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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Retrospectiva e Expectativa – Parte 2

         

Por Leonardo Mello de Oliveira

              
              Assim como em qualquer início de ano, os aficionados por TV ficam na espera por melhores produções e por novidades que melhorem o estado instável da atual televisão brasileira. Em 2015, temos promessas de boas novelas para comemorar os 50 anos da Globo, com autores novos e veteranos tentando emplacar sucessos, seja no horário das seis, sete, nove ou onze.
            Na segunda e última parte dessa postagem especial, falaremos sobre as novelas globais que estrearão neste novo ano. Tentaremos nos ater um pouco à história, à equipe e ao que se esperar de cada uma.

            SETE VIDAS


            Horário: 18h
            Estréia: 9 de março
            Autor: Lícia Manzo
            Direção: Jayme Monjardim
       Elenco: Domingos Montagner, Débora Bloch, Vanessa Gerbelli, Ângelo Antônio, Isabelle Drummond, Jayme Matarazzo, Thiago Rodrigues e Regina Duarte.
  História: Miguel (Domingos Montagner) é um fotógrafo que foi doador de sêmen, o que o faz pai de 6 jovens. Depois de passar um período depressivo, decide se dedicar ao seu trabalho e viaja para a Antártida. Lá, sofre um acidente e é dado como morto, o que abala Lígia (Débora Bloch), com quem teve um relacionamento antes de sua viagem e que se descobre grávida de Miguel. Depois de anos, Júlia (Isabelle Drummond), uma das filhas geradas pelo personagem de Montagner, acaba se apaixonando por um meio-irmão, Pedro (Jayme Matarazzo), também filho de Miguel. Juntos, resolvem reunir todos os 7 irmãos e ir atrás do pai.
 O que esperar: Autora da excelente A Vida da Gente (2011), Lícia promete uma novela polêmica, com direito a Regina Duarte em um papel homossexual e muita discussão sobre a doação de sêmen. Podemos esperar uma história realista, com personagens femininas fortes, dramas familiares e diálogos bem escritos. Lícia possui um estilo semelhante ao de Manoel Carlos, o que se evidencia ainda mais com a direção de Monjardim. A novela será curta, o que pode extinguir a barriga que novelas mais pé-no-chão podem originar. Aliás, Sete Vidas possui diversos elementos muito mais ficcionais, diferente de sua irmã de 2011, cuja história era super simples e realista. Apesar de talvez não segurar muita audiência, a história envolvente e diferente, com o estilo de Lícia, pode reerguer o horário, que anda mal das pernas nos últimos anos.

ENCONTRO MARCADO



Horário: 18h
Estreia: Segundo semestre de 2015
Autor: Elizabeth Jhin
Direção: Rogério Gomes
Elenco: Rafael Cardoso (cotado), Letícia Persiles, Nívea Maria e Jandira Martini
História: Ainda não há muitas informações quanto à história, apenas sabe-se que seguirá o estilo espírita da autora, terá a cabala como seus temas e a Serra Gaúcha como pano de fundo.
O que esperar: O estilo de romance com o espiritismo, já bem explorado por Elizabeth Jhin, se mostrou um pouco desgastado na sua última obra, Amor Eterno Amor (2012). No entanto, a autora parece buscar temas diferentes a serem trabalhados neste novo folhetim, além de contarmos com uma direção mais amadurecida de Rogério Gomes, como se vê atualmente em Império. A autora não deverá repetir seu erro na novela de 2012, onde explorou por demasia o espiritismo, esquecendo a história principal. Também se deve esperar que tanto autora quanto diretor evitem um elenco gigantesco, como aconteceu em Amor Eterno Amor, onde personagens acabam sendo mal-explorados. A escritora domina os métodos para se ter um folhetim agradável, portanto, pode nos surpreender.

PARAISÓPOLIS FOREVER



Horário: 19h
Estreia: Abril
Autor: Alcides Nogueira e Mário Teixeira
Direção: Wolf Maya
Elenco: Bruna Marquezine, Tatá Werneck, Maurício Destri, Caio Castro e Letícia Spiller.
História: Marizete/Mari (Bruna Marquezine) viaja com sua amiga Fernanda (Tatá Werneck) para os Estados Unidos, com a esperança de uma vida melhor. No entanto, ambas são obrigadas a voltar para Paraisópolis, favela onde cresceram. Mari vai trabalhar como segurança na casa de Soraia (Letícia Spiller), que quer destruir a favela para construir condomínios. Maria se apaixona pelo filho da vilã, Benjamin (Maurício Destri), mas também tem que resolver sua situação com o ex-namorado Grego (Caio Castro), criminoso de Paraisópolis.
O que esperar: De todas as novelas de 2015, Paraisópolis Forever é a que dá mais medo. Com uma sinopse cheia de clichês e elementos bizarros, o clima é de desconfiança. O tom popular foge do estilo de Alcides Nogueira, que já escreveu novelas mais refinadas, como Ciranda de Pedra (2008) e O Astro (2011). A direção de Wolf Maya também preocupa, além do elenco ser bem fragmentado, com atores bons, médios e ruins. Agora é esperar e ver se as próximas notícias nos animam mais. O que dá esperanças é o estilo de texto de Nogueira e a experiência de Mário Teixeira, que foi co-autor de O Cravo e a Rosa, uma ótima comédia. O último trabalho de Alcides e sua equipe de colaboradores foi o remake de O Astro, onde mostrou um grande profissionalismo e adaptou de uma maneira excelente uma das obras mais marcantes de Janete Clair. Então, talvez possamos nos surpreender com uma abordagem completamente diferente dos elementos populares em folhetins.

