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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Um balanço do horário nobre: A volta do bom texto com Em Família

Por Leonardo Mello de Oliveira

 Não há como negar a incrível campanha de popularização que acontece atualmente na televisão brasileira. A incansável busca por audiência vem tentar capturar um público que assiste a novelas diariamente desde os anos 70: a chamada classe C. Porém, dizem alguns, estamos em um período de transição, onde vários membros antes considerados da classe D emergiram, e agora figuram nesta chamada “nova classe C”. Esse é o público que a TV quer, e não mede esforços pra isso. Infelizmente, popularização no Brasil muitas vezes vira sinônimo de má qualidade, principalmente no quesito telenovela. É incrível como a Rede Globo, a maior emissora do país, conseguiu, em tão pouco tempo e de forma nada sutil, inundar sua programação com programas e novelas de fácil digestão, com forte apelo popular e que resultam, muitas vezes, em produtos execrados pela crítica. Não estou falando que apelo popular sempre acaba em equívocos. O Esquenta, programa apresentado por Regina Casé, é um dos mais popularescos que já assisti, porém, não deixa de ser um programa que funciona, que dá certo e que tem grandes qualidades, muito mais do que defeitos. O grande problema é como o popular é conduzido, como é dosado. Tudo isso altera o resultado, e também a maneira que será visto, tanto pela classe C quanto por todas as outras classes que, com certeza, também assistem à TV aberta.


      Vamos analisar brevemente o histórico de novelas populares no horário nobre desde Fina Estampa, trama que iniciou essa “epopéia popularesca”. Um fato engraçado é que somente o horário das nove foi praticamente obrigado a transmitir esse tipo de produção. O horário das seis, das sete e das onze receberam uma dose ou outra de popularismo, mas não se prendeu à fórmula. Vale lembrar também que não é de hoje que esse tipo de trama existe. Os seus próprios autores hoje alcançaram o sucesso usando o apelo popular.
      Fina Estampa foi escrita por Aguinaldo Silva, autor já consagrado por tramas de cunho popular. Aguinaldo já havia nos apresentado nos últimos anos Senhora do Destino e Duas Caras, novelas bem populares. Mas o que se viu em Fina Estampa foi a fórmula escancarada, sem medo de mostrar um apelo gigantesco por audiência. Uma protagonista maniqueísta, uma vilã caricata e tão maniqueísta quanto sua rival, um gay mega afetado, personagens cômicos, gente pobre e honesta sofrendo e muito barraco eram as principais táticas do autor para alcançar a classe C, que começava a virar o assunto do momento quando se falava em televisão. Aguinaldo conseguiu, e com um gigante sucesso, cessar o declínio de audiência do horário nobre global. Porém, isso tudo teve um preço. A crítica caiu em cima. Situações incoerentes, dignas de desenho animado, subestimavam a inteligência do telespectador e baixavam o nível da trama.


      Logo depois veio o furacão Avenida Brasil. A novela parou o Brasil como há tempos não acontecia. João Emanuel Carneiro, o JEC, apostou em uma trama pesada, com inspiração em vários clássicos literários e teatrais, mas que ao mesmo tempo tinha vários elementos populares. Modismos e trejeitos do subúrbio enriqueciam a novela, que, aliás, mostra uma evolução gigantesca do JEC como autor. Seus defeitos característicos ainda estavam lá, mas muitos haviam sido corrigidos. João Emanuel é outro autor conhecido por suas tramas populares, mas ao mesmo tempo profundas. O entrosamento entre a equipe de produção era notável, tanto que praticamente tudo deu certo em Avenida Brasil.


      O mesmo não pode se disser de sua sucessora, Salve Jorge. Glória Perez foi uma das primeiras autoras a retratar a vida do subúrbio, das favelas, de um povo pouco mostrado nas novelas antigamente. Sua nova trama trazia como protagonista uma menina da favela, jovem, que teve um filho muita nova e que acaba sendo traficada e prostituída na Turquia. A trama era inicialmente densa, mas o grande erro de Glória foi mais o menos o mesmo de Aguinaldo Silva em Fina Estampa. A autora utilizou quase todos os recursos que conhecia e que já haviam sido garantia de sucesso. Falhas da direção, mau direcionamento de personagens, elenco sumido, texto fraco para uma autora que já nos trouxe Barriga de Aluguel e O Clone, um déjà vu de outras tramas de Glória, enfim, vários foram os fatores para a rejeição do público e da crítica.


