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sábado, 23 de novembro de 2013

Novela de época... pero no mucho!

                                                                                                                        Por Daniel Pilotto

E mais uma vez temos no ar uma novela de época que não faz muita força para de ser considerada de época.
JÓIA RARA das autoras Thelma Guedes e Duca Rachid é atual trama do horário seis, apresentada ao público com uma embalagem aparentemente situada entre 1934 e 1945 (a segunda fase da história). E digo aparentemente, pois é só ter um olhar um pouco mais atento e minucioso para descobrir diversos equívocos que para os mais puristas no gênero (entre os quais me incluo) soam bastante incômodos.
A trama conta a história de uma criança brasileira que é a reencarnação de um monge budista que vivia num mosteiro no Himalaia, e a aceitação deste fato inusitado em sua família e no meio que a cerca. Até aí, sem problema algum, afinal a capacidade de criação e fantasia dos nossos autores é infindável e este é o propósito da teledramaturgia, inovar e ousar sempre em cima do velho e bom folhetim. Entretanto a questão que quero discutir é o por quê de se fazer uma novela de época sem um comprometimento total com o período retratado?

A trama da novela poderia ser crível e autêntica para quem assiste se a produção, direção ou sabe lá Deus quem, respeitasse o simples fato de que existe algo chamado: ambientação histórica.
Sei que muitos irão dizer que isto é irrelevante. E a emissora por sua vez, nesta sanha voraz de se popularizar a qualquer custo não perde tempo com os detalhes. Afinal, como alcançar classes mais baixas se ficar retratando tudo exatamente como era na época? Eles mesmos já decidiram que uma parcela do público não gosta de tramas de época, e não gosta de ver como era um comportamento específico, uma estética ou uma sociedade tão diferente da qual eles vivem.
Em parte por preguiça do público e comodismo da emissora, temos no ar algo não muito definido e muito incoerente até, por parte de uma emissora que sempre pode se gabar das melhores produções de época da TV brasileira. Capacidade e qualidade sempre existiram. Seja no princípio, nos tempos áureos das novelas de época das seis dos anos 70 e 80 como ESCRAVA ISAURA, O FEIJÃO E O SONHO, MARIA, MARIA, A SUCESSORA, OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO, TERRAS DO SEM FIM, DIREITO DE AMAR, BAMBOLÊ, VIDA NOVA, PACTO DE SANGUE, SALOMÉ e nas mais recentes anos 90 e 2000 com FORÇA DE UM DESEJO, ESPLENDOR, O CRAVO E A ROSA entre outras.

Anteriormente no horário tivemos dois exemplos bem específicos, as novelas CORDEL ENCANTADO (coincidentemente das mesmas autoras) e LADO A LADO da dupla João Ximenes Braga e Claudia Lage. A primeira era um conto de fadas ambientando em algum lugar do começo do século XX, digo algum lugar, pois nada era definido exatamente, existiam diversas influências estéticas na trama e nada era muito preciso. Neste exemplo tudo era perdoável já que a novela era vendida assim, como um cordel, um conto, uma história farsesca e quase teatral que não estava inserida em nenhum contexto. Portanto não podemos estranhar o fato de Jesuíno (Cauã Reymond) usar calças jeans em pleno sertão nordestino.
Já no caso de LADO A LADO, o momento histórico de um Rio de Janeiro da primeira década do século XX era bastante evidente, ali as influências históricas davam o tom e moviam as personagens da trama. Por conta disto era inadmissível ouvir uma personagem bem nascida e educada como a Laura (Marjorie Estiano) chamar a mãe, a Baronesa Constância (Patrícia Pillar) de “você”. Ou então ter atitudes comportamentais muito, mas muito à frente de seu tempo. Mesmo que os autores queiram nos fazer crer que ela era uma precursora.

Em JÓIA RARA as atitudes e as características das personagens não estão tão distantes da época retratada. Neste quesito as autoras até que mantém bem marcado o rigor e a formalidade da década, e com isto compõe os dramas e situações.
Exceto é claro pela caracterização equivocada das personagens criadas por elas. 


Um dos exemplos mais gritantes vem do núcleo do Cabaré da novela. É ali que coristas e bailarinas cometem as maiores incoerências, a começar pelo excesso de cabelos tingidos de “platinum blonde” por metro quadrado. Nos anos 30 este tipo de descoloração do cabelo era moda, influenciada por atrizes do cinema americano como Jean Harlow ou Carole Lombard, entretanto a moda era apenas para as mulheres que tivessem mais posses, afinal de conta era um tratamento caro e não se fazia num salão da esquina. Aliás, aqui no Brasil isto era praticamente inexistente já que estes produtos eram em sua maioria importados e muito complexos de serem manipulados. Então fica a pergunta. Como as coristas que mal tem dinheiro para pagar suas contas na pensão onde moram fazem um tratamento de cabelo tão caro?
E como se não bastasse, na trama outras personagens aparecem com o mesmo tipo de cabelo, ou então como explicar o cabelo de Volpina (Paula Burlamaqui) a lavadeira do cortiço da novela? Ela é russa, dinamarquesa? É a novela com a maior quantidade de loiras (mesmo que tingidas) já feita até hoje. E não, a novela não se passa no Sul do país.


Outra que chegou há pouco na trama e também é um completo equívoco temporal, é a personagem de Mariana Ximenes, Aurora Lincoln. Vedete internacional a moça chegou ao Brasil vinda de Paris, trazendo suas modas e costumes. O que não explicaram muito bem é o por que de em plenos 1945 a personagem tem um visual completamente final dos anos 50? Sim, além do cabelo (nitidamente inspirado em Marilyn Monroe no auge de sua carreira dos anos 50, já que nos 40 Marilyn era ruiva de cabelos compridos), ela também usa roupas que jamais seriam usadas na época, mesmo por uma pessoa que trouxe a moda de fora. Nos anos 40, em nenhum lugar do mundo se usava calça fuseau, simplesmente por que elas não existiam. E ainda mais para sair na rua. Uma mulher? Nem prostituta “das mais rampeira” como diria a Perpétua de TIETA. 


