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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Arte de “Remakear”

Por Leonardo Mello de Oliveira

Nunca na história da televisão, os remakes de telenovelas ficaram tão em evidência, chegando até mesmo a ter um horário próprio só pra eles. Odiados por uns, amados por outros, remakes sempre parecem causar mais burburinho que novelas originais. Talvez porque o remake venha com dois objetivos a cumprir: repercutir, assim como qualquer novela, e fazer igual, ou até melhor, que a sua primeira versão. Ele vai causar mais discussão, pois todos vão prestar mais atenção ao elenco (que deve honrar o nome do elenco original), à história (sempre mais vigiada, pois agora estamos em outro tempo, geralmente bem além de quando se passou a primeira versão) e à audiência.


Um dos primeiros remakes de novelas brasileiras foi O Direito de Nascer, em 1978. A Tupi havia criado um verdadeiro fanatismo aos atores de novelas com a primeira versão deste clássico em 1964, e pretendia repetir o sucesso com este remake, reunindo boa parte de seu melhor casting. Porém o sucesso desta não podia nem ser comparado ao da original. Lembrando que a versão de 64 já era baseada na radionovela já exibida no Brasil que era um texto do cubano Félix Caignet já exibido no país de origem de seu autor. O Direito de Nascer ainda ganharia mais uma versão em 2001, dessa vez pelo SBT, porém passou quase que despercebida pelo público.


Talvez o primeiro remake a ser um grande sucesso foi Amor com Amor se Paga (1984), de Ivani Ribeiro, adaptação de Camomila e Bem-me-quer (1972), de mesma autoria. A partir desta lembrada obra, onde Ary Fontoura deitou e rolou com seu Nonô Correia, Ivani passou a apenas adaptar suas antigas novelas, a maioria com títulos diferentes das originais. Em 1985 veio A Gata Comeu, adaptação de A Barba Azul (1974), em 1987 veio Hipertensão, adaptação de Nossa Filha Gabriela (1971), em 89, O Sexo dos Anjos, adaptada de O Terceiro Pecado (1968), em 1993 vem Mulheres de Areia, adaptação homônima de 1973, e em 1994, tivemos A Viagem, remake também homônimo da novela de 1975. Todas alcançaram relevante sucesso, porém A Gata Comeu, Mulheres de Areia e A Viagem superaram o sucesso de suas primeiras versões, estourando na audiência e tendo direito a duas reprises no Vale a Pena Ver de Novo posteriormente.


Janete Clair foi outra autora que teve suas melhores obras adaptadas. Selva de Pedra foi uma das novelas que ganharam remake pouco tempo depois do término da original. A primeira versão foi em 1972, e a segunda em 86. Adaptada por Regina Braga e Eloy Araújo, foi o único remake no horário nobre global, alcançando um relativo sucesso. Em 95 e 98 foi a vez de Irmãos Coragem (1970) e Pecado Capital (1975) ganharem uma nova cara. Porém, não alcançaram as metas esperadas. Além de terem sido muito modificadas pelos adaptadores, foram exibidas no horário das seis, o que descaracterizou as obras. Em 2011, O Astro (1977) ganhou seu remake, inaugurando o horário das onze. A obra, muito bem escrita, interpretada e dirigida, ganhou a crítica e o público e ainda homenageou o jeito Janete Clair de se fazer novela, com muitas cenas de casais apaixonados e clima kitsch.


Nos anos 90, a TV se viu inundada pelos remakes. Além dos já citados de obras de Janete Clair, o SBT resolveu investir pesado em teledramaturgia e começou a produzir belíssimos remakes de época. O primeiro experimento, Éramos Seis, em 1994, conquistou a todos e tudo parecia seguir corretamente para o novo projeto da emissora de Sílvio Santos. Continuou-se a produzir belíssimos remakes, como As Pupilas do Senhor Reitor (1995), Sangue do Meu Sangue (1996) e Os Ossos do Barão (1997), porém, não acompanharam o sucesso de Éramos Seis. Vale lembrar ainda Anjo Mau (1997), adaptação muito bem feita por Maria Adelaide Amaral da original de Cassiano Gabus Mendes.


