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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Um balanço do horário nobre: A volta do bom texto com Em Família

Por Leonardo Mello de Oliveira

 Não há como negar a incrível campanha de popularização que acontece atualmente na televisão brasileira. A incansável busca por audiência vem tentar capturar um público que assiste a novelas diariamente desde os anos 70: a chamada classe C. Porém, dizem alguns, estamos em um período de transição, onde vários membros antes considerados da classe D emergiram, e agora figuram nesta chamada “nova classe C”. Esse é o público que a TV quer, e não mede esforços pra isso. Infelizmente, popularização no Brasil muitas vezes vira sinônimo de má qualidade, principalmente no quesito telenovela. É incrível como a Rede Globo, a maior emissora do país, conseguiu, em tão pouco tempo e de forma nada sutil, inundar sua programação com programas e novelas de fácil digestão, com forte apelo popular e que resultam, muitas vezes, em produtos execrados pela crítica. Não estou falando que apelo popular sempre acaba em equívocos. O Esquenta, programa apresentado por Regina Casé, é um dos mais popularescos que já assisti, porém, não deixa de ser um programa que funciona, que dá certo e que tem grandes qualidades, muito mais do que defeitos. O grande problema é como o popular é conduzido, como é dosado. Tudo isso altera o resultado, e também a maneira que será visto, tanto pela classe C quanto por todas as outras classes que, com certeza, também assistem à TV aberta.


      Vamos analisar brevemente o histórico de novelas populares no horário nobre desde Fina Estampa, trama que iniciou essa “epopéia popularesca”. Um fato engraçado é que somente o horário das nove foi praticamente obrigado a transmitir esse tipo de produção. O horário das seis, das sete e das onze receberam uma dose ou outra de popularismo, mas não se prendeu à fórmula. Vale lembrar também que não é de hoje que esse tipo de trama existe. Os seus próprios autores hoje alcançaram o sucesso usando o apelo popular.
      Fina Estampa foi escrita por Aguinaldo Silva, autor já consagrado por tramas de cunho popular. Aguinaldo já havia nos apresentado nos últimos anos Senhora do Destino e Duas Caras, novelas bem populares. Mas o que se viu em Fina Estampa foi a fórmula escancarada, sem medo de mostrar um apelo gigantesco por audiência. Uma protagonista maniqueísta, uma vilã caricata e tão maniqueísta quanto sua rival, um gay mega afetado, personagens cômicos, gente pobre e honesta sofrendo e muito barraco eram as principais táticas do autor para alcançar a classe C, que começava a virar o assunto do momento quando se falava em televisão. Aguinaldo conseguiu, e com um gigante sucesso, cessar o declínio de audiência do horário nobre global. Porém, isso tudo teve um preço. A crítica caiu em cima. Situações incoerentes, dignas de desenho animado, subestimavam a inteligência do telespectador e baixavam o nível da trama.


      Logo depois veio o furacão Avenida Brasil. A novela parou o Brasil como há tempos não acontecia. João Emanuel Carneiro, o JEC, apostou em uma trama pesada, com inspiração em vários clássicos literários e teatrais, mas que ao mesmo tempo tinha vários elementos populares. Modismos e trejeitos do subúrbio enriqueciam a novela, que, aliás, mostra uma evolução gigantesca do JEC como autor. Seus defeitos característicos ainda estavam lá, mas muitos haviam sido corrigidos. João Emanuel é outro autor conhecido por suas tramas populares, mas ao mesmo tempo profundas. O entrosamento entre a equipe de produção era notável, tanto que praticamente tudo deu certo em Avenida Brasil.


      O mesmo não pode se disser de sua sucessora, Salve Jorge. Glória Perez foi uma das primeiras autoras a retratar a vida do subúrbio, das favelas, de um povo pouco mostrado nas novelas antigamente. Sua nova trama trazia como protagonista uma menina da favela, jovem, que teve um filho muita nova e que acaba sendo traficada e prostituída na Turquia. A trama era inicialmente densa, mas o grande erro de Glória foi mais o menos o mesmo de Aguinaldo Silva em Fina Estampa. A autora utilizou quase todos os recursos que conhecia e que já haviam sido garantia de sucesso. Falhas da direção, mau direcionamento de personagens, elenco sumido, texto fraco para uma autora que já nos trouxe Barriga de Aluguel e O Clone, um déjà vu de outras tramas de Glória, enfim, vários foram os fatores para a rejeição do público e da crítica.


      Então vem Amor à Vida! Estreia de Walcyr Carrasco, autor de clássicos do horário das seis, no horário nobre. O início foi empolgante, muitos viam uma segunda Avenida Brasil, a expectativa aumentava a cada capítulo. Porém, já na terceira semana de novela, a decepção veio como um balde de água fria. Carrasco fazia uma novela das sete no horário das nove, e era clara a busca por audiência. Tudo parecia ser feito pra fazer mais barulho, pra chamar o público a assistir à novela. Mudanças drásticas e sem sentido em personagens, armações, segredos de família revelados uma vez por mês, tudo era feito para que seguisse aquilo o que o povo queria. Me pergunto: de quem é a culpa da falta de qualidade em Amor à Vida? Será que realmente é de Walcyr Carrasco? Pois eu não consigo acreditar que quem escreveu uma novela como essa nas primeiras e nas últimas semanas tenha sido a mesma pessoa que escreveu o meio. Pressão da emissora ou do público por uma novela de fácil digestão? Se foi da emissora, o objetivo foi alcançado. A novela conseguiu uma média bem decente e repercutiu como poucas.


