sexta-feira, 9 de março de 2012

AQUELES QUE ME ENSINARAM A VIVER.



Por Eduardo Vieira

Sempre ao ver filmes ou novelas que tratam sobre o tema ensino, nós que pertencemos à área temos a tendência de desejar ver algo mais relacionado ao mundo real da sala de aula. O cinema às vezes tem conseguido, pois a produção com esse tipo de tema é bem maior do que a da TV.

Entretanto, mesmo idealistas, é muito gratificante ver a profissão do transmissor de ensinamento (sim, refuto a palavra pra mim, já pejorativa, “educador”, mesmo concordando que temos um pouco a ver com isso, talvez formador soasse melhor, mas lembremos que é um blog sobre entretenimento e não pedagogia (palavra por demais antipática também).

Assim lembrei-me de personagens que moldaram a minha escolha profissional nas novelas que me ajudaram a respeitar mais ainda aquelas pessoas que compartilhavam seus saberes e ainda nos davam afeto. Cavucando no meu passado de noveleiro, lembrei de um dos primeiros, de uma novela que me fez leitor até. Falo do personagem de “O Feijão e o Sonho”, Campos Lara, poeta, que vive de letras, o sonhador, idealista que dava aulas em troca de alimentos, para a ira de sua esposa, Maria Rosa. Mesmo a profissão sendo tratada como alguns a vê, como um sacerdócio, é um belo personagem feito magistralmente por Claudio Cavalcante, de sua mocidade até a velhice.


Veio-me a cabeça também um papel divisor da carreira da grande Regina Duarte, quando esta estava um tanto enfastiada de ser apenas a namoradinha do Brasil, falo de “Nina”, da novela de mesmo nome, de Walter George Durst sobre uma professora vanguardista que vai parar num conservador colégio de moças onde é tratada com enorme preconceito e desrespeito pelas famílias puritanas. Para esse papel, Regina cortou até os cabelos, sua marca registrada, despindo-se de qualquer tipo de vaidade. Lembro-me perfeitamente do final, a personagem abdica do amor de sua vida e volta para a sala de aula, explicando sobre a força da ciência e a importância desta para o mundo. É a profissão vista como escolha de vida! (vemos isso também no final de Iaiá Garcia, uma obra que desmerecidamente dizem menor de Machado de Assis, em que a personagem Estela vai embora e torna-se professora, ressaltando a solidão de quem escolhe a cultura e o saber como filosofia de vida).


Outra figura encantadora do ensino nas novelas é a jovem Mariquinha (Fátima Freire / Carolina Kasting) em “Cabocla”, de Benedito Ruy Barbosa. O autor aproveita esse tema do ensino aos adultos para que haja a extinção do voto do cabresto, e quem dá a educação a eles é a filha de um grande coronel, latifundiário, doce e admirada por todos. Não à toa, também nessa novela é discutido o uso capião, direito de colonos, ou seja, a história tinha um importante pano de fundo social, talvez já um ensaio para “O Rei do Gado”, com o grupo do MST.


Mas vemos também o lado mais satírico na figura de três personagens, que tinham em comum a passionalidade, a cultura e a obsessão pelas mulheres. Respectivamente, o professor Aristóbulo, Ary Fontoura, apaixonado professor de história da novela “Saramandaia”, que em sua paixão e alucinação vê vultos históricos, além de virar lobisomem nas noites de lua cheia, não podendo nunca consumar sua paixão por Risoleta (Dina Sfat). Outro professor, igualmente tímido, é o de “Gabriela” prof. Josué (Marco Nanini, bem jovem), que tem como objeto de desejo a voluntariosa Malvina, mas acaba se rendendo aos encantos de uma manteúda que se apaixona pelo seu intelecto, havendo assim uma “troca” de sentimentos e, finalmente, em Roque Santeiro, o orador de palestras intermináveis, intelectual de Asa Branca, prof. Astromar, que como o primeiro, também transforma-se em lobisomem como uma danação aos seus objetivos românticos, o amor da então donzela mocinha. Esse foi um dos papéis mais importantes da carreira de Ruy Rezende que hoje pouco aparece na nossa telinha.