Isto sem falar nos sapatos. Aurora é realmente muito a frente de seu tempo, pois dia destes apareceu usando um modelo destes que vemos hoje nas lojas de sapatos femininos, bem modernos e estranhos.
Aí fica a dúvida, é uma desconexão total da figurinista com a época da trama ou uma liberdade para fazer moda e propaganda de produtos para as consumistas atuais? Numa entrevista recente a figurinista da novela Marie Salles deu a seguinte declaração: "Me senti livre para percorrer diferentes momentos da história. Pego vários elementos. Peguei referências de grandes atrizes do cinema, de Madonna e até de Beyoncé, nos dias de hoje. Não preciso ficar presa no tempo. Eu vou e volto", ela explica.


Agora, por que não fazer uma novela de época exatamente como a época retratada, uma pesquisa exata. E emissora já tinha ambientado uma novela em 1945 e a reconstituição, tanto cenográfica quanto de figurinos e composição era exatíssima. Em VIDA NOVA (1988) estes detalhes eram fundamentais e davam o tom na viagem no tempo do telespectador. A única personagem loura (e não platinum blonde) daquela trama era uma prostituta interpretada por Vera Zimerman, que tinha origens polonesas.

Ainda na parte do Cabaré, temos também um avanço no que se refere aos musicais apresentados no palco. Quando a trama ainda estava na primeira fase, portanto anos 30, a personagem Lola (Letícia Spiller) apareceu cantando “Copacabana”. Nada ruim se não fosse o fato de que esta música foi composta por Barry Manilow no auge da discoteca em 1978.
Agora nos anos 40, é Aurora (novamente) que tem o seu famoso número antecipado no tempo. A personagem interpreta “Fever”, canção que ficou famosíssima na voz da cantora americana Peggy Lee apenas no final dos anos 50 (novamente).
E por falar em trilha sonora, a da novela não fica muito diferente do que é apresentado na história. As músicas escolhidas são uma viagem pelas mais diferentes épocas, menos a que nos remete à trama. Sinto muito quem não gosta de músicas antigas em trilhas de novela, mas sinceramente, como se situar nos anos 40 ouvindo Novo Baianos cantando “A menina Dança” ou então Tim Maia com “Eu Amo Você” ( aliás, pela terceira vez em trilhas)? Canções com um estilo tão anos 70?

Enfim, poderia ficar horas lembrando coisas fora de época nesta novela de época. Ainda mais por que a novela ainda não terminou e muita água vai rolar.
Na contramão disto tudo a surpresa vem da concorrente, Record. Lá Carlos Lombardi leva ao ar seu PECADO MORTAL. A trama ambientada nos anos 70 (mais precisamente em 1977) os detalhes são de um rigor absoluto. Tudo ali nos remete a década, desde os figurinos, cenários e expressões usadas pelos personagens. E antes que me questionem, anos 70 também já é de época.