Nos mais recentes anos 2000, outros remakes foram exibidos, porém nenhum marcou realmente a história da TV. Podemos citar alguns, como as adaptações de Edmara e Edilene Barbosa para as obras de seu pai Benedito: Cabocla (2004), Sinhá Moça (2006) e Paraíso (2009). Há também O Profeta (2006), remake da obra de Ivani Ribeiro feita pela dupla Thelma Guedes e Duca Rachid, e A Escrava Isaura (2004), remake de Thiago Santiago do clássico de 1976, feita pela Record.


Foi em 2010 que os remakes voltaram com tudo, com Tititi. Maria Adelaide Amaral fusionou Tititi (1985) e Plumas & Paetês (1980), duas novelas de Cassiano Gabus Mendes.  O grande êxito desta obra abriu portas para outros remakes e, porque não dizer, para o horário das onze, exclusivo dos remakes. Estreando com O Astro (2011), o horário ainda trouxe duas grandes e bem feitas obras, remakes de clássicos dos anos 70: Gabriela (2012) e Saramandaia (2013). Ainda tivemos Guerra dos Sexos (2012), adaptada da clássica comédia de 83, escrita pelo autor original, Sílvio de Abreu. Diferente dos outros remakes de seu tempo, não obteve êxito nem na crítica nem no público por praticamente ter mantido o mesmo roteiro, que não cabia para os tempos atuais.


Muitos dizem que o remake estraga a obra original. Mas eu lhes pergunto: o que o remake vai interferir no êxito já obtido pela sua primeira versão? Se ele der certo, ótimo, temos mais uma boa novela na história da nossa teledramaturgia, se não der, é uma pena. Cada um tire sua própria conclusão. A obra original continua lá, continua sendo um clássico, lembrada do mesmo jeito. Outros ainda falam que nunca o remake irá superar o primeiro. Mas este nem mesmo é o objetivo. O objetivo é usar uma história já conhecida e criar algo novo a partir disso. Com uma “batalha” de novelas que podem ganhar remake no horário das onze em 2014 e com mais um remake de Benedito Ruy Barbosa, Meu Pedacinho de Chão, para o mesmo ano, esperamos cada vez mais remakes de qualidade e que possam nos agradar tanto quanto suas versões originais.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Janete Clair e o seu instigante Sétimo Sentido

Por André Araújo

Janete Clair era como a própria se definia, uma incorrigível romântica. Mas não uma romântica morna. Suas histórias aconteciam de fato e não havia quem não se impressionasse com seus enredos. Janete era mestra também na arte de criar enredos envolvendo personagens duplos. Sempre funcionou. Escritora de vanguarda, já em seu primeiro trabalho para TV, a autora de “Véu de Noiva” (TV Globo, 1969), brincou com gêmeos, sósias, troca de personalidade, influenciada por Os Irmãos Karamazov de Dostoievsky. Foi assim com Lara e Diana de Irmãos Coragem, com Simone e Rosana de Selva de Pedra, com Hugo e Raul de O Semideus e, na sua última novela das oito, SÉTIMO SENTIDO, vieram as inesquecíveis Luana Camará e Priscila Caprice, que roubaram todas as atenções para si.

A novela era basicamente sobre a marroquina Luana Camará que volta ao Brasil para tentar recuperar sua fortuna, roubada pela família Rivoredo. No passado, Antônio Rivoredo passou para o seu nome os bens dos pais de Luana, quando estes foram obrigados a se exilar por problemas políticos, no período Vargas. O patrimônio da família Camará, no entanto, nunca foi devolvido pelo velho Rivoredo, que morreu devendo prestar essa conta.


A trama, tida por alguns como confusa, gerou polêmicas e a autora enfrentou graves problemas com a censura e a imprensa durante todo o período em que sua história esteve no ar, uma vez que o drama da  protagonista Luana Camará, uma paranormal tão bem interpretada por Regina Duarte, que sofria o transtorno da dupla personalidade, gerou muita controvérsia; a maior de todas: Luana Camará tinha seu corpo tomado pelo espírito da famosa atriz italiana Priscila Caprice, já falecida, que não só se recusava a ir embora, como também se casou com Tião Bento (Francisco Cuoco), arqui-inimigo da aparentemente frágil heroína.


