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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Se tem que findar

Por Isaac Santos

Embora seja o conjunto de uma obra que define ou não um primor artístico, todo autor que se preza põe sobre os primeiros e últimos capítulos de sua criação um olhar ainda mais apaixonado.
Mas considerando a pressão exercida pelo público sobre um profissional que durante meses se dedica a um processo árduo de inventividade, é fácil compreender que a maioria das apresentações e desfechos de tramas não se distancie de um padrão. Quando autores mais arrojados o fazem, precisam estar aptos a lidar com os aplausos do público, da crítica “especializada” e da empresa contratante, ou com a massacrante rejeição dos mesmos. No processo industrial de telenovelas não há espaço para meio termo: É sucesso ou fracasso.
Num aspecto prático do “parir histórias” dentro de um sistema mecânico, todos os autores estariam condicionados a finalizar suas obras convencionalmente. No entanto, alguns poucos dão ao público oportunidades únicas de experimentação.

Muitos anos antes de o personagem Félix (Mateus Solano) conquistar a grande maioria dos telespectadores de Amor à Vida, mais precisamente em 1986, o personagem Renato Villar (Tarcísio Meira), da novela Roda de Fogo (dos mestres Lauro Cesar Muniz e Marcílio Moraes), de vilão passou a ser bem querido pelo público, com direito a redenção.  Destaque para a sensível cena final do último capítulo: Renato Villar morre no colo de sua amada, Lúcia Brandão (Bruna Lombardi). Veja aqui.

Em 1986, a novela Dona Beija (adaptação dos romances “Dona Beija, a Feiticeira do Araxá” de Thomas Leonardo e “A Vida em Flor de Dona Beja” de Agripa Vasconcelos) se mostra um dos maiores sucessos da teledramaturgia da Manchete e figura entre as melhores telenovelas brasileiras. Ao final da história, os autores Wilson Aguiar e Carlos Heitor Cony colocam a sua protagonista Beija (Maitê Proença) sendo julgada por ter mandado matar o homem a quem amava. Ela é absolvida e apenas o escravo que cumpriu suas ordens é considerado culpado. Amargurada, ela deixa a cidade na tentativa de recomeçar uma vida diferente. 

versão dublada
Em 1990, a novela Barriga de Aluguel era enorme sucesso de audiência. As pessoas assistiam e se envolviam com as tramas. Daí um problema para a autora Glória Perez: Com qual das mães ficaria o bebê. Ela decide que o público não saberá. Mas o final mostra Clara (Cláudia Abreu) e Ana (Cássia Kiss) dispostas a repensar a relação de ambas em função do filho. 

Foi em 1990, na novela Meu Bem Meu Mal, que o mestre Cassiano Gabus Mendes, com a colaboração de Maria Adelaide Amaral entre outros, possibilitou ao público ver um dos desfechos mais apaixonantes da teledramaturgia brasileira. Pode soar como exagero para alguns, mas é sempre inspirador para mim, rever a cena final em que a vilã Isadora Venturini (Sílvia Pfeifer) alcança a tão almejada presidência da empresa, por um alto preço: A indiferença de todos; A solidão.


Benedito Ruy Barbosa é outro professor em envolver o telespectador. Para finalizar a bem sucedida Pantanal (1990), ele escreve um cena fascinante, com destaque para três personagens: Filó (Jussara Freire), Zé Leôncio e o velho do rio (ambos vividos por Cláudio Marzo).


Em 1994, Silvio de Abreu e Rubens Edwald Filho, autores de Éramos Seis (adaptação do romance homônimo de Maria José Dupret), poderiam ter suavizado a cena final da novela sem comprometer o destino da protagonista, que bem ratifica o título, mas optaram por fazer um desfecho harmonioso com toda a trajetória sofrida da batalhadora Lola (Irene Ravache). 


Imagens: Globo.com
 Mofo TV
Memória da TV
Fábio Menezes Oliveira

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Entrevista com o jornalista Raphael Scire

Por Isaac Santos

Prestes a completar 25 anos, Raphael Scire, formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, dramaturgo, roteirista, é um dos escritores mais prestigiados nas últimas semanas. Ele acaba de lançar o livro “Crimes no Horário Nobre – Um Passeio pela Obra de Silvio de Abreu”. Competente, talentoso, mostra-se mesurado ao falar da carreira. Eu o convidei para uma entrevista, ele gentilmente aceitou. Desde já o agradeço. Confiram!     

