Não importa qual seja a novela, o horário, o autor. O clichê da criança sequestrada se repete ad nauseam e é gancho de quase todo penúltimo capítulo. Quando não é uma criança, é o protagonista. Céus, os autores não tem outro clímax?
Só nesta década, todas terminaram assim. "Salve Jorge" com Jéssica Vitória - filha de Morena -, "Avenida Brasil" com o trio de protagonistas, em "Fina Estampa" a vítima foi Griselda, em "Insensato Coração", Marina (que aliás, terminou e começou a novela sendo sequestrada, pobre animal!). Da década passada, me vem na mente, agora, "Celebridade", com Laura sequestrando a filha de Maria Clara, Nazaré sequestrando a "neta" em "Senhora do Destino", Bia Falcão sequestrando a bisneta em "Belíssima"... Nem "Cheias de Charme", que foi um turbilhão de inovações e frescor na TV fugiu disso!
Não entendo por que os autores se valem tanto dessa fórmula. Fica parecendo que a novela teve uma boa (ou não) e eletrizante história para contar, e chega no fim, a vontade de dar o ponto final da maneira mais fácil e rápida fala mais alto. Esses últimos capítulos que citei vieram recheados de outras cenas boas. Não consigo entender qual a necessidade de colocar sempre esse jargão para pular do penúltimo para o último. Fica meu apelo para que isso seja deixado de lado. Existem outros recursos que prendam a atenção do espectador na hora do "Fim" aos montes. O sequestro de hoje é o casório de ontem.
Vou ter que fazer outra postagem falando sobre a novela "Salve Jorge", não pra falar da Thammy porque ver uma mulher vestida de mulher não é algo que me mobilize como acontece com a maioria, mas porque preciso falar do casal Stênio (Alexandre Nero) e Heloísa (Giovanna Antonelli). Tenho acompanhado a novela com frequência nas minhas férias e me causa um imenso espanto a falta de caráter do advogado (não dá pra chamar de ingenuidade, perdão, Gloria Perez, você não está escrevendo para o Duda Nagle e o personagem não é mais estudante de Direito) e a maciça torcida do público para o casal.
Stênio engana a ex-mulher quando o assunto é a problemática filha Drica (Mariana Rios) como pode, inclusive acobertando o gravíssimo crime da filha de traficar drogas em seu apartamento só para ficar bem com a ex-mulher (sim, ainda por cima se trata de um ex-casal e a mulher ainda dá trela pro traste) e defende sua única cliente, Lívia Marini (Claudia Raia) - Ainda que para atendê-la seja necessário ter um grande escritório cheio de funcionários - com unhas e dentes. Com uma credulidade irritante, porque nenhum advogado, por mais "porta-de-cadeia" que fosse, acreditaria realmente na inocência de seu cliente com o mundo desabando nas suas costas. Mais uma vez, se o personagem fosse do Duda Nagle e se tratasse de um estagiário, a gente podia até embarcar nesse dirigível da Good-Year e deixar a Tiazinha chamar de disco voador no Domingo Legal.
É justo que depois dessas cenas citadas acima teve uma cena da delegada colocando o crédulo ex pra correr porque pegou a mentira dele no ar. Gloria não está conduzindo a coisa de maneira tão fantasiosa assim, apesar da novela ser uma sucessão de mulheres traídas e falas repetidas ad nauseam como "Ai amiga, 'cê' sabe que homem é tudo igual, né?", então não importa o homem ser doutor, coronel, turco ou morador do Alemão. Ele trai e fica por isso mesmo. Concluo que temos uma novela machista escrita por uma mulher. E essa traição não precisa necessariamente ser física. Pode ser uma traição de confiança. Agora vem o que me assusta: No dia que Gloria separa o casal "Steloisa" eu entro no Twitter e me deparo com hashtags favoráveis ao casal. Ou seja, o público é conivente com tudo de errado que o advogado faz e torce por ele! O público também é machista.
Não é a primeira vez que um homem engana uma mulher e o público torce por ele. Não precisa ir muito longe pra acharmos casos assim. Em "Belíssima", André (Marcello Antony) aceitava participar de um golpe para tirar a fortuna de Julia (Gloria Pires) e acabava traído por seu coração, apaixonando-se de verdade pela empresária e o público torceu por eles. Silvio de Abreu, o autor, foi moralista e, inspirado nas tragédias gregas, matou André. Aguinaldo Silva mudou o final de "Duas Caras" e fez com que Ferraço (Dalton Vigh) ficasse com Maria Paula (Marjorie Estiano) para agradar a audiência.