Mestra em valorizar tramas paralelas de todas as suas novelas, desta vez, Janete Clair preferiu apostar tudo na trama principal e não fez feio. Apoiada pelo público, o Brasil inteiro se deliciou com a personagem Luana Camará que, aos vinte e sete anos, retorna ao Brasil, vinda de Casablanca, Marrocos, disposta a recuperar a fortuna de seu pai que, anos antes, havia sido roubado pela inescrupulosa família Rivoredo, os todo-poderosos de PEDRA LINDA (RJ), cenário principal da trama. Como se não bastasse sua luta em reaver tudo que sua família perdera, a pobre heroína se vê em apuros, uma vez que se apaixona pelo bonitão Rodolfo Rivoredo, o Rude (Carlos Alberto Ricelli), um dos três herdeiros do patrimônio que na realidade pertencem à Luana. 


Casado com a possessiva Helenice (Beth Goulart), Rude deixa a esposa para viver sua história de amor com Luana. [A censura não liberava as cenas de amor de Carlos Alberto com Regina Duarte se o personagem do ator não se separasse de fato].


Mesmo disposta a não desistir de sua luta em recuperar os bens que foram roubados de seu pai, Luana não obtém sucesso e se vê obrigada a voltar pro Marrocos. Algum tempo depois retorna, mas já possuída pelo espírito da falecida atriz Priscila Caprice. [A novela entra noutra fase acentuada pela nova personalidade de Luana, que se envolve com Tião Bento, o grande vilão da trama.] Numa cena inesquecível, Tião e Priscila se casam num ritual cigano.


Mas a felicidade dos dois não dura muito e uma nova reviravolta acontece na história: Luana volta a assumir seu corpo e se afasta de Tião, gerando novos conflitos. É quando surge na trama a parapsicóloga Célia (Jacqueline Lawrence), que desvenda o fenômeno vivido por Luana, usando a terapia de regressão de memória. Numa encarnação passada, Luana e Priscila, respectivamente  Luciana e Maria Pia, eram irmãs gêmeas e agora se reencontravam, 72 anos depois, para um acerto de contas, que seria a descoberta do paradeiro da pequena Cila (Isabela Bicalho), filha legítima de Priscila. E isto ocorre depois de um sonho revelador de Luana.

[Cenas do Vídeo Show / you tube]
Com o “desaparecimento” do espírito de Priscila Caprice, que acontece depois do reencontro com sua filha, Luana Camará assume de vez sua própria personalidade e passa a se relacionar novamente com Rude Rivoredo, mas Tião Bento, redimido e apaixonado pela heroína, resolve lutar pelo amor de Luana, que fica indecisa pelos dois. No final, Luana tem uma visão onde um homem é morto a tiro e acredita que se trata de Tião, que está na mira de Jorge (Otávio Augusto), funcionário desonesto das empresas comandadas pelo “marido” de Priscila Caprice. Ela então corre em socorro ao amado, gritando que o ama, mas quando se aproxima do vulto caído no chão entra em choque, pois quem está ali é Rude, que ouvira seus gritos de amor ao rival, optando por sair de cena. Rude, que ficou sabendo da armadilha preparada por Jorge, chegou ao local do encontro disposto a salvar Tião, mas foi confundido com o outro, levou o tiro em seu lugar. O personagem consegue escapar da morte.

[vídeo: Memória da TV]
Luana e Tião ficam juntos, criam a filha de Priscila e ainda se tornam pais de um bebê. Segundos antes da cena final, o espírito de Priscila Caprice aparece no jardim da casa do casal como se estivesse ali para se certificar da felicidade deles e desejar boa sorte. Com um largo sorriso, sua marca registrada, a atriz faz-se notar por Luana  e desaparece.

Mesmo perseguida pela censura Janete Clair levou sua história adiante com sucesso de audiência e muitos aplausos de todo o público. A novela foi exibida entre março e outubro de 1982. SÉTIMO SENTIDO foi a última novela das oito escrita pela novelista, que contou com a colaboração de Sílvio de Abreu em sua reta final.