Nessa linha igualmente romântica também temos o estereótipo, quase o símbolo do amor, no doce e pobre prof. Edmundo (Angelo Antonio) que recita versos da lírica de Camões para sua amada Bianca e assim a conquista, na novela “O Cravo e a Rosa”, de Walcyr Carrasco.
Walcyr também traz em sua mais contemporânea “Sete Pecados” a figura corajosa e mais realista de Miriam, Gabriela Duarte, uma jovem diretora que acha que pelo afeto e pela ajuda da sociedade é possível fazer uma escola pública melhor. Tal núcleo serviu para o autor indicar livros para os adolescentes e também adultos terem prazer na leitura.


Contudo, nem sempre o professor é herói absoluto da história. Em “Mulheres Apaixonadas” em que havia um núcleo importante que era a escola de Helena, Christiane Torlone, ex-professora de geografia, vê-se com problemas como o alcoolismo de uma profissional, a professora de história, Santana, a sempre excelente Vera Holtz, que reluta muito em procurar tratamento, achando que consegue conciliar o vício e a carreira de professora. Foi um tema bastante corajoso que Manoel Carlos conseguiu imprimir sem o ranço didático de uma Glória Perez de “O Clone”, por exemplo.


Por fim, um dos melhores professores de todos os tempos da teledramaturgia, o que foi a estréia do grande Luis Mello na TV, o prof. Rubinho, de “Cara e Coroa”. O seu personagem dá altas aulas usando os alunos como personagens históricos e ele mesmo encenando fatos. Muitos professores da época começaram a usar métodos teatrais para incrementar suas aulas.


Outros vários eu vi passar pela telinha como o Fábio (Nuno Leal Maia) de “A Gata Comeu”, com seu espírito de liderança, o Lourenço (Leonardo Medeiros), da recente “A Vida da Gente”, que nos emocionou com pontes literárias entre suas aulas e o avançar da novela
.
Espero que ainda venham muitos professores nas obras da telinha para representar a classe da maneira digna como ela merece ser retratada, mesmo com um quê de redenção, não existente na nossa vida real.

Foto: Google Imagens
Vídeos: You Tube (Mofo TV e outros)

15 comentários:

  1. Eike ótimo! Adorei, Edu! Me senti homanegeado tb, mesmo não exercendo mais a profissão...hehe! Sempre com ótimos textos. Parabéns.

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  2. Gente, cadê a minha professora Helena?????

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  3. áh, querido...eu deixei alguns de fora...mas Carrossel eu não assisti...talvez colocasse a professorinha Lu rsssss

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  4. Bela homenagem e belas lembranças. Só você mesmo, Edu! (e prá falar a verdade, sempre idealizei você, como um desses professores de novela) rsrsrsrs

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  5. Edu, tá "loshooo" a sua publicação (risos)... muitos dos personagens citados por você, eu desconhecia, mas fiquei curioso. Ah! também incluiria a professorinha Helena, a professora de Esperança que agora não lembro o nome da personagem, e claro, a Clotilde , lindamente feita pela Maitê em O Salvador da Pátria.

    Vitor, Anabela, que bom vê-los por aqui... voltem outras vezes!

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  6. Parabéns pelo texto Edu... Adorei, gosto muito de professores em novelas, acho que sempre pode render bastante... O núcleo da Gabriela Duarte, por exemplo, era o melhor de "Sete Pecados"...

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  7. Muito legal o texto, Edu, falando de como nosso ofício é tratado na telinha. Fiquei até curiosa pra assistir Nina, da qual tinha lido tão pouca coisa.