Jornalista jovem, iniciando a carreira de modo tão bem sucedido. Você teve que fazer abdicações?
Raphael Scire – Não, de modo algum. Acho que a única abdicação que eu fiz foi ter deixado de lado o jornalismo propriamente dito, aquele de redação, de escrever reportagens factuais. Mas isso foi uma escolha deliberada, um direcionamento de carreira.

Não considerando o seu recente trabalho sobre o autor Silvo de Abreu. Contente com a profissão escolhida?
Raphael Scire – Sim, apesar de não exercer o jornalismo. Eu trabalho com produção audiovisual, para cinema e televisão, na criação e formatação de projetos, algo já bem direcionado para o futuro da minha carreira de roteirista.

Jornalista com pretensões na área de dramaturgia ou já desenvolvendo atividades nesse sentido?
Raphael Scire – Além do que eu respondi na pergunta anterior, eu também escrevo dramaturgia. Tenho uma peça que foi selecionada pelo concurso ‘Dramaturgias Urgentes’, do CCBB, no ano passado, chamada “Sucesso com C”, sobre a nova classe média brasileira. Também tenho algumas histórias iniciadas, mas nada ainda foi produzido. Vontade não me falta.


“Crimes no Horário Nobre – Um Passeio pela Obra de Silvio de Abreu” não é necessariamente um registro biográfico. Sua intenção era desde o princípio destacar a obra do novelista ou optou-se por um distanciamento do que já havia sido publicado sobre a vida dele?
Raphael Scire – Sim, desde o início eu quis abordar a obra do Silvio, que tem uma vida interessante justamente pelo profissional que é. É claro que abordo questões privadas dele, como o casamento, o nascimento da única filha e o falecimento do irmão, mas são questões que estão inseridas dentro do contexto da obra dele. Eu brinco que o livro não é uma revista de fofocas. E também o Silvio já tinha uma biografia publicada, escrita pelo jornalista Vilmar Ledesma, e que me serviu de base para esse livro. Eu considero “Crimes no horário nobre” uma ‘biografia memorialista sobre a obra do autor’.


Como se deu o processo de elaboração, desenvolvimento, lançamento do livro?
Raphael Scire – O livro, na verdade, foi minha tese de conclusão do curso de jornalismo, da Faculdade Cásper Líbero. Durante o último ano da faculdade, eu fui atrás dos atores, diretores, autores, além do próprio Silvio. A primeira parte foi a seleção de material já publicado sobre ele. O que foi bastante complicado, porque novela no Brasil é muito comentada, mas pouco documentada. Depois, segui para as entrevistas. Aí veio a parte mais legal, que foi escrever, selecionar os trechos das entrevistas, costurar tudo. Foi uma delícia. Depois que a tese estava escrita, enviei um exemplar para o Silvio, que adorou. Ele me disponibilizou o arquivo pessoal para que eu pudesse complementar minha pesquisa. Foi então que eu conheci o Alex Giostri, da Giostri Editora, que tem um olhar muito voltado para a preservação da dramaturgia brasileira, publicando grandes nomes do nosso teatro, como Maria Adelaide Amaral, Alcides Nogueira, Lauro Cesar Muniz, além de autores mais novos, como Célia Forte e Mario Viana. Ele leu, gostou e decidiu publicar. ‘Crimes’ é o primeiro livro voltado para a preservação da memória da teledramaturgia brasileira publicado pela Giostri.


Da fase de realização de entrevistas que serviram de base para a escrita do livro, houve alguém que decepcionasse por evidenciar uma postura destoante?
Raphael Scire – Não, de modo algum. Todos foram receptivos e solícitos. O mais complicado foi a produção para conciliar com a agenda de alguns entrevistados, mas nada que me tirasse o sono.

Certamente está sendo vendido em todas as livrarias do país. Mas onde adquiri-lo virtualmente?
Raphael Scire – Em qualquer rede de livrarias esse serviço é possível. É comprar e receber em casa!

Identificação com o biografado é critério imprescindível para o sucesso de uma obra como a sua?
Raphael Scire – Sem dúvidas. Se eu não apreciasse o trabalho do Silvio seria incapaz de escrever sobre ele. Não existe nada pior do que escrever sobre algo de que não gostamos.