Com uma média de sessenta pontos de audiência, Sétimo Sentido foi um grande sucesso, mais uma vez ratificando a autora Janete Clair como a grande dama do horário nobre da Rede Globo. Um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira. 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Nem Clair, nem Magadan; ela é Glória Perez


Por Guilherme Fernandes

A riqueza da teledramaturgia brasileira é tão grande que entre os próprios autores de nossa dramaturgia televisiva podemos fazer divisões. Contudo, não é isso que farei. Mesmo acalorado com o drama de “Amor à Vida” resolvi escrever sobre “Salve Jorge”. Aluizio Trinta, meu eterno professor e autor da segunda tese de doutorado em telenovela no Brasil, uma vez disse aos seus alunos que não existe nada mais velho do que uma telenovela que termina de acabar. Se escrevesse, por exemplo, sobre “Sangue e Areia”, estaria dando uma possibilidade de rememoração ou de informação sobre um dos primeiros sucessos da Rede Globo. Escrever sobre “Salve Jorge” (2012-2013), apesar de muito recente, soa um tanto antigo, digo que é mais antigo que escrever sobre “Caminho das Índias” (2009) ou “América” (2005).

Contudo, minhas linhas não serão destinadas a resenhar, elogiar (ou criticar) ou a dizer o que aconteceu ou deixou de acontecer em “Salve Jorge”. Quero, tardiamente, deixar meu manifesto sobre a obra de Glória Perez – em minha opinião nossa maior novelista.
Explico. Como espectador de telenovela que sou, gosto de emoção. Gosto também de suspense. E, me deixa muito satisfeito perceber as diversas reações dos personagens quando o grande plot da trama é desvendado. O cotidiano sem aventura e emoções não me prende, isso não quer dizer que eu não goste de tramas realistas, mas gosto de aguçar minha curiosidade, gosto de me entregar a um romance televisivo. Mocinhos não são o meu forte. Acho sempre as cenas mais chatas. Mas uma novela não funciona sem eles, ou melhor, sem elas.

Glória, a Perez, aprendeu escrever telenovela com a mestra Janete Clair. Janete, em seu leito de morte (sem eufemismo), ditava os diálogos de “Eu Prometo” para Glória, sua colaboradora, que pacientemente datilografava tudo. Clair morreu antes do término da telenovela. Glória, com supervisão de Dias Gomes, terminou a epopeia de Lucas (Francisco Cuoco), Darlene (Dina Sfat) e Kely (Renée de Vielmond). Foi com Clair que Glória aprendeu a sacrificar a realidade em benefício à emoção. Mas, isso não quer dizer que a tramas de Clair não são realistas.


Clair foi responsável pelos maiores sucessos da Rede Globo, seus folhetins paravam (literalmente) o país que sempre acompanhavam o desenrolar de suas histórias. A cada intervalo comercial um gancho era criado e o espectador lá estava para ver o desenrolar. Não raras vezes, seu folhetim ultrapassava os 200 capítulos. A imaginação de Clair era tanta que assim que terminava um folhetim, já estava redigindo outro. Isso sem contar que ao mesmo tempo em que escrevia para a televisão, também fazia algumas fotonovelas para a revista Sétimo Céu.

Após alguns sucessos radiofônicos, Clair foi contratada por Daniel Filho para escrever telenovelas na Rede Globo. O departamento, nesta época, era conduzido pelas mãos (de ferro) de Glória Magadan. O sucesso de Clair, de certa forma, não agradou Magadan, que inclusive dizia que Daniel Filho, que dirigia ao mesmo tempo uma trama de Clair e outra de Magadan dava mais atenção à novata. Apesar de Janete escrever, os enredos eram desenvolvidos à maneira de Magadan. Isso que dizer: exóticos.