      Então vem Amor à Vida! Estreia de Walcyr Carrasco, autor de clássicos do horário das seis, no horário nobre. O início foi empolgante, muitos viam uma segunda Avenida Brasil, a expectativa aumentava a cada capítulo. Porém, já na terceira semana de novela, a decepção veio como um balde de água fria. Carrasco fazia uma novela das sete no horário das nove, e era clara a busca por audiência. Tudo parecia ser feito pra fazer mais barulho, pra chamar o público a assistir à novela. Mudanças drásticas e sem sentido em personagens, armações, segredos de família revelados uma vez por mês, tudo era feito para que seguisse aquilo o que o povo queria. Me pergunto: de quem é a culpa da falta de qualidade em Amor à Vida? Será que realmente é de Walcyr Carrasco? Pois eu não consigo acreditar que quem escreveu uma novela como essa nas primeiras e nas últimas semanas tenha sido a mesma pessoa que escreveu o meio. Pressão da emissora ou do público por uma novela de fácil digestão? Se foi da emissora, o objetivo foi alcançado. A novela conseguiu uma média bem decente e repercutiu como poucas.


      Atualmente podemos ver um Manoel Carlos inspiradíssimo no horário nobre. Mas sua novela não condiz com nada do que foi visto nas últimas quatro tramas das nove. Em Família chegou com um texto brilhante, caprichado, sem medo de agradar a essa ou àquela classe. Um elenco primoroso, desde os desconhecidos das primeiras fases até os medalhões da terceira. Maneco diz que não há pressão por audiência que lhe faça baixar o nível. E vemos que ele não mente. Apesar dos pífios números alcançados por Em Família nos seus primeiros capítulos, tudo o que foi feito foi agilizar a trama, fazendo os capítulos mais longos, nada de mexer na história! Talvez o único grande problema desta novela seja a cronologia, com idades de atores que não condizem com o de seus personagens e elementos de cenário e figurino que não batem com a época. Mesmo assim, a crítica aplaude essa brilhante e corajosa obra do “bom velhinho do Leblon”, que promete mais e mais a cada capítulo.



      Em momento algum quis passar que o programa popular é algo ruim. Mas sim que tudo deve ser bem pensado e feito, para que não se cometam exageros nem erros ao tentar fazer um produto que visa a classe C.  Como o próprio nome diz, a TV é aberta, todos assistem a ela. A busca incansável por audiência tem sido o maior inimigo da qualidade quando se trata de televisão. Que a Globo pense nisso, que não siga o caminho mais fácil. Afinal, é menos trabalhoso agradar a um só do que a todos. Principalmente se esse “um só” for garantia de dinheiro e repercussão...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Amor ao talento e amor à causa!

Por Flávio Michelazzo

Deixei a data de hoje para falar do trabalho impecável - o que não me surpreende - de um dos melhores atores de toda história de nossa teledramaturgia. Não é uma homenagem tardia. É uma homenagem justa. E todos os elogios são pouco! 
Mateus Solano é um ator com longa formação no teatro. Anos a fio de dedicação e agora colhe os louros de seu empenho. Ganhou projeção nacional ao interpretar o compositor Ronaldo Bôscoli na minissérie "Maysa: Quando Fala o Coração" após ter feito breves participações em obras como "JK" e "Paraíso Tropical". O papel de Bôscoli era para Rodrigo Lombardi, ator pelo qual Gloria Perez não abria mão para ser a ponta do triângulo amoroso em sua "Caminho das Índias". Bom para os dois lados!
Após Mateus estourar como Bôscoli, veio o desafio duplo: os gêmeos Miguel e Jorge em "Viver a Vida". O trabalho era mais complexo pelo fato de não serem gêmeos estereotipados: Ambos eram bons e isso aumentava o desafio de convencer tanto como um quanto como o outro. Lembro perfeitamente de pessoas, na época, pensando se tratar de dois atores!


Em "Viver a Vida", o sucesso de Miguel e Jorge foi tão grande que o ator chegou a roubar a cena dos protagonistas José Mayer e Thiago Lacerda. A trama da disputa dos gêmeos pelo coração da ex-modelo Luciana (Alinne Moraes) se tornou mais interessante que o triângulo amoroso entre pai e filho de Mayer, Lacerda e Taís Araújo (Helena).
Depois, vieram os personagens Ícaro e Mundinho Falcão, nas novelas "Morde & Assopra" e "Gabriela". 
A parceria com Walcyr Carrasco parece ter agradado o ator, que, em sua terceira parceria com o escritor, alcançou todas as glórias na pele do administrador malvado Félix Khoury, que, graças a interpretação sensível do ator, foi levando o personagem para um outro caminho, alcançando a redenção e um final feliz para seu personagem que outrora tentava destruir a vida dos que lhe pareciam ameaça.