sábado, 9 de novembro de 2013

As novelas do século XIX: Os romances de José de Alencar

Por Leonardo Mello de Oliveira

É indiscutível a relação entre a literatura e a teledramaturgia brasileira. A primeira foi a base para que tivéssemos hoje as nossas telenovelas, inspiradas nos romances publicados em forma de folhetim durante o século XIX. Os romances urbanos, onde a mulher tinha um papel de destaque e as histórias de amor açucaradas eram o mote principal, talvez tenham sido as nossas primeiras novelas. E é impossível falar de romances brasileiros sem citar José de Alencar, romancista que tentou caracterizar o Brasil através de suas mais diferentes formas de expressão.
      José de Alencar experimentou todos os tipos de romances do período romântico brasileiro: o indianista, o regional e o urbano. Além de usar dos principais ingredientes destes tipos de literatura, tentava escrever com uma linguagem brasileira e fazer críticas à sociedade da época. Algumas de suas principais obras foram adaptadas para a TV, o que mostra como a sua linguagem e estilo contextualizam com a teledramaturgia brasileira.
      O primeiro romance de Alencar a ser adaptado também foi o seu romance que mais ganhou adaptações para TV. Senhora foi primeiramente adaptada pela TV Paulista em 1953 e pela Tupi em 1962. Ganhou uma versão moderna na Tupi em 1972, com o título de O Preço de um Homem. A adaptação mais conhecida foi a escrita por Gilberto Braga, na Globo, em 1975, com Norma Blum e Cláudio Marzo como o casal protagonista. A última versão de Senhora foi feita em 2004, na novela Essas Mulheres, que também contava a história de outros dois romances de José de Alencar: Diva e Lucíola. O livro se diferenciava dos outros romances urbanos por apresentar uma crítica ao sistema de casamento da época. A história tratava do amor entre Aurélia Camargo e Fernando Seixas. Ambicioso, Fernando larga Aurélia ao ser-lhe oferecido um dote para se casar com outra mulher. Porém, Aurélia acaba herdando uma grande fortuna, e oferece um dote maior a Fernando para que se casasse com ela. Mas Aurélia passa a desprezá-lo, afirmando que o casamento foi apenas um “negócio”, apesar de amá-lo e ele a amar também. A trama central é tão bem bolada que provavelmente já inspirou novelas com histórias semelhantes, como Rainha da Sucata.
      Outro romance de Alencar que virou um grande sucesso da TV foi As Minas de Prata. Escrita por nada mais nada menos que Ivani Ribeiro, em 1966, foi uma superprodução da TV Excelsior, que contava com Fúlvio Stefanini, Regina Duarte e Renato Master nos papéis principais. O romance histórico ainda serviria como base para a novela A Padroeira, de 2001, escrita por Walcyr Carrasco, na Globo. O livro contava a história de Estácio, que procurava as minas de prata encontradas por seu pai. Ele contava com o dinheiro para se casar com Inesita, cujo pai queria que se casasse com outro homem. A trama se passava em Salvador, no século XVII.
      Apesar de menos conhecida, Sinhazinha Flô (1977), de Lafayette Galvão, apresentou três obras de José de Alencar em uma só novela: Til, A Viuvinha e O Sertanejo. A novela foi uma homenagem ao centenário da morte do autor. A trama era centralizada nas protagonistas de cada romance: Flô (Bete Mendes), Chiquinha (Thaís de Andrade) e Clotilde (Heloísa Raso). Porém, a junção de dois romances regionais com um urbano, gerando um conflito de estilos, e a grande quantidade de situações prejudicaram o bom andamento da novela, que se mostrava um tanto quanto revolucionária ao abordar tantas tramas no horário das seis em plenos anos 70.
      O romance indianista O Guarani foi adaptado por Walcyr Carrasco em 1991, em formato de minissérie, na Rede Manchete. O elenco, um tanto quanto estranho, podemos dizer, contava com Angélica como Cecília, Leonardo Brício como Péri e Luigi Baricelli como D. Diogo. A história tratava da vinda do português D. Antônio de Mariz ao Brasil com sua família. Se desenvolvem várias tramas a partir daí, como o amor do índio Péri pela filha de D. Antônio, Cecília, e uma revolta indígena provocada pela morte de uma índia, morta por D. Diogo durante uma caçada. Vale lembrar de Loredano, ex-frei, ambicioso e devasso que se infiltra na família de D. Antônio com o intuito de destruí-la e raptar Cecília. Como todos os outros romances indianistas, o índio é retratado como um ser heróico e “civilizado”, ou seja, um índio idealizado para a época.
      Por fim, devemos falar de outra junção de três obras de José de Alencar: a telenovela Essas Mulheres, da Record, que juntava Senhora, Diva e Lucíola. Diva já havia tido uma adaptação na época da TV ao vivo, pela TV Paulista. Foi escrita por Marcílio Moraes e Rosane Lima. Assim como Sinhazinha Flô, Essas Mulheres também centrava sua trama nas três personagens femininas de cada romance. Christine Fernandes, Carla Regina e Myrian Freeland interpretaram as três protagonistas. A novela apresentava as três personagens de Alencar como amigas que enfrentavam a difícil vida das mulheres durante o século XIX. Considerada por muitos como a melhor novela já produzida pela Record, Essas Mulheres foi a última adaptação de José de Alencar para a televisão.
      Com tantas obras adaptadas, é quase impossível não darmos a José de Alencar o título de primeiro autor de novelas brasileiro. Dono de histórias bem boladas e desenvolvidas, seus romances publicados em folhetins na época deviam ter instigado a curiosidade da população assim como as nossas telenovelas instigam nossa curiosidade hoje em dia. Como ninguém, o escritor tentou dar brasilidade a nossa literatura, escrevendo, mesmo com um estilo idealizador, sobre os cidadãos das mais diferentes regiões do Brasil. Alguns autores, como Janete Clair e Dias Gomes, tentaram fazer o mesmo com suas novelas. Esperamos mais José de Alencar na nossa TV, até porque, suas histórias parecem ser sempre sinônimo de sucesso e repercussão.

domingo, 15 de setembro de 2013

Joia Rara - Uma nova revolução estética na história da telenovela brasileira

Pedi ao querido Bruno Fracchia que evidenciasse as suas impressões sobre o capítulo de estréia de Joia Rara. Ele topou. Desde já o agradeço. Confiram!


Não bastasse contar no elenco com as musas da minha vida (Cláudia Ohana, Letícia Spiller e Mariana Ximenes), as lindas e envolventes chamadas de “Joia Rara” me levaram a me programar para estar em casa em condições de assistir ao primeiro capítulo da novela. Não me arrependi. 


Quem estuda a telenovela brasileira, sabe que há alguns “marcos zeros”: 24599 Ocupado” , “Beto Rockfeller”, “Guerra dos Sexos”, “Pantanal” são alguns exemplos. Sem receio do equívoco, tenho convicção de que “Joia Rara” entra para esta seleta lista.
“Marcos zeros” evidentemente são conceitos didáticos para facilitar estudos e que, em geral, são o ápice de uma construção que já se desenhava: antes de “Beto Rockfeller”, por exemplo, a novela “Antônio Maria” já apresentava personagens populares em papel de destaque e linguagem cotidiana. Mas o que se desenhava explodiu na mítica novela da TV Tupi. Logo, “Marcos zeros” são mais do que necessários e contém seus méritos únicos.

Da mesma forma, em “Avenida Brasil” e “Cordel Encantado” a imagem televisiva próxima da estética audiovisual, com primoroso trabalho de luz e enquadramentos fora do habitual já foram utilizados. No entanto, este primeiro capítulo de “Joia Rara” (não por acaso obra com direção geral da diretora de “Avenida Brasil e “Cordel Encantado” e escrita pela dupla de autoras da segunda trama) potencializou demais este recurso, dando condições para que esta obra seja considerada um novo marco zero! 
O que vimos no primeiro capítulo de “Joia Rara” foi o maior exemplo já visto na televisão brasileira de hibridização de linguagens (É cinema? É vídeo?), ficando firmemente “terreno na desterritorialização” de linguagens.


Os estudos acadêmicos e críticas bem fundamentadas sobre telenovelas felizmente vem aumentando. No entanto, desconheço algum que trate da evolução da imagem na telenovela e da análise do trabalho da direção. Que alguém num futuro breve se atreva a esta tarefa!
Através de enquadramentos já existentes em “Avenida Brasil” e também apresentados no capítulo de hoje, Amora Mautner se afirma como uma diretora da linhagem de um Walter Avancini: ambos trabalham num produto “fabricado em série”, mas nem por isso deixam de imprimir marcas autorais!


