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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Da televisão à literatura: as novelas que deram origem a livros


Por FÁBIO COSTA

É muito comum que o universo da literatura, especialmente a brasileira clássica, origine adaptações de grande sucesso na televisão e no cinema. Atualmente podemos atestar a validade da afirmação de terça a sexta-feira às onze da noite, com mais uma versão de Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, adaptado agora por Walcyr Carrasco. A Escrava Isaura, romance de Bernardo Guimarães, deu origem a duas telenovelas de sucesso, sendo a primeira delas (1976/77) um fenômeno de exportações para sempre presente no imaginário do público. O horário das 18h da Rede Globo foi dedicado durante quase dez anos apenas a adaptações. E exemplos são muitos.
No entanto, não é com a mesma frequência que surgem obras no caminho inverso: livros surgidos de telenovelas. Talvez seja porque não se acredita que o leitor quererá ter nas mãos uma história da qual já conhece o desenrolar e o desfecho após tê-la assistido na televisão. Além, é claro, do desafio que é adaptar um número de páginas que chega aos milhares para uma versão muito menor e sem a possibilidade de tantos detalhes e diálogos, narrando os acontecimentos. Por outro lado, ainda que hoje em dia existam os DVDs, os blu-rays, a internet, a história da novela contada em livro é uma maneira a mais de perpetuá-la e, por que não, de torná-la respeitável a uma parcela da intelectualidade que ainda hoje, passados doze anos do século XXI, renega suas qualidades e sua importância no panorama cultural brasileiro.

Capa da adaptação de Ídolo de Pano, de Teixeira Filho.
Ainda na década de 1960 temos notícia de uma novela que devido ao sucesso é adaptada para o formato de romance literário: A Deusa Vencida (1965), de Ivani Ribeiro, originou um livro de grande vendagem publicado pelas Edições O Cruzeiro. No início da década de 1970 a Editora Bruguera, do Rio de Janeiro, publicou algumas novelas em romances cujos fascículos eram vendidos periodicamente nas bancas de jornal, dentre as quais Irmãos Coragem (1970/71) e O Homem que Deve Morrer (1971/72), ambas de Janete Clair. Nos anos 70, algumas novelas da Rede Tupi também deram origem a livros, como foi o caso de Ídolo de Pano (Abril), em adaptação do próprio autor Teixeira Filho, e A Viagem (Bels), de Ivani Ribeiro. Em 1980 Leonor Bassères escreveu o livro baseado nos scripts de Gilberto Braga e Manoel Carlos para Água Viva, que se tornou best seller.

Quarta capa de um dos volumes de As Grandes Telenovelas, trazendo a coleção completa.
Em 1985 ocorreu uma das iniciativas mais bem-sucedidas nesse campo, senão a mais. Junto ao sabão em pó Omo, foi lançada pela Editora Globo (através do selo Rio Gráfica e Editora) a coleção As Grandes Telenovelas, que contava com doze livros que adaptavam para o formato de romance novelas de sucesso da Rede Globo exibidas entre 1970 e 1983, a saber: Irmãos Coragem, Pecado Capital e Pai Herói, de Janete Clair; Anjo Mau, Locomotivas e Marron Glacé, de Cassiano Gabus Mendes; Dancin’ Days, Água Viva e Louco Amor, de Gilberto Braga; Carinhoso e Escalada, de Lauro César Muniz; e O Bem-amado, de Dias Gomes. Os livros vinham embalados junto às caixas de sabão, e era possível escolher os que interessavam para completar a coleção.
Capa de uma versão de Água Viva em livro.
Entre 1987 e 1988 a Editora Globo lançou uma série de proposta semelhante nas bancas: Campeões de Audiência – Telenovelas, que relançou alguns títulos e substituiu outros, contando também com doze livros. Irmãos Coragem, Pecado Capital, Pai Herói, Anjo Mau, Locomotivas, Dancin’ Days, Água Viva e Escalada foram mantidos, enquanto Bandeira 2, Roque Santeiro, Guerra dos Sexos e Roda de Fogo substituíram O Bem-amado, Marron Glacé, Louco Amor e Carinhoso. Junto com o primeiro volume (Roque Santeiro) foi distribuído aos leitores um marcador de página que trazia a novela a ser lançada em seguida (Roda de Fogo) e os títulos de outras dezoito telenovelas que comporiam a série, no total de vinte títulos. Até hoje não foram lançados os oito livros restantes, dentre os quais prometiam-se O Espigão, Saramandaia e até Selva de Pedra numa “versão não censurada” (em alusão à censura sofrida por Janete Clair, que não pôde desenvolver a história como gostaria).
Quase todos os livros foram escritos pelo jornalista Eduardo Borsato, que adaptava as tramas das novelas a partir dos scripts originais dos capítulos cedidos pelos autores. Compartilhando uma experiência pessoal, posso dizer que gosto muito de todas as adaptações que pude ler e sem dúvida o trabalho de Borsato (e de outros adaptadores como Maria Helena Muniz de Carvalho e Lafayette Galvão) me ajudou a saber mais sobre o desenvolvimento das histórias das novelas e admirá-las ainda mais, com maior “conhecimento de causa”, por assim dizer, embora não tenha ainda podido (e quem sabe nem mesmo venha a poder) assisti-las.
Vale Tudo também teve lançada uma versão literária em 1989, logo após o término de sua exibição. O livro, mais uma adaptação feita por Eduardo Borsato, trazia além da revelação de Leila como assassina de Odete Roitman desfechos para o mistério que mobilizou o Brasil. Num dos finais, é Maria de Fátima quem mata Odete; noutro, o assassino é César. Já em 1992 foi a vez de um projeto que não vingou: o Globo Novela, com o qual a Editora Globo lançou um livro com a história de Pedra Sobre Pedra e que veio acompanhado de uma revista com os bastidores da novela. A coleção ficou apenas nesse título e durante mais de dez anos não se lançou nada semelhante.


Capa do livro com a versão de Selva de Pedra feita por Mauro Alencar para a coleção Grandes Novelas.
Até que em 2007 chegou às livrarias o primeiro volume da coleção Grandes Novelas, da mesma Editora Globo: Selva de Pedra, a clássica história de amor de Cristiano e Simone em meio aos desafios da vida na cidade grande, foi adaptada por Mauro Alencar a partir do original de Janete Clair. Posteriormente foram lançados outros quatro títulos, também escritos por Mauro: O Bem-amado, Pecado Capital, Roque Santeiro e Vale Tudo. Os livros da coleção Grandes Novelas têm formato de bolso e preço acessível (em média quinze reais cada), e podem ser encontrados. Ótima chance para conhecer essas novelas, apesar de duas terem sido recentemente reprisadas pelo Viva, ou para relembrá-las, numa plataforma diferente da TV, mas que conserva a atemporalidade dos personagens e entrechos dramáticos que prendem a atenção e nos fazem ansiar por finais felizes aos mocinhos e punições aos vilões. E que sejam lançados mais livros baseados em telenovelas. Boas histórias a contar (ou recontar) não faltam e certamente há público para tal empreitada.

Capa do livro com a versão de Roque Santeiro feita por Mauro Alencar para a coleção Grandes Novelas.

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