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terça-feira, 21 de maio de 2013

“Amor à Vida” aposta no drama rasgado e promete bom espetáculo

Walcyr Carrasco surpreende em sua estreia no horário nobre


Walcyr Carrasco terá a difícil missão de alavancar a audiência derrubada por "Salve Jorge"
por Júlio César Martins

                Autor de diversos sucessos de gosto duvidoso nos horários das seis e das sete, Walcyr Carrasco demonstrou total domínio de seu ofício em “Amor à Vida”, a nova novela das nove da TV Globo. O primeiro capítulo apresentou um roteiro ágil, arrojado, devidamente ajustado às atuais exigências de público e mercado. A direção apurada, igualmente preocupada em surpreender, fugiu do habitual e fez bonito, sem nada a dever aos seriados americanos com relação à formatação estética.

                Em 80 minutos, conhecemos o drama de Paloma (Paolla Oliveira), uma patricinha de temperamento romântico que rompe com seu universo aristocrático e se atira de cabeça em um romance inviável com o libertário Ninho (Juliano Cazarré), que conheceu durante uma viagem ao Peru em companhia da família. Logo se vê grávida e, sem dinheiro, planeja voltar com ele à tiracolo para o Brasil – sob risco de total desaprovação dos pais. Mas, para seu infortúnio, o rapaz é preso por tráfico no momento do embarque. Sem alternativa, Paloma retorna para a casa dos pais, carregando no ventre o resultado de sua inconsequência. E nem percebe que está sendo habilmente manipulada pelo irmão, Félix (Mateus Solano), o lobo na pele de cordeiro, que conhece bem as fragilidades da irmã e consegue convencê-la de esconder da família a tal gravidez.

Paloma (Paolla Oliveira) rompe relações com a família para viver um romance com o mochileiro Ninho (Juliano Cazarré)

                      Assim, Félix consegue libertar da cadeia o namoradinho de Paloma e convencê-la de ir morar no Rio de Janeiro com o rapaz, de modo que a presença dela não interfira em seus planos de se tornar o sucessor natural do pai nos negócios da família - um hospital. Porém, a farsa da gravidez é descoberta, o pai (Antônio Fagundes) tem, literalmente, um ataque – cardíaco – e o príncipe encantado da moça logo se revela um sapo de brejo (ou de breja?). Sozinha, ela sente as dores do parto e desmaia antes de conseguir socorro, dentro de um banheiro de bar. Ajudada por Márcia (Elizabeth Savalla), ela dá luz a criança ali mesmo e perde os sentidos. Félix consegue encontrar a irmã e, julgando-a morta, leva o bebê e o abandona em uma caçamba de lixo. Bruno (Malvino Salvador), que acabara de perder a mulher e o filho na mesa de parto, encontra a criança, acreditando se tratar de "uma nova chance de Deus". Piegas, mas OK, é novela.

                Ainda é cedo para prever a repercussão que a novela vai alcançar, mas se a qualidade apresentada se estender ao longo dos 180 capítulos previstos, teremos um baita dramalhão brasileiro em moldes internacionais. O capítulo de estreia procurou concentrar as energias nos acontecimentos que desencadeiam todo um imbróglio relacionado ao núcleo principal, e ainda há muitos personagens e tramas a caminho, previstos para a segunda fase da estória. Portanto, é impossível emitir um parecer mais aprofundado sobre a novela com base apenas no primeiro capítulo. Dramaturgicamente falando, nada de muito novo, nem de inusitado, exceto pela preferência sexual do principal mau-caráter da novela, que promete divertir e indignar o espectador em níveis estratosféricos. Uma chance de ouro para Mateus Solano.

