Por FÁBIO COSTA
No final de 1986, a Rede Globo passava por problemas junto ao Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do Rio de Janeiro (Sated-RJ), que reivindicava que seus afiliados trabalhassem no máximo 36 horas por semana, ou seja, seis horas por dia de segunda-feira a sábado. Assim, enquanto se buscava uma solução para a questão, o horário de novelas das seis foi temporariamente desativado entre novembro de 1986 e fevereiro de 1987, período durante o qual a primeira versão de Sinhá-Moça, de Benedito Ruy Barbosa, foi substituída por uma reprise de Locomotivas, de Cassiano Gabus Mendes, exibida pela primeira vez em 1977 às 19h.
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| Walther Negrão, autor da novela. |
Caso não houvesse meios de manter o horário das seis para produções inéditas de teledramaturgia, provavelmente outras reprises seriam providenciadas após a de Locomotivas ou mesmo outras atrações ocupariam a faixa, mas em 16 de fevereiro de 1987 estreou uma novela inédita, produzida com todo o cuidado para mostrar que os problemas que ameaçaram o horário das seis estavam superados. Baseada em A Noiva das Trevas, radionovela escrita por Janete Clair (1925-1983) na década de 1950 e adaptada aqui por Walther Negrão - com Alcides Nogueira, Marilu Saldanha e Ana Maria Moretzsohn, Direito de Amar trazia como protagonistas os jovens Rosália (Glória Pires) e Adriano (Lauro Corona). Os atores encontravam-se novamente em telenovelas, após formarem pares românticos em Dancin' Days (1978/79) e Louco Amor (1983), ambas de Gilberto Braga.
A história se inicia na virada de 1899 para 1900, o alvorecer de um novo século, e o casal se conhece durante uma festa de Réveillon. Apaixonam-se de pronto, mas não contam com a armadilha inesperada do destino: falido, o industrial Augusto Medeiros (Edney Giovenazzi), pai de Rosália, concede a mão da filha em casamento ao banqueiro Francisco de Monserrat (Carlos Vereza) - por ironia do destino, pai de Adriano. Mesmo apaixonada por Adriano, Rosália tem se de casar com o Senhor de Monserrat, e divide suas angústias e sofrimentos com Leonor (Esther Góes), sua mãe, que não tem como deixar de se compadecer do destino da filha apesar de manter-se ao lado do marido.
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| Os protagonistas de Direito de Amar: Carlos Vereza, Glória Pires e Lauro Corona. |
O Senhor de Monserrat é uma pessoa cruel, mas ama Rosália verdadeiramente e faz tudo para conquistar o amor da moça (a única pessoa que trata com carinho), apesar dos meios pouco usuais de que fez uso para casar-se com ela; com isso Adriano sofre por ver o pai mover mundos e fundos pelo amor da mulher que ele também deseja ter junto de si. Na casa da família vivem ainda Joana (Ítala Nandi), uma mulher enlouquecida que Monserrat maltrata e mantém presa num dos quartos; a governanta Mercedes (Suzana Faíni), extremamente fiel ao patrão; Raimundo (Rogério Márcico) e Berenice (Célia Helena), os caseiros, pais de Rogério (Carlo Briani).
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| Carlos Zara, que viveu o médico Jorge Ramos. |
Um personagem de muito destaque na história é o médico Jorge Ramos (Carlos Zara), amigo de Adriano e desafeto do Senhor de Monserrat, que o odeia devido a desentendimentos no passado, quando os dois disputaram o amor da mesma mulher - Bárbara, a prisioneira que Monserrat chama de Joana. No decorrer da trama revela-se que ela é esposa do banqueiro, que forjou sua morte e prendeu-a para castigá-la após uma traição dela com o Dr. Ramos e pretendia também matar o fruto do adultério, mas mudou de ideia e resolveu criá-lo como filho legítimo. Ou seja, Adriano era filho do médico, um laço descoberto e apenas confirmado após anos de entendimento e identificação - o jovem também pretendia seguir carreira na medicina, influenciado pelo pai que desconhecia sê-lo.
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| Ítala Nandi, intérprete de Bárbara e Joana. |
Havia também a confeitaria que era o ponto de encontro dos personagens de Direito de Amar, de propriedade de Manuel (Elias Gleizer) e Catarina (Yolanda Cardoso), irmã de Leonor. Os dois, representantes do humor da trama, eram pais de Nelo (Rômulo Arantes) e Paula (Cissa Guimarães), a prima invejosa de Rosália que era apaixonada por Adriano e forja uma gravidez para casar-se com o rapaz. Uma das frequentadoras da confeitaria é Carola (Cristina Prochaska), bela, independente, representante dos novos tempos que o século XX prenunciava. Carola morava sozinha e trabalhava fora, o que causava espanto na maioria das pessoas que acreditavam que moças da sua idade e bonitas como ela deviam mais é preocupar-se em arrumar um bom marido e cuidar dele e dos filhos que tivessem. Descobre-se ao final da novela que Carola era filha de uma irmã gêmea da mãe de Adriano, a verdadeira Joana, que vivia em Paris sob o pseudônimo de Nanette, que adotara em sua vida de cortesã.
É claro que ao final o sentimento verdadeiro vence, a prima de mau caráter ganha o castigo que merece e o casal Adriano e Rosália pode enfim viver seu amor plenamente. Quanto ao Senhor de Monserrat, conforme a verdade sobre a esposa e a paternidade de Adriano vem à tona, desafia Jorge Ramos para um duelo a tiros e se deixa matar. A cena foi sugerida pelo ator Carlos Vereza - aqui num de seus melhores desempenhos em toda a carreira - ao autor Walther Negrão, e sua inspiração foi o romance do alemão Thomas Mann A Montanha Mágica. Curioso é lembrar que Vereza recebia diversas cartas de telespectadoras apaixonadas, apesar de seu personagem praticar maldades desde o primeiro capítulo; os autores foram obrigados a intensificar seu caráter vilanesco, mas ainda assim havia quem torcesse pelo Senhor de Monserrat.
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| Carlos Vereza como o vilão da história. |
A novela foi reprisada no Vale a Pena Ver de Novo entre 25 de novembro de 1993 e 25 de fevereiro de 1994, e em tempos de Viva não seria nada mau ter uma nova oportunidade de acompanhá-la, ouvir novamente todos os dias a bela canção da abertura, "Iluminados", interpretada por Ivan Lins: "O amor tem feito coisa/Que até mesmo Deus duvida/Já curou desenganados/Já fechou tanta ferida...". Uma bela história de amor passada num período não muito visitado pela dramaturgia (a virada dos séculos XIX e XX), personagens muito bem construídos, ótima reconstituição de época e um trabalho de adaptação dos originais de rádio digno de elogios. Fica a dica, neste aniversário de 25 anos de uma das melhores e mais saudosas novelas das seis.