Prefiro pensar que tudo se deva ao imenso carisma dos atores Nero e Antonelli que estão desempenhando com maestria seus papéis e por isso o público perdoe os "deslizes" de Stênio. Nero passou por isso em "Fina Estampa". Seu personagem batia na mulher e no final terminou arrependido e reconquistou a esposa. Prefiro pensar que seja só isso, que eu esteja enganado, e que o público não seja conivente com o personagem, mas com o brilhante ator.
Mas talvez tudo não passe de um mal-entendido. Talvez a novela no papel seja outra e a culpa seja do diretor... Não seria a primeira vez, né???
Estamos em uma onda de contos de fadas. E isso não é de agora. O filme "Shrek", por exemplo, já é uma adaptação, uma quebra aparente dos paradigmas dos contos. Mas algo nunca muda nessas estórias: a questão moral e, principalmente, a estrutura arquetípica.
Uma das teorias mais adequadas para analisar esse tipo de produção é a psicologia analítica ou junguiana. Sua base foi desenvolvida por Carl Gustav Jung que, diferentemente de Freud, leva em consideração o místico, o religioso e outros aspectos para analisar a estrutura da psiquê humana, individual e coletiva.
Coletiva. Obras arquetípicas chamam muito a atenção do público. Parecem puxar algo que está guardado em um lugar perdido. Reacendem buscas individuais que são as jornadas de todos, desde que o mundo "é" mundo.
Jornada. Tanto "Hoje é dia de Maria" quanto "Once upon a time" apresentam jornadas de personagens femininos, em um enredo rodeado de imagens arquetípicas. A primeira adapta e exalta as especificidades do folclore brasileiro, adaptado para o formato do conto de fadas. A segunda mergulha o estilo de vida ocidental (não só norte-americano, mas de grande parte do mundo atual) na magia dos fairy tail.
Nas duas tramas, os arquétipos femininos dominam. Em "Hoje", Maria (Carolina Oliveira/Letícia Sabatella) representa uma Cinderela às avessas, a menina do conto pele de asno, entre outros. Ela é forte e rompe as barreiras. Luta contra uma Madrasta má (Fernanda Montenegro), uma mãe postiça que usurpa sua identidade de filha.
Em "Once", Emma (Jennifer Morrison) precisa cumprir o seu destino: resgatar os personagens de contos de fadas que estão presos em uma pequena cidade nos EUA, curiosamente chamada de StoryBrooke. Ela é cética, impulsiva e com forte retidão moral. A perfeita heroína em uma jornada que mescla realidade e fantasia.
Nas duas estórias, todas as personagens femininas são ativas, lutam pelo que querem. São guerreiras e não apenas meras princesas. Temos também representações falhas do feminino: a madrasta. Elas sempre têm inveja das mais jovens e são extremamente egoístas. A competição mina a relação entre protagonistas e antagonistas femininas. O sobrenome da personagem, Swan (significa Cisne, em inglês), ainda indica o processo de transformação, individuação.
Ledo engano pensar que estórias assim são maniqueístas. Elas separam sim o bem e o mal, mas é uma divisão simbólica. Na psiquê individual é justamente esses dois polos que colidem. E os contos de fadas clamam por esse conflito. No dia a dia, temos sempre que escolher um caminho: o mais fácil ou o mais difícil. Normalmente, o mais fácil corresponde a coisas que moralmente podem não ser aceitas e que geram consequências ruins mais a frente. O mais difícil costuma ser o mais correto.
As duas estórias têm outros dois componentes recorrentes em estruturas de contos: espaço e representação do mal misturado com a ideia de tempo. No caso de "Hoje", esse espaço é a caatinga do nordeste, regionalizando a obra. Ela precisa atravessar esse espaço para chegar ao seu objetivo, as franjas do mar (mar, na psicologia analítica, representa o inconsciente, se autoconhecer).
Em "Once upon a time", o espaço é sempre uma floresta que tem uma estrutura parecida tanto quando a estória está ambientada na "realidade" quanto na fantasia. Todos precisam procurar, fugir, achar algo nesse lugar.
