida com essa situação? 
Lauro César Muniz – Não há nenhuma semelhança. Meu transatlântico não afunda. Duas novelas não podem ter dois transatlânticos?
Você já começou a desenvolvê-la? Aliás, qual a sua observação sobre a relativa “demora” da Record no que diz respeito ao processo de pré- produção de suas novelas? Você sente que isso acontece de fato, como tantos afirmam, de modo depreciativo?
Lauro César Muniz – Já estou escrevendo a novela. Ignácio está lendo. Elenco só na cabeça, aguardando a definição do navio, conforme expus acima. Depreciativo em que sentido? Dúvidas de se produzir minhas novelas? Nunca senti isso. Atores e atrizes me escrevem ou me telefonam dizendo o tempo todo: fala-se muito aqui (estúdio) na sua novela. Se há hesitação sobre meu trabalho me contem, que vou retomar meu filme sobre o Getúlio Vargas.
MEA CULPA do Blog Posso Contar Contigo? – Quero que me perdoe pela pergunta “mal” formulada, referia-me ao processo de pré-produção das novelas da Record, pois jamais me prestaria a elaboração de tal pergunta sob a ótica a que foi compreendida por você. Mas, será que não usou do seu sarcasmo, por aqui também?! Penso que sim, (risos). No entanto para que não haja, de fato, alguma incompreensão por alguns leitores, faço essa ressalva sobre o que foi dito acima. E em tempo, reservo-me o direito de tornar público toda a minha admiração por você e por sua obra, um ícone da teledramaturgia brasileira.  
Terminado “Navegantes”, porque não inaugurar um novo modelo de minisséries na Record, algo no estilo do que foi realizado com êxito, por você, ainda na Globo? 
Lauro César Muniz – Já houve uma boa minissérie da TV Record. E outras virão. Espero fazer alguma, no futuro.
Percebe-se realizado por tudo que tem feito na teledramaturgia nacional? 
Lauro César Muniz – Dei sempre o melhor de mim, corri riscos, encontrei barreiras pessoais ao meu trabalho, busquei outros caminhos, superei, enfrento sempre a incompreensão de muitos colegas, autores e colaboradores, que não aceitam que eu me entregue com todas as minhas forças a produzir o melhor de mim, buscando verossimilhança nos trabalhos realistas como Poder Paralelo. Recentemente ouvi de um colaborador em que eu confiava: Não adianta dar qualidade. O público está sempre zapeando e não está atento a nada. Você sofre a toa... Um autor disse outro dia: o Lauro sofre muito para escrever. Eu responderia: o dia que ele sofrer, vai fazer um trabalho melhor.


O POSSO CONTAR CONTIGO? agradece a gentileza e deseja ainda mais sucesso nos próximos trabalhos!
Lauro César Muniz – Obrigado, moçada!
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