O personagem fazia tudo para chamar a atenção do pai, César (Antonio Fagundes) que, envergonhado da homossexualidade do filho, fez de tudo para esconder o fato da família e da sociedade, chegando a arrumar uma mulher para o filho casar. Ao ter seus crimes descobertos, Félix cai num pesadelo sem fim, e acaba indo vender hot-dog ao lado de Márcia (Elizabeth Savalla) na 25 de Março. Ele faz de um limão uma limonada e tira bom proveito das experiências ruins que passa e cresce como homem e ser humano, se tornando uma pessoa melhor, e despertando o amor do empresário Niko (Thiago Fragoso), fazendo criar uma torcida pela felicidade do casal no Brasil inteiro, que parece ter esquecido que a trama é sobre a história de amor dos picolés de chuchu Paloma (Paolla Oliveira) e Bruno (Malvino Salvador)!!! 

Até agora, Mateus levou todos os prêmios que foi indicado, merecidamente. E muitos outros devem vir. E o Brasil espera que outros papéis memoráveis passem pelas mãos de Mateus. E o público gay torce para mais abordagens tão precisas e sensatas, tão necessárias, nas novelas e séries do canal de maior audiência do país! Parabéns ao autor Walcyr Carrasco  - que junto com Gilberto Braga, Silvio de Abreu e Gloria Perez - por ter tanto respeito aos gays, diferente de João Emanuel Carneiro, que deve ter algo contra os gays e sempre os casa com mulheres, ridicularizando os homossexuais. Amor à Vida termina cheia de idas e vindas que podem não ter agradado, mas com certeza fez um grande serviço político e social aos homossexuais. A novela marcou época sendo a primeira do horário nobre da Rede Globo a exibir o beijo entre dois homens. Um grande passo para a sociedade brasileira, dado por Walcyr através da atuação impecável de Mateus e Thiago Fragoso.  Mais uma vez, palmas!


Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) se beijam em 'Amor à vida' (Foto: Reprodução)


segunda-feira, 3 de junho de 2013

A Novela Noir de João Emanuel Carneiro


 Emerson Felipe

Antes de parar o Brasil com a esfuziante e ousada Avenida Brasil, João Emanuel Carneiro já havia abalado as estruturas do gênero telenovela em sua estreia no horário nobre, no ano de 2008. Em A Favorita, o público foi apresentado a uma narrativa diferenciada, que trocava o tradicional folhetim de cartas marcadas por um texto enigmático, em que o telespectador era convidado a desvendar quem era a heroína e quem era a vilã no jogo.

A Favorita levou à tela a intensa relação de ódio e rivalidade entre duas mulheres completamente diferentes, mas unidas por um passado em comum. Flora (Patrícia Pillar) e Donatela (Cláudia Raia), criadas juntas e antigas parceiras de dupla musical, com o tempo, tomaram rumos diferentes e tornaram-se inimigas. Uma delas assassinou um homem, sendo que, em razão disso, a frágil Flora foi condenada a 18 anos de prisão. Mas ela jura inocência e afirma ter pagado por um crime que não cometeu, atribuindo a sua autoria à arrogante Donatela, que teria forjado provas contra ela. Diante das mútuas acusações e das duas versões para o mesmo crime, coube ao telespectador, na primeira fase da novela, o papel de juiz. "Quem está falando a verdade? Em qual delas podemos confiar?",  anunciavam as chamadas.


Durante os primeiros 55 capítulos se desenvolveu a fase nebulosa de A Favorita, em que Flora e Donatela acusavam-se mutuamente pelo assassinato de Marcelo (Flavio Tolezani), herdeiro da poderosa família Fontini e, à época, marido de Donatela e amante de Flora. Enquanto Donatela fazia de tudo para difamar e destruir a rival, que tentava retomar a sua vida após cumprida a pena, Flora jurava sua inocência, tentando, ainda reconquistar o amor da sua filha, Lara (Mariana Ximenes), que acabou sendo criada por Donatela enquanto a inimiga esteve presa. Mentiras e segredos comprometedores de ambas as partes vinham à tona ao longo dos capítulos, aguçando a dúvida: será que Flora realmente era aquela candura de mulher e Donatela a opressiva e injusta vilã?