O outro componente é um ser maléfico, poderoso. Em "Once", ele é o Mr. Gold ou Rumpelstiltskin (Robert Carlyle). Para além da concessão de desejos, ele parece dominar o tempo. Ele oferece a caminhada mais fácil, mas sempre cobra o preço por esse "adiantamento".
"Hoje é dia de Maria" tem, literalmente, o capeta! Asmodeu (Stênio Garcia) aparece nas diferentes formas, com uma caracterização judaíca-cristã. E suas artimanhas também são bem brasileiras! Ele também oferta a realização dos desejos. Maria sempre recusa suas propostas.
A relação entre esse tipo de estrutura narrativa e de conteúdo com a psicologia analítica é complexa. Cada personagem representa um faceta ou um arquétipo. O mais forte em ambos é o feminino, demonstrado na relevância das personagens femininas. Tantos as do "bem" quanto as do "mal". Ambas são faces da mesma moeda.
Estórias assim inspiram as crianças. Elas parecem resgatar algo escondido, velado. A luta pela construção da personalidade que enfrentarão. Os contos representam de forma extremamente simbólica os conflitos externos e, especialmente, os internos.
Para os adultos que são fisgados pelas estórias, que se identificam ou projetam sua vida nos personagens, é a oportunidade de uma reflexão muitas vezes não percebida, que acontece nas profundezas do inconsciente e questiona: o que sou e o que quero ser.
Confira vídeos de "Hoje é dia de Maria" e "Once upon a time". Repare nas semelhanças:
Olá caros leitores! Em primeiro lugar, peço desculpas pela ausência um tanto longa devido ao falecimento de minha mãe em janeiro último. No mais, esse texto é um convite a uma reflexão em conjunto sobre uma REALIDADE cada vez mais evidente, refletida na ficção: "como isso tem se apresentado?", "tem sido útil?", "oq se tem feito a partir da introdução desse tema nas casas brasileiras, através das tramas televisivas?". Perguntas básicas para incitar tal reflexão.
"A Carminha de Adriana Esteves comprova que se novela fosse teatro, Tereza Cristina foi a vilã de uma peça bem infantil."Diz Dona Heliodora, personagem de ficção em sua página de humor no Facebook.
A personagem Carminha (Adriana Esteves) da novela "Avenida Brasil" mostra uma face não só de uma madrasta carrasca, que remete aos contos de fadas infantis, mas ao reflexo de uma adulta mal resolvida, sádica e que encontra sua vítima perfeita, retratando uma realidade muito mais constante do que se imagina, infelizmente.
Interessante como para quem lida no dia-a-dia com esse fenômeno de violência, tratando diretamente com vítimas como eu em meu trabalho não se sinta tão a vontade de ver isso na tv. Mas, entendam q essa é uma dificuldade pessoal pois, muito me causou ver tantas pessoas se manifestando com indignação em relação à personagem vilã. E até me senti contente quando ouvia alguém dizer que não conseguia nem ver aquilo! Sinal de que a violência contra crianças não se banalizou... ainda[?].
Mas, qual o objetivo de se levar para dentro dos lares brasileiros uma trama que envolva maus tratos contra criança, que é um tipo de violência contra menores de idade, ainda mais focando na violência doméstica: tendo como algoz um dos responsáveis? Acredito que ESTA seja a grande questão que, tanto pode ser positiva, quanto negativa.
1º) Levar essa relação conflitiva ao seio dos nossos lares pode servir para confrontar de algum modo algo que possa ser visto como "assunto intocável". Ainda mais, com a tendência sulista (de profissionais e do próprio judiciário) em desconfiar mais da presença de alienação parental e/ou mentira da criança do que na real situação de vitimização por parte dela. Isso abre alas para grandes debates, para a própria reflexão interna dos casais e seus cônjuges a cerca de como é sua dinâmica familiar, sejam ainda companheiros ou separados.
2º) E pode ser só mais um tema que o telespectador veja, mas como público pudico não "queira mexer". Oq pode ser estimulado tal reação senão for dada abertura para abordagem do tema em outros programas de tv, mais nos noticiários e, principalmente, com vistas a INFORMAR A SOCIEDADE DE COMO RECONHECER ESSE FENÔMENO DA VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇA E DO QUE FAZER A RESPEITO!
Concorda comigo, caro leitor?