Félix, personagem de Mateus Solano, já ostenta o carinhoso apelido de "Bicha má" nas redes sociais

                    A bola fora ficou por conta da abertura: criada pelo animador de filmes de ação Ryan Woodward, por pouco não destoa do clima pretendido para a novela, apesar da  coreografia dramática executada pelos bailarinos animados. A interpretação equivocada de Daniel para "Maravida" é de dar nos nervos. E os créditos, ininteligíveis.



terça-feira, 16 de abril de 2013

Janete Clair: a artesã da emoção em revista

“Nossa Senhora das Oito” é homenageada em DVDs, reprises e fan page no Facebook

Por Júlio César Martins



Se estivesse entre nós, Janete Clair completaria 88 anos em 25 de abril. E sem dúvida, estaria a pleno vapor fazendo o que mais lhe dava prazer na vida: escrevendo novela. Infelizmente, Janete teve sua vida precocemente interrompida em 1983. E mesmo debilitada, no leito do hospital, foi incapaz de abandonar sua grande paixão. A paixão que ela própria tornou nacional. Um motivo de orgulho para o Brasil que já era o país do futebol e do carnaval, e incorporou mais um adjetivo: o de país da telenovela.

Trinta anos se passaram, e ela continua viva na memória dos que conheceram sua obra. Seu nome é o mais importante dentro do processo de consolidação da teledramaturgia brasileira. E se hoje a telenovela é considerada paixão nacional e carro-chefe da programação da maior emissora do país, isso se deve em grande parte a sua entrega, a sua intuição e a comunicabilidade precisa das suas criações. Impossível falar de telenovela no Brasil e não citar Janete Clair como principal referência. E por mais que possa soar injusto com grandes dramaturgos merecidamente reconhecidos como Ivani Ribeiro, Walter George Durst, Vicente Sesso, Bráulio Pedroso e até mesmo o próprio marido, o premiado Dias Gomes, o fato é que o nome de Janete se estabeleceu como sinônimo do gênero telenovela.


      Véu de Noiva”, “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra”, “Pecado Capital”, “O Astro”, “Pai Herói”: novelas emblemáticas que consolidaram a liderança da TV Globo no horário nobre e fizeram de Janete Clair um ícone imortal. Sua ótica atemporal segue rendendo releituras que, se não alcançam a mesma repercussão de antigamente, nunca passam despercebidas aos olhos dos telespectadores. Recentemente, duas de suas novelas mais importantes foram relançadas em DVD pela Globo Marcas: “Irmãos Coragem” e “Selva de Pedra”, surpreendendo pelas vendas expressivas. Em paralelo, o Canal Viva programou para este ano a reprise de dois remakes de criações da autora: “Pecado Capital”, de 1998, e “Selva de Pedra” exibida em 1986. E em nota recente, a TV Globo anunciou para o horário das 23h uma nova versão de "O Semideus", escrita por Maria Adelaide Amaral. O projeto está previsto para a grade de 2015, ano em que Janete Clair comemoraria 90 anos.

E em tempos de redes sociais, nada mais justo do que a criação de uma fan page idealizada para exaltar a memória desta verdadeira operária da ficção. Criada pela neta Renata Dias Gomes a pedido do pai – ela é filha do músico Alfredo Dias Gomes e da atriz Neuza Caribé – a fan page resgata páginas de revistas, entrevistas, fotos da autora, fotos e vídeos de cenas das novelas e até páginas de textos que constam no acervo da família. Renata, que tem 29 anos e é roteirista de TV contratada pela Globo, não chegou a conhecer a avó: “Eu não tinha a noção exata do quão importante ela foi. Eu sabia por ter ouvido falar, mas não vivenciei isso, então senti essa necessidade de descobrir a minha avó. E tem sido maravilhoso pra mim. A minha geração não sabe exatamente quem foi Janete Clair e a fan page surgiu a partir desta preocupação em resgatar a sua importância.”

Renata Dias Gomes
André Araújo, de 42 anos e colaborador da fan page, cresceu diante da TV e era fã das novelas de Janete Clair. “As pessoas se referiam a Janete Clair como sinônimo de novela boa, uma marca registrada. Depois que ela morreu, as novelas perderam a graça.”

Eduardo Dias, 49 anos, também vivenciou a “era de ouro” de Janete Clair: “A programação da TV era bem restrita. Tinham poucos canais. A primeira novela que eu assisti foi “Véu de Noiva”. A novela foi marcante, pois perto do final rolava um julgamento, e isso mobilizou o país. Foi uma coisa de louco! Eu estava no pré-primario e as crianças daquela época já trocavam idéias sobre novelas. Mas a minha preferida mesmo foi Pecado Capital.”