Madagan não acreditava que uma história brasileira (realista) poderia ser sucesso. O Brasil, na cabeça de Magadan, não atraia a atenção dos espectadores. Então os cenários mais exóticos como a corte russa, o deserto do saara, as touradas espanholas, etc etc, eram nossos cenários. E Janete assim embarcou. Após o terremoto que dizimou os personagens de “Anastácia, a mulher sem destino”, Janete escreveu “Sangue e Areia” (1968). A história do toureiro Juan Gallardo (Tarcisio Meira), dividido entre o amor da humilde Pilar (Theresa Amayo) e da sofisticada Doña Sol (Glória Menezes) poderia ter passado em branco se não fosse a prova viva de amor que Sol deu a Juan. Sim, a heroína arrancou os próprios olhos e os “entregou” ao amado.


Com a saída (expulsão) de Magadan, Janete pôde finalmente escrever tramas realistas, da mesma forma que já fizera no rádio. Assim, a radionovela “Vende-se um véu de noiva” foi transformada na telenovela “Véu de Noiva” (1969-1970) e inicia-se com fôlego, era da  “telenovela verdade” no plim plim.


Contudo, essa “verdade” é bem relativa. Apesar de ambientada no Rio de Janeiro da época, de abordar assuntos recentes como o automobilismo, coisas absurdas (porém emocionantes) aconteciam. E foi assim que Clair continuou. Vale tudo para emocionar (e criar suspense) o telespectador.

Glória Perez aprendeu essas lições. Desde que escreveu “O Clone” (2001) as telenovelas de Perez foram comparadas com as de Magadan. Perez também utilizou cenários exóticos, como o Marrocos, a Índia e agora a Turquia (especialmente a cidade subterrânea da Capadócia). Apesar das distâncias geográficas praticamente não existirem (afinal, quem em Istambul vai a Capadócia de taxi, ou aparece andando de bicicleta e de repente está trabalhando no comércio da mais importante cidade turca?!). Mera bobagem.

As tramas de Perez não têm nada em comum com as de Magadan. Perez retrata a realidade brasileira, especialmente os problemas sociais. O exótico é apenas outro cenário que se liga imediatamente ao Brasil. Outra cultura é mostrada. A “planetarização” ganha fôlego na obra de Perez que mostra o mundo além das praias do Rio de Janeiro. Perez escreve telenovela e não documentário.

Se Clair era realista e inaugurou no âmbito da Rede Globo a “novela verdade”, Perez foi além. Perez mostrou mais que a realidade, mostrou o que ainda estava por vir. Vamos relembrar. Alguém acha que em 1990 se falava em “Barriga de aluguel” ou “gravidez in vitro” [sem considerar que a sinopse é de meados dos anos 80], em 1992 em transplante de órgãos? Ela foi taxada de maluca ao promover diálogos virtuais entre Dara e Igor/ Dara e Júlio, com o uso de computador. Ou alguém acha que o ICQ existia em 1995?!


Glória também (re)criou o merchandising social. Ela não fazia merchan, e sim campanhas – até mais eficientes que as governamentais. Foi o transplante de órgãos em “De Corpo e Alma”, as crianças desaparecidas e as mães da Cinelândia em “Explode Coração”, os deficientes visuais em “América”, a esquizofrenia em “Caminho das Índias” e o tráfico humano em “Salve Jorge” – entre outras tantas ações.


Em verdade, Perez sabe o que é uma telenovela, sabe que o espectador gosta de emoção. Porém, ela vai além, ele cumpre uma função social e educativa. Mostra outras culturas e outras realidades. Questionar o uso da língua portuguesa é um mero desvio. Ou alguém acha que uma telenovela legendada teria alguma função?!


Os diversos sacrifícios à lógica, em nada atrapalharam o enredo. Salve Jorge cumpriu sua missão. Basta percebermos as diversas “Wandas” que foram presas após o início do folhetim. Os depoimentos reais, recorrentes desde “Explode Coração”, foi um plus a mais. É a certeza que isso é sim uma realidade.