Os anos 80 testemunharam o retorno da telenovela aos estúdios, deixando pouco espaço para a linguagem imagética. Já os anos 2000 viram a quase total exclusão dos temas políticos. “Joia Rara” em seu primeiro capítulo aponta com força e esperanças para esta saída da camisa de força dos estúdios, a revitalização da linguagem plástica do produto televisivo e a volta dos temas políticos (através da existência de personagens inseridos no Movimento Operário do início do século).


Gênero não se reinventa  Gênero se renova. Na televisão, assim como no cinema e no teatro, tentativas pretensiosas de reinventar os gêneros sempre fracassam quando partem para a ignorante negação de tudo o que já foi feito. Nega-se uma estética anterior a um dado período, por exemplo, mas retornando a conceitos de períodos ainda mais antigos para se propor algo novo (no sentido de revitalização). Desta dialética necessária é que poderá surgir uma síntese a apontar para o futuro: a fotografia e a direção de pouco valeriam se não houvesse no ar uma trama com elementos clássicos de telenovela (tanto que os olhos deste escriba lacrimejaram quando o casal protagonista – Bianca Bin e Bruno Gagliasso (nosso Al Pacino brasileiro – pelo tamanho e pelo talento) se encontraram.


Falando em hibridizações, a última novela das 18h com potencial para às 21h foi “Força de um Desejo” (há 13 anos). “Joia Rara” rasga também esta divisão, necessária comercialmente, mas do ponto de vista estético empobrecedor. Um elenco de horário nobre (Marcos Caruso, Nelson Xavier, Reginaldo Faria, José de Abreu, Nicete Bruno e Ana Lúcia Torre, entre outros, estão entre os melhores intérpretes do país) numa trama com história e imagem para ocupar o posto do produto mais visto da televisão brasileira.


Por fim, saindo do formalismo das análises críticas, “Joia Rara” me lembra aquelas novelas que me fizeram ter vontade de ser ator e sonhar em estar no casting. Falando em casting, Letícia Spiller como uma verdadeira “Ingrid Bergman” dos trópicos é para hipnotizar qualquer um. Não quero nem ver quando Mariana Ximenes entrar no ar. Ou melhor, quero ver sim! Vida longa a “Joia Rara” (que, desde já, aposto que será estendida). E a todas as novelas que trilharem o caminho inaugurado com competência por esta preciosidade.



Bruno Fracchia é ator, dramaturgo, produtor, mas antes de tudo isso, noveleiro. Formado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo, estudou com Aguinaldo Silva, sendo um dos criadores da sinopse da telenovela "Fina Estampa". Atualmente, Fracchia está em cartaz com o espetáculo "Algumas Histórias", obra-homenagem ao ator Paulo José, escrita, produzida e interpretada por ele.

*Postado hoje (16/09, às 22:58), mas com data retroativa, por questões de programação.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Quando o autor deixa sua zona de conforto e inova

Por Jurandir Dalcin

Após escrever Vila Madalena o autor Walther Negrão não mais conseguia emplacar um sucesso em seu currículo, escrevendo novelas mornas como Como Uma Onda, Desejo Proibido e Araguaia, que não despertaram o interesse do grande público, mas também não chegaram a ser um fracasso. “Água com açúcar”: é assim que algumas tramas do novelista são desmerecidas por uma parte dos telespectadores. Entretanto, tudo mudou quando o autor voltou ao horário das seis com a instigante Flor do Caribe.


A primeira semana mostrou pouco da história e fez muitos noveleiros torcerem o nariz mais uma vez para uma novela do autor. Mas a partir do sexto capítulo ele conseguiu surpreender aos mais exigentes, mostrando uma trama ágil, com núcleos interessantes, uma mistura de romance, aventura e ação, sem perder a essência de suas novelas, com vilões bem escalados, um elenco forte num ambiente praiano. Aliás, belíssima fotografia.


A novela conseguiu conquistar a audiência de um público disperso pela sua antecessora Lado a Lado e tem ratificado o Walther Negrão como um autor [um dos mais antigos da teledramaturgia brasileira] capaz de ousar e inovar, qualidade que lhe faltou em suas novelas anteriores. 

Em Flor do Caribe ele soube dosar o humor, o romance e a aventura, cada um ao seu tempo. Ainda no inicio da trama, modestamente [considerando toda a sua experiência], revelou que se inspirou em João Emanuel Carneiro e que foi vendo os trabalhos dele que aprendeu a entender o que o público de hoje gosta. A atual novela das seis cativou seu público, e assim como Walther Negrão outros autores bem poderiam deixar sua zona de conforto e inovar, sair do óbvio, atendendo aos anseios de um público que continua fiel ao bem escrito folhetim, mas já não responde aos mesmos estímulos de antigamente. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Um nazista pela primeira vez, numa novela das seis!!!


                                                                                                                      Por Daniel Pilotto

Uma das tramas que tem chamado bastante a minha atenção na novela das seis, FLOR DO CARIBE de Whalter Negrão, é a história de Dionísio e Samuel. Para um fã de tudo que se ambienta no período da Segunda Guerra Mundial, como eu, poder ver que pela primeira vez está sendo mostrado numa novela de televisão um resquício daquilo que foi uma das grandes tragédias da humanidade, o holocausto, se torna definitivamente um atrativo a mais para acompanhar.


Geralmente as tramas relacionadas à Segunda Guerra mundial e a ação perversa do nazismo contra os judeus e suas consequências ficavam restritas apenas as minisséries e novelas de época.