BABILÔNIA



Horário: 21h
Estreia: 23 de março
Autor: Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga
Direção: Dennis Carvalho
Elenco: Glória Pires, Adriana Esteves, Camila Pitanga, Thiago Fragoso, Gabriel Braga Nunes, Marcos Palmeira, Bruno Gagliasso, Sophie Charlotte, Chay Suede, Cássio Gabus Mendes, Daisy Lúcidi, Nathália Timberg e Fernanda Montenegro.
História: Com várias tramas paralelas que se encontram, Babilônia gira em torno de 3 mulheres: Regina (Camila Pitanga) é uma moradora do Morro da Babilônia, batalhadora e que namora Vinícius (Thiago Fragoso), um advogado rico e idealista, e também é cortejada pelo malandro Luis Fernando (Gabriel Braga Nunes); Beatriz (Glória Pires) é uma ninfomaníaca assassina que se aproxima do milionário Evandro (Cássio Gabus Mendes); e Inês (Adriana Esteves), rival ferrenha de Beatriz, que faz tudo para prejudicá-la. A filha de Inês, que será vivida por Sophie Charlotte, deverá se tornar uma prostituta de luxo agenciada pelo cafetão interpretado por Bruno Gagliasso. A novela ainda conta a história do casal formado por Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathália Timberg), que vive sendo perseguido por Consuelo (Daisy Lúcidi), uma rica perua que, suspeita-se, seja uma homossexual enrustida. O casal possui um filho, Rafael (Chay Suede), que sofreu discriminação por ser filho de um casal homossexual.
O que esperar: Gilberto Braga volta ao horário das nove com uma trama forte, envolvente e que promete abordar diversas polêmicas. O elenco de peso (há tempos não se via tantos astros em uma só produção) e a direção, que sempre se reinventa, de Dennis Carvalho, só aumenta as expectativas. Braga sempre apresentou um texto refinado, com crítica social e diálogos muito bem pensados. Como sempre, o autor deve abordar a diferença de classes e a ascensão social, além de falar mais sobre homossexualismo. Com doses de elementos tanto populares quanto sofisticados, Babilônia tem tudo para ser um fenômeno tão grande quanto foi Avenida Brasil. E é o que esperamos que seja.

FAVELA CHIQUE



Horário: 21h
Estreia: Setembro
Autor: João Emanuel Carneiro
Direção: Amora Mautner
Elenco: Murilo Benício, Giovanna Antonelli, Andreia Horta, Cauã Reymond, Marco Pigossi, Juliano Cazarré, Marcos Caruso e Suzana Vieira.
História: A novela conta a história de um bandido (Murilo Benício), que age nas favelas, mas que decide abandonar o crime e virar uma pessoa do bem. Ele se relaciona com uma mulher de moral duvidosa (Giovanna Antonelli) e outra mais jovem (Andreia Horta). Esta última também mantém um relacionamento com o chefe comunitário de uma favela (Cauã Reymond). A história mostrará uma visão da favela do futuro, com estabelecimentos sofisticados, mas que ainda sofre com os núcleos criminosos.
O que esperar: Depois de escrever o último grande fenômeno da Globo, Avenida Brasil (2012), João Emanuel Carneiro, o JEC, volta com uma trama diferente, mas que conterá as principais características das obras do autor. Muito se espera de Favela Chique, o que pode ser ruim. As comparações com Avenida Brasil serão inevitáveis, o que faz com que JEC tenha que escrever algo muito melhor que seu folhetim anterior para agradar. A estréia de Amora Mautner como diretora de núcleo também causa curiosidade. O elenco ainda está sendo escalado, mas se vê que as panelinhas vão continuar, o que não é ruim, já que atores como Benício, Reymond e Caruso sempre se dão bem com o texto de João Emanuel e a direção de Amora.

VERDADES SECRETAS



Horário: 23h
Estreia: Ainda não confirmada, provavelmente no fim do primeiro semestre ou no início do segundo
Autor: Walcyr Carrasco
Direção: Mauro Mendonça Filho
Elenco: Deborah Secco, Rodrigo Lombardi, Reynaldo Gianecchini, Marieta Severo, Guilhermina Guinle, Klara Castanho, Mouhamed Harfouch e Marco Nanini
História: A sinopse ainda não foi divulgada. Tudo indica que há uma força-tarefa na emissora para que a sinopse não seja revelada até o momento desejado pela Globo. Porém, há boatos de que a novela seja parcialmente baseada no livro Mildred Place, em que uma mulher (Deborah Secco) mal-tratada pelo marido deixa a família e se torna uma bem sucedida empresária. Entretanto, seu mundo desaba quando descobre que seu novo amor (Rodrigo Lombardi) a trai com sua filha.
O que esperar: Walcyr retorna ao horário das onze com uma trama que promete ser polêmica, com violência e cenas de sexo. O autor está obstinado a não deixar a sinopse da novela vazar, o que faz com que pouco possa se esperar da trama. Mauro Mendonça Filho, assim como Amora Mautner, estreia como diretor de núcleo. O autor fez um trabalho razoável em Gabriela (2012), e talvez se saia melhor que na criticada Amor à Vida (2013). A novela será a primeira inédita do horário. Todas as demais foram remakes de folhetins dos anos 70 da Globo.