Apesar da diferente e convidativa proposta, o público mais conservador não se empolgou com a função de detetive da trama: A Favorita marcou, na época, a pior audiência de estreia de uma novela do horário nobre. Somente na etapa seguinte a novela entraria nos eixos a nível de audiência e repercussão, transformando-se num grandioso sucesso.

No capítulo 56, esclareceu-se o mistério inicial da trama: Flora se revela a grande vilã, tendo realmente assassinado Marcelo Fontini. A partir daí, inicia-se a ascensão de Flora e a desgraça de Donatela, que é presa por armação da arquiinimiga. A vingança de Flora vai de vento em popa, conquistando tudo aquilo que era de Donatela - inclusive a confiança da familia Fontini e da filha (que, após rejeitá-la, chega a chamá-la de mãe, quando a megera forja um sequestro). Paralelamente, Donatela consegue fugir da cadeia com a ajuda de Diva (Giulia Gam), antigo desafeto de Flora dos tempos de presídio, e, ocultamente, busca provas contra a rival, a fim de preparar a sua derrocada.



A reta final é o momento de acerto de contas entre as inimigas e a progressiva decadência moral e psicológica de Flora. Após infernizar e perseguir a inimiga, num misto de ódio e admiração, a megera é finalmente presa, tornando-se vítima da própria loucura e obsessão por Donatela - a sua favorita, conforme ilustra a histórica cena final da novela.

Além da narrativa diferenciada, A Favorita se distinguiu por uma estética/direção peculiar, em sintonia com o teor gélido e pesado da trama central. A fotografia escura, que privilegiava cenas noturnas e penumbra, assim como ambientes sombrios, conferia ainda mais credibilidade ao terror psicológico do texto. Cenas espetaculares, dignas de filme noir, hipnotizaram e chocaram o público. A sequência em que Flora mata Gonçalo (Mauro Mendonça), o patriarca dos Fontini, após este descobrir sua verdadeira face - sem violência física, mas tortura psicológica - , ficou gravada na retina do público. As cenas de Flora sendo perseguida pela imagem de Donatela e finalmente desmascarada diante de uma plateia de teatro, também marcaram época.


A Favorita foi uma novela, essencialmente, de história central: a rivalidade entre as protagonistas e as tensões no seio da Família Fontini dominaram o palco, num ritmo vertiginoso de acontecimentos e reviravoltas. Reviravoltas estas encadeadas por meio de alucinantes ganchos que prendiam diariamente a atenção do telespectador, num nível crescente de tensão e catarse. Cláudia Raia defendeu bem a justiceira Donatela, mas o grande destaque ficou, realmente, para o surpreendente trabalho de composição de Patrícia Pillar. 

Acostumada a papéis mais românticos e benevolentes, a atriz marcou época com a fria e perigosa psicopata Flora Pereira da Silva. Conseguiu com maestria enganar não só os personagens dentro da trama, como também o próprio telespectador, que se chocou com a transformação da injustiçada ex-presidiária em uma máquina mortífera movida a sangue, inveja e ódio. A megera também divertiu a audiência com suas tiradas sarcásticas: não à toa, muitos chegaram a considerar Flora a melhor vilã da teledramaturgia, ao lado de ícones como Odete Roitman de Vale Tudo.


Em compensação, o conjunto dos núcleos paralelos foi o calcanhar de Aquiles de A Favorita. Tramas desconexas extremamente repetitivas (como a da infiel Dedina - Helena Ranaldi) e constrangedoras (Maria do Céu - Deborah Secco - ''convertendo'' o homossexual Orlandinho - Iran Malfitano), que pouco contribuíam para o desenrolar da novela, passaram despercebidas pelo público. Excelentes atores como Tarcísio Meira, Milton Gonçalves, Cláudia Ohanna, Gisele Fróes, Thaís Araújo, entre outros, foram desperdiçados em papéis apagados ou esquemáticos, aquém de seu talento. A exceção, contudo, ficou por conta da delicada trama da submissa Catarina (Lília Cabral), subjugada pelo violento marido Leonardo (Jackson Antunes) e que desperta a paixão da bela e bem-resolvida homossexual Stela (Paula Burlamaqui). Faltou um conjunto mais harmônico e uma melhor interação entre as tramas de A Favorita, defeito característico de João Emanuel Carneiro, que só veio a ser amenizado na sua novela seguinte, Avenida Brasil.

Com uma narrativa diferenciada e um ritmo vertiginoso, a soturna trajetória de ódio, vingança e até mesmo amor entre suas protagonistas, A Favorita deu a volta por cima, injetou sangue novo na teledramaturgia e se tornou uma das novelas mais ousadas e cultuadas dos últimos tempos. Que as cores sombrias do noir de A Favorita iluminem os rumos que a teledramaturgia venha a seguir nos próximos anos.

domingo, 5 de maio de 2013

Quem matou Helena? Arebaba dona Carminha, foi o Caderudo!