A primeira trama de novelas a abordar este período da história foi O SHEIK DE AGADIR (1967) de Gloria Magadan. A trama foi uma adaptação de um livro de Gogol, transposto para o período da Segunda Guerra. Na trama eram retratadas a ocupação nazista na França e sua influência num reino Árabe. Pela primeira vez era possível ver atores brasileiros vivendo personagens nazistas, como o coronel Otto Von Lucken (Mário Lago), o oficial e espião Hans Stauben (Emiliano Queiroz) e Frieda (Márcia de Windsor). Os atores que viveram os nazistas ganharam antipatia do público logo de cara. Emiliano Queiroz sentiu na pele a rejeição pelo personagem, o público da época ainda não distinguia ficção de realidade e o ator chegou a ser agredido por uma telespectadora no Rio de Janeiro, após ter ido ao ar o capítulo em que seu personagem assassinava friamente um dos mocinhos da novela vivido por Cláudio Marzo.

O período e os nazistas só seriam retratados novamente nas minisséries A E I O URCA e AQUARELA DO BRASIL.
Em A E I O URCA (1990) de Antonio Calmon e Doc Comparato os nazistas estavam infiltrados no Brasil, mas precisamente no Rio de Janeiro do final dos anos 30. Na trama a jovem Sílvia (Débora Bloch) se vê envolvida numa interessante trama de espionagem típica dos filmes de Hollywood da década de 40. Com seu pai preso por comunismo ela é chantageada por Jofre (Raul Cortez) um nazista que a obriga a se casar com o inglês Michael (Herson Capri) e conseguir dele um mapa de uma importante mina de urânio. Esta trama se assemelha bastante ao filme INTERLÚDIO de Hitchcock, no que se refere ao fato de que alemães nazistas estavam infiltrados sob outras identidades no país, com o objetivo preciso de extrair urânio (importante mineral utilizado em armamentos) das ricas minas brasileiras.
 

Em AQUARELA DO BRASIL (2000) de Lauro César Muniz o foco era outro. Na minissérie ambientada nos anos 40 existiam duas tramas bem distintas relacionadas ao nazismo. Na primeira parte o personagem Felipe (Marco Ricca) tio da mocinha da história Isaura (Maria Fernanda Cândido) se vê relacionado num esquema de espionagem nazista. Ele é confundido como colaborador, responsável por transmitir códigos cifrados através de um sinal de rádio, captado pela contraespionagem do exército brasileiro. Como ele tinha feito parte da Ação integralista em sua juventude e fichado na polícia em 1938, todas as suspeitas recaem sobre ele. No decorrer da trama se descobre o envolvimento dos vizinhos de Isaura, os alemães Max Bronstein (José Steinberg) e Ruth Bronstein (Ivone Hoffman) como os verdadeiros responsáveis pelas transmissões espiãs captadas pelo exército.
Outro destaque da minissérie é a trama de Bella Landau (Daniela Escobar), responsável por discutir o drama dos refugiados de guerra.
A jovem havia sido salva de um campo de concentração nazista por Axel Bauer (Felipe Kannemberg) oficial do exército de Hitler, que se apaixona por ela. Ele foge como desertor e vem acompanhado dela para o Brasil. Um dos grandes dilemas vividos por Axel e Bella é que ele como alemão nazista não pode desembarcar no país sem ser preso pelo exército. O conflito se estabelece, inclusive com os outros personagens judeus da história que não compreendem o amor entre a jovem e o alemão.


As duas minisséries são exemplos de tramas de época que trataram o tema, de maneira bastante correta e com todo o lado histórico que uma produção destas exige.

Uma abordagem atual, sobre os desdobramentos deste período trágico do passado nos nossos tempos é pouco comum na Teledramaturgia.
Em 1979 a Bandeirantes levava ao ar a novela de Vicente Sesso CARA A CARA. A história girava em torno de Ingrid Von Shubert (Fernanda Montenegro) uma mulher que retornava ao Brasil após muitos anos em busca do filho arrancado de seus braços após nascer num campo de concentração nazista.
A trama apenas se referia a este momento no passado da personagem. O mote principal da trama era sua busca por este filho nos dias atuais e as complicações decorridas pelo tempo.

Em FLOR DO CARIBE ela é a base de uma história e da vida de dois personagens bem interessantes que após muitos anos de terminada a guerra na Europa acabaram por se encontrar na ensolarada Rio Grande do Norte.
Samuel Achcar Schneider (Juca de Oliveira) é um dos sobreviventes da ação nazista em Amsterdã, Holanda. Quando criança viu seus pais entregarem toda sua fortuna para um homem misterioso, com a promessa de que conseguiriam escapar dos nazistas e fugir da Europa. O homem misterioso era Dionísio Albuquerque (Duda Mamberti, na fase das lembranças de Samuel e Sérgio Mamberti na fase atual), e ele na realidade era uma espécie de informante do regime de Hitler em meio aos judeus, entregando-os aos soldados nazistas depois de arrancar tudo o que tinham de valor.


O interessante nesta trama de FLOR DO CARIBE é que Samuel vai se recordando de seu passado aos poucos. No início da história ele não faz idéia de que Dionísio, o empresário milionário dono de todas a salinas da região e avô do marido de sua filha seja o algoz de sua família no passado.
Suas recordações vão sendo despertadas na medida em que ele toma contato com objetos da época.
Samuca (Vitor Figueiredo), filho de Esther (Grazi Massafera) e neto de Samuel encontra por acaso numa brincadeira no quarto de Dionísio uma cruz nazista, uma condecoração por serviços prestados ao Führer e leva até a casa do avô. O contato com o objeto o faz lembrar mais claramente de seu passado e ele sai em busca de maiores detalhes.
Num segundo momento ele encontra no quarto do empresário um relógio antigo com uma inscrição em hebraico, que pertenceu ao seu pai. Logo após Doralice (Rita Guedes) a empregada da mansão consegue uma foto antiga de Dionísio num álbum de retratos e quando ele a vê, mata a charada, Dionísio foi o responsável pela morte de seus pais.


