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domingo, 6 de janeiro de 2013

Entrevista com o Jornalista José Raimundo Oliveira.

José Raimundo Oliveira ou simplesmente Zé Raimundo, é um jornalista conceituado, repórter da TV Globo, um dos mais respeitados profissionais da área.   Autêntico e solícito, como de costume, ele topou bater um papo com o blog. O agradeço por isso. Confiram:


Por Denis Pessoa

Como aconteceu o seu primeiro encontro com o jornalismo?
Foi no serviço de alto-falante da minha cidade, Riachão do Jacuípe [Bahia]. O dono era Plínio Enoy, locutor famoso na região. Depois, já em Feira de Santana, fui noticiarista da Rádio Sociedade de Feira. O meu amigo Jair Cesarinho naquela época era o titular do horário. Eu era o reserva dele, com muito orgulho.
Fale um pouco a respeito de sua experiência com o Jornal A Cidade, de Riachão do Jacuípe.
Ainda no ginásio (hoje é ensino fundamental) tive a idéia de criar o Jornal "A Cidade". Começou lá, na Escola N. S. Da Conceição, em Riachão. A idéia evoluiu para o jornal impresso, já com a participação de colegas e amigos da cidade. Ninguém tinha experiência, muito menos formação acadêmica. Éramos todos, digamos, aventureiros da escrita querendo aprender. E, claro, descobri que levava jeito, pelo menos para jornaleiro. Além de escrever eu também vendia o jornal nas ruas de Riachão.
Em sua opinião, quais as características de um bom repórter?
Ser honesto com a informação e com as fontes, nunca esquecer que existem os dois lados da notícia, sempre duvidar das facilidades que muitas vezes cercam o repórter, ouvir muito, ficar atento ao que acontece em volta do assunto da pauta e ter a ética como guia.
Existe algum trabalho que te trouxe frustração por ter saído abaixo de suas expectativas? Qual?
Sempre há reportagens que gostaríamos de esquecê-las. Mas o tempo acaba se encarregando de resolver as frustrações. Não consigo eleger agora qual foi a que menos gostei de ter feito. Foram várias, certamente.
Qual reportagem te trouxe mais realização ao concluí-la?
Do mesmo jeito que tenho dificuldade de eleger as reportagens que não gostaria de ter feito, também para as melhores sinto o mesmo dilema. Claro, me sinto realizado quando consigo, através do meu trabalho, ajudar a resolver algum problema, preferencialmente, de famílias e comunidades que têm o jornalista como interlocutor. As reportagens que denunciam distorções e injustiças são feitas com esse intuito. Só pra citar uma das últimas, as crianças que foram levadas de forma arbitrária por casais paulista. Fizemos a denuncia no Fantástico e pouco mais de 2 meses depois elas voltaram pra Monte Santo. É gratificante alcançar resultados assim. Acompanhamos tudo desde o momento da denuncia, cobramos providencias e elas aconteceram da forma que deveria: corrigindo uma decisão equivocada de um juiz que pensa que a justiça foi feita para os ricos.
Você já foi assediado pela concorrência alguma vez?
Sim.
Programas sensacionalistas ocupam cada dia mais a programação das emissoras de TV, tanto pela audiência quanto pelo retorno financeiro. Fosse feita uma proposta para você compor a equipe de um programa tal, como lidaria com o desafio? 
Acho que não seria capaz de negociar algum trabalho que tenha o sensacionalismo como foco. Não tenho perfil pra isso, não me vejo explorando a tragédia humana, por exemplo, pra ganhar audiência e dinheiro. Há formas mais dignas de se conquistar o público. A mais importante é a credibilidade.
Quais foram seus maiores aprendizados em sua trajetória no rádio e na TV?
Aprendi muita coisa, principalmente na TV. Aprendi que tenho um instrumento poderoso nas mãos e que devo usá-lo com responsabilidade.