Furos no roteiro existiram sim. E o que mais me incomodou foi o “cabelo bipolar” de Morena. Mas esse e alguns outros fugiram a alçada de Perez. É o ritmo industrial de se fazer telenovela, totalmente diferente da produção cinematográfica (que também apresenta, por vezes, as mesmas falhas). Salve Jorge, Salve Glória! Que venham os próximos folhetins.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Janete Clair: a artesã da emoção em revista

“Nossa Senhora das Oito” é homenageada em DVDs, reprises e fan page no Facebook

Por Júlio César Martins



Se estivesse entre nós, Janete Clair completaria 88 anos em 25 de abril. E sem dúvida, estaria a pleno vapor fazendo o que mais lhe dava prazer na vida: escrevendo novela. Infelizmente, Janete teve sua vida precocemente interrompida em 1983. E mesmo debilitada, no leito do hospital, foi incapaz de abandonar sua grande paixão. A paixão que ela própria tornou nacional. Um motivo de orgulho para o Brasil que já era o país do futebol e do carnaval, e incorporou mais um adjetivo: o de país da telenovela.

Trinta anos se passaram, e ela continua viva na memória dos que conheceram sua obra. Seu nome é o mais importante dentro do processo de consolidação da teledramaturgia brasileira. E se hoje a telenovela é considerada paixão nacional e carro-chefe da programação da maior emissora do país, isso se deve em grande parte a sua entrega, a sua intuição e a comunicabilidade precisa das suas criações. Impossível falar de telenovela no Brasil e não citar Janete Clair como principal referência. E por mais que possa soar injusto com grandes dramaturgos merecidamente reconhecidos como Ivani Ribeiro, Walter George Durst, Vicente Sesso, Bráulio Pedroso e até mesmo o próprio marido, o premiado Dias Gomes, o fato é que o nome de Janete se estabeleceu como sinônimo do gênero telenovela.


      Véu de Noiva”, “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra”, “Pecado Capital”, “O Astro”, “Pai Herói”: novelas emblemáticas que consolidaram a liderança da TV Globo no horário nobre e fizeram de Janete Clair um ícone imortal. Sua ótica atemporal segue rendendo releituras que, se não alcançam a mesma repercussão de antigamente, nunca passam despercebidas aos olhos dos telespectadores. Recentemente, duas de suas novelas mais importantes foram relançadas em DVD pela Globo Marcas: “Irmãos Coragem” e “Selva de Pedra”, surpreendendo pelas vendas expressivas. Em paralelo, o Canal Viva programou para este ano a reprise de dois remakes de criações da autora: “Pecado Capital”, de 1998, e “Selva de Pedra” exibida em 1986. E em nota recente, a TV Globo anunciou para o horário das 23h uma nova versão de "O Semideus", escrita por Maria Adelaide Amaral. O projeto está previsto para a grade de 2015, ano em que Janete Clair comemoraria 90 anos.

E em tempos de redes sociais, nada mais justo do que a criação de uma fan page idealizada para exaltar a memória desta verdadeira operária da ficção. Criada pela neta Renata Dias Gomes a pedido do pai – ela é filha do músico Alfredo Dias Gomes e da atriz Neuza Caribé – a fan page resgata páginas de revistas, entrevistas, fotos da autora, fotos e vídeos de cenas das novelas e até páginas de textos que constam no acervo da família. Renata, que tem 29 anos e é roteirista de TV contratada pela Globo, não chegou a conhecer a avó: “Eu não tinha a noção exata do quão importante ela foi. Eu sabia por ter ouvido falar, mas não vivenciei isso, então senti essa necessidade de descobrir a minha avó. E tem sido maravilhoso pra mim. A minha geração não sabe exatamente quem foi Janete Clair e a fan page surgiu a partir desta preocupação em resgatar a sua importância.”

Renata Dias Gomes
André Araújo, de 42 anos e colaborador da fan page, cresceu diante da TV e era fã das novelas de Janete Clair. “As pessoas se referiam a Janete Clair como sinônimo de novela boa, uma marca registrada. Depois que ela morreu, as novelas perderam a graça.”

Eduardo Dias, 49 anos, também vivenciou a “era de ouro” de Janete Clair: “A programação da TV era bem restrita. Tinham poucos canais. A primeira novela que eu assisti foi “Véu de Noiva”. A novela foi marcante, pois perto do final rolava um julgamento, e isso mobilizou o país. Foi uma coisa de louco! Eu estava no pré-primario e as crianças daquela época já trocavam idéias sobre novelas. Mas a minha preferida mesmo foi Pecado Capital.”

