Por Ana Paula Calixto
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"As fábulas em português (...) são pequenas moitas de amora do mato, espinhentas e impenetráveis.
Um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se feito com arte e talento, dará coisa preciosa."
[Monteiro Lobato]
Imaginar no tempo em que eu me referiria saudosa à minha infância, parecia algo bem longínquo, distante na ilusão de adolescente. Hoje, mãe de uma menina serelepe com pouco mais de 2 aninhos, me vejo olhando para trás com todo saudosismo que observava nos adultos, nos "mais velhos" da minha época de infância e adolescência. risos... Mas não dizem também que o mundo é cíclico, que nada há de novo debaixo do sol? Deve haver verdade nisso (em ambos "nissos").
Então... tenho encontrado uma grande dificuldade de achar programas infantis que não só sejam compatíveis com a idade da minha filha, hoje em dia, mas que tenham um conteúdo aproveitável, ludicamente educativo para uma criança. Não há grandes opções na tv, infelizmente. E acabo restringida a Discovery Kids e parcos DVD's que se aproximam daquela fórmula mágica que tinham os programas, como chegou meu tempo de dizer [risos] "da minha época". E isso me causa. Causa um misto de orgulho e de desapontamento. Se por um lado me sinto privilegiada de ter tido acesso em minha infância ao mundo criativo, inspirador, mágico do "Sítio do Picapau Amarelo", por exemplo, sinto uma certa tristeza que minha miúda não tenha a mesma oportunidade e nem outras a altura. [Sim, o Sítio era tão bom assim!!!]
"Sítio do Picapau Amarelo"... o conto de fábulas infantis criado pelo gênio Monteiro Lobato, que conseguiu reunir num mesmo universo personagens originais com outros já existentes nas lendas, no folclore brasileiro. RELÍQUIA DA NOSSA LITERATURA INFANTIL! E, sem falsa modéstia, a melhor versão em minha humilde opinião, foi a que mais tempo acompanhei, a qual estreou no final da década de 70 (por volta de 1977/78, salvo engano). Lembro como hoje, da minha mãe (uma "traça de livros") me estimulando empolgadamente a acompanhar o programa para crianças que estreava inspirado numa obra da literatura, a qual ela se referia como "o conto de fadas do nosso país".
Nesta versão, os personagens ficaram imortalizados pela interpretação dos atores. O elenco principal no primeiro ano do programa era composto por Zilka Sallaberry (Dona Benta), Dirce Migliaccio (Emília), Jacyra Sampaio (Tia Nastácia), Rosana Garcia (Narizinho), Júlio Cézar Vieira (Pedrinho), André Valle (Visconde de Sabugosa), Samuel Santos (Tio Barnabé), Dorinha Durval (Cuca), Romeu Evaristo (Saci), Ary Coslov (Jabuti), Germano Filho (Elias Turco), Jaime Barcellos (Coronel Teodorico), Tonico Pereira (Zé Carneiro), Canarinho (Malazarte ou Garnizé) entre outros.
Os efeitos especiais (toscos para atualidade) eram um must, perfeitos o suficiente para nos fazer mergulhar no mundo de fantasia da estórias do Lobato. Episódios como "O Anjinho de Asa Quebrada", interpretado por Gabriela Alves, me fizeram passar dias explorando o quintal de casa na expectativa de que um anjinho caísse do "meu céu", também! E "Teseu", vivido por Gracindo Júnior?! Era um encanto que fazia a mim e minhas amigas viajar no romantismo doce, inocente típico da pureza infantil! "Barba Azul", personagem de José de Abreu, eu conheci pelo santo "Sítio do Picapau Amarelo"!
Coisas, vivências, catarses que fizeram parte da minha infância e que, hoje, eu procuro e não identifico em programa algum, sinceramente.
Uma pena...
Como seria magnífico alguém conseguir resgatar essa riqueza da literatura clássica brasileira! Mas, desde que fosse a altura, com o mesmo tempo, os mesmos holofotes dedicados à versão que relembro nesse texto. E não às tentativas fracassadas que sucederam. Seria até revolucionário, para fase pobre de programas infantis desse nível que passam na tv, hoje em dia!
Beijos saudosos.




