Lirismo rural de Benedito Ruy Barbosa desbanca o thriller de Sílvio de Abreu na grade do Canal Viva!
Por Júlio Cesar Martins
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| Reprodução da home-page oficial do "Vídeo Show": mais de 8 mil acessos ao vídeo de "Renascer" |
Embalado pelas comemorações de 2
anos de sucesso, o Canal Viva (do Grupo Globosat) anunciou com antecedência as novidades programadas
para a grade vespertina: as novelas “Felicidade” – sucesso
de Manoel Carlos - e “A Próxima Vítima” – rocambole policial de Sílvio de Abreu - substituem “Top Model” e “Barriga de Aluguel”
no segundo semestre. As chamadas de “Felicidade” já pipocam ao longo da
programação e reestréia em 24 de setembro.
No início do mês, o site
oficial do Canal anunciou a substituição de “A Próxima Vítima” por “Renascer”, e
justificou: “A apresentação de “Renascer” atende aos constantes pedidos dos
assinantes pela trama. Por esse motivo, o canal decidiu antecipar a exibição da
novela assim que conseguiu a liberação de seus direitos.”
Muita gente não engoliu esse papo
torto. Nem eu. Agora vamos aos fatos:
Em junho, o “Vídeo Show” exibiu
em seu novo quadro-coqueluche, o “Novelão da Semana”, um resumo de “Renascer”,
em 5 partes. O primeiro vídeo da série alcançou números surpreendentes de
acessos no site oficial do programa – mais de 8.000 – uma marca incomum. A
repercussão inusitada provavelmente reverberou na direção do canal, ansiosa
para repetir o burburinho causado pela reprise de “Vale Tudo”, no ano passado.
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| Patrícia França e Antônio Fagundes em "Renascer" |
Trocando em números, basta
pesquisar um pouco para descobrir que a expectativa de “A Próxima Vítima” em
1995 era elevar a audiência do horário das oito - em crise por conta do quiproquó
ufanista de Gilberto Braga, “Pátria Minha”. Mas ao contrário do esperado, o
suspense de Sílvio de Abreu derrubou ainda mais a audiência: o capítulo de
estréia atingiu bons índices - 52 pontos - mas no sábado seguinte, já amargava
a assustadora marca de 35 pontos. Habilidoso, o autor conseguiu pouco a pouco
elevar os números, e no final das contas a novela acabou registrada na história
da teledramaturgia como “um grande sucesso”, graças aos truques de suspense. Porém, o mistério já
está mais do que desvendado, já conhecemos os finais – o original e o
alternativo – e o apelo popular está enfraquecido, portanto.
“Renascer” trouxe um sopro de luz
para o horário das oito, espantando de vez o clima nefasto da antecessora “De Corpo e Alma”, por conta do assassinato de Daniella Perez. A saga rural,
ambientada no interior da Bahia, trazia de volta o melhor de Benedito Ruy
Barbosa para a Vênus Platinada. Satisfeito por ter conseguido provar seu valor
de novelista para a Globo depois do efeito “Pantanal”, em 1990, ele voltou por
cima da carne seca direto para o horário nobre, com a responsabilidade de
superar ou, no mínimo, repetir a repercussão da novela que escreveu para a
emissora concorrente. Logo de cara, os primeiros capítulos arrebataram o
Brasil, que se encantou com as desventuras de José Inocêncio (Leonardo Vieira/
Antônio Fagundes). As sequências antológicas do jovem coronel que vivia entre a
fábula e a realidade, aliadas ao trabalho de direção apurado de Luiz Fernando
Carvalho – com seus enquadramentos incomuns, perscrutando frestas e janelas, sobrevoando
o cenário natural em travellings gigantescos – trouxeram um frescor
cinematográfico para o confortável ambiente da telenovela. As novidades
garantiram os Prêmios APCA e Troféu Imprensa de melhor novela de 1993 e a média
geral consolidada de 60 pontos de audiência.
“Barriga de Aluguel” é a única novela
do Viva com 4 anunciantes: Papel Higiênico Personal, Maionese Hellmans, Iogurte
Activia Danone e Embelleze. Será que os anunciantes torceram o nariz para a
escolha de “A Próxima Vitima” e induziram a troca?
Só sei que, entre todas as possibilidades,
a da “substituição a pedido dos assinantes” me parece a menos provável.