      Atualmente podemos ver um Manoel Carlos inspiradíssimo no horário nobre. Mas sua novela não condiz com nada do que foi visto nas últimas quatro tramas das nove. Em Família chegou com um texto brilhante, caprichado, sem medo de agradar a essa ou àquela classe. Um elenco primoroso, desde os desconhecidos das primeiras fases até os medalhões da terceira. Maneco diz que não há pressão por audiência que lhe faça baixar o nível. E vemos que ele não mente. Apesar dos pífios números alcançados por Em Família nos seus primeiros capítulos, tudo o que foi feito foi agilizar a trama, fazendo os capítulos mais longos, nada de mexer na história! Talvez o único grande problema desta novela seja a cronologia, com idades de atores que não condizem com o de seus personagens e elementos de cenário e figurino que não batem com a época. Mesmo assim, a crítica aplaude essa brilhante e corajosa obra do “bom velhinho do Leblon”, que promete mais e mais a cada capítulo.



      Em momento algum quis passar que o programa popular é algo ruim. Mas sim que tudo deve ser bem pensado e feito, para que não se cometam exageros nem erros ao tentar fazer um produto que visa a classe C.  Como o próprio nome diz, a TV é aberta, todos assistem a ela. A busca incansável por audiência tem sido o maior inimigo da qualidade quando se trata de televisão. Que a Globo pense nisso, que não siga o caminho mais fácil. Afinal, é menos trabalhoso agradar a um só do que a todos. Principalmente se esse “um só” for garantia de dinheiro e repercussão...

domingo, 5 de maio de 2013

Quem matou Helena? Arebaba dona Carminha, foi o Caderudo!

Por André Cavalini

Popularmente chamada de novela das oito, as histórias que vemos na tv logo após o Jornal Nacional é o produto mais caro e mais valorizado da Rede Globo de Televisão. Também não podia ser diferente, pois este é o horário em que as famílias de todo o país estão reunidas na frente do aparelho. Talvez o único momento do dia em que pais e filhos, avós e netos tenham pra se encontrarem dentro da própria casa e fazerem algo juntos.

Ganhar  público família não é fácil, pois ali estão uma mistura de gerações e de cabeças pensantes em sentidos diferentes. É preciso agradar desde o mais jovem, até o mais velho,e para isso os autores precisam cada vez mais rebolar, e rebolar feito uma Gretchen na fase, pra não fazer feio.

Dessa maneira, a emissora platinada mantém a sete chaves, do lado esquerdo do peito, um time seleto para tentar dar conta do recado. Denominados “OS IMORTAIS” do horário nobre.

Já velhos conhecidos nossos, atualmente cabe essa difícil tarefa a Aguinaldo Silva, Silvio de Abreu, Gilberto Braga, Manoel Carlos, Glória Perez, e ao recém chegado ao time (e já muito admirado) João Emanuel Carneiro.


Num revezamento rígido de ideias, são as histórias criadas na cabeça de cada um deles, que sentamos todas as noites no sofá da sala para assistir. 


Provavelmente cada um já sentiu o amargo de um fracasso. Uma história que não pegou, que não rendeu, que não agradou. Que gerou críticas, baixa audiência, rejeição. Nesse momento talvez, tenham pensado em desistir. Ou talvez não, já que também brindaram com largos sorrisos a sucessos que marcaram pra sempre a teledramaturgia de nosso país. Que grudaram as pessoas na tela da tv, que foi capa de revista, recorde de audiência e motivo de orgulho para quem a escreveu.


Acredito eu, que o lombo dos imortais do horário nobre já estejam calejados, prontos pra receberem a chibata do fracasso ou a glória do sucesso.
A maioria já está há muitos anos exercendo a tarefa de nos entreter e sabem a dor e a delícia de realizar tal tarefa.


E como não podia ser diferente, cada um deixou em suas obras uma personalidade própria, nos permitindo imaginar o que vem por ai quando sabemos que a próxima novela será de fulano ou ciclano.
É possível imaginarmos sinopse, cenários, o tipo de diálogo e até mesmo alguns atores e atrizes que farão parte da trama, só de saber quem será o seu autor.



O tempo nos ensinou a conhecê-los, e a cada história nos sentimos mais íntimos, próximos. Como amigos que se conhecem e vão afinando a relação no decorrer do tempo.
Se olharmos bem, com olhos não de telespectador, mas sim de ser humano, conseguimos até mesmo encontrar muito de cada um nas entrelinhas de suas histórias e dessa maneira traçar um perfil certeiro sobre quem são ou quem foram, do que gostam e não gostam, como pensam, o que sonham.



Porque, acredito eu, as histórias que escrevemos, sempre tem um pouco de nós, e esse nós de cada autor, cada vez mais vai ficando claro aos nossos olhos.

Não sou nenhum especialista da área, até mesmo porque não acompanhei todas as novelas destes autores. Mas como bom noveleiro, dentro daquilo que vi de cada um, me arrisco a palpitar um pouco sobre cada mente pensante desses ilustres seres. 

E aí, concordam ou discordam???







A partir do próximo mês, o time de Imortais do horário nobre será reforçado pelo talento do autor Walcyr Carrasco, que estréia nas noites globais com a trama Amor à Vida, substituta de Salve Jorge. 
Fica aqui, desde já, as nossas boas vindas e a nossa torcida pra o sucesso da história!

sábado, 9 de março de 2013

Mais uma dose de Felicidade

Por Daniel Couri

Comecei a acompanhar a reprise de Felicidade – atualmente no canal Viva – e me peguei mais uma vez envolvido pela novela. Sua história simples já havia me cativado 22 anos atrás, quando estreou na Globo, no horário das 18h. Cheguei a assistir a reprise de 1998 no Vale a Pena Ver de Novo, mas a novela foi tão picotada que ficou sem graça. (Os 203 capítulos da apresentação original foram espremidos em 55). 