Thávolo Henriques, que nasceu em 1987 e tem, portanto, 26 anos, se encantou pela personalidade e pela obra da autora a partir de pesquisas que fez ao longo da infância e adolescência. “Sou fã dos ensinamentos e filosofia de Janete Clair, considero-a uma espécie de mentora. Decidi investir na carreira de roteirista influenciado pela mesma paixão que ela tinha pelo gênero, me identifico com ela.”

A fan page compartilha verdadeiras raridades: um vasto acervo de fotografias, entrevistas raras de publicações extintas (como as revistas Cartaz, Manchete e Amiga), vídeos com cenas e capítulos das novelas e até trechos do depoimento da autora ao MIS – Museu da Imagem e do Som – estão disponíveis através das publicações na página. É o avanço tecnológico a serviço da memória da novelista de maior importância da história da televisão. Homenagem mais do que merecida àquela que, por tantas vezes, hipnotizou o Brasil às oito da noite, e que pode ser considerada a “padroeira” da telenovela brasileira.

O endereço da fan page no Facebook é:
http://www.facebook.com/janeteclairoficial

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

“Rainha da Sucata” faz a festa dos saudosistas no Canal Viva!

Lambada tempera a rivalidade entre a noveau rich cafona e a aristocracia decadente na Era Collor!

Glória Menezes, Tony Ramos e Regina Duarte
por Júlio César Martins

Nesta segunda, 21 de janeiro, o Canal Viva recicla na tela da TV a fábula da sucateira e sua corte. Exibida originalmente em 1990 pela Rede Globo, “Rainha da Sucata” reuniu um elenco estelar, nunca antes visto em uma mesma novela. Lançada em meio às comemorações dos 25 anos da emissora, foi a primeira trama das oito escrita pelo então rei da comédia, Sílvio de Abreu. Repetindo a consagrada parceria com o diretor Jorge Fernando, a intenção era importar um pouco do clima do horário das sete para o horário nobre, pegando carona no êxito do bom humor explorado pela antecessora, “Tieta”. Apesar de ser lembrada nos dias de hoje como um grande sucesso, “Rainha da Sucata” enfrentou alguns percalços que reverberaram na audiência ao longo da exibição original.

A trama gira em torno de Maria do Carmo (Regina Duarte), uma mulher de origem pobre, filha de portugueses, mas com excelente faro para negócios e que acaba enriquecendo. Apesar de ser uma empresária bem-sucedida, não consegue o status social que deseja e recorre a socialite Laurinha Albuquerque Figueiroa (Glória Menezes), que, apesar de falida, ainda frequenta as colunas sociais. Uma vai usar a outra para alcançar seus objetivos. O elo entre as duas é Edu Figueiroa (Tony Ramos), enteado de Laurinha e grande paixão de Maria do Carmo na juventude. Ele é um playboy internacional que, inconformado com a falência da família, tenta o suicídio. Logo se promove um casamento de fachada entre Edu e Maria do Carmo, para satisfazer o jogo de interesses.

Pego de surpresa pelo Plano Collor às vésperas da estréia, o autor Sílvio de Abreu teve que reler 900 páginas dos 30 primeiros capítulos já escritos para refazer cenas e diálogos, contextualizando a novela de acordo com a situação econômica no país no momento. Assim, a empresária de sucesso aparece afogada em desconfortos provocados pelo recente baque econômico: a drástica redução no consumo por conta dos confiscos afetou a venda de carros de sua concessionária, a Do Carmo Veículos, instalada num luxuoso prédio na Avenida Paulista - o coração econômico de São Paulo. Para driblar as circunstâncias, ela inaugura a “Sucata”, uma casa de shows no último andar do prédio de sua revendedora - mais tarde transformada numa lambateria para ricos.