Thávolo Henriques, que nasceu em 1987 e tem, portanto, 26 anos, se encantou pela personalidade e pela obra da autora a partir de pesquisas que fez ao longo da infância e adolescência. “Sou fã dos ensinamentos e filosofia de Janete Clair, considero-a uma espécie de mentora. Decidi investir na carreira de roteirista influenciado pela mesma paixão que ela tinha pelo gênero, me identifico com ela.”

A fan page compartilha verdadeiras raridades: um vasto acervo de fotografias, entrevistas raras de publicações extintas (como as revistas Cartaz, Manchete e Amiga), vídeos com cenas e capítulos das novelas e até trechos do depoimento da autora ao MIS – Museu da Imagem e do Som – estão disponíveis através das publicações na página. É o avanço tecnológico a serviço da memória da novelista de maior importância da história da televisão. Homenagem mais do que merecida àquela que, por tantas vezes, hipnotizou o Brasil às oito da noite, e que pode ser considerada a “padroeira” da telenovela brasileira.

O endereço da fan page no Facebook é:
http://www.facebook.com/janeteclairoficial

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Da televisão à literatura: as novelas que deram origem a livros


Por FÁBIO COSTA

É muito comum que o universo da literatura, especialmente a brasileira clássica, origine adaptações de grande sucesso na televisão e no cinema. Atualmente podemos atestar a validade da afirmação de terça a sexta-feira às onze da noite, com mais uma versão de Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, adaptado agora por Walcyr Carrasco. A Escrava Isaura, romance de Bernardo Guimarães, deu origem a duas telenovelas de sucesso, sendo a primeira delas (1976/77) um fenômeno de exportações para sempre presente no imaginário do público. O horário das 18h da Rede Globo foi dedicado durante quase dez anos apenas a adaptações. E exemplos são muitos.
No entanto, não é com a mesma frequência que surgem obras no caminho inverso: livros surgidos de telenovelas. Talvez seja porque não se acredita que o leitor quererá ter nas mãos uma história da qual já conhece o desenrolar e o desfecho após tê-la assistido na televisão. Além, é claro, do desafio que é adaptar um número de páginas que chega aos milhares para uma versão muito menor e sem a possibilidade de tantos detalhes e diálogos, narrando os acontecimentos. Por outro lado, ainda que hoje em dia existam os DVDs, os blu-rays, a internet, a história da novela contada em livro é uma maneira a mais de perpetuá-la e, por que não, de torná-la respeitável a uma parcela da intelectualidade que ainda hoje, passados doze anos do século XXI, renega suas qualidades e sua importância no panorama cultural brasileiro.

Capa da adaptação de Ídolo de Pano, de Teixeira Filho.
Ainda na década de 1960 temos notícia de uma novela que devido ao sucesso é adaptada para o formato de romance literário: A Deusa Vencida (1965), de Ivani Ribeiro, originou um livro de grande vendagem publicado pelas Edições O Cruzeiro. No início da década de 1970 a Editora Bruguera, do Rio de Janeiro, publicou algumas novelas em romances cujos fascículos eram vendidos periodicamente nas bancas de jornal, dentre as quais Irmãos Coragem (1970/71) e O Homem que Deve Morrer (1971/72), ambas de Janete Clair. Nos anos 70, algumas novelas da Rede Tupi também deram origem a livros, como foi o caso de Ídolo de Pano (Abril), em adaptação do próprio autor Teixeira Filho, e A Viagem (Bels), de Ivani Ribeiro. Em 1980 Leonor Bassères escreveu o livro baseado nos scripts de Gilberto Braga e Manoel Carlos para Água Viva, que se tornou best seller.