No Viva, o público pode (re)ver a trama de Manoel Carlos na íntegra. Apesar do sucesso na exibição original, muitos a consideravam água-com-açúcar demais. Curiosamente, sempre defendi essa novela. Para mim, o charme de Felicidade está justamente nessa singeleza. Reconheço que talvez hoje ela não conseguisse prender o público como fez duas décadas atrás. Os hábitos mudaram, a TV mudou, o público mudou. Mas eu, profundo admirador de Maneco – exímio cronista do cotidiano – continuo sentindo o mesmo carinho por Felicidade.

É engraçado, por exemplo, rever hoje a estreia de Viviane Pasmanter na novela. Ótima atriz, ela conseguiu, apesar da afetação da personagem, defender sua mimada e obsessiva Débora, antagonista da mocinha Helena (Maitê Proença). Ambas disputavam o amor de Álvaro (Tony Ramos). Eliane Giardini e Ana Beatriz Nogueira estreavam na Globo, assim como Bruno Garcia. Também estreante, Maria Ceiça deu vida à porta-bandeira Tuquinha Batista. Tristemente, foi a última novela da atriz Sandra Bréa. Foram vários os tipos comuns, mas de grande destaque.


Felicidade também marcou o retorno de Manoel Carlos à Globo, após uma ausência de 9 anos. E olha que a tarefa não foi fácil: a novela anterior, Salomé, não havia obtido bons índices de repercussão (aliás, foi uma das menores audiências da história da Globo até então). O estilo peculiar de Maneco, que se consolidaria de vez em suas novelas subsequentes, começava a se moldar. O cenário principal não foi o Leblon – uma das características típicas de suas tramas – e sim o Bairro Peixoto, em Copacabana. A primeira fase da novela se passava na fictícia Vila Feliz, interior de Minas Gerais, outro ponto que diferencia Felicidade das outras histórias do autor.


No entanto, a principal diferença de Felicidade em relação aos outros trabalhos mais conhecidos de Manoel Carlos é o fato de ter sido inspirada em histórias de Aníbal Machado, grande contista, ensaísta e professor mineiro (e pai da também escritora e dramaturga Maria Clara Machado). Contos como O iniciado do vento; Tati, a garota; A morte da porta-estandarte; Viagem aos seios de Duília e O piano foram adaptados e costurados numa mesma história. Maneco conseguiu imprimir sua marca na novela e ainda manteve toda a sensibilidade da prosa de Aníbal Machado. A mistura resultou numa novela boa e simples, que reergueu o horário das 18h.


Letícia Dornelles, colaboradora de Manoel Carlos em Por Amor (1997-98), também defende a simplicidade na teledramaturgia: “É o bom folhetim recheado de clichês, de construção básica, mas sem a obviedade que constrange, sem as ‘forçadas de barra’ para cair na boca do povo e ser popular... Porque novela tinha emoção. Envolvia. Infelizmente, é difícil se envolver com uma trama, se emocionar com os personagens... Há muita caricatura e pouca densidade. Muita superficialidade e pouca cumplicidade com o público”.

Nas novelas de Manoel Carlos não há grande disparidade entre ricos e pobres. É possível identificar detalhes e similaridades entre suas tramas. A presença obrigatória de uma Helena é a marca registrada do autor, que não dispensa uma personagem com esse nome – sempre a heroína da história. “As Helenas são uma imitação de pessoas humanas e verdadeiras, pois essa é minha maneira de ver as novelas. Nem realista ou naturalista, como querem alguns. E nem delirantes. Apenas verossímeis. Possíveis”, afirmou ele, em entrevista para o blog Eu Prefiro Melão, de Vitor de Oliveira.


“No caso de Felicidade há que se notar que foi uma novela apresentada às 18 horas, numa época (1991-1992) em que não se podia avançar muito. Além disso, todas as seis ou sete histórias que se entrecruzavam eram inspiradas livremente em contos de Aníbal Machado. Portanto, muita coisa desses contos ficou agregada ao meu trabalho. O elenco era afinadíssimo”, explicou Maneco, na mesma entrevista.

Manoel Carlos
De maneira geral, seus personagens são retratados de tal forma que o telespectador se sente parte da conversa que acontece na novela. Tem-se a sensação de estar acompanhando não uma novela, mas a vida dos amigos, vizinhos, parentes... novelizada. Tudo muito bem arrematado com o verniz refinado e os diálogos simples, porém sofisticados do autor. Porém, há que se chegar a um consenso no que diz respeito ao “realismo” retratado por ele. Uma telenovela jamais será “real”, visto que é explicitamente uma obra de ficção. Mas ela pode se aproximar – e muito – da realidade cotidiana geral. Não custa lembrar que realidade é um conceito que varia muito de telespectador para telespectador. E para cada um deles, a realidade tem um conteúdo diferente.

Os elevados índices de audiência obtidos por Felicidade – de poucos acontecimentos e muitos personagens – provam que a novela caiu no gosto do grande público. Nem seu ritmo relativamente lento (para uma novela) impediu que os telespectadores se encantassem exatamente pela “normalidade” da trama. Por isso a reprise do Viva não deixa de ser um exercício interessante para o público de hoje, acostumado a textos ágeis (e menos elaborados), cenas rápidas e emoções fortes. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

LUCIANA DE VIVER A VIDA: UMA VERDADEIRA HEROÍNA

por Denis Pessoa

Alinne Moraes foi Luciana.
Olá, pessoal! Depois de um tempo ausente do blog, volto a postar, e, aproveitando um desejo recente, volto a escrever sobre novelas. Fazia tempo que eu não tocava nesse assunto, e não havia uma novela específica que eu quisesse comentar, mesmo porque é impossível lembrar o melhor e o pior em uma única novela com riqueza de detalhes sem escrever um texto enorme. Não, ultimamente venho preferido falar mais a respeito de personagens que foram marcantes para mim.
Ultimamente, venho me dedicado a relembrar minhas personagens femininas favoritas. Aquelas mulheres que, para o bem ou para o mal, fizeram algo de marcante no universo da ficção, e que fazem com que nos identifiquemos com suas lutas, amores, ódios, mentiras, sacrifícios e dores.