Ainda neste ano, teremos mais uma novela das sete, que deve substituir Paraisópolis Forever, escrita pela atual autora de Malhação, Rosane Svartman. Não há ainda muitos detalhes da trama. Mais uma temporada de Malhação também estreia em Agosto, com o autor, já experiente na novela teen, Emanoel Jacobina.

Como se vê, muitas obras estão para estrear em 2015. A Globo provavelmente irá caprichar nestas produções, de modo que marquem os 50 anos da emissora. Qual novelas vocês, leitores do blog, mais esperam? Quais acreditam que serão os fiascos do ano? Concordam com as expectativas? Deixem sua opinião. Um ótimo 2015 a todos, e que também possamos dizer isso a todas as novelas que virão por aí.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Retrospectiva e Expectativa - Parte 1



Por Leonardo Mello de Oliveira

Chegamos a mais um final de ano, momento para recapitularmos o que aconteceu neste 2014 e analisarmos as promessas para 2015. Nesta postagem especial em duas partes, faremos um balanço das novelas deste ano e as expectativas para as que nos aguardam ano que vem. Como não assisti a novelas de outras emissoras que não da Globo, não vou me ater a estas, de modo a evitar críticas e comentários rasos e sem uma boa base. Lembrando que iremos desconsiderar novelas que tenham iniciado em 2013, que são Amor à Vida, Joia Rara, Além do Horizonte e a temporada anterior de Malhação.
         Depois de um 2013 difícil, tanto em termos de qualidade quanto de audiência, a Globo iniciou 2014 com a missão de se reerguer. A emissora tinha planos ousados, entre eles novelas pretensiosas e diferentes. Apesar da mesma não ter conseguido chegar nem perto do auge que conseguiu em 2012, pode-se dizer que o ano que passou foi mediano para a teledramaturgia global. Em termos técnicos, não temos muito que reclamar. A “Vênus Platinada” conseguiu recuperar alguns pontos sim, mas ainda está em sinal de alerta.


             A primeira estréia do ano foi a de Em Família, em fevereiro. Anunciada como sendo a última novela de Manoel Carlos, a trama prometia trazer novamente o estilo de Maneco, que marcou tanto a nossa teledramaturgia, principalmente nos anos 90 e início dos 2000. Infelizmente, o “bom velhinho do Leblon” não conseguiu fechar sua carreira com chave de ouro. Em Família penou para conseguir alguns índices, e apesar de contar com histórias supostamente envolventes e dramas polêmicos, a novela não conseguiu agradar nem público, nem crítica. Maneco trazia de volta personagens de difícil aceitação, tais como a mimada Luiza (Bruna Marquezine); a apática Helena (Júlia Lemmertz); o egoísta e perturbado Laerte (Gabriel Braga Nunes); e o “banana” Virgílio (Humberto Martins). Nota-se que houve diversos problemas, principalmente na condução e desenvolvimento dos personagens, além de uma direção mediana de Jayme Monjardim, que já fez bem melhor do que mostrou aqui. Apesar de tudo, a novela teve seus êxitos: os diálogos de Maneco são uma atração à parte em qualquer novela, e o elenco estava afiadíssimo, pode-se dizer que eram os atores que faziam da novela uma atração “assistível”. As primeiras fases foram também um acerto, o que só piorou a sensação de decepção ao criar tanta expectativa para o que viria depois.


          Substituindo a meia-boca (porém bem produzida) Joia Rara, Meu Pedacinho de Chão estreou em abril trazendo novos ares (novos até demais) para o horário das 18h. Longe de ser uma novela convencional, a fábula de Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho continha personagens exagerados, com hábitos esquisitos, roupas extravagantes, feitas de papel, plástico e sucata, e uma história linda com um bonito toque infantil. Foi uma das poucas vezes em que se viu uma obra em que tudo se encaixou perfeitamente: direção, texto, elenco e produção, todos juntos, trabalhavam em harmonia para fazer uma das melhores novelas dos últimos anos. Analisando, se vê que, caso um desses fatores não estivesse bem, toda a novela se comprometia. Infelizmente, não obteve números de audiência muito significativos, mantendo, mais ou menos, o que sua antecessora havia conseguido. Também vale elogiar a Globo, que se arriscou ao apostar em um tipo de produção extremamente diferente de tudo o que já se produziu no meio.