Por André Cavalini

Popularmente chamada de novela das oito, as histórias que vemos na tv logo após o Jornal Nacional é o produto mais caro e mais valorizado da Rede Globo de Televisão. Também não podia ser diferente, pois este é o horário em que as famílias de todo o país estão reunidas na frente do aparelho. Talvez o único momento do dia em que pais e filhos, avós e netos tenham pra se encontrarem dentro da própria casa e fazerem algo juntos.

Ganhar  público família não é fácil, pois ali estão uma mistura de gerações e de cabeças pensantes em sentidos diferentes. É preciso agradar desde o mais jovem, até o mais velho,e para isso os autores precisam cada vez mais rebolar, e rebolar feito uma Gretchen na fase, pra não fazer feio.

Dessa maneira, a emissora platinada mantém a sete chaves, do lado esquerdo do peito, um time seleto para tentar dar conta do recado. Denominados “OS IMORTAIS” do horário nobre.

Já velhos conhecidos nossos, atualmente cabe essa difícil tarefa a Aguinaldo Silva, Silvio de Abreu, Gilberto Braga, Manoel Carlos, Glória Perez, e ao recém chegado ao time (e já muito admirado) João Emanuel Carneiro.


Num revezamento rígido de ideias, são as histórias criadas na cabeça de cada um deles, que sentamos todas as noites no sofá da sala para assistir. 


Provavelmente cada um já sentiu o amargo de um fracasso. Uma história que não pegou, que não rendeu, que não agradou. Que gerou críticas, baixa audiência, rejeição. Nesse momento talvez, tenham pensado em desistir. Ou talvez não, já que também brindaram com largos sorrisos a sucessos que marcaram pra sempre a teledramaturgia de nosso país. Que grudaram as pessoas na tela da tv, que foi capa de revista, recorde de audiência e motivo de orgulho para quem a escreveu.


Acredito eu, que o lombo dos imortais do horário nobre já estejam calejados, prontos pra receberem a chibata do fracasso ou a glória do sucesso.
A maioria já está há muitos anos exercendo a tarefa de nos entreter e sabem a dor e a delícia de realizar tal tarefa.


E como não podia ser diferente, cada um deixou em suas obras uma personalidade própria, nos permitindo imaginar o que vem por ai quando sabemos que a próxima novela será de fulano ou ciclano.
É possível imaginarmos sinopse, cenários, o tipo de diálogo e até mesmo alguns atores e atrizes que farão parte da trama, só de saber quem será o seu autor.



O tempo nos ensinou a conhecê-los, e a cada história nos sentimos mais íntimos, próximos. Como amigos que se conhecem e vão afinando a relação no decorrer do tempo.
Se olharmos bem, com olhos não de telespectador, mas sim de ser humano, conseguimos até mesmo encontrar muito de cada um nas entrelinhas de suas histórias e dessa maneira traçar um perfil certeiro sobre quem são ou quem foram, do que gostam e não gostam, como pensam, o que sonham.



Porque, acredito eu, as histórias que escrevemos, sempre tem um pouco de nós, e esse nós de cada autor, cada vez mais vai ficando claro aos nossos olhos.

Não sou nenhum especialista da área, até mesmo porque não acompanhei todas as novelas destes autores. Mas como bom noveleiro, dentro daquilo que vi de cada um, me arrisco a palpitar um pouco sobre cada mente pensante desses ilustres seres. 

E aí, concordam ou discordam???







A partir do próximo mês, o time de Imortais do horário nobre será reforçado pelo talento do autor Walcyr Carrasco, que estréia nas noites globais com a trama Amor à Vida, substituta de Salve Jorge. 
Fica aqui, desde já, as nossas boas vindas e a nossa torcida pra o sucesso da história!

terça-feira, 26 de março de 2013

O país estacionado às margens da Avenida Brasil





 E. Felipe

O Brasil é, por excelência, o país da telenovelas: durante meses um folhetim repercute e vira o assunto do dia, até que o próximo estreie e reinicie o ciclo. Há, porém, novelas que ultrapassam a condição de entretenimento descartável e se transformam em fenômeno paradigmático: Irmãos Coragem, Selva de Pedra, Dancin' Days, Roque Santeiro, Vale Tudo e A Próxima Vítima são alguns exemplos clássicos. A recente e aclamada Avenida Brasil, grandioso sucesso de João Emanuel Carneiro, apresenta potenciais requisitos para que, futuramente, integre esse seleto time.