Banner promocional do Canal Viva, divulgando a reprise de "Rainha da Sucata"
Sílvio de Abreu contou com a assessoria de texto da socialite Danuza Leão, que sugeria situações e até frases para os personagens ricos da novela, garantindo a coerência nos costumes e deslizes dos personagens deste universo. A partir do capítulo 36, Sílvio escreveria "Rainha da Sucata" em colaboração com José Antônio de Souza, porém, a necessidade de reescrever os capítulos iniciais fez com que o autor perdesse a frente de capítulos. Acostumado a escrever capítulos de novelas das sete, Sílvio estava entregando scripts mais curtos do que o de costume para o horário, justamente quando a Globo tinha intenção de conter a ascensão progressiva de audiência da novela da concorrência, “Pantanal”. A estratégia era esticar o Jornal Nacional e “empurrar” os capítulos de “Rainha da Sucata” para que terminassem um pouco mais tarde, levando as duas novelas a concorrer por algum tempo. Posteriormente, a novela passou de 45 para 60 minutos diários.

Capa ilustrando a predileção da imprensa especializada por "Pantanal"
Gilberto Braga, colega de profissão e amigo pessoal de Sílvio de Abreu, soube por acaso que, exatamente neste período, o irmão de Silvio estava muito doente e que os capítulos da novela estavam atrasados. O próprio Gilberto esclareceu: “- Liguei para ele, que me disse que o irmão estava em fase terminal. Sílvio acordava, ia para o hospital, ficava um pouco com o irmão, voltava para casa, escrevia a novela, ia ao hospital de novo. A vida dele estava um caos, e a novela, atrasada. Eu me ofereci para ajudá-lo e trabalhei com ele durante duas semanas. Novela é feita em blocos de seis capítulos, e o Silvio fez um resumo de história para um bloco, que eu peguei para escrever. Ao mesmo tempo, ele escrevia o bloco seguinte. Conseguimos fazer 12 capítulos, e botamos a novela em dia.”

Após a participação do amigo, Sílvio contou com a colaboração de Alcides Nogueira, até o final. Na guerra pela audiência, foi constatado que o horário das 20h não se adequava tão bem a comédia e o autor converteu a história em um grande drama, com toques de suspense, recheado de referências cinematográficas.

Para reforçar a direção da novela, entraram Mário Márcio Bandarra e Fábio Sabag.  Em depoimento ao “Memória Globo”, Sabag declarou: “- Eu entrei em uma época de crise na novela, quando o “Pantanal” começou a querer aparecer. O Daniel Filho me chamou primeiro, porque queria que eu modificasse algumas coisas da novela. Ele disse assim: ‘A Regina Duarte tem que aparecer nos finais dos blocos, início de blocos. Temos que mexer nisso. Algumas coisas são muito arrastadas, são lentas.’ Então, eu pegava o capitulo, lia, pegava o capítulo montado e, na minha sala, eu ia marcando, cronometrando, tirando. Às vezes, eu tirava até oito minutos de coisas, de pausa, mudava as posições das cenas da Regina. Ela sempre fechava bloco, abria o bloco. Isso criou um problema sério com o Silvio de Abreu, porque ele me telefonava irritado. Claro, como autor, ele tem o seu direito. Eu dizia: ‘Fala com o Daniel, porque eu estou atendendo a uma recomendação dele.’ É muito simples pegar um trabalho feito e dizer onde está um pouquinho demais, onde deve mudar, porque você está vendo. Você não dirigiu, você está assistindo. E criticar é muito mais fácil.”


 Chamada do quarto capítulo da novela, anunciando a exibição meia hora mais tarde

Causou burburinho também a cena em que Cláudia Raia, fora de forma, aparece nua, segurando um peixe. A imprensa acusou a Globo de tentar pegar carona na onda de nudismo que alavancava a audiência de "Pantanal". A atriz foi vítima de bullying por parte dos jornalistas, que debocharam por considerá-la gorda para a cena.

“Rainha da Sucata” exibiu ainda o que foi considerado o primeiro suicídio explícito da TV brasileira. O tema, considerado tabu, até então era habitualmente tratado de forma velada no horário nobre da TV. Várias vezes sugerido, mas até então nunca retratado abertamente pelas câmeras. Após discutir e arrancar os brincos de sua rival Maria do Carmo, Laurinha Figueiroa se joga do prédio e sela com a morte sua derrocada amorosa e financeira. “Coisas de Laurinha”. Antológico.

Aracy Balabanian marcou época com sua inesquecível dona Armênia, que para provar sua autoridade como proprietária do terreno onde está a “Sucata”, promove sua implosão. E todo o Brasil riu com seu hilariante bordão "quero ver a prédio na chon".