E para que esse texto não caia no erro da 2ª colocação, listo algumas orientações:
* Em caso de seu filho ou filha relatar a vc uma situação de conflito com a outra figura parental (o marido ou a esposa, sejam pais legais ou não), NÃO DESCONSIDERE DE TODO! Importante é o argumento da dúvida para com o outro, mas também é ainda mais importante o argumento da credibilidade no relato da CRIANÇA que, EM TODA E QUALQUER RELAÇÃO DE PODER É A PARTE MAIS FRÁGIL, VULNERÁVEL.
*O diálogo constante com seu filho ou filha é crucial. Cabe uma conversa franca com a outra parte, mas não de imediato. Observar alguns detalhes pode lhe nortear melhor: como anda o rendimento escolar, a sociabilidade da criança, toda e qualquer mudança de comportamento estranha como medo repentino do escuro, sensação de ver monstros, pesadelos constantes, mudanças de humor constantes e muitas outras coisas que podem estar associadas a uma série de situações de violência infantil, indo desde bullyng até a violência doméstica.
*Caso a dúvida persista, busque ajuda de uma profissional psicólogo para um psicodiagnóstico do que se passa com a criança.
*Havendo CERTEZA dos maus tratos, que podem ser físicos, sexuais e psicológicos, procure o CONSELHO TUTELAR DE SUA REGIÃO, podendo vc mesmo levar o caso a Delegacia de Crimes Contra Criança e Adolescente do seu estado/município, ou a uma Delegacia comum. E ainda: ao MINISTÉRIO PÚBLICO DE ONDE VC MORA!
*No entanto, senão quiser se identificar por quaisquer motivos, use o Disque Denúncia - Disque 100.
SÓ NÃO SE CALE, NÃO SE OMITA!
E então, agora como vc vê a abordagem do tema na trama da novela "Avenida Brasil"?
A telenovela é o gênero que sustenta a programação das duas mais importantes redes de televisão aberta do país. Tanto Globo quanto Record organizam sua programação de maneira a ceder às suas telenovelas espaços privilegiados na grade.
Novela fideliza o telespectador. Se a história prende o telespectador, em condições normais ele sempre sintoniza naquele canal naquele horário para acompanhar o desenrolar da trama. Seja qual for o índice de audiência, ele costuma ser constante e manter um público fiel no canal, o que valoriza os intervalos comerciais daquele horário.
Se tudo isso não bastasse, a telenovela ainda é muito lucrativa. A emissora monta cenários, figurinos, contrata gente para trabalhar, enfim. Quase todos os investimentos financeiros numa telenovela são feitos antes da estréia. Lá por volta do capítulo 100 a novela já se pagou completamente e a partir deste ponto o que se cobrar por seus intervalos comerciais representa puro lucro. E é aí que a porca torce o rabo...
Com voracidade de dar inveja a qualquer ícone do capitalismo, as emissoras foram estendendo a duração das novelas na horizontal e na vertical. Com isso, hoje temos novelas com cerca de 200 capítulos ficando no ar diariamente por até mais de uma hora.
Ao meu ver é uma maneira eficiente de se matar a galinha dos ovos de ouro.
Muitos profissionais da TV já se manifestaram nesse sentido, com especial destaque para Lauro César Muniz. É certo que algumas iniciativas já foram feitas no sentido de encurtar as novelas. Exemplos claros são os das faixas das 18 e das 23 na Globo e das novelas da Record, que há algum tempo já não tem mais o capítulo de sábado. Mas no geral, o que vemos é que a novela que dá certo é esticada, procurando sugar até a última gota de autores, atores e equipe.
Novela longa demais desgasta os autores, que recorrem a colaboradores para dar conta do trabalho. Nem sempre a qualidade do texto é preservada. Muitos atores se recusam a fazer novelas por conta dessa overdose de trabalho. Ou alguém imagina outro motivo para atores como Eduardo Moscovis, Selton Mello e Rodrigo Santoro recusarem convite após convite?
Uma novela no ar de segunda a sexta feira, com 40 minutos de arte (sem contar os intervalos) e durando, no máximo, 120 capítulos, utilizaria muito menos personagens que as novelas atuais. Com menos personagens, seriam necessários menos cenários, menos figurinos, menos salários seriam pagos... Ou seja: o investimento inicial das emissoras seria muito menor, o que faria com que a novela se pagasse lá pelo capítulo 50 ou 60.
Com novelas menores, não faltaria emprego para autores, atores e diretores. Pelo contrário! A rotatividade delas no ar seria maior, ocasionando mais oportunidades para todos. Poderíamos até ter mais faixas de exibição. Todos trabalhariam mais estimulados, com um horizonte mais amigável à frente. A qualidade da telenovela brasileira subiria consideravelmente.