Dionísio representa os nazistas que conseguiram escapar da Europa antes de serem presos ao final da Grande Guerra em 1945. Há diversos relatos de que muitos deles vieram se esconder na América do Sul. O mais famoso de todos é o médico nazista Josef Mengele. Considerado o “anjo da morte” foi o maior responsável pelo extermínio de judeus nos campos de concentração da Alemanha. Passou grande parte da vida escondido na Argentina e terminou seus dias no Brasil, sem ser punido por seus crimes.

Já Dionísio, vive na fictícia Vila dos Ventos da novela, e mantém no subsolo de sua mansão uma espécie de bunker com toda a riqueza que conseguiu roubar dos judeus. Em meio a jóias, objetos e telas de pintores famosos dadas como perdidas ele relembra as maldades do passado.
Mas como nas novelas em muitos casos existe justiça, parte de seus segredos já está vindo à tona. E quem sabe, pelo menos na ficção, um nazista fugido e nunca encontrado conseguirá ser punido.


O único senão em torno da trama é a idade dos atores escolhidos para os personagens. Juca de Oliveira nem tanto, pois o ator já está com 78 anos, portanto na época da Guerra ele podia muito bem ser representado por uma criança como a que foi usada nas cenas de memória. Agora Sérgio Mamberti, com toda a certeza está vivendo um personagem com muito mais idade do que tem. A parte das memórias de Samuel data de 1944, portanto Dionísio (se seguirmos a lógica de que Sérgio Mamberti tem 74 anos) teria que ter na época apenas 13 anos. Talvez o erro tenha vindo da direção ao escolher Duda Mamberti, o filho do ator para viver esta primeira fase. Quem sabe um ator mais jovem com no máximo 20 anos chamaria menos atenção para o disparate da idade.
Enfim, estes são apenas detalhes. Felizmente a trama, muito mais rica e interessante consegue se sobrepor a isto e torna FLOR DO CARIBE uma das gratas surpresas do horário.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Lado a Lado - Os negros nas telenovelas.


Por Guilherme Fernandes

A emancipação feminina e o divórcio em “Escalada” (TV Globo, 1975, de Lauro César Muniz); a naturalização da homossexualidade em “Brilhante” (TV Globo, 1981, de Gilberto Braga); o modismo de “Dancin’Days” (TV Globo, 1978, de Gilberto Braga). Esses exemplos mostram a radicalização de propostas iniciadas com alguns folhetins. Pensando nessa radicalização, gostaria de indicar “Lado a Lado” (TV Globo, 2012, de João Ximenes Braga e Cláudia Lage) como um marco televisivo na discussão da cultura negra e da abolição da escravatura – embora a novela inicie já nos tempos da República, em 1903, para ser mais exato.

Os livros “Helena” (1876) de Machado e Assis e “Senhora” (1875) de José de Alencar ganharam diversas versões para a televisão, inclusive no seu período não-diário. Os romances tinham como tempo e espaço o Rio de Janeiro de 1860-1970, na obra de José de Alencar, que chega a citar a Guerra do Paraguai (1864-1870), e 1859, no caso de Machado de Assis. As obras, e suas adaptações, não têm a discussão da Abolição como foco. Ainda assim, trazem personagens negros interpretando mucamas, guarda-costas ou figurantes – para compor o cenário do século XIX.

“A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844, também (e obviamente) não retratou (os problemas da) a escravidão. Contudo, em sua segunda adaptação pela TV Globo, em 1975 (a primeira foi em 1965, adaptada e dirigida por Otávio Graça Mello), Marcos Rey insere elementos da crônica “Memórias da Rua do Ouvidor” (de 1878, também de Macedo) para retratar a luta abolicionista. Rey transfere o romance para os anos de 1866 a 1868 e também aborda a Guerra do Paraguai. O escravo Simão (Haroldo de Oliveira), apaixonado por Duda (Léa Garcia), não via com naturalidade o regime escravista e sempre fugia do capitão-do-mato João Bala (Jaime Barcelos). O mocinho da trama, Augusto (Mário Cardoso), foi transformado em um dos heróis da abolição, da mesma forma que Leonardo (Eduardo Tornaghi), que liderou uma campanha para a libertação dos negros e acabou sendo morto por João Bala. Estranhamente (?), Carolina, a moreninha, foi vivida por duas atrizes que nada têm de morena – Marília Pera em 1965 e Nívea Maria em 1975. Essa foi a primeira representação do movimento abolicionista, narrado como uma luta de brancos progressistas e de estudantes. No último capítulo foi mostrada a luta de estudantes a favor da Lei do Ventre Livre, a alforria de Simão e Tobias (Sidney Marques, jovem alfabetizado que de posse da carta vê a possibilidade de ser ator do teatro Alcazar). Duda e Simão se casam, têm um filho de nome Palmares, que, mesmo sem a aprovação da Lei do Ventre Livre, ganha a carta de alforria. O fim romântico de “A moreninha” mostra a “bondade” branca e a “conformação” negra. Estes, gratos pela liberdade!


O romance “A Escrava Isaura”, do autor abolicionista Bernardo Guimarães foi publicado em 1875, treze anos antes da Lei Áurea. Isaura é mestiça, filha da escrava Juliana com o português Miguel. Em sua versão televisiva, novamente, a atriz escalada, Lucélia Santos, não é morena, como na obra literária. Gilberto Braga, ao escrever a novela para a Rede Globo em 1976, é fiel ao livro nesse sentido. Os personagens negros na obra ou eram protetores de Isaura, como Januária (Zeni Pereira) uma espécie de mammie dos filmes norte-americanos, ou antagonistas (vilãs) Rosa (Léa Garcia), uma escrava invejosa dos privilégios de Isaura.

O pesquisador Joel Zito Araújo observou que os negros da trama não tinham orgulho de sua raça e mostravam-se inferiores aos seus senhores. Uma possível exceção era a vilã Rosa, que tinha consciência de sua condição escrava e por isso fazia de tudo para fugir do tronco, ou seja, dormia com todos os homens (do sinhozinho ao capataz) e infernizava a vida de Isaura. Chega um dia em que Álvaro, na condição de senhor, resolve libertar todos os escravos e propõe que eles continuem em sua fazenda, com remuneração e direito a um pedaço de terra.