Após relevantes sucessos no horário das 7 (Da Cor do Pecado e Cobras e Lagartos), em 2008 fez sucesso no horário nobre com a sombria e psicológica A Favorita. E há exatamente um ano, com sua segunda incursão na faixa, João Emanuel Carneiro novamente subverteu o gênero ao unir elementos de telenovela, seriado e cinema em um contexto socioeconômico representativo do Brasil atual.


Avenida Brasil apresentou como trama central o clássico tema da vingança: a implacável Nina (Débora Falabella) retorna para fazer justiça, vingando-se da inescrupulosa Carminha (Adriana Esteves) que, além de provocar a ruína do seu pai, a abandonou num lixão quando criança. Com um texto repleto de reviravoltas e ganchos de tirar o fôlego, João Emanuel Carneiro injetou sangue novo a um tema já exaustivamente narrado. Todos os capítulos apresentavam um conflito-chave que logo se solucionava e encadeava outro, num ritmo ágil típico das séries de TV, aguçando diariamente a curiosidade do telespectador.

A criativa direção - sob comando de Ricardo Waddington, Amora Mautner e José Luiz Villamarin - foi atração à parte em Avenida Brasil, ao lhe conferir uma convidativa estética cinematográfica. Se, nos anos 90, Luiz Fernando Carvalho já manipulava linguagem de cinema em Renascer, em Avenida Brasil esta tendência se consolidou: da fotografia à edição, passando por acurados controles de foco, de profundidade de campo e adequadas trilhas incidentais. Incríveis sequências, como Carminha enterrando Nina viva ao descobrir sua verdadeira identidade (em alusão ao filme Kill Bill) e a violenta morte de Max (Marcello Novaes), digna de filme de terror, já ficaram gravadas na memória coletiva.



Outro diferencial foi a inserção da trama no atual contexto de ascensão da nova classe média. O fictício Divino, bairro do subúrbio carioca, foi o palco dos grandes acontecimentos de Avenida Brasil, enquanto à nobre zona sul atribuiu-se a função de núcleo periférico. Sem falar no importante núcleo do lixão, onde residiam os segredos-chave da trama. O discurso acerca da mobilidade social foi bem roteirizado, indo da crítica irônica de costumes à retratação realista deste fenômeno. De um lado, o preconceito da decadente elite, destilado nas pérolas da dondoca Verônica (Débora Bloch) - "A classe C ascendeu à minha cobertura", "Essa gente que mistura caviar com ovo". De outro, o orgulho das origens humildes estampado nos discursos dos personagens do Divino - basta lembrar do desdém de Carminha pelos pratos sofisticados de Nina.

A quebra de paradigmas do perfil de mocinha e de vilã foi outro acerto: não houve maniqueísmo, mas personagens humanizadas. O ódio, a dissimulação e o receio mútuo entre as arqui-inimigas Nina e Carminha renderam momentos tensos e impactantes. Débora Falabella interpretou com garra a obsessiva e sombria Nina, mocinha com ares de vilã capaz de enganar, manipular, torturar e até de abrir mão do seu amor de infância em prol de vingança. Adriana Esteves, com uma interpretação riquíssima, eternizou Carminha no imaginário popular, com carisma, maldade e tragédia. Mais que uma vilã, Carminha foi uma complexa personagem, dotada dos mais variados sentimentos: ódio, crueldade, interesse, dissimulação e arrogância, mas também de um genuíno amor, que sentia pelo filho Jorginho (Cauã Reymond). 



Apesar do abusiva vigilância por parte do politicamente correto, Avenida Brasil conseguiu alfinetar certas convenções sociais e exibir polêmicos maneirismos. Novos modelos de família e relacionamentos foram exibidos: Cadinho (Alexandre Borges) e suas três mulheres; o maduro casal Leleco (Marcos Caruso) e Muricy (Eliane Giardini), que se separam para viver com parceiros bem mais jovens - Tessália (Débora Nascimento) e Adauto (Juliano Cazarré), respectivamente; e a periguete Suellen (Ísis Valverde), sexualmente livre, que se casa com dois homens.