           A estréia de Geração Brasil foi anunciada com pompa e circunstância pela emissora, deixando claro que a novela era dos mesmos autores de Cheias de Charme, Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. As chamadas traziam boas expectativas, tudo indicava que a Globo conseguiria restaurar o decadente horário das sete. Tudo não passou da expectativa. O que se recebeu foi uma trama bagunçada, cheia de personagens sem utilidade e mal-desenvolvidos, com uma direção convencional e abordagem de temas que nada combinam com o estilo folhetinesco. Além disso, a novela passou as dificuldades de não ser exibida no período da Copa do Mundo, o que criou esperanças de que voltasse melhor do que antes. Porém, não se conseguiu notar praticamente nada de diferente. O elenco tinha seus ganhos, como a presença de Leandro Hassum e Luís Miranda em bons personagens. Mas todos pareciam perdidos em uma produção que tentava se provar novela. Obviamente, houve muitos equívocos, ao meu entender, principalmente por parte dos autores. Uma pena, pois, de certa forma, a ideia original de Geração Brasil era boa, simplesmente foi mal-desenvolvida.


                   Novamente, a Globo voltava a apostar em Malhação nos finais de tarde. A nova temporada trouxe mais uma vez a equipe da bem aceita temporada de 2012: Rosane Svartman e Paulo Halm como autores titulares, Glória Barreto, desta vez, na supervisão de texto, e Luiz Henrique Rios e José Alvarenga na direção. O resultado é satisfatório: tentando fugir dos clichês óbvios de Malhação e se aprofundando mais em dramas do universo jovem (diferentemente da temporada anterior, que mostrava jovens em dramas adultos), a atual temporada tem conseguido manter a audiência do horário e vem sendo comentada pelo seu público alvo. Focando em temas já até explorados pela “soap opera”, como a música e as artes marciais, porém com abordagem diferenciada, a novelinha mostra que, nas mãos certas, ainda consegue manter seu espaço na grade. Vale ressaltar o bom elenco, tanto de jovens quanto de veteranos, contando com nomes como Eriberto Leão, Odilon Wagner, Marcelo Faria, Felipe Camargo e Patrícia França, voltando a Globo depois de praticamente 10 anos fora da emissora.


                 Mais um remake marcava presença no horário das 23h. Desta vez, a atualização de O Rebu, novela inovadora de Bráulio Pedroso dos anos 70, tentava a sorte no horário alternativo de teledramaturgia. A bela produção também trazia uma equipe já prestigiada da casa: George Moura e Sérgio Goldenberg, que já haviam feito um sucesso tremendo com Amores Roubados no início do ano, no texto e direção com Walter Carvalho e José Luiz Villamarim. A novela tinha ares cinematográficos, tanto no tema do qual tratava quanto na direção. Além disso, os diálogos e situações não cronológicas muito bem estruturadas pelos autores enchiam os olhos dos apreciadores do gênero. Grandes destaques no elenco, com pesos pesados interpretando personagens fortes e enigmáticos. Se O Rebu teve defeitos, apenas a confusão que poderia causar no telespectador menos atento. Pode-se dizer que foi uma das mais caprichadas produções da Globo dos últimos tempos.


           Aguinaldo Silva retornava ao horário nobre com a promessa de um novelão clássico: sua Império teria que fazer com que os telespectadores que haviam abandonado a TV durante Em Família voltassem para a emissora. Porém, mais uma vez, Aguinaldo entregou bem menos do que prometeu (como já comentou diversas vezes o crítico de telenovelas Nilson Xavier). A começar pela sua tão aguardada vilã Cora (Drica Moraes), que demorou capítulos e mais capítulos para mostrar alguma característica genuína de vilã. No entanto, o autor conhece as manhas de se escrever para as 21h, e conseguiu criar uma trama até certo ponto envolvente e popular, que fisgou o público o suficiente para se manter estável na audiência e na repercussão. Vale ressaltar a grande evolução do núcleo de Rogério Gomes na direção, mostrando uma grande maturidade em relação às demais novelas às quais ficou responsável anteriormente, dando novos ares às obras de Aguinaldo Silva, que vinham contando com a direção mais “tradicional” de Wolf Maya há 10 anos. O elenco é equilibrado, visto que não há um número considerável de personagens fortes para os atores se aprofundarem. Uma notável surpresa foi o casal formado por Zezé Polessa e Tato Gabus Mendes, concebido para ser um mero alívio cômico, mas que ganhou destaque pela excelente performance dos atores.


             A segunda novela das 18h do ano, Boogie Oogie criou expectativa nos saudosistas de plantão. Trazendo os anos 70 como pano de fundo, a novela do autor iniciante Rui Vilhena (já experiente em Portugal, onde morou por muitos anos) divide opiniões. Entre os adoradores de teledramaturgia, faz um considerável sucesso e é frequentemente elogiada pela crítica. Porém, não segura audiência, apresentando número instáveis. Também não gera tanta repercussão quanto sua antecessora cheia de atrativos. O autor português utiliza diversos clichês já manjados do grande público, e escolhe seguir uma linha de texto mais exagerado, cheio de comparações estranhas e forçando um ar irônico. Apesar de tudo, deve-se elogiar a agilidade da trama. Rui consegue intercalar bem as cenas e conduzir bem os dramas, de modo que a novela poucas vezes se torne cansativa. Discordo daquilo que muitos especialistas já declararam: não há a sensação de confusão caso você perca um capítulo. Isso porque pouco da história principal foi resolvido até agora. A direção é neutra: ao mesmo tempo em que mostra inovações, segue uma linha tradicional, talvez para lembrar novelas mais antigas. Também pode-se responsabilizá-la por algumas incoerências de cenário, figurino e penteado, que não condizem totalmente com a época retratada. Aliás, Boogie Oogie transmite isso: tirando a discoteca e os hábitos das crianças, a história poderia se passar em qualquer época. Não há um laço muito grande com os anos 70.


