sábado, 14 de julho de 2012

MINICLÁSSICOS - Cenas da Teledramaturgia Nacional


Por Eduardo Vieira

Na história das novelas, e principalmente pelos livros já lançados que cobrem a teledramaturgia, são sempre citadas cenas super clássicas dessas histórias. Como exemplo, podemos citar em “Saramandaia” a famosa cena da explosão da personagem Dona Redonda, o final de “O Casarão” quando João Maciel e Carolina se reencontram na Confeitaria Colombo, depois de um amor suspenso pelo tempo ou o famoso entrave no café da manhã de Bimbo e Cumbuca em “Guerra dos Sexos”.


Nada como o tempo para dar status de clássicos a essas cenas, mesmo sabendo que nessas e em muitas outras novelas há momentos tão bons ou até melhores, mas há de se eleger algumas e vem à cabeça o que li sobre teledramaturgia desde as comunidades do orkut até os comentários diários  no facebook ou em blogs especializados.

As cenas clássicas hoje são aquelas que têm uma excelência de escrita e de interpretação. Geralmente têm surgido no clímax de uma história ou até despretensiosamente, causando surpresas, catarses e até raiva nos espectadores.

Nas novelas atuais é possível enxergar cenas que marcaram e já se tornaram um tanto clássicas pelo esmero com que foram feitas. Se são ou não merecedoras desse adjetivo tão desgastado atualmente, só o tempo dirá.  

Mesmo assim atualmente é possível apontar cenas que se tornaram ilustres por várias razões.
Recentemente em “Cheias de Charme” houve  duas que chamaram a atenção: uma engraçada e outra dramática, porém as duas redentoras, de limpar a alma do brasileiro médio que se refugia nesse  espaço ficcional para além de se entreter também poder crer que às vezes algumas coisas podem ser justas, numa esperança sem fim que a vida imite a arte.

A primeira delas aconteceu quando a empregada Cida libertou-se dos grilhões da família Sarmento que a explorara por todo o sempre, bem no dia do casamento da irmã da “gata borralheira”, sendo capturada por uma carruagem na forma de uma limousine cor de rosa e resgatada pelas colegas empreguetes. Outra cena bem mais contundente foi a constatação e a decepção de um pai perante a desonestidade de um filho, cena muito bem feita, envolvendo grandes interpretações de Leopoldo Pacheco, Tato Gabus, Taís Araújo e Humberto Carrão.


Nessas últimas novelas, nas duas últimas décadas pode-se citar algumas cenas particulares que me sensibilizaram por razões as mais diversas.

Vemos, por exemplo, em “Viver a Vida”, novela massacrada pelo público noveleiro, uma cena polêmica (adjetivo ainda mais gasto), a famosa cena do tapa que a personagem de Lília Cabral, Tereza, desfere em Helena, a personagem principal da trama, por esta ter dado um tapa em sua filha e ter desencadeado (segundo a mãe) o acidente em que ela  teria ficado paraplégica. Alguns enxergaram com o olhar do racismo jamais abordado pelo autor Manoel Carlos, diga-se de passagem inteligentemente, outros não perdoaram a heroína rebaixar-se a tal ponto de ajoelhar e expiar a sua culpa de tal modo.


Seja por qual razão tenha sido, (se é que a ficção deve tê-las) não se pode negar a excelência da escrita da cena, (duração) em que se comprova o talento das duas exuberantes atrizes, Taís Araújo e Lília Cabral, talvez o melhor momento desta última no folhetim.

Também, recentemente, vimos numa das várias cenas (Araguaia) das atrizes Laura Cardoso e Flávia Guedes, uma cena que se destaca, quando a personagem de Laura Cardoso, dona Mariquita, pede à agregada para cuidar de seu neto Solano caso aconteça algo com ela. A cena veio mostrar todo o respeito que a senhora implicante tinha na verdade pela fiel Aspásia, levando as duas atrizes às lágrimas e os espectadores idem. 