Estreia às 0h15m, com reprise ao meio-dia.
Direção de Jorge Fernando, Jodele Larcher, Fábio Sabag e Mário Márcio Bandarra

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"Salve Jorge", enfim, começa!!!

A chegada de Morena na Turquia marca a primeira grande virada da novela das nove!


"Salve Jorge": Morena (Nanda Costa) se desespera e dá uma surra em Wanda (Totia Meirelles)

Por Júlio César Martins

     Depois de afugentar os órfãos de "Avenida Brasil" com uma narrativa ultrapassada, tramas dispensáveis e a nítida sensação de deja vú, "Salve Jorge" finalmente exibiu no capítulo 38 - exibido em 4 de dezembro - a chegada de Morena (Nanda Costa) na Turquia e sua reação ao descobrir a farsa engendrada por Wanda (Totia Meirelles). O evento rendeu uma cena antológica, uma surra pra ninguém botar defeito, do jeito que o povo gosta.

    Mas, ao que tudo indica, a novela está longe de estabelecer o ritmo desejável para alçar vôos mais altos no Ibope. O capítulo seguinte passeou pelo "mais do mesmo", descompromissadamente. Morena apareceu em duas cenas e o gancho do final do capítulo não esteve relacionado diretamente aos protagonistas. Com personagens "saindo pelo ladrão", a autora encontra dificuldades em concentrar as tramas no núcleo principal, pulverizando as ações, arrastando a novela. A sensação é de que a trama padece pela falta de planejamento estratégico, dando a impressão de que a autora escreve ao sabor dos acontecimentos.

      Mesmo após a pesquisa feita com o grupo de telespectadores (procedimento de praxe da TV Globo quando as novelas patinam na audiência), Glória Perez avisou que não vai enxugar subtramas nem personagens, alegando que todos são necessários. A postura - suicida, a meu ver - dá indícios de que a trama central não vai render tanto quanto se espera, condenando "Salve Jorge" ao posto daquela novela que "poderia ter sido, mas não foi".

      Talvez seja hora de Glória Perez lançar mão de um truque da mentora Janete Clair para ajustar a novela: uma tragédia catastrófica, aos moldes de um terremoto, para enxugar as tramas paralelas e reordenar a relevância dos personagens e acontecimentos. Porém, vale lembrar que é comum às novelas de Glória Perez uma rejeição inicial que acaba se convertendo em um grande sucesso conforme o desenrolar dos capítulos. Experiente, a autora sinaliza o quanto confia em sua sensibilidade - e é provável que esteja certa.

      O que te incomoda e o que te entusiasma em "Salve Jorge"? Comente.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

“Balacobaco”: planejamento estratégico equivocado prejudica lançamento

por Júlio César Martins

Gisele Joras e Edson Spinello, autora e diretor de "Balacobaco"
Duas marginais adolescentes roubam um carro, levando consigo a moça que estava no banco do carona. Elas agridem e ameaçam a jovem que, desesperada, se atira para fora do carro em movimento, em plena Avenida Presidente Vargas. A moça sobrevive, e as assaltantes perdem o controle do veículo, causando um acidente de pouca gravidade. As marginais são delatadas pela vítima e ficam um ano presas em um reformatório, sofrendo toda sorte de humilhações. Obcecadas com a idéia de se vingar da moça – de quem se consideram vítimas, subvertendo a moral da história – elas farão de tudo para acabar com a vida da pobre mulher. Esta é – ou pelo menos parece ser - a trama central de “Balacobaco”, a nova aposta da teledramaturgia da Record.

“Balacobaco” estreou com a ingrata tarefa de recuperar a audiência espantada pela antecessora, “Máscaras”.  Elaborada às pressas para conter a vertiginosa queda de audiência do horário, é notório que a novela não teve o tempo necessário para maturação. Apesar da trama interessante, o resultado rendeu um capítulo de estréia confuso, com cenas dispensáveis, diálogos medíocres estruturados a partir de bajulações, banalidades, bobagens e descrições intermináveis de ações passadas e personalidades. Personagens superficiais e caricatos que, ao invés de viverem os dramas que a história precisa contar, passam a maior parte do tempo falando de si e dos outros.