         Alto Astral é a mais nova aposta para reerguer o horário das 19h. A Globo foi esperta, e decidiu seguir uma linha extremamente despretensiosa, apresentando uma novela tradicionalíssima. Também do estreante Daniel Ortiz, com base em uma sinopse escrita por Andrea Maltarolli, a comédia romântica tem tudo o que uma novela das sete clássica tem: um mocinho corajoso, uma mocinha ingênua (até demais para uma jornalista), um vilão inescrupuloso que conta com a ajuda da secretária (também inescrupulosa) e diversos alívios cômicos, entre eles uma vilã atrapalhada. Depois de 3 novelas supostamente revolucionárias (duas grandes fracassos de audiência), a emissora via no convencional uma chance de voltar aos tempos áureos. Alto Astral cumpre razoavelmente sua missão. Mas o direcionamento, que utiliza clichês e situações já desgastadas, tira a identidade da obra. O elenco é enxuto e bem escalado. Destaque para Sérgio Guizé, Christiane Torloni e Claudia Raia (apesar de seu desempenho dividir opiniões, a atriz cumpre o que sua personagem pede). A direção, outrora inovadora, de Jorge Fernando, dá ainda mais o clima de tradicionalismo à novela: tudo nela já foi visto diversas e diversas vezes, desde a fotografia até o encadeamento da trilha sonora. Apesar de tudo, a novela está há pouco tempo no ar, então ainda tem muito a mostrar.
           2014 foi um ano de produções que se neutralizam: ao mesmo tempo em que tivemos novelas inovadoras nas mais diversas áreas, também vimos obras que seguem o estilo clássico de se fazer teledramaturgia. Vale ressaltar e elogiar a Globo pelo seu esforço na iniciação de novos autores, necessários à nossa TV. Sem grandes sucessos, o ano acaba com o clima de dúvida: quais caminhos a Globo vai seguir a partir de agora? O que fará para não cometer os mesmos erros e manter a fórmula dos sucessos? Com os 50 anos da emissora em 2015, espera-se ver cada vez mais produções caprichadas e surpreendentes. Mas falaremos mais disso na segunda parte desta postagem, com as expectativas na área de teledramaturgia para o ano que vem.

domingo, 23 de março de 2014

3 anos de blog - Eles também passaram por aqui



Ainda como parte da comemoração de aniversário, conheça a postagem mais acessada de cada colaborador que passou pelo blog nesses 3 anos:

por Ana Paula Calixto, em 15/06/2012

por André Araújo, em 26/06/2013

por Antenor Azevedo, em 23/04/2012

por Autran Amorin, em 16/03/2013  

por Bernardo Dugin, em 27/06/2012

por Breno Ribeiro, em 01/05/2013

De cigana à Pombagira - Merimée por Glória Perez
por Brunno Duprat, em 05/10/2011

Minha novela favorita: História de Amor

por Denis Pessoa, em 23/10/2011

Gabriela: um clássico em progresso
por Eduardo Vieira, em 30/11/2011 

por Emerson Felipe, em 03/06/2013

por Fábio Leonardo, em 17/03/2012

O Astro, um verdadeiro novelão
por Glauce Viviana, em 14/08/2011

por Júlio César Martins, em 21/01/2013

por Júlio Damásio, em 08/03/2012

por Júnior Bueno, em 04/08/2011

por Jurandir Dalcin, em 02/08/2013

por Marcelo Ramos, em 08/08/2012

por Mateus Peres, em 01/08/2011


por Paulo Lannes, em 10/10/2012

por Rafael Tupinambá, em 20/01/2012


por Romulo Barros, em 31/03/2012

por Serginho Tavares, em 02/02/2013


por Thiago Ribeiro, em 10/08/2011

Obrigado a todos! 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Glória Perez: Levando milhões de brasileiros pro seu mundo encantado.

Por Patrick Reis

Em sua última novela, exibida há um ano, Glória Perez recebeu duras críticas sobre a saga de Morena (Nanda Costa) e seu "herói" Téo (Rodrigo Lombardi). Salve Jorge teve problemas com a audiência - bem como outras novelas da atualidade -, mas chegou ao fim; uns alegam que foi justamente por seus absurdos que a novela cativou, já tem quem garanta que ela teve seu potencial. A verdade é que como se pode condenar uma autora como Glória por um simples trabalho quando olhamos pra trás e vemos sua enorme bagagem, que inclusive conquistou o Brasil e o mundo. Antes de acompanhar o post, confira o gif biográfico #risos da autora! 