Como surgiu sua relação com assuntos relacionados ao meio ambiente?
Desde que me entendo como repórter cultivo as pautas relacionadas ao meio ambiente. É uma atração que me acompanha há muitos anos. Talvez seja a preocupação com futuro do planeta, com o futuro dos meus filhos, netos, bisnetos, enfim, com as gerações que estão começando a viver e com as que ainda virão ao mundo.
Qual a relevância do trabalho das ONG’s na preservação ambiental? Você acredita que o trabalho das ONG’s que visam à preservação do meio ambiente é divulgado de forma satisfatória ao público?
Acho importante a participação das ONGs no trabalho de Educação ambiental, principalmente. Mas é importante saber distinguir as que realmente são comprometidas com a causa das são oportunistas. Há organizações não governamentais que foram criadas com a única intenção de tirar dinheiro do governo e de outras instituições. Os espaços na mídia são conquistados naturalmente, de acordo com o merecimento. Os bons exemplos e os resultados do trabalho, em minha opinião, são divulgados de forma satisfatória.
Em sua premiação para a ABI (Associação Baiana de Imprensa), como Personalidade da Comunicação do ano de 2009, você citou que “o jornalista é um coadjuvante”. Em sua visão, o que pode acontecer caso um jornalista esqueça este detalhe, e queira passar a “brilhar” mais que a notícia, mais que a reportagem, e mais que a pessoa que o entrevistado/pesquisado?
Em minha opinião, o repórter, em nenhuma hipótese é mais importante que a notícia. Nenhuma boa reportagem se sustenta sem bons personagens. São eles as estrelas da história, portanto, o alvo do trabalho de reportagem. Insisto: o repórter é sim um coadjuvante, o interlocutor entre a notícia e o publico. Reportagem em que o repórter se considera mais importante que a notícia não merece confiança. Ainda mais em televisão que, obrigatoriamente, prioriza a imagem da notícia, do fato.
Ano passado, foi ao ar uma matéria sua no Jornal da Globo, falando sobre o desmatamento da Mata Atlântica do Piauí por conta das carvoarias. O que você sentiu ao ver tamanha destruição ilegal, e trabalhadores em condições tão precárias?
Na verdade foi uma região do Piauí, Sul do estado, que concentra três biomas: mata atlântica, cerrado e caatinga. A caatinga predomina e, infelizmente, está desaparecendo para alimentar as siderúrgicas de Minas. É um crime ambiental grave patrocinando a indústria do ferro gusa. E quem vai pagar esse passivo quando tudo virar cinza? Essa reportagem foi feita para o Jornal da Globo e Ganhou uma versão para o Globo News Especial. Ela conquistou dois grandes prêmios nacionais: Embratel e Allianz.


Você já recebeu alguma represália por suas matérias que denunciam este tipo de ato?
Já fui ameaçado algumas vezes. A última foi no Pará, no município de Anapu, aquele mesmo que foi palco do assassinato covarde da Irmã Dorothy. O dono de uma serraria clandestina, insatisfeito com o nosso trabalho, chegou a coçar a cintura pra puxar uma arma. Consegui sair com a equipe antes que acontecesse o pior. Geralmente, as denúncias provocam a ira dos denunciados e o risco vem acompanhando os crimes. Mas nunca espero pra ver. Cerco-me de todas as precauções possíveis. A vida está acima da profissão, sem dúvida.
Você é adepto do Candomblé ou de alguma outra religião de matriz africana? Se sim, já sofreu/sofre discriminação por conta disto?
Nunca sofri nenhum tipo de discriminação religiosa. E sou radicalmente contra preconceitos de qualquer natureza. Sou de família Católica e admirador do Espiritismo e do Candomblé. Os rituais africanos me emocionam, assim como as evidências do mundo espiritual. Agora, o respeito a toda e qualquer manifestação de fé é regra básica na minha conduta.


Não morasse na Bahia, onde seria?
Não troco Salvador, apesar da péssima fase que atravessa, por nenhuma outra cidade. Mas se fosse obrigado a escolher outra capital pra morar escolheria o Rio de Janeiro.
O “Posso Contar Contigo?” agradece a sua gentileza.
Desejo muito sucesso e vida longa ao Blog “Posso Conta Contigo?”. 
Um abraço!
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