Já uma outra cena, igualmente memorável e  completamente oposta a esta, aparece em “Passione”, de Silvio de Abreu quando a ótima personagem Clô vai visitar a família quatrocentona de sua ídola Beth Gouveia para dar os pêsames pela morte do filho da milionária e começa a relatar as agruras de seu período numa  kitchnette, momento glorioso de três atores maravilhosos, a dona da cena, Irene Ravache, a receptora, Fernanda Montenegro, num registro diferente da sofreguidão eterna de sua personagem e de Leonardo Villar que aparece no final para encerrar brilhantemente essa cena de comédia tão bem feita e escrita.


Minha cena clássica preferida dessa semana foi a que se deu na mansão da vilã das nove, Carminha, quando tudo que parecia ser mais uma cena de cumplicidade entre a mau caráter e a heroína, como houve várias, desponta em uma cena cheia de mágoa e sentimentos que nos leva ao início da novela quando a menina desafia a madrasta. A personagem de Débora Fallabella não consegue sustentar o ar subserviente de sua nina e não ouve direito o que Carminha tem a dizer. Esta, que já está sem paciência com os mimos da criada trata-a com desprezo e agressividade, momento especial nesse balé que essas duas atrizes compõem.


É sempre espetacular sabermos que em pleno 2012, cenas como essas, sejam dramáticas ou cômicas, estejam presentes nas novelas de agora, por vezes tão injustamente criticadas por um público cada vez mais exigente.

E pra vocês, quais são os seus miniclássicos particulares?

15 comentários:

  1. bom.. muito bom.. recordar é viver.... Sou antiquado, meu voto ainda é da explosão tosca da Dona Redonda.. Me recordo disso quando criança.
    Abraço Edu

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  2. Citaste cenas maravilhosas. Mas, pra mim, a cena dos últimos tempos, foi o acerto de contas entre as personagens de Fernanda Vasconcelos e Marjorie Estiano em "A Vida da Gente". Considero muito melhor que cenas de acerto de contas que já vi em novela das 21hs.
    Mas, parabéns, ótima postagem. :)

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    1. ótima lembrança, Rafael...é com esse propósito que escrevi , para que vcs preenchessem os espaços...eu tb amo essa cena. As duas em estado de graça.

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  3. Eduardo, adorei o texto. A "Cheias de Charme" é um exemplo de novela sobre a qual ainda se vai comentar muito no futuro. Os autores estão sendo muito hábeis em montar o trio das protagonistas, usar elementos de melodrama e um humor brega quase hypado.

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  4. Esse resgate é muito importante porque nossa teledramaturgia tem momentos antológicos desde que começou. Lembro da cena das irmãs, da briga das duas, Sonia Braga e Joana Fomm em Dancing Days. Lembro de outra, embora não lembre o nome da novela, Gloria Pires, de cabelo curtinho, chorando, encolhida no chão entre o sofá e a mesa de centro, ao saber da morte de seu pai. Cena densa, forte, muito bem iluminada. Na primeira Ciranda de Pedra, Eva Wilma louca de pedra. O final da novela, Adriano Reis, sozinho, numa cadeira da rodas, dentro da imensa mansão, sozinho, sem ninguém. Tem muitas cenas. Mas já que foi falado em Cheias de Charme, o capítulo, o mesmo citado, quando Sonia Sarmento descobre tudo sobre o marido. Até então a atriz vinha com cenas bastante engraçadas, mas conseguiu passar toda uma carga dramática junto ao marido, quando diz que a Soninha Toda Pura (inclusive alusão a um filme com Adriana Prieto) acabava naquele momento. Achei emocionante e um grande momento para a atriz. São várias as cenas que me vem a lembrança. E, como disse no início, nada como ter alguém como o Eduardo Viera pra resgatar esses momentos e fazer com que resgatemos os nossos. Muito, mas muito bom isso tudo!
    Carlos Eduardo Valente