Mas vamos ao que interessa: sua carreira. Glória começou por um apoio do destino, quando o script de um episódio de Malu Mulher que ela havia escrito, foi parar nas mãos de Janete Clair. Esta, que era (e ainda é) considerada sinônimo de sucesso na TV, a convidou para escrever a novela Eu Prometo (1983). Dentro desse processo, a autora escreveu em seguida Partido Alto (1984), sem muito êxito e foi parar na Manchete com a novela Carmem (1987). Porém, ela já havia entregado pra Rede Globo a sinopse de Barriga de Aluguel, que seria aceita somente em 1990. Esta novela foi considerada um grande sucesso pro horário das 18 hs. e é lembrada até hoje por muitos telespectadores.  Porém, em sua novela seguinte, Glória começava a interligar a realidade com uma ficção surreal. De Corpo e Alma (1992), novela das 20 horas, causou um enorme frisson por tantos tabus, como a relação de uma mulher mais velha com um striper. Também teve seu ápice quando se deu a morte da filha da autora, Daniela Perez, assassinada pelo colega de trabalho, Guilherme de Pádua. Porém, se focarmos na trama principal veremos um choque de ficção e verossimilhança. Através de um transplante de coração, um homem sai em busca de sua amada na pessoa cujo coração foi transplantado. E o melhor é que a mulher, que estava com o coração da falecida, se vê apaixonada por aquele homem. A ciência não explica, mas a Glória fabrica! 


Em sua próxima trama ela abordou o mundo virtual, que em 1995 ainda era pura ficção científica. Se hoje o whatsapp, chat de redes sociais, etc. é uma coisa comum, no passado tudo era meio estranho. E quando Glória assinou Explode Coração, ela foi novamente criticada por abordar uma coisa tão "surreal". Nos anos seguintes, Glória Perez criou a minissérie Hilda Furacão (1998), baseada no romance de Roberto Drummond e Pecado Capital (1998), remake de um sucesso de sua mestra, Janete Clair. Em 2001, ela vem a escrever aquele que seria seu maior sucesso. O Clone usou e abusou da ficção escancarada, não ousou em ser uma novela realista! Clonagem de seres humanos, muçulmanos falando português, enfim, tudo ali já era "absurdo", e mesmo assim o público não criticou, mas acabou se jogando de cabeça naquela bela história de amor proibido. A novela conseguiu atingir a maior audiência do horário, desde 1997, com a novela  A Indomada (de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares). Quando se deu a estreia, a emissora ficou meio atordoada. A novela teve início em outubro de 2001, algumas semanas depois dos ataques ao 11 de setembro, por membros da população árabe. Por conta de abordar essa mesma população, muito se comentou a respeito da estreia ousada da novela naquele ano. Outro grande problema que a novela quase enfrentou foi o reality show do SBT, A Casa dos Artistas. Estreando de surpresa, o programa do canal do Sílvio (Santos) cativou um público grande e a catástrofe não foi maior, porque Glória conseguiu prender o público no sofá da Globo e bateu de frente com um dos maiores empecilhos para a Vênus platinada, desde Pantanal (TV Manchete, 1990). Sua próxima trama, América (2005) não trouxe grandes "absurdos dramatúrgicos", mas fez com que Glória sofresse ameaças dos ditos "defensores de animais", por abordar o rodeio. A novela conseguiu uma audiência muito mais do que relevante em seu último capítulo - muitos consideram que tenha sido pelo suposto primeiro beijo gay da TV. Com picos de 70 pontos, América foi um dos seus grandes sucessos. 
Tempos depois, Glória volta à sua temática de sucesso, um país exótico e uma trama de amor proibido. Caminho das Índias (2008) chegou com cara de cópia de O Clone, mas saiu levando nas mãos o maior prêmio da TV mundia: o Emmy Awards. Mas nada disso impediu de que começassem a surgir as típicas críticas de que "se falava português na Índia", de que a Índia retratada não fazia jus ao país nos idos de 2008, etc. E em Salve Jorge, Glória finalizou (até então) sua trilogia de países exóticos, abordando a Turquia. Por conta dos novos tempos, onde ser "crítico" de novela se tornou algo tão banal quanto comer arroz e feijão, a autora recebeu uma bordoada de ofensas e piadas em seu twitter. E  sua novela acabou sendo a chacota nacional em 2012/2012 - mesmo com os absurdos de Amor à Vida. Na realidade eu estou aqui, em meu primeiro post, para dizer que uma mulher de tamanhas qualidades como Glória, com grandes sucessos em sua carreira não pode e nem deve ser achincalhada por conta de algumas falhas em apenas uma novela. A autora, com seus vôos - que não são de hoje, como fiz questão de abordar nesse texto -, levou milhões de brasileiros a voarem junto com ela, a tornar a vida menos árdua e mostrar que a ficção pode ser muitas vezes, mais interessante que a vida real. Que Glória Perez nos presenteie com obras tão boas e cativantes quanto as que ela já nos brindou. Essa é a minha estreia no blog, um noveleiro convicto que tentará extrair o melhor da ficção nacional pra vocês! 