Avenida Brasil significou, ainda, o amadurecimento da dramaturgia de João Emanuel Carneiro. Se em A Favorita a ação cingiu-se ao embate entre as protagonistas Flora e Donatela (ignorando quase que por completo os núcleo secundários), em Avenida Brasil se visualizou um conjunto mais harmônico e uma melhor interação entre a trama central e as histórias paralelas. Todos tiveram seu momento de destaque, experientes (Marcello Novaes, José de Abreu e Vera Holtz) e novatos (Mel Maia, a intérprete de Nina na primeira fase; e Cacau Protásio, intérprete de Zezé, a empregada e fiel escudeira de Carminha).




Ainda que marcada pelo sucesso, gritantes furos no roteiro e situações inverossímeis não passaram despercebidos aos olhos do público. O núcleo de Cadinho, por vezes, mais irritou do que divertiu. O fato de Nina não ter salvado em meio digital fotos comprometedoras de Carminha virou motivo de piada e descrédito nas redes sociais. Ademais, a hesitação da vingadora em entregar tais fotos a Tufão para desmascarar a rival soou incoerente e forçado. Se o plano dela de retaliação foi mais forte que o amor por Jorginho, pela lógica, não poderia ser minimizado pelo carinho que sentia por Tufão. 




Mesmo assim, o conjunto de Avenida Brasil se apresentou robusto e atraente, fisgando um público que seguiu fiel até os últimos quilômetros de sua trajetória. Causou frisson e seu derradeiro capítulo parou o País como há muito tempo não se via. Além das rodas de conversa, Avenida Brasil foi uma febre nas redes sociais, a ponto de ganhar vida própria no ciberespaço: diariamente entrava nos trending topics do twitter (com contagem dos capítulos, do #OiOiOi100 ao #OiOiOi179), avatares imitavam o efeito de final de capítulo ("congelar no cinza") e os mais criativos memes proliferavam na rede. Frases de efeito como "Me serve vadia!" e "É tudo culpa da Rita!" caíram na boca do povo. A audiência chegou a preocupar o sistema elétrico nacional (que teve de ser reforçado para evitar queda de luz, em razão do enorme número de aparelhos ligados) e a repercussão da novela chegou a adiar compromissos políticos de grandes autoridades (como a presidente Dilma Rousseff) . Avenida Brasil também cruzou fronteiras: a comoção em torno dos capítulos finais virou notícia internacional (Forbes e BBC) e a novela se tornou a obra mais vendida para o exterior.


Avenida Brasil, clássico em potencial, gerou uma verdadeira catarse coletiva digna das grandes novelas do passado. Um feito louvável numa época em que a audiência da TV aberta encontra-se pulverizada e outras formas de entretenimento estão mais acessíveis: é a prova do poder das novelas enquanto aspecto cultural do povo brasileiro. Entre erros imperdoáveis e grandes acertos, furos de amador e catarses de gênio, Avenida Brasil é um grande exemplo da magia e do fascínio que a telenovela ainda é capaz de exercer sobre a coletividade. 

domingo, 3 de junho de 2012

O XADREZ DE JOÃO EMANUEL CARNEIRO.



Por Eduardo Vieira

Inegável o sucesso alcançado pela novela atual das nove, Avenida Brasil, não deixando para trás o êxito de sua antecessora, Fina Estampa. A trama foi ganhando o público e também a crítica com cenas com agilidade e direção cinematográficas (ajudada pelo formato em película) bem casadas à linguagem televisiva e cenas passadas em um subúrbio que de tão real torna-se por vezes caricato como só a realidade é em sua essência.


O autor João Emanuel Carneiro foi alçado ao horário nobre depois da mão segura, com a supervisão do mestre Silvio de Abreu, em Da Cor do Pecado, em que mostrava o quanto se podia extrair de uma trama um tanto batida, sem novidades, com um elenco e locação certos. O romance interracial de Paco e Preta e a família Sardinha ganharam o grande público, provando que não há mesmo receita para a química de histórias de amor nas novelas.


Mesmo com uma trama posterior menos bem sucedida, mas que também recebeu alguns elogios da crítica, Cobras e Lagartos, em que estranhamente os coadjuvantes foram mais populares do que o casal principal, feitos com maestria por Marília Pêra, Lázaro Ramos e Thaís Araujo, nada o impediu de atingir seu posto de “Ararinha Azul”, apelido dado pelo autor Aguinaldo Silva aos poucos e bons autores eleitos para o horário nobre.

Entretanto a costura teledramatúrgica de João Emanuel exibe imperfeições que paradoxalmente foram fazendo sua marca registrada: A trama dos coadjuvantes, pouco ou nada aliada ao centro da história. Foi assim em Da Cor do Pecado com os núcleos do pai Helinho, Matheus Nachtergaele e outro bastante engraçado composto pelo trio Ney Latorraca, Maitê Proença e Graziela Moreto.