E existem tantas que eu admiro, na TV, no cinema e na literatura. Na televisão, é grande a quantidade de heroínas, e sua exposição é consideravelmente grande. Mas quantas delas realmente fizeram algo que as fizessem merecedoras deste título?

A mim, eis quem merece: Luciana (Alinne Moraes), filha de Tereza (Lília Cabral) e Marcos (José Mayer), mulher de Miguel (Mateus Solano) – todos personagens da novela Viver a Vida, novela exibida entre 2009 e 2010.

De início, aspirante a supermodelo, Luciana era ambiciosa em sua carreira profissional; uma sonhadora que não se conformara com a vida fácil proporcionada pelos pais ricos, e que aspirava grandes passos em sua vida.

Solar, alegre, e também mimada, Luciana era muito sociável relacionava-se bem com sua família e amigos. Era uma garota espontânea, ousada, feliz. Como defeito, pode-se dizer que era cheia de vontades, e muito competitiva. Não aceitava “nãos”, e disputava destaque com outras modelos, especialmente com a experiente e bem sucedida Helena.

A relação das duas nas passarelas não é das mais amigáveis, e piora quando Luciana descobre que sua rival será agora mulher do seu pai, notícia que ela recebe de maneira pouco amistosa.

Em casa, Luciana tem uma relação conturbada com sua mãe Tereza, e sua irmã Isabel (Adriana Birolli). A mãe, a beira de um ataque de nervos por conta de seu recente divórcio com Marcos, implica com a filha o tempo todo. Já Isabel, que adora provocar a irmã, desperta constantemente a ira da moça, gerando cenas tragicômicas de perseguições, brigas físicas e ofensas.

Luciana ainda namora o jovem arquiteto Jorge (Mateus Solano). Rapaz muito distinto, que deseja casar-se o mais breve possível. Os dois mantem uma agradável relação, porém entram em conflito quando se trata da profissão da moça. Discreto, Jorge desaprova a exposição a qual Luciana se submete por conta de seu trabalho, e magoa a moça ao acreditar que sua escolha de vida é mera frivolidade juvenil.

A moça sofre com as brincadeiras do travesso Miguel, que vive a causar confusão entre o casal, sempre abusando em suas brincadeiras do fato de ser gêmeo de Jorge.

Furiosa com o casamento de seu pai, com quem tem uma relação muito próxima com sua inimiga Helena, Luciana faz de tudo para se opor à essa união. Em um dos momentos mais divertidos protagonizados pela personagem, Luciana parece no casamento do pai usando luto. Durante toda a cerimônia, exibe uma cara amarrada.

Em determinado momento, Luciana recebe com grande alegria a notícia de que irá desfilar em uma megaprodução em Petra, na Jordânia. Fica em êxtase, e mesmo com a oposição de Jorge, decide viajar, vendo nesta viagem a grande oportunidade de sua carreira e de sua vida. Um salto para a vida adulta.

Em Petra, Luciana tem o tempo de sua vida. Se diverte pela primeira vez sem a tutela dos pais, e faz amigos como Felipe (Rodrigo Hilbert)  e Bruno (Thiago Lacerda), por quem fica interessada e acaba trocando um beijo, em uma aventura secreta.

Tudo caminha tão bem, que Luciana chega a acreditar que ela e Helena ficarão amigas. Mas quando Luciana percebe que Helena se incomoda com sua aproximação com Bruno, acredita que a tutora designada por sua mãe está disputando o rapaz com ela.



Pouco a pouco, a relação cordial entre as duas se desfaz, culminando em uma discussão onde Luciana ofende Helena seriamente, e acaba levando um tapa na cara por conta. Como resultado, Helena, magoada, não permite que Luciana a acompanhe em seu carro particular, e a menina, indignada, embarca em um ônibus com as demais modelos.
É quando acontece um acidente que muda a sua vida.


Quando acorda, Luciana já é outra. Sofreu graves lesões na medula cervical, e não sente nem os braços e nem as pernas. Em uma das cenas mais comoventes da novela, fala com os pais pelo telefone, e Tereza, mesmo devastada, tenta ser positiva diante da filha apavorada. É sempre devastador rever essa cena, em que Luciana grita pela mãe, e pede, aos prantos: “mãe, me tira daqui!”.

Logo mais, Luciana retorna para o Brasil, onde não tarda a receber a notícia: está tetraplégica. Sua reação não é nada boa. A notícia deixa todos em choque: Luciana não será mais uma modelo de passarela.

Diversas relações entre personagens mudam após o acidente; Luciana passa a odiar Helena, culpando a modelo por sua nova condição. Seu relacionamento com Jorge esfria. Luciana é dura com ele, pois não acredita mais ser apta a ser sua namorada.

Tão logo é operada, Luciana passa a se tratar, a principio cética. Porém, logo mais, 

Miguel, que se mostra cada vez mais um bom amigo, consegue, junto com ela, obter êxitos no tratamento. Luciana passa a ter algumas sensações em seus membros, e passa a conseguir executar pequenos movimentos. Com o passar dos meses, torna-se ligeiramente mais independente.