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    1. eu tb amei a Alexandra Richter falando da Soninha toda pura kkkkkkk Eva Wilma me arrepiava vendo os besouros....( engraçado que no livro não tem muito essa parte mais dramática). A novela da Glória é Agua Viva e tem uma cena enorme( dá pra reparar o tamanho das cenas) do Kadu consolando a personagem dela. Lindos!!! Essa de Dancin Days é macroclássica....quis pegar as cenas de hoje pro povo que acha que as novelas de hoje não têm cenas boas, o povo do contra. Obrigado, é super bom comentários ricos como o seu, Carlos Eduardo. bjão

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    2. Muito bonita sua análise sobre a Sônia Sarmento, uma personagem que tem sido elogiada pelos críticos de jornais, apontando a solidez da carreira da Alexandra Richter como atriz de TV. Mesmo sensibilizado com sua análise e, mesmo "Cheias de Charme" sendo um fenômeno de audiência do momento atual, eu ando bastante pessimista com os rumos que o público de TV tem tomado.

      O excesso de informação é um dos problemas mais sérios da sociedade da informação e a previsão de Karl Marx, quando disse "Tudo que é sólido se desmancha no ar" me deixa desacreditado que essa novela das sete, tão promissora, deixe marcas na História da Teledramaturgia como fizeram "O Casarão", "Saramandaia" e "Guerra dos Sexos".

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  5. Saramandaia merecia ser reprisada no Viva, URGENTEMENTE! Novela imbatível, incomparável e insuperável, para mim!!!
    Não boto fé nesse remake de Guerra dos Sexos. Superar as atuações BRILHANTES de Fernanda e Paulo é impossível, cara! Tem remakes que NÃO funfam. Ponto.
    Eu AMEI essa cena que vc cita de Viver a Vida! Além de ter curtido a novela (coisa que se torna cada vez mais raro), não havia racismo porra nenhuma, mas sim uma mãe passional e ex-mulher sofrida, como qualquer outra ali, enfiando os pés pelas mãos nos sentimentos exacerbados por uma dor profunda de MÃE!!! E as duas atuaram muito bem, apesar de eu não curtir a Thaís.
    E Cheias de Charme é a ÚNICA novela que consegue me motivar a ver um capítulo aqui, outro ali. O enredo tá bom, contemporâneo, inteligente e divertido e Cláudia Abreu é sempre um must de se ver atuando. Essa novela não atrapalhou o talento dela.
    Enfim, ótimo texto, Eduardo!

    Beijos.

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  6. Maravilhoso texto Edu!!!!!! Eu adoro estas cenas emblemáticas, que sempre são lembradas quando se refere a determinada trama.
    Em algumas novelas consideradas excelentes em todos os aspectos elas existem aos montes e fica até difícil destacar apenas uma. Contudo percebo sempre o que se chama de "cena clássica" até mesmo em novelas mais frágeis, tanto de história como de audiência, por que geralmente são cenas que emocionam ou surpreendem.
    Ihhh, difícil esclher um apenas, bom mas vamos lá. Um exemplo de cena que para mim se tornou clássica foi quando a Rosália enfim teve que ceder e se casar com o Barão de MontSerrat em DIREITO DE AMAR, ali na igreja ela olha para quem poderia ter lhe salvo e nada fez e com lágrimas nos olhos dá prosseguimento a cerimônia, um momento lindo da trama e da carreira da Glória Pires.