A trama praticamente não refletiu os costumes negros. Januária era a única que praticava religião de matriz africana. Também não se discutiu a resistência à escravidão e a abolição foi narrada, mais uma vez, como uma luta dos brancos “bondosos”. O último capítulo mostrou a gratidão dos negros ao senhor Álvaro; na última cena, um beijo de Isaura e Álvaro, com os negros dançando ao redor. Destaque para a abertura da trama, com quadros do pintor francês Jean-Baptiste Debret e, especialmente, a música “Retirantes” de Jorge Amado e Dorival Caymmi, que representa os lamentos dos escravos.

A próxima telenovela a abordar a escravidão foi “Sinhazinha Flô” de Lafayette Galvão. Essa trama celebrou o centenário de morte de José de Alencar e se baseou em três obras dele: “A Viuvinha”, “Til” e “O Sertanejo”. Dirigida por Herval Rossano, a trama foi ambientada em 1880, época de grande efervescência política no Império Brasileiro. A abolição foi o fio condutor de toda a trama. A partir daí, as tramas abolicionistas passaram a demonstrar um papel mais ativo no negro na luta por sua liberdade. A novela também retratou a luta pela emancipação feminina. Juca (José Maria Monteiro) foi o personagem que mais lutou pelo fim da escravidão, inclusive foi enviado pelo próprio André Rebouças (personagem da História do Brasil, um engenheiro que funda no Rio de Janeiro uma associação pró-abolição, com Joaquim Nabuco e outros abolicionistas. A mãe de Rebouças era uma escrava alforriada). Já Flor, a sinhazinha Flô (Bete Mendes) era uma mulher a frente do seu tempo. Como boa parte das tramas das 18h, havia um triângulo amoroso que foi se desenvolvendo ao longo da narrativa, formado por Flor, Arnaldo (Eduardo Tornaghi) e Jorge (Márcio de Lucca), todos vividos por atores brancos. Novamente o estereótipo do branco como responsável pela libertação dos negros do cativeiro e da sua condição de pária, como atesta Joel Zito Araújo.

Outra importante ruptura na representação do escravo negro foi “Sinhá Moça” de Benedito Ruy Barbosa, exibida em 1986, dez anos após o sucesso de “Escrava Isaura” e novamente com Lucélia Santos e Rubens de Falco. “Sinhá Moça”, baseado no romance homônimo de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, é ambientada no interior paulista em 1886, dois anos antes do fim da escravidão.

Sinhá Moça (Lucélia Santos) é filha de Ferreira, o barão de Araruna (Rubens de Falco). Apaixona-se por Rodolfo (Marcos Paulo), um republicano que sem que ninguém saiba atua como o “Irmão do Quilombo”, libertando escravos do engenho. Sinhá Moça, a frente do seu tempo, também luta pelo fim da escravidão, a contragosto de seu pai. Embora o cenário principal seja composto por brancos, alguns personagens negros adquiriram bastante destaque na trama. O ex-escravo Rafael (Raymundo de Souza), adota o nome de Dimas e retorna à cidade com o intuito de vingar-se do barão. Rafael, na verdade é filho do barão com a escrava Maria das Dores (Dhu Moraes), passou a infância ao lado de Sinhá Moça e depois foi vendido pelo pai.

A primeira cena da trama mostra a morte de Pai José (Milton Gonçalves) no tronco. Pai José era considerado rei em sua terra natal, quando foi trazido como escravo ao Brasil. Na trama, tinha dois filhos, Justino (Antonio Pepeu) e Fulgêncio (Gésio Amadeu); Maria das Dores era sua neta e Rafael seu bisneto. Pai José não pediu clemência, foi forte e apanhou até que o feitor Bruno (Walter Santos) não aguentou mais. No leito de morte, revela a Rafael que ele é irmão de Sinhá Moça. A partir daí, os escravos partem para vingar a morte de Pai José. O último capítulo foi no dia 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. De forma diferente às demais produções, não foi mostrado um conformismo (ou gratidão) dos escravos. O capítulo também mostrou a morte do barão que morre na senzala, em chamas. A destruição da senzala também representou a libertação dos escravos que haviam sido mortos ali, entre eles Pai José. Em seguida, uma fila de escravos libertos, liderados por Nhá Balbina (Ruth de Souza), aparece andando pela estrada, vagando por um destino. De outro lado, diversos imigrantes italianos chegam esperançosos à fazenda, sem saber o futuro que os espera.


Na Rede Globo, Benedito Ruy Barbosa escreveu duas telenovelas com a tônica nos imigrantes italianos, “Terra Nostra” (1999), retratando o período pós-escravidão e “Esperança” (2002) com o foco na década de 1930. Em 2006 a Rede Globo produziu um remake de “Sinhá-Moça”, adaptada pelas filhas de Benedito, Edmara e Edilene Barbosa. Milton Gonçalves viveu novamente o Pai José.

Para comemorar os 100 anos da Lei Áurea, a Rede Globo produziu a trama “Pacto de Sangue”, escrita por Regina Braga. O início é em 1870, na cidade fluminense de Campos dos Goytacazes, quando o jovem Antônio (Marcelo Serrado) morre ao ajudar um negro a escapar da fazendo de seu pai, o juiz Queiroz Antunes (Carlos Vereza). Antes de morrer, ele pede ao pai que crie o pequeno escravo Bento (Armando Paiva) como filho. A convivência foi responsável para a revisão de valores do conservador Antunes, que se envolve com a abolicionista Aimée (Carla Camurati). Joel Zito Araújo destaca a trama e diz que foi a que reuniu um maior elenco de atores negros. Havia um grupo de heroínas negras, reunidas no Quilombo Loana, chefiado pela babalorixá Mãe Quitina (Ruth de Souza). Também faziam parte do grupo a líder guerreira Baoni (Angela Corrêa) – verdadeira mãe de Bento – e outros dois líderes, que moravam na cidade, Damião (Haroldo de Oliveira) e Maria (Zezé Mota). O idioma ioruba foi utilizado pelos atores quando estavam no terreiro de Mãe Quitina – traço forte da cultura afro. Os personagens também mostravam orgulho de seu povo. Os romances principais, entretanto, eram protagonizados por brancos.