Fonte: Teledramaturgia, Memória Globo. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Um balanço do horário nobre: A volta do bom texto com Em Família

Por Leonardo Mello de Oliveira

 Não há como negar a incrível campanha de popularização que acontece atualmente na televisão brasileira. A incansável busca por audiência vem tentar capturar um público que assiste a novelas diariamente desde os anos 70: a chamada classe C. Porém, dizem alguns, estamos em um período de transição, onde vários membros antes considerados da classe D emergiram, e agora figuram nesta chamada “nova classe C”. Esse é o público que a TV quer, e não mede esforços pra isso. Infelizmente, popularização no Brasil muitas vezes vira sinônimo de má qualidade, principalmente no quesito telenovela. É incrível como a Rede Globo, a maior emissora do país, conseguiu, em tão pouco tempo e de forma nada sutil, inundar sua programação com programas e novelas de fácil digestão, com forte apelo popular e que resultam, muitas vezes, em produtos execrados pela crítica. Não estou falando que apelo popular sempre acaba em equívocos. O Esquenta, programa apresentado por Regina Casé, é um dos mais popularescos que já assisti, porém, não deixa de ser um programa que funciona, que dá certo e que tem grandes qualidades, muito mais do que defeitos. O grande problema é como o popular é conduzido, como é dosado. Tudo isso altera o resultado, e também a maneira que será visto, tanto pela classe C quanto por todas as outras classes que, com certeza, também assistem à TV aberta.


      Vamos analisar brevemente o histórico de novelas populares no horário nobre desde Fina Estampa, trama que iniciou essa “epopéia popularesca”. Um fato engraçado é que somente o horário das nove foi praticamente obrigado a transmitir esse tipo de produção. O horário das seis, das sete e das onze receberam uma dose ou outra de popularismo, mas não se prendeu à fórmula. Vale lembrar também que não é de hoje que esse tipo de trama existe. Os seus próprios autores hoje alcançaram o sucesso usando o apelo popular.
      Fina Estampa foi escrita por Aguinaldo Silva, autor já consagrado por tramas de cunho popular. Aguinaldo já havia nos apresentado nos últimos anos Senhora do Destino e Duas Caras, novelas bem populares. Mas o que se viu em Fina Estampa foi a fórmula escancarada, sem medo de mostrar um apelo gigantesco por audiência. Uma protagonista maniqueísta, uma vilã caricata e tão maniqueísta quanto sua rival, um gay mega afetado, personagens cômicos, gente pobre e honesta sofrendo e muito barraco eram as principais táticas do autor para alcançar a classe C, que começava a virar o assunto do momento quando se falava em televisão. Aguinaldo conseguiu, e com um gigante sucesso, cessar o declínio de audiência do horário nobre global. Porém, isso tudo teve um preço. A crítica caiu em cima. Situações incoerentes, dignas de desenho animado, subestimavam a inteligência do telespectador e baixavam o nível da trama.


      Logo depois veio o furacão Avenida Brasil. A novela parou o Brasil como há tempos não acontecia. João Emanuel Carneiro, o JEC, apostou em uma trama pesada, com inspiração em vários clássicos literários e teatrais, mas que ao mesmo tempo tinha vários elementos populares. Modismos e trejeitos do subúrbio enriqueciam a novela, que, aliás, mostra uma evolução gigantesca do JEC como autor. Seus defeitos característicos ainda estavam lá, mas muitos haviam sido corrigidos. João Emanuel é outro autor conhecido por suas tramas populares, mas ao mesmo tempo profundas. O entrosamento entre a equipe de produção era notável, tanto que praticamente tudo deu certo em Avenida Brasil.


      O mesmo não pode se disser de sua sucessora, Salve Jorge. Glória Perez foi uma das primeiras autoras a retratar a vida do subúrbio, das favelas, de um povo pouco mostrado nas novelas antigamente. Sua nova trama trazia como protagonista uma menina da favela, jovem, que teve um filho muita nova e que acaba sendo traficada e prostituída na Turquia. A trama era inicialmente densa, mas o grande erro de Glória foi mais o menos o mesmo de Aguinaldo Silva em Fina Estampa. A autora utilizou quase todos os recursos que conhecia e que já haviam sido garantia de sucesso. Falhas da direção, mau direcionamento de personagens, elenco sumido, texto fraco para uma autora que já nos trouxe Barriga de Aluguel e O Clone, um déjà vu de outras tramas de Glória, enfim, vários foram os fatores para a rejeição do público e da crítica.


      Então vem Amor à Vida! Estreia de Walcyr Carrasco, autor de clássicos do horário das seis, no horário nobre. O início foi empolgante, muitos viam uma segunda Avenida Brasil, a expectativa aumentava a cada capítulo. Porém, já na terceira semana de novela, a decepção veio como um balde de água fria. Carrasco fazia uma novela das sete no horário das nove, e era clara a busca por audiência. Tudo parecia ser feito pra fazer mais barulho, pra chamar o público a assistir à novela. Mudanças drásticas e sem sentido em personagens, armações, segredos de família revelados uma vez por mês, tudo era feito para que seguisse aquilo o que o povo queria. Me pergunto: de quem é a culpa da falta de qualidade em Amor à Vida? Será que realmente é de Walcyr Carrasco? Pois eu não consigo acreditar que quem escreveu uma novela como essa nas primeiras e nas últimas semanas tenha sido a mesma pessoa que escreveu o meio. Pressão da emissora ou do público por uma novela de fácil digestão? Se foi da emissora, o objetivo foi alcançado. A novela conseguiu uma média bem decente e repercutiu como poucas.