Quarta capa de um dos volumes de As Grandes Telenovelas, trazendo a coleção completa.
Em 1985 ocorreu uma das iniciativas mais bem-sucedidas nesse campo, senão a mais. Junto ao sabão em pó Omo, foi lançada pela Editora Globo (através do selo Rio Gráfica e Editora) a coleção As Grandes Telenovelas, que contava com doze livros que adaptavam para o formato de romance novelas de sucesso da Rede Globo exibidas entre 1970 e 1983, a saber: Irmãos Coragem, Pecado Capital e Pai Herói, de Janete Clair; Anjo Mau, Locomotivas e Marron Glacé, de Cassiano Gabus Mendes; Dancin’ Days, Água Viva e Louco Amor, de Gilberto Braga; Carinhoso e Escalada, de Lauro César Muniz; e O Bem-amado, de Dias Gomes. Os livros vinham embalados junto às caixas de sabão, e era possível escolher os que interessavam para completar a coleção.
Capa de uma versão de Água Viva em livro.
Entre 1987 e 1988 a Editora Globo lançou uma série de proposta semelhante nas bancas: Campeões de Audiência – Telenovelas, que relançou alguns títulos e substituiu outros, contando também com doze livros. Irmãos Coragem, Pecado Capital, Pai Herói, Anjo Mau, Locomotivas, Dancin’ Days, Água Viva e Escalada foram mantidos, enquanto Bandeira 2, Roque Santeiro, Guerra dos Sexos e Roda de Fogo substituíram O Bem-amado, Marron Glacé, Louco Amor e Carinhoso. Junto com o primeiro volume (Roque Santeiro) foi distribuído aos leitores um marcador de página que trazia a novela a ser lançada em seguida (Roda de Fogo) e os títulos de outras dezoito telenovelas que comporiam a série, no total de vinte títulos. Até hoje não foram lançados os oito livros restantes, dentre os quais prometiam-se O Espigão, Saramandaia e até Selva de Pedra numa “versão não censurada” (em alusão à censura sofrida por Janete Clair, que não pôde desenvolver a história como gostaria).
Quase todos os livros foram escritos pelo jornalista Eduardo Borsato, que adaptava as tramas das novelas a partir dos scripts originais dos capítulos cedidos pelos autores. Compartilhando uma experiência pessoal, posso dizer que gosto muito de todas as adaptações que pude ler e sem dúvida o trabalho de Borsato (e de outros adaptadores como Maria Helena Muniz de Carvalho e Lafayette Galvão) me ajudou a saber mais sobre o desenvolvimento das histórias das novelas e admirá-las ainda mais, com maior “conhecimento de causa”, por assim dizer, embora não tenha ainda podido (e quem sabe nem mesmo venha a poder) assisti-las.
Vale Tudo também teve lançada uma versão literária em 1989, logo após o término de sua exibição. O livro, mais uma adaptação feita por Eduardo Borsato, trazia além da revelação de Leila como assassina de Odete Roitman desfechos para o mistério que mobilizou o Brasil. Num dos finais, é Maria de Fátima quem mata Odete; noutro, o assassino é César. Já em 1992 foi a vez de um projeto que não vingou: o Globo Novela, com o qual a Editora Globo lançou um livro com a história de Pedra Sobre Pedra e que veio acompanhado de uma revista com os bastidores da novela. A coleção ficou apenas nesse título e durante mais de dez anos não se lançou nada semelhante.


Capa do livro com a versão de Selva de Pedra feita por Mauro Alencar para a coleção Grandes Novelas.
Até que em 2007 chegou às livrarias o primeiro volume da coleção Grandes Novelas, da mesma Editora Globo: Selva de Pedra, a clássica história de amor de Cristiano e Simone em meio aos desafios da vida na cidade grande, foi adaptada por Mauro Alencar a partir do original de Janete Clair. Posteriormente foram lançados outros quatro títulos, também escritos por Mauro: O Bem-amado, Pecado Capital, Roque Santeiro e Vale Tudo. Os livros da coleção Grandes Novelas têm formato de bolso e preço acessível (em média quinze reais cada), e podem ser encontrados. Ótima chance para conhecer essas novelas, apesar de duas terem sido recentemente reprisadas pelo Viva, ou para relembrá-las, numa plataforma diferente da TV, mas que conserva a atemporalidade dos personagens e entrechos dramáticos que prendem a atenção e nos fazem ansiar por finais felizes aos mocinhos e punições aos vilões. E que sejam lançados mais livros baseados em telenovelas. Boas histórias a contar (ou recontar) não faltam e certamente há público para tal empreitada.

Capa do livro com a versão de Roque Santeiro feita por Mauro Alencar para a coleção Grandes Novelas.

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