A tragédia une mãe e filha, que passam a desenvolver uma relação de carinho e intimidade, e a cada capítulo, Luciana se torna mais e mais madura, aprendendo a colocar toda sua vida em perspectiva. Embora sem andar, percebe quão abençoada é por ter uma família que a apoia em todos os momentos.


O relacionamento com Jorge não vai bem. Em um gesto de ciúmes, ele proíbe seu irmão Miguel de ser o médico de Luciana, e ela, sem saber o que aconteceu, fica decepcionada pela ausência de seu amigo de bom astral. Ao descobrir a razão do sumiço de Miguel,  Luciana percebe que seu relacionamento com Jorge não dará mais futuro aos dois. O relacionamento termina em mais uma sensível e tocante cena.

Os momentos do casal tomando banho de mar, depois em Paris, em lua-de-mel, já no final da novela também são de um romantismo sensível e delicado. Minha implicância com este casal – eu não apreciava o Miguel, preferia o Jorge – desapareceu após estas cenas.


Finalmente, Luciana prova que mesmo com todo o sofrimento, e com as dificuldades ao longo do caminho, era capaz de ser feliz. Casou, e deu à luz gêmeos. Com muita dificuldade, entendeu que Helena não teve culpa do que aconteceu, e aprendeu a viver em paz com o fato de que não voltaria a andar.

Foi uma jornada difícil, mas que Luciana suportou com bravura, aceitando o apoio dos que a amavam, a despeito do julgamento e do preconceito de pessoas que viraram as costas para ela depois do acidente, sendo sempre incrivelmente franca consigo mesma e com os outros a respeito de suas limitações, finalmente descobrindo novas possibilidades de realizar seus sonhos. Provou que não eram necessários braços e pernas para que ela pudesse ser feliz. Estava viva, e bastava.



Por isso Luciana é uma das minhas heroínas de novela favoritas. Viveu um drama real para muita gente, e não apenas sobreviveu, como descobriu uma forma nova de viver.

Agora pergunto a vocês: quais são suas heroínas favoritas de novela e por quê? Relembrem essas histórias! Não deixem de comentar!
            
Até a próxima!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Grandes Autores: MANOEL CARLOS

Por Rafael Tupinambá

Em 2011 comemoramos os 60 anos da telenovela brasileira. Assim como o a paixão do brasileiro pelo futebol, o fascínio do público pelas novelas é indiscutível. Mas criar esse “hábito”, tornar a novela parte da rotina das pessoas, não é tarefa fácil. Sem uma caixa preta, como as do teatro e do cinema, que imediatamente transportam o espectador para outro estado de concentração, a teledramaturgia fica sempre disputando atenção com os acontecimentos do dia a dia. Entram em cena, então, os autores, que têm a deliciosa e árdua missão de despertar o interesse do público, fazendo com que ele ligue de novo a TV, no dia seguinte, para assistir ao desdobramento da história. Para homenagear esses grandes profissionais, começo hoje uma série de matérias relembrando a trajetória dos principais autores da teledramaturgia nacional. Pra começar, hoje vamos falar um pouco do nosso grande: “Maneco”.
Manoel Carlos estreou aos 18 anos como ator nos teleteatros dirigidos por Antunes Filho na extinta TV Tupi. Depois escreveu e adaptou mais de cem teleteatros para as grandes atrizes e os grandes atores e emissoras de todo o país. Parou de trabalhar definitivamente como ator em 1959 quando foi para a TV Excelsior trabalhar como diretor geral, ou como prefere dizer ele: “Tinha 19 anos, filho e esposa. Precisava ganhar dinheiro.”.


Manoel Carlos foi responsável por vários dos mais importantes programas dos primórdios da televisão. Na “TV Vanguarda” e no “Grande Teatro Tupi” escreveu para nomes como Sérgio Britto, Fernanda Montenegro, Natália Thimberg e Ítalo Rossi, construindo assim histórias curiosas que criaram as lendas que circundam a televisão. Dirigiu e produziu programas como “Família Trapo”, ao lado de Ronald Golias e Jô Soares; “O Fino da Bossa”, programa celeiro da Bossa Nova apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues e a primeira fase do “Fantástico”. Só escreveu sua primeira novela em 1977, uma adaptação literária: “Maria, Maria”. Logo em seguida “A Sucessora”, com Suzana Vieira, Rubens de Falco e Natália Thimberg. Nos anos 80, trabalhou com o amigo Gilberto Braga no texto de “Água Viva”, escreveu o sucesso “Baila Comigo” e a promissora “Sol de Verão” que teve um fim prematuro devido à morte de Jardel Filho que interpretava o protagonista.


Mas foi nos anos 90 e nos primeiros anos do século XXI que Manoel deixou sua marca na teledramaturgia. Primeiro vieram “Felicidade” (1992) e “História de Amor” (1995), ambas no horário das seis, depois as campeãs de audiência do horário nobre “Por Amor” (1997), “Laços de Família” (2000) e “Mulheres Apaixonadas” (2003) e já sem fôlego, “Páginas da Vida” (2006). Em todas essas novelas uma coisa sempre se repetiu: As “Helenas”. A primeira protagonista escrita por Manoel Carlos chamada Helena foi em “Baila Comigo” e foi interpretada por Lilian Lemmertz. “A que mais sofreu”, segundo Maneco. Depois vieram Maytê Proença, Vera Fischer, Christiane Torloni e Regina Duarte, sua favorita. Mas ele se irrita quando espectadores e críticos insistem em afirmas que todas são iguais. “Já é um absurdo somente por consideramos que Lilian Lemmertz e Christiane Torloni são atrizes completamente diferentes.”. O porquê do nome? A inspiração vem sim da figura mitológica Helena de Tróia. Uma mulher com uma força interior capaz de provocar uma guerra. Em sua última novela, Maneco inovou construindo uma Helena mais jovem. Em uma entrevista dada meses antes da estréia de “Viver a Vida” ele disse: “Gostaria de fazer uma Helena negra e adoraria Taís Araújo no papel. Admiro muito o trabalho dela.”. Quando a trama estreou no final de 2009, o papel não teve o desenvolvimento esperado e a novela acabou concentrando sua trama nas personagens Luciana (Alinne Moraes) e Teresa (Lília Cabral).