Sabendo de sua admiração pela Malu Mader, imagino que o nome da atriz possa despertar seu interesse num projeto futuro. É exeqüível?
Raphael Scire – Exequível é, mas depende dela também. Na verdade, nunca cogitei essa possibilidade, para falar a verdade. Malu é uma atriz com múltiplos talentos, além de uma reservada vida privada. Acredito que, se eu um dia vier a escrever sobre ela, será algo no estilo que fiz com o Silvio, sobre a carreira, não sobre a vida.

Tititi, versão de Maria Adelaide Amaral [ela também está entre os seus prediletos] e Vincent Villari, é um dos recentes sucessos da Rede Globo. A dupla está mais uma vez no ar no horário das sete. Quais as suas impressões sobre Sangue Bom?
Raphael Scire – Sou muito grato aos dois. Vincent escreveu a orelha do livro, além de ter participado da banca da minha tese, sem nem ao menos me conhecer pessoalmente. Quanto a “Sangue Bom”, eu gosto da novela, me identifico com a linguagem ácida que eles criticam a indústria midiática. Adoro a personagem da Marisa Orth, pra mim uma prima da tresloucada Jaqueline (Claudia Raia) de “Tititi”. Também está sendo uma ótima surpresa o trabalho do Joaquim Lopes, o Lucindo, um tipo que eu constantemente vejo nas ruas aqui em São Paulo. Isabelle Drummond tem um presente em mãos, Giane está sendo um processo de amadurecimento na carreira dessa atriz que em breve veremos protagonista no horário nobre. Fora que não é sempre que vemos Malu Mader na telinha e a transformação pela qual a personagem atualmente passa está sendo deliciosa de acompanhar.

De modo mais abrangente, qual a sua observação sobre o cenário da teledramaturgia atual?
Raphael Scire – Acho que o espaço dado a novos autores é muito bom. Essa renovação é necessária e o próprio Silvio faz um trabalho interessante ao revelar novos talentos. Gilberto Braga é outro que faz. O João Ximenes Braga, que escreveu ‘Lado a Lado’ logo logo assinará uma novela das nove junto com Gilberto e Ricardo Linhares. Estou ansioso para ver o Lombardi na Record. E essa retomada do SBT em investir em novela, ainda que com temáticas infantis, é muito boa para o mercado.

Uma enquete pertinente foi lançada pelo Canal Viva. O público tomou conhecimento do resultado há algumas horas, mas aproveito para “reproduzi-la” aqui e obter um pouco mais de sua opinião. Eis a pergunta: Água Viva, O Dono do Mundo, Fera Ferida ou A Indomada. Qual novela você escolheria como substituta para Rainha da Sucata na faixa da meia noite?
Raphael Scire – Interessante, mas meu voto é [seria] para ‘O dono do mundo’, não só pela Malu Mader, mas gostaria de ver uma novela que foi tão rechaçada na época que foi exibida. E eu não guardo lembrança alguma de “O dono do mundo”, tinha apenas quatro anos na época.

Já abriu espaço para algum novo projeto?
Raphael Scire – Sempre, mas o que eu preciso agora é de férias.

Obrigado pela solicitude. Desejo realizações plenas. Felicidades! 
Raphael Scire – Eu que agradeço a oportunidade. Sucesso!

domingo, 5 de maio de 2013

Quem matou Helena? Arebaba dona Carminha, foi o Caderudo!

Por André Cavalini

Popularmente chamada de novela das oito, as histórias que vemos na tv logo após o Jornal Nacional é o produto mais caro e mais valorizado da Rede Globo de Televisão. Também não podia ser diferente, pois este é o horário em que as famílias de todo o país estão reunidas na frente do aparelho. Talvez o único momento do dia em que pais e filhos, avós e netos tenham pra se encontrarem dentro da própria casa e fazerem algo juntos.

Ganhar  público família não é fácil, pois ali estão uma mistura de gerações e de cabeças pensantes em sentidos diferentes. É preciso agradar desde o mais jovem, até o mais velho,e para isso os autores precisam cada vez mais rebolar, e rebolar feito uma Gretchen na fase, pra não fazer feio.