"Que ele seja uma virtude poderá surpreender. Mas é que toda a seriedade é condenável, referindo-se a nós mesmos. O humor nos preserva dela, além do prazer que sentimos com ele.
Éimpolidodar-se ares de importância.
Não ter humor é não ter humildade, é não ter lucidez, é não ter leveza, é ser demasiado cheio de si, é quase sempre carecer de generosidade, de doçura, de misericórdia...
Porém não exageramos a importância do humor. Um canalha pode ter humor; um herói pode não ter. Um irresponsável pode ter; um responsável pode não ter. Mas isso não prova nada contra o humor.
Humor não é sinônimo de irresponsabilidade, infantilidade, alheamento ... ou falta de bom senso, pelo contrário, no humor sempre tem que haver bom senso, caso contrário, cai no ridículo, no vulgar, na idiotice.
É uma virtude engraçada em certo sentido, pois caçoa da moral, mas é uma grande qualidade que pode faltar a um homem de bem, sem que isso atinja a estima que temos por ele, inclusive a estima moral.
O humor não impede a seriedade, ou nossos compromissos, nossas responsabilidades, até mesmo no que diz respeito à condução de nossa própria existência. Mas impede de nos iludirmos ou de ficarmos demasiado satisfeitos.
Que valeria o amor sem alegria? Que valeria a alegria sem o humor? Tudo que não é trágico é irrisório. Eis o que a lucidez ensina. E o humor acrescenta, num sorriso, que não é trágico... Verdade do humor. A situação é desesperadora, mas não é grave.
Por certo não faltam motivos para rir ou chorar. Mas qual é a melhor atitude? Riso ou lágrimas, riso e lágrimas. Nós oscilamos entre esses dois pólos, uns pendendo mais para isso, outros mais para aquilo... Melancolia ou alegria?
Mas há rir e rir, e cumpre distinguir aqui o HUMOR da IRONIA.
A ironia não é uma virtude, é uma arma - voltada quase sempre contra alguém. É o riso mau, sarcástico, destruidor, o riso da zombaria, o riso que fere, que pode matar. É o riso do ódio, é o riso do combate. Quantos não usam essa arma? Útil? Como não, quando necessário! Que arma não o é? Algumas vezes se combate a ironia com ironia. Mas nem uma arma é a paz, nenhuma ironia é humor.
A linguagem pode enganar. Os humoristas não passam deironistas, de satiristas - e por certo, são necessários. Mas os melhores misturam os dois gêneros: mais ironista quando fala da direita, mais humorista quando fala da esquerda, puro humorista quando fala de si mesmo e de nós todos.
A ironia é um riso que se leva a sério, um riso que zomba, mas não de si, é um riso que goza da cara dos outros. A ironia despreza, acusa, condena, desconfia do outro. A ironia ri do outro, o humor ri de si, ou do outro, mas si incluindo.
Não que o humorista não leve nada a sério (humor não é frivolidade), simplesmente ele recusa levar a sério a si mesmo, sua angústia. A ironia procura fazer-se valer, o humor, abolir-se.
Não há orgulho sem seriedade, o humor quebra a seriedade. É isso que é essencial ao humor, ser reflexivo, ou pelo menos englobar-se no riso que ele acarreta ou no sorriso mesmo amargo que ele suscita. É questão de estado de espírito. A mesma brincadeira pode mudar de natureza segundo a disposição de quem enuncia: o que será ironia em um, poderá ser humor no outro. Aristófanes faz ironia em As nuvens, quando zomba de Sócrates. Mas Sócrates (grande ironista) dá prova de humor quandoassistindoa apresentação, ri gostosamente com os outros.
Mas o tom e o contexto podem mudar o sentido da brincadeira. Assim quandoGrouchoMarx declara: "Tive uma noitada excelente, mas não foi esta." Se ele diz isso à dona da casa, depois de uma noitada malograda, é ironia. Se diz ao público, no fim de um de seusespetáculos, será humor.
Podemos gracejar de tudo: sobre fracasso, guerra, morte, amor, doença...Mas é preciso que esse riso acrescente um pouco de alegria, um pouco de doçura ou de leveza à miséria do mundo, e não mais sofrimento, desprezo. Podemos rir de tudo, mas não de qualquer maneira. Uma piada de judeu nunca será humorística na boca de um anti-semita.