      Atualmente podemos ver um Manoel Carlos inspiradíssimo no horário nobre. Mas sua novela não condiz com nada do que foi visto nas últimas quatro tramas das nove. Em Família chegou com um texto brilhante, caprichado, sem medo de agradar a essa ou àquela classe. Um elenco primoroso, desde os desconhecidos das primeiras fases até os medalhões da terceira. Maneco diz que não há pressão por audiência que lhe faça baixar o nível. E vemos que ele não mente. Apesar dos pífios números alcançados por Em Família nos seus primeiros capítulos, tudo o que foi feito foi agilizar a trama, fazendo os capítulos mais longos, nada de mexer na história! Talvez o único grande problema desta novela seja a cronologia, com idades de atores que não condizem com o de seus personagens e elementos de cenário e figurino que não batem com a época. Mesmo assim, a crítica aplaude essa brilhante e corajosa obra do “bom velhinho do Leblon”, que promete mais e mais a cada capítulo.



      Em momento algum quis passar que o programa popular é algo ruim. Mas sim que tudo deve ser bem pensado e feito, para que não se cometam exageros nem erros ao tentar fazer um produto que visa a classe C.  Como o próprio nome diz, a TV é aberta, todos assistem a ela. A busca incansável por audiência tem sido o maior inimigo da qualidade quando se trata de televisão. Que a Globo pense nisso, que não siga o caminho mais fácil. Afinal, é menos trabalhoso agradar a um só do que a todos. Principalmente se esse “um só” for garantia de dinheiro e repercussão...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Uma história de rainha, fada e Mara Maravilha

Por Adilson Oliveira

Era uma vez, num tempo em que i-pods, i-peds, tablets, notebooks, celulares e outras ferramentas essenciais de comunicação não existiam, as pessoas comunicavam-se, quase sempre, face a face. Eram tempos difíceis! Como não havia internet residencial, as TVs reinavam absolutas na sala de estar e as famílias reuniam-se diante delas no horário nobre para assistirem às novelas e aos telejornais. De dia, as crianças, quando não estavam na escola, tinham um encontro com rainhas, fadas e bruxas. Eram tempos de conto de fadas. Na TV, os papéis já estavam pré-determinados: Xuxa era a rainha absoluta das manhãs da Globo e Angélica,  a fada loira da Manchete. 
No SBT, Mara Maravilha assumia o papel de vilã, pois não tinha a aparência destinada pela mídia às heroínas das histórias maravilhosas. As crianças não podiam torcer pela bruxa e era papel das mães zelarem pelos bons costumes dos seus filhos, afastando-os das más influências. A mídia cumpria autoritária e religiosamente o seu papel, destacando nas revistas e jornais as benemerências das heroínas televisivas. Quanto à outra? Xiiiiii! - advertiam as mães - cuidado, ela é uma feiticeira malvada, que vive sempre ao lado de uma mãe maquiavélica.
Não sei bem o porquê,  mas, contrariando a ordem institucionalizada,  eu me identificava com aquela moça de cabelos negros (como a asa da graúna), de olhos negros e de fala nordestina. Era uma espécie de Iracema do tão-tão distante século XX. Mas ela é tão perigosamente brasileira? As crianças não podem gostar dela! Eu gosto. Respondia aos porquês incrédulos de todos. Gosto e ponto final. Não preciso dizer os motivos pelos quais eu torço por aquela que é representada como a arqui-inimiga das princesas blondies.
Essa criança precisa ser castigada, diziam - face a face - os adultos. Como pode romper com o senso comum? Veja as provas:
- "A guerra pelos baixinhos da Xuxa" (Contigo!).
- "Nunca fiz feitiçaria" (Contigo!).
- "Mara acusada de ter feito magia negra" (Contigo!).
- "Mara e Angélica caem nas teias da magia negra" (Contigo!).
- "Angélica em risco de vida - Mara acusada de ter feito magia negra" (Contigo!)
- "Globo recusa a voz de Mara para cantar tema de Salomé (Amiga).
- "Macumba de Mara complica vida de mãe-de-santo (Amiga).
- "A baianinha Mara declara guerra à Xuxa" (Folha da Tarde).
- "Angélica acusa Mara de plágio" (Amiga).
- "Arrogância de Mara e sua mãe tirou baianinha do SBT" (Diário popular).
- "Mara Maravilha volta a xingar e agredir jovens" (Diário popular).
- "Mara é acusada de agressão" (Folha da Tarde).
- "Mara pode pegar até um ano de prisão" (Contigo!).
- "Mara é acusada de roubar amigo cego" (Notícias Populares).
- "Mara ameaçada de sequestro" (Amiga).
- "Mara Maravilha ameaçada de morte" (Contigo!).

Não havia, naquele tempo, i-pads, i-pods, celulares, tablets, notebooks, mas havia a interação face a face. Pena que os mais fracos (como crianças) nem sempre eram ouvidos, pois havia uma bruxa má de boca grande - chamada Mídia - que engolia aqueles de quem ela não gostava.
Eram tempos difíceis, mas, pelo menos, eram tempos de rainhas, fadas e de Mara Maravilha. Eram tempos de criança.


Adilson Oliveira é professor universitário, roteirista, poeta e apaixonado por corujas.


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