Dessa maneira, a emissora platinada mantém a sete chaves, do lado esquerdo do peito, um time seleto para tentar dar conta do recado. Denominados “OS IMORTAIS” do horário nobre.

Já velhos conhecidos nossos, atualmente cabe essa difícil tarefa a Aguinaldo Silva, Silvio de Abreu, Gilberto Braga, Manoel Carlos, Glória Perez, e ao recém chegado ao time (e já muito admirado) João Emanuel Carneiro.


Num revezamento rígido de ideias, são as histórias criadas na cabeça de cada um deles, que sentamos todas as noites no sofá da sala para assistir. 


Provavelmente cada um já sentiu o amargo de um fracasso. Uma história que não pegou, que não rendeu, que não agradou. Que gerou críticas, baixa audiência, rejeição. Nesse momento talvez, tenham pensado em desistir. Ou talvez não, já que também brindaram com largos sorrisos a sucessos que marcaram pra sempre a teledramaturgia de nosso país. Que grudaram as pessoas na tela da tv, que foi capa de revista, recorde de audiência e motivo de orgulho para quem a escreveu.


Acredito eu, que o lombo dos imortais do horário nobre já estejam calejados, prontos pra receberem a chibata do fracasso ou a glória do sucesso.
A maioria já está há muitos anos exercendo a tarefa de nos entreter e sabem a dor e a delícia de realizar tal tarefa.


E como não podia ser diferente, cada um deixou em suas obras uma personalidade própria, nos permitindo imaginar o que vem por ai quando sabemos que a próxima novela será de fulano ou ciclano.
É possível imaginarmos sinopse, cenários, o tipo de diálogo e até mesmo alguns atores e atrizes que farão parte da trama, só de saber quem será o seu autor.



O tempo nos ensinou a conhecê-los, e a cada história nos sentimos mais íntimos, próximos. Como amigos que se conhecem e vão afinando a relação no decorrer do tempo.
Se olharmos bem, com olhos não de telespectador, mas sim de ser humano, conseguimos até mesmo encontrar muito de cada um nas entrelinhas de suas histórias e dessa maneira traçar um perfil certeiro sobre quem são ou quem foram, do que gostam e não gostam, como pensam, o que sonham.



Porque, acredito eu, as histórias que escrevemos, sempre tem um pouco de nós, e esse nós de cada autor, cada vez mais vai ficando claro aos nossos olhos.

Não sou nenhum especialista da área, até mesmo porque não acompanhei todas as novelas destes autores. Mas como bom noveleiro, dentro daquilo que vi de cada um, me arrisco a palpitar um pouco sobre cada mente pensante desses ilustres seres. 

E aí, concordam ou discordam???







A partir do próximo mês, o time de Imortais do horário nobre será reforçado pelo talento do autor Walcyr Carrasco, que estréia nas noites globais com a trama Amor à Vida, substituta de Salve Jorge. 
Fica aqui, desde já, as nossas boas vindas e a nossa torcida pra o sucesso da história!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Entrevista com Silvio de Abreu!

por JOSÉ VITOR RACK


A entrevista abaixo foi feita com Sílvio de Abreu em 2008, quando o projeto USINEIROS DE SONHOS ainda era o esboço de um livro. Hoje se trata de um filme em longa metragem, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2013.

Boa leitura!


Dias Gomes dizia que só quando começou a escrever telenovelas é que se sentiu fazendo teatro popular no Brasil. Como você analisa esse fenômeno de massa?

A telenovela brasileira é o melhor produto de cultura de massa que se faz no país. É mais abrangente e melhor realizado do que o nosso cinema ou nosso teatro. Através da telenovela nossa sociedade é mostrada para uma imensidão de telespecatadores no Brasil e no mundo  registrando nossa época, nossos costumes, nossas ambições, nossas falhas, nossos desejos, nossas idéias e esperanças. Tudo isso contado pelos melhores atores brasileiros que chegam diariamente nas casas milionárias ou miseráveis do Brasil, na mesma hora, totalmente de graça. É um entretenimento de qualidade comprovada no mundo todo que atende ao povo sem olhar a sua condição social. Não conheço nenhum outro produto cultural ou de entretenimento com tanto alcance.

Você fez algumas telenovelas como ator. Em quê esta experiência lhe ajudou quando chegou a hora de escrever uma?