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  7. Não tenho acompanhado novelas como antes, por isso meus miniclássicos já são bem antigos.
    Uma novela muito marcante pra mim foi "A sucessora". Lembro sempre das tomadas da sala em que imperava o retrato enorme da esposa morta e as cenas em que Natália Timberg entrava no quarto da falecida.
    Outra lembrança boa é a da novela "À sombra dos laranjais", com a clássica abertura com Marília Barbosa. Voltando à "A sucessora", a abertura com Nara cantando Odeon também é de arrepiar.
    O acerto de contas entre Sonia Braga e Joanna Fomm em Dancin' Days também deve ser lembrado.
    Lembro do Atílio de Mario Lago, em "O casarão", mexendo a banheira de esterco. Correu na época a história de que ele cairia na banheira e morreria, o que não aconteceu.
    Enfim... são muitas lembranças...

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    1. a, Ademir...O Casarão tem cenas antológicas mesmo, essa do estrume, as cenas do João Maciel cortejando a Violeta , um dos melhores papéis da Aracy Balabanian.
      A Sucessora é covardia...toda novela é macroclássica... kkkkkk

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    2. Lendo sua resposta, me veipo à mente uma cena "do tempo em que todo mundo via novela', que foi comentada mesmo 15 anos depois de exibida, e tínhamos quase nenhum registro dela: a morte do Mauro Mendonça em "Louco Amor", caindo de um telhado quando vai tentar salvar um garoto. Até hoje não me lembro exatamente o que aconteceu alí, mas pelo impacto que deixou na memória das pessoas essa cena deveria ter entrado pra coleção das cenas antológicas. Se puxar um pouquinho, até hoje alguns não-noveleiros devem se lembrar.

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  8. Ótima e criativa ideia de falar das cenas atuais com potencial status de clássico. Em Passione, acho que a cena que mais se definirá como clássica é a final, com o close em Clara, vitoriosa e impune após jogar a culpa do assassinato de Saulo em Fred e forjar a própria morte, e o seu tema "Fogo e Gasolina" tocando ao fundo. O impactante assassinato de Gonçalo por Flora, num clima noir e de terror psicológico em A Favorita; a briga/embate entre as irmãs Ana e Manu em A Vida da Gente, em que elas despejaram uma contra a outra suas mágoas em razão do Rodrigo e da pequena Júlia, ao meu ver, também já nasceram com aura de clássicas.

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  9. Tem um movimento retroativo relativo às novelas que eu estou percebendo desde "Fina Estampa": o grande público voltou a ver novela. Pensando assim, não acho compatível comparar cenas de novelas de um período onde a TV e pouquíssimas salas de cinemas (em média duas, nas capitais) eram os únicos entretenimentos teconologicos da família brasileira.

    Eu fiquei pensando numa cena clássica, enquanto assistia, agora, o capítulo 99 de "Avenida Brasil", véspera da grande descoberta de Carminha (o que será, seguramente, uma "cena clássica") e não ocnsigo me lembrar de uma novela que tenha sido tão comentada pelo público como "A Favorita". Ao público telemaníaco, faço questão de sublinhar, pois, mesmo com os orkuteiros em frisson, acompanhando a vingança de Flora, a novela não causou impacto social nenhum, nem nas cidades do interior, pois ninguém via mais novela.

    Mesmo assim, as cenas de flashback da disputa de Flora e Donatela pelo milionário Marcelo Fontini (Flávio Tolezani), começando pela revelação da assassina, no capítulo 56 - o primeiro terço da novela - seguida das cenas mostrando Donatela aceitando a ideia de criar Lara, a filha da irmã presidiária é o top hit desse tempo tão fraquinho para as novelas. Nada comparável ao impacto das brigas de Charlô e Otávio, 25 anos antes.

    Acredito, de verdade, que a descoberta da Carminha amanhã vai ter um impacto bem maior, pois os brasileiros voltaram a comentar as novelas nas festas, na hora do almoço, nos colégios e, sempre, nas redes sociais.

    http://www.youtube.com/watch?v=mRRZQzrv5XE

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  10. Oi, Edu, não pude deixar de comentar rapidamente que o "clássico" que conceituam atualmente é intensamente passageiro. Aposto alto que o público não se lembrará e não se lembra de muitas cenas dadas como clássicas.

    Moncorvo

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