Apesar de outras tramas também retratarem esse período, uma nova ruptura só aconteceu com “Lado a Lado”, que não se passou no período abolicionista. Graças aos personagens Afonso (Milton Gonçalves) e Tia Jurema (Zezeh Barbosa) o período foi constantemente relembrado. Os personagens eram orgulhosos de sua raça e não demostravam nenhuma espécie de apego ou saudade de seus senhores. Todos os negros da trama, habitantes do Morro da Providência, sentiam orgulho de seu povo e faziam questão de referenciar sua cultura: artística, religiosa, desportista, gastronômica etc. Na contramão, a vilã Constância (Patrícia Pillar), a baronesa da Boa Vista, não estava contente com os tempos republicanos e sentia saudades da época em que era uma senhora de engenho.


A trama de João Ximenes Braga e Cláudia Lage mostrou diversos acontecimentos importantes da história brasileira, especialmente no período de 1903 a 1910. O casal protagonista, vivido por Zé Maria (Lázaro Ramos) e Isabel (Camila Pitanga) tinha suas idas e vindas, sempre com um pano de fundo histórico. Logo nos primeiros capítulos, o cortiço onde Zé Maria e Isabel moravam foi invadido por ordens do presidente Rodrigues Alves, processo conhecido como “Bota - Abaixo”. A demolição aconteceu exatamente no dia do casamento de Zé Maria e Isabel. Zé Maria, que era capoeirista, lutou e acabou preso. O ocorrido não permitiu que ele fosse ao próprio casamento.

Com o fim dos cortiços, os antigos moradores se viram obrigados a ocupar o Morro da Providência, que, na época, já tinha alguns moradores, que haviam participado da Guerra de Canudos. Esses moradores esperavam a casa própria, prometida pelo governo. Uma das vilãs da história, a invejosa Berenice (Sheron Menezzes) e seu namorado Caniço (Marcello Melo Jr.) também viviam no morro e foram os responsáveis pelo rompimento da ordem do casal Zé Maria e Isabel.

Zé Maria foi o verdadeiro herói em praticamente todos os episódios retratados pela trama. Assim foi com a Revolta da Vacina (1904) e Revolta da Chibata (1910). Isabel, por sua vez, foi uma das precursoras do samba. O samba que conhecemos hoje teve seu surgimento basicamente em 1916 com a gravação de “Pelo Telefone” de Donga. Isabel, segundo a jornalista e pesquisadora de samba, Maria Fernanda França, dançava uma mistura de Lundu, Maxixe e Batuque, danças africanas que em sua “brasilidade” deu origem ao nosso genuíno samba. Chico (César Mello), que havia lutado com Zé Maria na revolta da Chibata, viveu o famoso episódio em que um jogador negro do Fluminense foi pintado de branco (pó de arroz) para participar de uma partida de futebol. Os dois elementos cruciais da identidade brasileira, o samba e o futebol – estavam presentes na narrativa. Os cordões carnavalescos, que mais tarde deram início às escolas de samba, foram mostrados em duas oportunidades, tanto em 1903 como em 1911, sendo severamente reprimidos pela força policial.


Todos esses elementos identitários foram mostrados na abertura da telenovela, seguramente a melhor dos últimos anos. Ao som do samba enredo da Imperatriz Leopoldinense, campeã do carnaval de 1989, “Liberdade, Liberdade, abra as asas sobre nós”, à época comemorando o centenário da abolição, a abertura mesclava elementos da cultura negra e da vida na cidade. A expressão da arte e as vaidades. Ressaltando o batuque, o samba, a capoeira e o futebol como elementos brasileiros. A trilha sonora também foi primorosa, com destaque para a gravação original de Beth Carvalho do samba “O mundo é um moinho” de Cartola.

Enfim, os 154 capítulos desta trama nos reservaram grandes surpresas. Mas, o grande legado de Lado a Lado foi apresentar outra versão para a história do negro. Mostrar que não existiu nenhum conformismo em relação aos senhores de engenho e que a luta abolicionista não foi uma luta empenhada somente por brancos. “Lado a Lado” mostrou o orgulho pela raça e pelo passado. Importantes traços culturais como a música, a dança, a gastronomia, a capoeira e o candomblé foram tratados com respeito. Destaque para o fato de o tradicional romance novelesco ser protagonizado por um casal de negros, ruptura que nem “Pacto de Sangue” conseguiu mostrar. Para ser justo com a trama como um todo, também tenho que destacar o papel pró emancipação feminina. Laura (Majorie Estiano) lutou contra um casamento de fachada, lutou para trabalhar fora de casa, levantou a discussão sobre divórcio, enfim, eis um outro mérito da novela.

Embora a telenovela se passasse na década de 1910 percebemos ainda hoje o comportamento de muitas Constâncias. Ver um deputado recentemente afirmar que o lugar da mulher é no seio da família cuidando dos filhos e impossibilitadas de trabalharem fora é mostrar que ainda vamos brigar pelos mesmos assuntos que Laura, Isabel e Edgar fizeram nos primeiros anos da República. Lado a Lado deixou um gosto de quero mais. Que venham as próximas tramas de João Ximenes Braga e Cláudia Lage, juntos ou separados.

Aos que se interessam pela trajetória do negro na telenovela brasileira, é de fundamental importância a leitura de “A negação do Brasil” (Senac SP, 2000) de Joel Zito Araújo.
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