Suas obras, assim como as de Glória Perez, são conhecidas por sempre trazerem grandes campanhas de merchandising social. Em “Páginas da Vida” adotou como eixo principal a discussão sobre a síndrome de Down. Em “História de Amor” tratou do câncer de mama através de Marta (Bia Nunnes) e os dramas enfrentados pelos deficientes físicos nas grandes cidades, como os vividos por Assunção (Nuno Leal Maia). Em “Por Amor”, Paulo José esteve brilhante como o alcoólatra Orestes, levando os Alcoólicos Anônimos a triplicar seu público. Com a personagem Camila (Carolina Dieckmann) de “Laços de Família”, a Rede Globo ganhou o BitC Awards for Excellence 2001, na categoria Global Leadership Award, o mais importante prêmio de responsabilidade social do mundo. “Mulheres Apaixonadas” é a campeã de merchandising social, como o próprio Manoel Carlos reconhece. Foi discutida a questão da terceira idade; a sutil relação de Clara (Aline Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli); o celibato com o padre Pedro (Nicola Siri); o ciúme tratado como doença, com Heloisa (Giulia Gam); a violência doméstica mostrando Raquel (Helena Ranaldi), que era violentamente agredida pelo ex-marido; e novamente o alcoolismo com dramas de Santana (Vera Holtz) e o câncer de mama, com Hilda (Maria Padilha). Maneco, sobre isso, só diz: “Como é que eu não vou fazer campanha social se sou eu que ajudo a vender carro, liquidificador, etc.”.


Manoel Carlos confessa que as inovações tecnológicas dos últimos tempos dificultaram a profissão do autor de telenovelas. “Antes era muito mais fácil esconder quem era o pai da mocinha. Hoje qualquer teste de DNA acaba com o mistério. E celular? É dificílimo construir desencontros com a existência do celular.”. Mas não acredita que a telenovela vá acabar, apenas se reinventar. Ele garante que essa não será a primeira vez. “Sempre nas viradas das décadas atravessamos grandes crises. Lembram o que Pantanal fez com a Globo em 1990”. Vai mais longe ainda: “Em 1969, Beto Rockfeller da TV Tupi obrigou a Globo a abandonar os heróis de capa e espada de Glória Magadan e encontrar algo mais humano, mas moderno”. Começando assim a era de Janete Clair com “Véu de Noiva”, tendo Regina Duarte, Cláudio Marzo e Betty Faria no elenco.

Com todo esse currículo, não é de se admirar que tenha se tornado um dos maiores nomes da televisão latina. Já escreveu diversas novelas para praticamente todos os países da América Latina e alguns da América Central. “O público latino acha engraçado alguns costumes brasileiros retratados em nossas novelas. Como por exemplo, o tratamento entre patroa e empregada”. Diverte-se Manoel Carlos, mas continua taxativo: “Desculpe, mas só sei escrever assim.”. E essa personalidade firme é mantida até entre sua pequena equipe de trabalho. “Só trabalho com mulher. Acho-as mais criativas, além do mais são mais bonitas... Mas ninguém faz nada em novela minha se não escrevi.”. Contudo não deixa de agradecer a grandes parcerias que construiu ao longo da vida, como Ricardo Waddington, que dirigiu quatro novelas dele, e Jaime Monjardim, que além de dirigir duas novelas do autor, dirigiu “Maysa”, minissérie sobre a vida da mãe do diretor.


Questionado sobre o perigo da internet para a televisão, ele desabafa: “Há muitos anos, várias equipes vem trabalhando e estudando esse fenômeno. Não há muito que ser feito, a não ser entender como pode ser feito essa ligação. Hoje você perde durante uma semana a novela e está tudo na internet.”. Prova de que o brasileiro não deixou de ver novela, ele está apenas diversificando seu acesso porque o próprio mercado está abrindo essa diversificação, essa transformação. “Se parassem subitamente por três dias de passar novela, algo dramático aconteceria, as pessoas iam bater a cabeça. Não tem o que discutir, é o produto artístico brasileiro mais conhecido lá fora depois da Bossa Nova”. Se Manoel Carlos diz, quem sou eu para discutir.