A Record pecou na promoção da estréia, com chamadas equivocadas, enaltecendo o tom de comédia de costumes. Mas não se engane: a novela é composta por um incontável número de personagens amorais, que de tão absurdos se tornam interessantes. A trama precisa de pequenos ajustes: visceralidade, diálogos objetivos que privilegiem a ação e cenas dinâmicas. “Balacobaco” carece de uma narrativa menos radiofônica e mais cinematográfica – característica que, entre outras, garantiu o sucesso absoluto de “Avenida Brasil”.

Apesar da interessante idéia de brincar com a estética de desenho animado, isso é apenas uma bela cobertura para um bolo de sabor duvidoso. É necessário entender que novela não pode ser apenas uma avalanche de diálogos piegas. Em muitos momentos, o texto soa inverossímil e subestima a inteligência do espectador. Queremos assistir a história, mas até o momento – exceto a cena do acidente – estamos, na maior parte do tempo, ouvindo-a através dos diálogos dos personagens.

A espinha dorsal aborda um tema interessante: o medo silencioso que sentimos ao delatar um criminoso e o estresse posterior provocado pela situação. A doce arquiteta Isabel (Juliana Silveira) será vítima da vingança das gêmeas más Diva (Bárbara Borges) e Dóris (Ana Roberta Gualda), duas picaretas de moral distorcida, que vem a ser filhas da não menos picareta Cremilda (Solange Couto). Diva é namorada de mais um picareta, o ambicioso Norberto (Bruno Ferrari), que se corrói de inveja da predileção de sua família pelo irmão de criação, Eduardo (Victor Pecoraro). Eles são sócios em uma empresa de turismo ecológico, e Norberto não se conforma de não ser o sócio majoritário. Assim, passa o tempo obcecado em tirar Eduardo da jogada.

  Juliana Silveira, Ana Roberta Gualda e Bárbara Borges
Por sua vez, Isabel enfrentará o dissabor de descobrir que o marido Danilo (Roger Gobeth) - com quem vive um romance cor-de-rosa - é um picareta viciado em jogo, que deve uma verdadeira fortuna para um cassino, e por conta disso vai deixa-lá em uma má situação financeira. Como se não bastasse, sua irmã Tereza (Juliana Baroni) morre e a sobrinha adolescente Taís (Letícia Medina) fica sob sua tutela, e ela terá de lidar com a situação de aproximar a garota do verdadeiro pai. Em meio a tanta confusão, ela vai despertar o interesse de Norberto e Eduardo, que, provavelmente, vão disputar sua atenção. Mais um motivo para a gêmea Diva alimentar ainda mais seu desejo de vingança.

O problema é que, para compreender essa história, é necessário assistir aos capítulos com muita boa vontade. O erro maior está no primeiro capítulo, que deveria ter começado pela sequência do roubo do carro, e não pelo blá blá blá interminável entre personagens e a picaretice histriônica de Cremilda, personagem de Solange Couto. Que, aliás, repete a parceria com Silvio Guindane, remetendo-os aos seus personagens em “O Clone”. Solange repete os berros e os gestos bruscos que a consagraram doze anos atrás. Resta saber se isso é vantagem ou desvantagem.

Até o momento, os núcleos da rádio e da pastelaria soam totalmente dispensáveis. Percebo um excesso de personagens que, ao que tudo indica, só servirão para esvaziar a força da trama central. Talvez seja mais adequado liberar o elenco para a produção seguinte.

A propósito, o Rafael Calomeni não sabe falar. Não entendi praticamente nada do que ele disse.

Apesar de tudo, “Balacobaco” está longe de ser uma novela desinteressante. Tem muitos elementos a favor que, adequadamente trabalhados, podem transformar a novela em um grande êxito da Record. Nós, noveleiros, ficaremos torcendo para que a autora Gisele Joras e sua equipe consigam afinar o piano o mais rápido possível, porque a música é boa.

E da próxima vez, que programem a estréia da novela para uma segunda-feira. A "Tela Quente" é um concorrente menos fidelizado do que "A Grande Família".  

terça-feira, 11 de setembro de 2012

“A Próxima Vítima” x “Renascer”: o duelo de reprises


Lirismo rural de Benedito Ruy Barbosa desbanca o thriller de Sílvio de Abreu na grade do Canal Viva!


