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terça-feira, 16 de abril de 2013

Janete Clair: a artesã da emoção em revista

“Nossa Senhora das Oito” é homenageada em DVDs, reprises e fan page no Facebook

Por Júlio César Martins



Se estivesse entre nós, Janete Clair completaria 88 anos em 25 de abril. E sem dúvida, estaria a pleno vapor fazendo o que mais lhe dava prazer na vida: escrevendo novela. Infelizmente, Janete teve sua vida precocemente interrompida em 1983. E mesmo debilitada, no leito do hospital, foi incapaz de abandonar sua grande paixão. A paixão que ela própria tornou nacional. Um motivo de orgulho para o Brasil que já era o país do futebol e do carnaval, e incorporou mais um adjetivo: o de país da telenovela.

Trinta anos se passaram, e ela continua viva na memória dos que conheceram sua obra. Seu nome é o mais importante dentro do processo de consolidação da teledramaturgia brasileira. E se hoje a telenovela é considerada paixão nacional e carro-chefe da programação da maior emissora do país, isso se deve em grande parte a sua entrega, a sua intuição e a comunicabilidade precisa das suas criações. Impossível falar de telenovela no Brasil e não citar Janete Clair como principal referência. E por mais que possa soar injusto com grandes dramaturgos merecidamente reconhecidos como Ivani Ribeiro, Walter George Durst, Vicente Sesso, Bráulio Pedroso e até mesmo o próprio marido, o premiado Dias Gomes, o fato é que o nome de Janete se estabeleceu como sinônimo do gênero telenovela.


      Véu de Noiva”, “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra”, “Pecado Capital”, “O Astro”, “Pai Herói”: novelas emblemáticas que consolidaram a liderança da TV Globo no horário nobre e fizeram de Janete Clair um ícone imortal. Sua ótica atemporal segue rendendo releituras que, se não alcançam a mesma repercussão de antigamente, nunca passam despercebidas aos olhos dos telespectadores. Recentemente, duas de suas novelas mais importantes foram relançadas em DVD pela Globo Marcas: “Irmãos Coragem” e “Selva de Pedra”, surpreendendo pelas vendas expressivas. Em paralelo, o Canal Viva programou para este ano a reprise de dois remakes de criações da autora: “Pecado Capital”, de 1998, e “Selva de Pedra” exibida em 1986. E em nota recente, a TV Globo anunciou para o horário das 23h uma nova versão de "O Semideus", escrita por Maria Adelaide Amaral. O projeto está previsto para a grade de 2015, ano em que Janete Clair comemoraria 90 anos.

E em tempos de redes sociais, nada mais justo do que a criação de uma fan page idealizada para exaltar a memória desta verdadeira operária da ficção. Criada pela neta Renata Dias Gomes a pedido do pai – ela é filha do músico Alfredo Dias Gomes e da atriz Neuza Caribé – a fan page resgata páginas de revistas, entrevistas, fotos da autora, fotos e vídeos de cenas das novelas e até páginas de textos que constam no acervo da família. Renata, que tem 29 anos e é roteirista de TV contratada pela Globo, não chegou a conhecer a avó: “Eu não tinha a noção exata do quão importante ela foi. Eu sabia por ter ouvido falar, mas não vivenciei isso, então senti essa necessidade de descobrir a minha avó. E tem sido maravilhoso pra mim. A minha geração não sabe exatamente quem foi Janete Clair e a fan page surgiu a partir desta preocupação em resgatar a sua importância.”

Renata Dias Gomes
André Araújo, de 42 anos e colaborador da fan page, cresceu diante da TV e era fã das novelas de Janete Clair. “As pessoas se referiam a Janete Clair como sinônimo de novela boa, uma marca registrada. Depois que ela morreu, as novelas perderam a graça.”

Eduardo Dias, 49 anos, também vivenciou a “era de ouro” de Janete Clair: “A programação da TV era bem restrita. Tinham poucos canais. A primeira novela que eu assisti foi “Véu de Noiva”. A novela foi marcante, pois perto do final rolava um julgamento, e isso mobilizou o país. Foi uma coisa de louco! Eu estava no pré-primario e as crianças daquela época já trocavam idéias sobre novelas. Mas a minha preferida mesmo foi Pecado Capital.”

Thávolo Henriques, que nasceu em 1987 e tem, portanto, 26 anos, se encantou pela personalidade e pela obra da autora a partir de pesquisas que fez ao longo da infância e adolescência. “Sou fã dos ensinamentos e filosofia de Janete Clair, considero-a uma espécie de mentora. Decidi investir na carreira de roteirista influenciado pela mesma paixão que ela tinha pelo gênero, me identifico com ela.”

A fan page compartilha verdadeiras raridades: um vasto acervo de fotografias, entrevistas raras de publicações extintas (como as revistas Cartaz, Manchete e Amiga), vídeos com cenas e capítulos das novelas e até trechos do depoimento da autora ao MIS – Museu da Imagem e do Som – estão disponíveis através das publicações na página. É o avanço tecnológico a serviço da memória da novelista de maior importância da história da televisão. Homenagem mais do que merecida àquela que, por tantas vezes, hipnotizou o Brasil às oito da noite, e que pode ser considerada a “padroeira” da telenovela brasileira.