domingo, 23 de outubro de 2011

MINHA NOVELA FAVORITA: HISTÓRIA DE AMOR

por DENIS PESSOA

Quando a novela História de Amor estreou, no dia 03 de Julho de 1995, jamais pude imaginar que o drama assinado por Manoel Carlos viria a tornar-se a minha novela favorita – posto que ainda não foi substituído por nenhuma outra obra na TV.
            O que ocorreu na época foi que, além de eu ter meus nove anos, e portanto, não prestar muita atenção às novelas, achava História de Amor um pouco “down”, (seja o que uma criança entende por isso) no meu entendimento parcial das coisas. Tudo o que eu via eram cenas incompletas, onde os personagens discutiam, choravam, trocavam agressões verbais e físicas, e em que os motivos disso estavam acima da minha compreensão. No fim, ficou uma imagem negativa: a histeria de Paula (Carolina Ferraz), a melancolia de Joyce (Carla Marins), a agressividade de Assunção (Nuno Leal Maia), a covardia de Caio (Ângelo Paes Leme). Ou seja, algo totalmente desinteressante para uma criança.
            Porém, dois anos depois, veio Por Amor, e eu, um pouco mais velho, já descobrindo o novo prazer de escrever histórias, dei mais atenção a esta obra, pois o universo de Manoel Carlos me cativou imediatamente, e me apaixonei de forma instantânea por personagens como Eduarda (Gabriela Duarte), Branca (Suzana Vieira) e, especialmente, Helena (Regina Duarte). Porém, ainda assim, não era capaz de entender o que era uma novela como um todo. Era mero passatempo, nada capaz de me manter quieto, aos meus 11 anos, durante uma hora inteira diante da TV.
            Em 2000, veio Laços de Família. Então eu, já admirador de telenovelas, ciente da existência e obra de Manoel Carlos, tendo-o inclusive como referência, acompanhei esta novela com paixão, embora não conhecesse e relacionasse todas as histórias anteriores escritas por ele, como Felicidade e Baila Comigo.
O Autor, Manoel Carlos
            Em 2001 estreou Presença de Anita, e se faltava algo para consagrar Manoel Carlos como meu autor favorito, acabou-se. A série, um suspense com diálogos e situações que somente ele sabe escrever, me fez pensar: “um dia quero ser como ele”. Aí sim, passei a acompanhar sua carreira, e a assistir avidamente tudo o que se dizia na TV a seu respeito.
            Os anos seguintes foram, o que eu considerei uma maravilhosa overdose de Maneco: pouco mais de um ano após sua exibição original, a minissérie Presença de Anita foi reprisada. E então, no dia 10/12 de 2002, entrou no ar a reprise da novela até então esquecida em minha memória: História de Amor. De imediato lembrei de Joyce, de Paula, da cena terrível onde o jovem rapaz atira a mocinha do alto de seu Jipe. Mas a história da novela, de fato, eu desconhecia.
Curioso, decidi me aventurar. Como na época estudava durante as tardes, pedia sempre à minha mãe que gravasse os capítulos para mim em VHS, o que ela nem sempre fazia. E sempre que possível, declinava dos estudos para assistir ao Vale a Pena Ver de Novo.
            Eis que fui irrevogavelmente capturado: descobri uma novela singela, delicada, com diálogos longos, realistas e belos, entre personagens extremamente humanos, que fugiam completamente à caricatura. Tudo que eu mais gostava. E me fartei.
            Descobri que Joyce era uma personagem fascinante, por ser tão próxima de uma adolescente real. Grávida aos 18, a menina tem sua gestação rejeitada por inúmeras pessoas: seu namorado, seu pai, e até mesmo pessoas que mal a conhecem, e que acusam-na de ter engravidado para fins escusos, como segurar Bruno (Cláudio Lins), e assim, aproveitar-se de sua situação financeira, como acusou Rafaela (Marly Bueno).
            A única pessoa que ficou ao seu de forma incondicional foi sua mãe: Helena, (Regina Duarte) corretora de imóveis de mentalidade e coração simples, por vezes antiquada, que por vezes se chocava com a cabeça jovem e rebelde da filha. Decidida a enfrentar este momento difícil ao lado dela, Helena briga contra todos para que sua filha possa ter uma gravidez o mais tranqüila possível, e torna-se a primeira a brigar, até mesmo com agressividade pelo que mais deseja: a felicidade de Joyce.
            Logo no primeiro capítulo, entra na vida de Joyce o médico Carlos Alberto Moretti (José Mayer), que no dia de seu casamento, resgata Joyce, que fora atirada pelo namorado Caio na rua, logo depois de contar-lhe a respeito da gravidez, e de sua intenção de mantê-la.
José Mayer e Regina Duarte: Carlos e Helena
            O Doutor, um homem plácido e generoso, cuida dela, mesmo com a noiva esperando-o no altar, ganhando assim, a gratidão da menina, e a amizade de Helena, que não tarda a tornar-se amor. Porém, Carlos possui diversas histórias em andamento: seu turbulento e breve casamento com a jovem e bela Paula, e seu relacionamento anterior com Sheila, uma mulher madura, sofisticada, que não compreende como pôde ter sido trocada por uma moça mimada, desocupada e de certa forma, estúpida.
            Em pouco tempo, Carlos, farto da infantilidade da esposa, abandona-a, e envolve-se com Helena. Mulher simples, trabalhadora, honrada, e que defende a filha de maneira feroz: talvez o que mais tenha encantado o médico na mulher que, a princípio, com auto-estima frágil, não consegue ver o que aquele homem letrado e bem sucedido enxergou em uma mulher de classe média, sem grandes atributos físicos e culturais – algo, inclusive, que Paula usa como arma contra sua nova inimiga.
            História de Amor, a principio contaria a trama de mãe e filha que se apaixonam pelo mesmo homem, tanto que Joyce, no inicio da obra, dá indícios de sentir algo maior do que gratidão e amizade por Carlos, assim como demonstra certo ciúme da aproximação dele com Helena. O enredo, no entanto, pareceu pesado a Manoel Carlos para o horário, e essa ideia foi rapidamente abortada, o que alterou bastante o rumo de diversos personagens.
A trama de mãe e filha apaixonadas pelo mesmo homem seria contada de vez em Laços de Família, assim como a leucemia que Eduarda teria em Por Amor, inclusive com a personagem chegando a demonstrar sintomas de alguma doença por um período, fora deixada de lado para também ser utilizada na novela seguinte do autor.
            História de Amor, sem o que seria seu grande diferencial, acabou por tornar-se uma novela convencional: um melodrama sobre um quadrilátero amoroso entre um homem e três mulheres, além da relação complicada entre mãe e filha, que embora se amem, não se compreendem. Relação esta de muita confiança, porém, também de conflitos de gerações, ciúmes, protecionismo excessivo, e até mesmo, possessividade.