Por Júlio Cesar Martins
Reprodução da home-page oficial do "Vídeo Show": mais de 8 mil acessos ao vídeo de "Renascer"

Embalado pelas comemorações de 2 anos de sucesso, o Canal Viva (do Grupo Globosat)  anunciou com antecedência as novidades programadas para a grade vespertina: as novelas “Felicidade” – sucesso de Manoel Carlos - e “A Próxima Vítima” – rocambole policial de Sílvio de Abreu - substituem “Top Model” e “Barriga de Aluguel” no segundo semestre. As chamadas de “Felicidade” já pipocam ao longo da programação e reestréia em 24 de setembro.

No início do mês, o site oficial do Canal anunciou a substituição de “A Próxima Vítima” por “Renascer”, e justificou: “A apresentação de “Renascer” atende aos constantes pedidos dos assinantes pela trama. Por esse motivo, o canal decidiu antecipar a exibição da novela assim que conseguiu a liberação de seus direitos.”

Muita gente não engoliu esse papo torto. Nem eu. Agora vamos aos fatos:

Em junho, o “Vídeo Show” exibiu em seu novo quadro-coqueluche, o “Novelão da Semana”, um resumo de “Renascer”, em 5 partes. O primeiro vídeo da série alcançou números surpreendentes de acessos no site oficial do programa – mais de 8.000 – uma marca incomum. A repercussão inusitada provavelmente reverberou na direção do canal, ansiosa para repetir o burburinho causado pela reprise de “Vale Tudo”, no ano passado.

Patrícia França e Antônio Fagundes em "Renascer"
Trocando em números, basta pesquisar um pouco para descobrir que a expectativa de “A Próxima Vítima” em 1995 era elevar a audiência do horário das oito - em crise por conta do quiproquó ufanista de Gilberto Braga, “Pátria Minha”. Mas ao contrário do esperado, o suspense de Sílvio de Abreu derrubou ainda mais a audiência: o capítulo de estréia atingiu bons índices - 52 pontos - mas no sábado seguinte, já amargava a assustadora marca de 35 pontos. Habilidoso, o autor conseguiu pouco a pouco elevar os números, e no final das contas a novela acabou registrada na história da teledramaturgia como “um grande sucesso”, graças aos truques de suspense. Porém, o mistério já está mais do que desvendado, já conhecemos os finais – o original e o alternativo – e o apelo popular está enfraquecido, portanto.

“Renascer” trouxe um sopro de luz para o horário das oito, espantando de vez o clima nefasto da antecessora “De Corpo e Alma”, por conta do assassinato de Daniella Perez. A saga rural, ambientada no interior da Bahia, trazia de volta o melhor de Benedito Ruy Barbosa para a Vênus Platinada. Satisfeito por ter conseguido provar seu valor de novelista para a Globo depois do efeito “Pantanal”, em 1990, ele voltou por cima da carne seca direto para o horário nobre, com a responsabilidade de superar ou, no mínimo, repetir a repercussão da novela que escreveu para a emissora concorrente. Logo de cara, os primeiros capítulos arrebataram o Brasil, que se encantou com as desventuras de José Inocêncio (Leonardo Vieira/ Antônio Fagundes). As sequências antológicas do jovem coronel que vivia entre a fábula e a realidade, aliadas ao trabalho de direção apurado de Luiz Fernando Carvalho – com seus enquadramentos incomuns, perscrutando frestas e janelas, sobrevoando o cenário natural em travellings gigantescos – trouxeram um frescor cinematográfico para o confortável ambiente da telenovela. As novidades garantiram os Prêmios APCA e Troféu Imprensa de melhor novela de 1993 e a média geral consolidada de 60 pontos de audiência.

“Barriga de Aluguel” é a única novela do Viva com 4 anunciantes: Papel Higiênico Personal, Maionese Hellmans, Iogurte Activia Danone e Embelleze. Será que os anunciantes torceram o nariz para a escolha de “A Próxima Vitima” e induziram a troca?

Só sei que, entre todas as possibilidades, a da “substituição a pedido dos assinantes” me parece a menos provável.
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