Por outro lado em sua estréia no horário das nove, ele trouxe uma história que já começava no curioso teaser, duas mulheres narrando a mesma história e uma dúvida: Quem falava a verdade, ou melhor, o que era a verdade?  Flora e Donatella bateram qualquer par romântico, subvertendo um pouco as histórias principais dos folhetins, ainda mais na escolha não óbvia das atrizes. Claudia Raia e Patricia Pillar que com seus estereótipos conseguiam enganar o público no início da história. Porém um personagem fura o bloqueio da história central e merece menção, a personagem de Lília Cabral que teve tanta atenção quanto à história central que era bem monopolizadora, como se os principais fossem as peças principais de um tabuleiro e o restante do elenco, peões e outras peças que se movem para formação de histórias paralelas que nem sempre são bem resolvidas.


A Favorita também sofreu certa rejeição por isso e pelo fato de não trazer uma história mais convencional, personalidades mais claras e por haver uma carga de violência e sordidez que não eram vistos no horário.

Entretanto como há detratores do autor há também os seus admiradores  pois mesmo não sendo o inventor de um ritmo mais climático, o autor é hoje responsável por ganchos que nos fazem lembrar as melhores novelas de Janete Clair e Gilberto Braga, mesmo seu estilo  não lembrando nenhum desses clássicos autores.

Outra que tem sido sua marca é trazer temas igualmente já vistos na telinha  e colocá-los de cabeça pra baixo, como o mito do amor dos pais, tema bastante presente desde  produções mais antigas da Excelsior e outras emissoras.

Notamos nesse “tabuleiro”, que alguns personagens sobressaem na trama central (a ênfase no final do capítulo nos indica isso, a história pende para tal personagem, hoje está mais para outro). Isso ficou notório quando personagens como Ivana dominaram a cena (em uma das reviravoltas mais surpreendentes e críveis da história, quando esta se mostra amiga da personagem principal na internet), mesmo essa trama sendo abordada cedo demais, pois parece que as duas mal se conhecem hoje.

Agora vemos uma maior participação da personagem da excelente Bianca Comparato, a falsa Rita, que genialmente serve para a personagem principal comprovar com um afastamento que o alvo de sua vingança ainda merece ser punido.


O que é curioso é que os personagens maus-caracteres têm uma vida dupla e nem eles sabem mais  ao certo o que são e sobretudo o que desejam, pois se acomodaram no papel da esposa zelosa e do marido escroque. Eles envolvem-se nos dramas e comédias da família como se fossem integrantes desses próprios acontecimentos, quando por muitas vezes são os agentes. Esse é o grande diferencial dessa vilã que já é um clássico pela sua falta de classe, de humanidade, pela sua vulgaridade explícita. O que diferencia a excelente Carminha de Flora, mas as duas tendo a alta dissimulação como elementos coincidentes e também altas competências dramatúrgicas, se bem que isso fica melhor explicado na segunda, pois foi vítima de um sistema de pobreza, ou seja, não é má por ser má como a personagem de Patrícia.


Como Lília Cabral em A Favorita, vemos outro peão sobressair à trama central. Inesperadamente, um papel já meio requentado, mas que adquiriu fôlego novo pela verossimilhança do texto e boa interpretação de Isis Valverde que trafega pelos núcleos, indo parar até na casa da vilã e reconhecendo a essência desta como se fossem almas gêmeas.
Naturalmente que como em quase toda novela, há um núcleo cansativo do também cansativo Alexandre Borges, o Seu Quequé de João Emanuel; as historietas são chatas, repetitivas e percebemos que nem sempre o humor obrigatório para uma novela como essa funciona. Ponto para Débora Bloch que até em cenas solo dá um toque de classe com seu texto e personagem engraçados. As tiradas de Verônica em relação à família de Tufão são sempre muito boas.


E por último, em se tratando de personagem principal, vemos Tufão como um personagem à primeira vista sem graça, altamente manipulável, mas sendo redescoberto pela relação intelectual, sua válvula de escape à obrigatória rotina de chefe e ídolo de futebol, com a ajuda da heroína Nina, com quem ele se mostra encantado. Mais uma criação de composição de Murilo Benício que por vezes se camufla atrás do histrionismo de Carminha, a melhor interpretação da novela, a fênix Adriana Esteves.


Em tempos de cada vez mais dificuldades de se fazer uma novela que prenda a atenção do espectador, João Emanuel mais uma vez cumpre sua obrigação com louvor.
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