Carolina Ferraz e José Mayer como Paula e Carlos

            Por ser uma trama que pode ser observada por tantos aspectos diferentes e pontos de vista diversos, o que levaria a um texto enorme e maçante, o melhor é destacar alguns dos fatores que fazem desta despretensiosa e até mesmo banal novela das 18 horas a minha favorita entre as favoritas:
            - O texto. Os diálogos, para ser mais exato. Longos, belos, os personagens abriam suas mentes e corações uns com os outros, e deixavam de tornar-se meros arquétipos para passarem ao status de quase humanos. As conversas entre Joyce e Helena, Paula e seus pais, Rômulo (Cláudio Correia e Castro) e Zuleika (Eva Wilma), os diálogos densos entre Sheila e Helena, as promessas e discussões de Carlos e Helena, os conselhos e toda a parcimônia de Olga (Yara Côrtes), e vários outros personagens.
            - Os “barracos”. Muitos adoram os barracos de Manoel Carlos. E esta novela é cheia deles, e, na minha opinião, onde estão os melhores. Helena, quando via sua filha ser agredida, perdia a cabeça e partia para cima de qualquer pessoa, o que gerou cenas inesquecíveis, como a que ela e Paula trocam agressões em um posto de gasolina. Outro momento marcante, já na reta final da novela, onde Joyce e Caio, trocam tapas e cuspes. Assunção, que ao descobrir a gravidez da filha, invade o apartamento de Helena com um revólver na mão, e, após levar um tapa no rosto da ex-mulher, devolve a agressão, para a surpresa desta. Acrescento também as inúmeras cenas de trocas de ofensas verbais e físicas entre Paula e Sheila, sendo que a segunda, cada vez mais depressiva, revoltada e rancorosa, passa, em determinado momento da novela, a misturar antidepressivos com bebidas fortes, tornando-se assim dona de um humor instável e perigoso, e de um coração confuso. Embora ressinta-se por ter sido preterida por duas mulheres, não consegue odiar Helena, uma mulher tão generosa, passando a brigar consigo mesma, mergulhando em uma depressão terrível.
            - A evolução dos personagens. Novelas, geralmente, apresentam personagens lineares, que estão a mercê dos acontecimentos, e que, em geral, não possuem influência alguma sobre eles. Em História de Amor, isso não aconteceu. Os personagens mudaram, evoluíram, cresceram, evoluíram, ou regrediram e pioraram sua personalidade e caráter, diante dos reveses da vida. Helena, com o passar do tempo, entende que Joyce ama Caio, por mais imperfeito que este seja; assim como Joyce, que passa meses da sua gravidez sendo rejeitada, vai amadurecendo, porém, ao que parece, após o nascimento da filha, decide exprimir toda a revolta e mágoa armazenada durante os nove meses em que fora injustamente humilhada sem poder reagir. Caio, o rapaz imaturo, agressivo e comandado pela mãe ambiciosa, adquire não só a independência financeira como mental ao longo da trama, reconhecendo seus erros, e lutando para recuperar o amor de Joyce, a quem tanto rejeitou e maltratou. Assunção, homem machista, por vezes agressivo, que rejeita Joyce ao descobrir a gravidez da filha, dando-lhe as costas. Com o passar do tempo, percebe que está errado, e pai e filha se perdoam, e ele também compreenda, não sem dificuldade, que Joyce e Caio se amam. Marta (Bia Nunnes) e Xavier (Ricardo Petraglia), casal que se ama, porém, que sofre com a irresponsabilidade do marido. Após inúmeros dramas, os dois, que embora se amem parecem estar em dissonância, vão, pouco a pouco, recuperando a capacidade de pensar como o que são: uma dupla, um time, um casal de amigos e parceiros.
            - A trilha sonora. A novela, mesmo em seus momentos melancólicos, sempre teve um texto “alto astral”, e muito da trilha sonora contribui para isso. Músicas como Lembra de Mim, interpretada por Ivan Lins, tema da belíssima abertura, Futuros Amantes, cantada por Gal Costa, e tema nacional da personagem Helena, Saber Amar por Os Paralamas do Sucesso, o tema de Paula, Alô Alô Marciano, por Elis Regina, tema de Zuleika, foram alguns dos hits da trilha sonora nacional. Na internacional, os sons de destaque foram Run, Baby, Run interpretada por Sheryl Crow, tema de Sheila, It’s too Late, na voz de Gloria Stefan, tema de Helena, I Started a Joke, interpretada pelo Faith No More, e tema de Carlos, Can’t Stop Lovin’ You, por Van Halen, tema de Joyce e Caio, e diversas outras músicas bem selecionadas, que fizeram desta uma novela inesquecível.
            História de Amor é uma novela que pode ser dissecada cena a cena, capitulo a capitulo. Prazerosa, leve, descompromissada. Uma história de amor no seu sentido mais amplo: entre homem e mulher, entre pais e filhos, entre amigos, entre irmãos, entre avós e netos. Foi um grande prazer descobrir e poder acompanhar esta obra do Manoel Carlos, e, agora, com a presença do canal Viva, torço para ter o prazer de acompanhá-la novamente, e desta vez na íntegra.
Até lá!
FONTES
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