O riso não é tudo e não desculpa nada. Tratando-se de males que não podemos impedir ou combater, seria condenável gracejar. O humor não substitui a ação e a insensibilidade diante do sofrimento dos outros, é uma falta. Assim como é condenável levar demasiado a sério seus próprios bons sentimentos, suas próprias angústias... Lucidez começa por si mesmo. Daí o humor, que pode fazer rir de tudo contanto que ria primeiro de si mesmo.
"A única coisa que lamento, é não ser outra pessoa", diz WoodyAllen. Mas com isso, ele também o aceita. O humor é uma conduta de luto - trata-se de aceitar aquilo que nos faz sofrer - (conseguir superar seu sofrimento e ainda brincar com ele). A ironia fere, o humor cura. a ironia pode matar, o humor ajuda a viver. A ironia quer dominar, o humor liberta. A ironia é implacável, o humor é misericordioso. A ironia é humilhante, o humor é humilde.
O humor transmuta a tristeza em alegria, ele desarma a seriedade. Rir de si primeiro, mas sem ódio. Ou de tudo, mas apenas enquanto se inclui nesse tudo e se o aceita. A ironia diz não (muitas vezes fingindo dizer sim). O humor diz sim, sim apesar de tudo, sim apesar dos pesares. Duplicidade, quase sempre naironia( não há ironia sem simulação, sem uma parte de má-fé); quase nunca no humor.
É PierreDesprogesanunciando seu câncer: " Mais canceroso que eu, você morre! " ÉWoodyAllen encenando suas angústias seus fracassos... É a eterna tríplice questão e sem resposta eternamente: " Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?" , respondo: " No que me diz respeito, eu sou eu, venho da minha casa e volto para ela."
Famosa fórmula de Spinoza: " Não ridicularizar, não deplorar, não amaldiçoar, mas compreender." Sim, mas e se não houver nada a compreender? Resta rir, não contra mas de, com (humor).
"Humor, triunfo do narcisismo", escreve Freud,jáque o ego se afirma vitoriosamente e acaba desfrutandoexatamentedaquilo que o ofende e que ele supera. " Triunfo do prazer, mas que só é possível desde que se aceite, que seja para rir da realidade como é ", diz ainda Freud.
É como aquele condenado à morte que levam à forca numa segunda-feira e que exclama: " A semana está começando bem!" Há coragem no humor, grandeza, generosidade. Com ele o eu é como que libertado de si mesmo.
A ironia que sempre rebaixa, nunca é sublime, nunca é generosa. É uma manifestação de avareza. " Uma crispação da inteligência, que prefere cerrar os dentes a soltar uma só palavra de elogio", segundo Bobin. O humor ao contrário é uma manifestação de generosidade: sorrir daquilo que amamos é amá-lo melhor. A ironia ao contrário, sabe apenas odiar, criticar, desprezar, zombar.
Humor é amor, ironia é desprezo. Em todo caso, não há humor sem um mínimo de simpatia, justamente por sempre conter uma dor oculta. O humor também comporta uma simpatia de que a ironia é desprovida... Simpatia na dor, simpatia na fragilidade, na angústia, na vaidade... o humor tem a ver com o absurdo, com ononsense. Não claro que uma afirmação absurda seja sempre engraçada, só podemos rir, ao contrário, do sentindo das coisas. O humor está entre o sentido e o disparate.
O humor não é nem a seriedade (para a qual tudo faz sentido), nem a frivolidade (para a qual nada tem sentido). Mas é um meio-termo instável, ou equívoco, ou contraditório, que desvenda o que há de frívolo em toda a seriedade, e de sério em toda frivolidade. O homem de humor, diria Aristóteles, ri como se deve (nem mais nem menos), quando se deve e do que se deve.
O humor é uma desilusão alegre, desilusão tem a ver com lucidez, como alegria tem a ver com amor e com tudo.
O espírito zomba de tudo. Quando zomba do que detesta e despreza é ironia. Quando zomba do que ama ou estima é humor. O que mais amo, mais estimo facilmente? Eu mesmo. Isso diz tudo sobre a grandeza do humor e sobre sua raridade."
trecho do Programa Faça Humor Não Faça Guerra
Fotos: Google Imagens
Vídeo: You Tube
*André Comte-Sponville é umfilósofo materialista francês.