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  8. Edu!!! Maravilhoso como sempre!!! E ainda mais agora retratando a nossa tão desprezada profissão. Que delícia poder ler este texto seu, lembrando cada um dos professores da nossa teledramaturgia. Ao ler a gente consegue recordar cada uma das novelas, até mesmo as que nunca vimos, pois teus comentários são sempre tão ricos de detalhes. Adoraria poder ter visto O FEIJÃO E O SONHO, o livro é apaixonante. Assim como NINA, que é para mim uma das grandes novelas da nossa tv, não há quem não tenha visto que não elogie esta história, pena quea emissora não se lembre mais dela!
    Gostaria apenas de lembrar mais alguns personagens interessantes. Na linha, professores de adultos eu destaco as afabetizadoras Clotilde (Maitê Proença), professorinha Lu (Leila Lopes) em RENASCER e Bia (Mara Carvalho) em O REI DO GADO, delas é possível encontrar cenas verdadeiramente emocionantes, já que a alfabetização de um adulto que nunca soube ler e escrever é um dos momentos mais bonitos da vida.
    Outro pouco lembrado, inclusive pela falta de sucesso da novela é o professor universitário Maurício (Cláudio Marzo), lembro que era um personagem cativante.
    Há também a personagem Aymée Lovato (Carla Camuratti) em PACTO DE SANGUE, uma professora bem moderna para época, e além de tudo uma ferrenha defensora do movimento abolicionista.
    Por último lembro do professor Parxedes de Menezes (Juca de Oliveira) em FERA FERIDA. Ele começa a trama fazendo parte de um dos algozes da família de Flamel, no decorrer da história descobre-se que ele só foi um grande covarde. Emocionante mesmo eram as suas aulas de alfabetização para a personagem Rosa (Luisa Thomé), mais momentos emocionantes da tv.
    Adorei Edu, adorei recordar mais uma vez contigo e ainda lembrar de outros tantos. É uma profissão que cria ótimos personagens nas telinhas!!!!!

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  9. Corrigindo: professor Praxedes de Menezes. Desculpem escrevi e nem revisei! Rsss...

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    1. querido daniel.....pensei sim no marzo e no prof edyr em água viva...os papos dele com a janete também eram ótimos...mesmo eu não entendendo muito kkkkk Nina é uma novela da qual me lembro de algumas coisas, da cena violenta que culmina no corte de cabelo...as alunas a agridem fisicamente, tendo como líder a personagem da kátia dangelo.lembro que o mario lago, ironicamente fazia um aristocrata contra os direitos dos trabalhadores e tem como genro o anarquista feito pelo Fagundes...é uma novela pra se refazer mesmo...

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  10. Mamelia Silva de Carvalho11 de março de 2012 17:56

    Li e mais uma vez achei excelente!
    Creio que você decidiu escolher Letras, após ver O FEIJÃO E O SONHO, obra do querido autor Orígenes Lessa, excelentemente adaptada para a telinha. Como você tem uma veia para escritor, foi o complemento...Tai, o grande escritor e grande professor, as vezes incompreendido por alguns, mas grande no meu conceito, após ter visto seu trabalho em sala de aula. E digo mais:querido você é um artista das letras e deveria trabalhar no ensino médio, dando aulas de literatura, você não é apenas um professor!!!Você é cultura, você é arte!!!Após ler cada artigo seu, mais me convenço que o seu perfil é para esta modalidade de ensino (Bem pedagógico, né???kkkk).
    Quanto à abordagem do tema, focado na escolha do Magistério através da telenovela brasileira, só posso dizer mais uma vez que:A-DO-REI!!!You Are The Best!!! Beijinhos Televinos e Literários para você!!! Gostou do Conselho??? Aliás, faz muito tempo que tento lhe convencer disto!!!

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  11. Adorei o texto! Muito bom relembrar estes personagens que fizeram justa homenagem à essa profissão, tão pouco valorizada, além de mostrar claramente a difícil realidade destes profissionais tão nobres.

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  12. Edu, muito saboroso seu texto! Que bom rememorar tantos "mestres" de nossa teledramaturgia! Adoro o Professor tímido de Marco Nanini em 'Gabriela'.

    Os fãs de Leila Lopes vão sentir falta de referência a ela! Risos.

    Léa Garcia interpretou uma professora em 'Marina'. Era mãe de Íris Nascimento, salvo engano. Mas eu mesmo não me lembro dessa personagem direito.

    Parabéns, Edu!

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    1. Desculpe! Agora que li que você citou a Leila Lopes sim!!!

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  13. Os professores Edmundo e Santana são os meus favoritos.
    É muito bela a 'nossa profissão', embora eu não a exerça mais por motivos de força maior!
    Belíssima homenagem, senti todo o seu afeto pela arte de educar, que vai muito além das lição e suas aplicações. Abraços!

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