Em tudo. Foi lendo as novelas de Ivani Ribeiro, aonde eu atuava, que entendi como era o processo narrativo. Mesmo sem ainda ter a intenção de escrever tinha enorme prazer em ler os capítulos, analisar as personagens, entender como uma cena se ligava a outra. Ter sido ator também me ajudou a respeitar e entender o que atores esperam de seus personagens e como fazer para que eles se dediquem de coração aberto ao trabalho.

Como era o ambiente de trabalho na Rede Tupi na época em que você lá trabalhou? Já havia algum indicativo de que a emissora teria o fim humilhante que teve?

Quando escrevi ÉRAMOS SEIS para a TV Tupi em 1977, a emissora já estava com muitos problemas. Para conseguir receber o salário tinha que negociar com a entrega dos capítulos, sem pagamento, não entregava os textos. Era uma situação desagradável que já prenunciava o triste fim do grande celeiro de artistas que foram as emissoras associadas.

Tive algumas informações que davam conta que, finda a adaptação de Éramos Seis, Rubens Ewald Filho e você escreveriam uma novela para a Tupi que teria como estopim uma grande tragédia. Fale-nos dessa novela, caso ela realmente tenha sido planejada.

Não foi depois de ÉRAMOS SEIS, foi antes. Fomos chamados à Tupi, Rubens e eu, para desenvolvermos uma idéia de Roberto Talma, que era o diretor artistico da emissora na época. A novela seria sobre um acidente aéreo, que transformaria completamente a vida das personagens. Rubens e eu gostamos da idéia e desenvolvemos a sinopse de uma novela que altamente inovadora, na época, porque seria contada em três planos de narrativa: antes das pessoas embarcarem no avião, durante a viagem e a conseqüência do acidente na vida dos que ficaram. Fizemos dez capítulos que foram prontamente aprovados pelo Talma, escalamos a novela e, infelizmente, Talma saiu da emissora. Henrique Martins e Carlos Zara assumiram a direção artistica e nos chamaram para dizer que a novela não era o que eles queriam fazer, achavam muito inusitada. Então oferecemos a idéia de adaptar o livro de Maria Jose Duprê.


TV conjuga imagem e texto. Como equilibrar esses dois elementos na confecção de uma telenovela?

O texto é o alicerce da televonela e nele já devem vir imaginadas pelo autor as imagens desejadas. Mas novela é um trabalho de equipe, é da junção de todos os profissionais que surge o capítulo pronto. O diretor é a cabeça comandante do processo dentro do estúdio e tem que agir em plena harmonia com todos os elementos, principalmente, com o autor. O autor deve participar de todo o processo para que saiba com que elementos vai poder contra na sua criação. Sem um bom entrosamento entre todos nada é possível.

Como você vê a relação entre autor titular/colaboradores em teledramaturgia?

Atualmente é imprescidível. Quando comecei a escrever, em 1977, uma novela tinha 14/15 páginas e durava 20/25 minutos no ar, que mais os intervalos comerciais davam um programa de 30/35 minutos. Hoje são necessárias 40 páginas para um capítulo que deve durar 50/55 minutos, mais os comerciais. O dia continua tendo 24 horas e é quase humanamente impossível escrever sozinho se o autor se preocupa em ter idéias novas, respeitar a psicologia dos personagens, seguir as pesquisas e elaborar direito o seu trabalho. Dividir tarefas com colaboradores é uma ótima solução desde que o autor principal não perca  seu estilo e mantenha o desenvolvimento da história e seus personagens em absoluto controle.

Você foi o primeiro autor a fazer comédia escrachada no horário nobre, mudando um pouco o rumo com o decorrer do tempo. Que lição ficou da experiência de escrever Rainha da Sucata?

Aprendi com Rainha da Sucata que o público da novela das seis é diferente do das sete e este do das oito. São estilos criados e estabelecidos pela Rede Globo em anos e anos de convivência com os telespectadores que se ressentem quando alguma mudança acontece. Rainha da Sucata começou como uma comédia escrachada, mas teve que dar um freio e privilegiar na trama o drama de Maria do Carmo, Edu, Laurinha e outros personagens menos afeitos à comédia. Acho que minha grande sorte for ter mantido nucleos fortes de comédia como Dona Armenia e seus filhos e o professor Caio com seu romance com Adriana,  a bailarina da coxa grossa e a hilária noiva Nicinha, que se transformou em ninfomaníaca. Aprendi também que drama e comédia podem muito bem sobreviver no mesmo espaço, desde que o autor saiba misturar direto as emoções.