O endereço da fan page no Facebook é:
http://www.facebook.com/janeteclairoficial

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Teledramaturgia em DVD


Por FÁBIO COSTA

Antes do advento do DVD, era complicado poder ter as novelas e minisséries preferidas em casa para assistir na hora em que se desejasse, já que o volume de fitas VHS necessário seria muito grande e sairia caro comprar o material necessário para gravar uma novela inteira, por exemplo. Não que não tenham feito isso; muitos o fizeram, inclusive, a internet traz as recordações mais variadas gravadas em videocassete ao longo de décadas. No entanto, é inegável que um número grande de fitas de vídeo vai se tornando difícil de acondicionar e preservar, pelo espaço que ocupa. Uma fita de vídeo não ocupa muito espaço; dez delas também nem tanto assim; cem delas, ainda vá lá; pense em mais que isso.

Logotipo de Dona Beija em sua reprise pelo SBT.
Explica-se assim a razão das produtoras de teledramaturgia não terem lançado com muita força suas produções em VHS, porque a edição seria tão impiedosa que não compensaria aos interessados adquirir. Alguma coisa saiu, mesmo supercompactada, como foi o caso de algumas produções da Rede Globo – dentre as quais Anos Dourados (1986) e Anos Rebeldes (1992) – e até da Rede Manchete, através de sua Manchete Vídeo: o mercado trouxe compactos em vídeo de Marquesa de Santos (1984) e Dona Beija (1986). Mas o pouco tempo de material realmente decepcionava.

O DVD, que ocupa menos espaço que a fita de vídeo e tem maior qualidade de som e imagem e capacidade de armazenamento, surgiu e trouxe nova esperança aos amantes de cinema e televisão. Tiveram início os lançamentos de diversas séries de TV, em boxes com vários discos que traziam as temporadas completas uma a uma até que se completassem as coleções. As minisséries globais não tardaram a chegar ao DVD, tendo sido Presença de Anita (2001) e mais uma vez Anos Dourados as primeiras. Os compactos passaram a não ser mais tão compactos, mas ao mesmo tempo ainda se mantiveram longe da íntegra das obras. A edição também deixa a desejar, uma vez que apresenta cenas perfeitamente “cortáveis” e dispensa passagens interessantes e lembradas pelo espectador.

Apenas em 2010 a Globo Marcas resolveu apostar no lançamento de uma novela em DVD, e escolheu para a empreitada Roque Santeiro (1985/86), que então comemorava 25 anos de sua bem-sucedida primeira exibição. Uma caixa com 16 discos, num total de quase 52 horas de material,  proporcionou àqueles que conheciam a novela uma oportunidade de revê-la sempre que quisessem e aos que não a conheciam a chance de assisti-la e entender seu significado para a história da televisão. Desde então foram também lançados em DVD compactos de Irmãos Coragem (1970/71), em oito discos; Dancin’ Days (1978/79), em 12 discos; O Astro (2011), também em 12 discos; e Escrava Isaura (1976/77), em cinco discos com a versão de 30 capítulos feita para reprises especiais. Em algumas semanas estará nas lojas o box que traz o compacto de Tieta (1989/90) em onze discos.

Regina Duarte e Lima Duarte em Roque Santeiro.
O compacto de Roque Santeiro, de cuja edição participou inclusive um de seus diretores, Marcos Paulo, cumpre bem seu papel de relembrar uma das mais importantes telenovelas brasileiras com bom aproveitamento de tramas e personagens. Mas também pecou em deixar de lado cenas históricas que fazem parte do inconsciente coletivo brasileiro, como uma em que Sinhozinho Malta (Lima Duarte) lambe a mão de Porcina (Regina Duarte) e é chamado por ela de “cachorrinho” ou a primeira cena da mesma Porcina na novela, injuriada por não ter satisfeito pelo empregado Rodésio (Tony Tornado) seu desejo de possuir um casal de cisnes. Bem, pode ser apenas uma decepção de alguém que é fã da novela (e este que vos escreve o é), mas admirações à parte é de se esperar que as versões em DVD, se não podem trazer a íntegra dos trabalhos, que ao menos se preocupem mais com certos detalhes na hora de editar. Mas há também um diferencial curioso no box de Roque Santeiro: todos os discos apresentam a abertura da novela e os créditos de encerramento, como se fossem dezesseis capítulos enormes.

Outras emissoras poderiam também lançar títulos seus em DVD, ainda que em tiragens limitadas. Os muitos produtos da Globo Marcas nesse sentido mostram que há mercado para isso, basta fazer a coisa de modo adequado. A própria Globo ainda tem muita coisa a lançar, e a cada compacto podem ser experimentados meios de se montar um box interessante para os colecionadores que se dispõem a pagar (e pagar caro, já que os DVDs não são baratos) por um item de que fazem questão. Não acredito que a produção de novas versões de obras marcantes como Gabriela, Ti-ti-ti, O Astro e Guerra dos Sexos necessariamente impeçam que as originais sejam lançadas e/ou reprisadas no canal Viva. Há público para ambas as possibilidades.
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