Em 1990, você afirmou ao Jornal do Brasil: "Novela não é arte, é entretenimento". Mantém essa afirmação? Acredita que não haja nenhuma exceção?

Tudo tem exceção, nem que seja para confirmar a regra. Eu vejo e quero fazer novela como entretenimento, o cinema de Hollywood dos anos 30/40/50 também era feito como puro entretenimento e hoje é considerado arte. A chanchada brasiliera dos anos 50 era execrada pelos intelectuais e hoje também é arte. Vai se saber o que nos reserva o futuro?

Quais os principais requisitos que um aspirante a autor de telenovelas deve reunir?

Talento, disposição para o trabalho, boa imaginação e, principalmente, vocação. Escrever novela é um trabalho muito árduo e difícil. É uma técnica específica que não encontra similar em outras formas de se expressar pela linguagem escrita. Na verdade, o autor de novela deve saber que o que ele escreve só vai se comunicar com o público através da imagem e dos atores e isto muda todo o processo.

Tendo as qualificações que você cita, qual é o caminho das pedras para se chegar lá (se é que há um caminho mais ou menos padronizado...)?

Não existe nenhuma fórmula mágica, é tudo uma questão de sorte e oportunidade. É claro que para quem já trabalha em televisão e consegue fazer com que alguém influente leia seus trabalhos, facilita. Recebo diariamente sinopses e textos que por contrato não posso ler e tenho que simplesmente jogar fora. Isto me incomoda bastante, mas não posso fazer de outra maneira porque nem todos que enviam textos o fazem com boa intenção. Uma acusação de plágio é sempre um escândalo muito bem acolhido pela mídia, que primeiro acusa o autor conhecido baseado unicamente na declaração do que se diz plagiado. Infelizmente vivemos em uma época muito dificil onde a moral e a ética parece que foram esquecidas.

A TV digital deve alterar o mercado de trabalho para autores e roteiristas? Como você vislumbra nossa teledramaturgia inserida neste contexto?

Não acho que vá mudar nada para os autores. Vai, sim, dar muita dor de cabeça para a produção, para os cenógrafos, figurinistas, maquiadores, diretores e etc...

Qual a maior decepção de sua carreira na TV?

Pecado Rasgado, a primeira novela que escrevi na Globo. Nada saiu como eu havia planejado. Mas sempre alguma coisa boa sempre acontece. Cassiano Gabus Mendes assistiu à novela com atenção e foi o único que descobriu ali um autor que poderia ter futuro.


A linguagem do seriado semanal, ao estilo norte-americano, lhe atrai?

Não sou fã de seriados americanos. É claro que The Sopranos, Sex and the City e Brothers and Sisters são bem feitos e atraentes, mas acho a nossa telenovela  mais emocionante. Gosto da liberdade de crição infinita que uma novela proporciona a seu autor. Destesto as sitcoms americanas com o riso montado a cada dois ou três minutos.
   
Seus colaboradores decolam na carreira com freqüência (Alcides Nogueira, Maria Adelaide Amaral, Carlos Lombardi, por exemplo). A que atribui esse fato?

Acho que sei escolher bem os meus colaboradores. Gosto de profissionais talentosos, que gostem do seu oficio, que não fiquem competindo comigo e tenham confiança em si. Nunca trabalho com pessoas de pouca experiência, porque acho que a as novelas, como principal produto da emissora, devem ser feitas por profissionais experientes e conscientes da responsabilidade que o trabalho exige.

A telenovela tem vida longa no Brasil?

Já existe a mais de 50 anos e tenho a impressão que ainda vai continuar por muitos e muitos anos. É por isso que acredito na formação de novos autores, para que novos caminhos possam se abrir e manter este gênero de entretenimento sempre atraente para o público. Tenho tido sorte na formação destes autores e acredito estar dando uma grande contribuição ao gênero alavancando as carreiras de João Emanuel Carneiro, Beth Jhin e Andrea Maltarolli.

Abraços,

Silvio
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