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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Rei do Torto marcou época

Por André Araújo

Não é uma praxe, mas volta e meia os telespectadores/noveleiros se dão conta de que existe vida fora da Rede Globo. Foi o que aconteceu em 1987 com a novela “CORPO SANTO” [Rede Manchete], de José Louzeiro, que tirou o sono da Vênus Platinada. A mesma coisa aconteceu três anos depois, com “PANTANAL”, do Benedito Ruy Barbosa. A diferença foi que com a história de Juma Marruá (CRISTIANA OLIVEIRA) dominando o Brasil, a emissora do falecido jornalista Roberto Marinho reagiu, e assim todos ganharam, pois era uma novidade atrás da outra e o público saiu satisfeito.
Anos depois, a Rede Record decidiu faturar em cima desse filão e entrou com tudo na briga. Depois do sucesso de “PROVA DE AMOR” e “A ESCRAVA ISAURA”, ambas do ex-global Tiago Santiago, e “ESSAS MULHERES”, do veterano MARCÍLIO MORAES, a emissora do Bispo Edir Macedo produziu uma novela que muito agradou: “VIDAS OPOSTAS”, do mesmo Marcílio Moraes. A trama abordava os dramas de uma comunidade comandada pelo tráfico. E mesmo com uma história forte e recheada de violência, o público não virou as costas e nem mudou de canal. Tudo ali deu tão certo que a novela ganhou o troféu imprensa [2008] de melhor novela, dividindo o prêmio com “PARAÍSO TROPICAL”, do Gilberto Braga.


Começando pelo romance entre o rico Miguel (Léo Rosa) e a doce e pobre Joana (Maytê Piragibe), a novela agradou desde o início.
Quando a novela começou, Miguel era noivo da estilista Erinia (Lavínia Vlasak), mas se envolvia com Joana, ex-namorada de um perigoso traficante, Jeferson (Angelo Paes Leme), que àquela altura, cumpria pena de quatro anos na cadeia.


Apaixonado, Miguel rompia com Erinia para ficar com Joana, mas o inesperado aconteceu: Jeferson saiu da prisão e voltou para a favela, disposto a reconquistar sua ex, que a essa altura já estava caída de amores pelo milionário.


Jeferson voltava ao mundo do crime e queria transformar a amada Joana na rainha da bandidagem, mas ela se recusava, gerando sua ira. E como se não bastasse, Erinia também passou a praticar diversas armações para ter seu noivo de volta, o que quase aconteceu.
Na favela, a comunidade tomou o partido de Joana, e torcia para que ela ficasse com Miguel. Jeferson acaba morto. É quando entra em cena o perigoso Jacson (Heitor Martinez), irmão do falecido que, além de se tornar o novo chefe do tráfico, decide ficar com Joana também, resultando numa guerra. O novo “rei do Torto”, contava com um aliado poderosíssimo: O delegado corrupto Dênis Nogueira (Marcelo Serrado), que o favorecia.


Uma história paralela também chamou atenção: A viúva Ísis (Lucinha Lins), mãe de Miguel, embora fosse rica, linda e chique, vivia sozinha, comandando os negócios que seu falecido deixara. Mas se reencontra com Bóris (Nicola Siri), um italiano dado como morto há muitos anos. Foi ele o grande amor de Ísis na juventude. E é no momento em que a mãe de Miguel está prestes a perder tudo devido a um golpe financeiro de Mário (Cecil Thiré), vice-presidente da empresa, que Bóris surge e salva Ísis da falência, desmascarando o vilão que contava com o apoio do advogado Félix (Roger Gobeth) e de Maria Lúcia (Flávia Monteiro), prima da mãe de Ísis.


Desesperado de paixão, Jacson chega a sequestrar Joana, mas a delegada Carmo (Raquel Nunes) invade o cativeiro e atira no bandido. Jacson morre nos braços da mocinha, numa cena lírica; Erinia, que havia se tornado aliada do delegado Nogueira, acaba matando-o, mas é presa depois da denúncia de sua mãe Cilene (Silvia Bandeira). Mário, Félix e Maria Lúcia são processados.
morte de Jacson
morte de Nogueira
Ísis e Bóris até que se esforçam, mas concluem que não podem ficar juntos, uma vez que o italiano vive fugindo da polícia. A despedida dos dois é emocionante e o beijo que eles trocam, inesquecível.
Joana e Miguel? Nada mais justo que fiquem juntos e felizes, o que de fato acontece.


Com 240 capítulos, por muitas vezes “VIDAS OPOSTAS” bateu a Rede Globo em audiência, o que era praxe às quartas-feiras. A novela foi levada ao ar entre 21 de Novembro de 2006 e 27 de Agosto de 2007. O último capítulo registrou 25 pontos de audiência, um recorde.

Reprisada entre 28 de Março e 11 de Junho de 2012, o sucesso não foi o mesmo, mas chamou atenção e muita gente reviu a  melhor novela que a Rede Record produziu nos últimos sete anos.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Essas Mulheres: havia algo de primoroso que muito me encantava

Por Isaac Santos

Teledramaturgia de época quase sempre me agrada. Mas por depender de uma produção de custo mais elevado e um cuidado redobrado da equipe responsável, as emissoras têm feito cada vez menos. A Record, mais especificamente, deixa muito a desejar quando se trata de reconstituição de outras épocas.
Contrariando essa afirmativa, em 2005, após a exibição bem sucedida de A Escrava Isaura, a emissora optou por dar sequência a exibição de tramas de época. Então presenteou o seu público com uma de suas melhores telenovelas. Arrisco-me a elegê-la como a minha favorita do canal: Essas Mulheres.


A novela ‘Essas Mulheres’ foi um dos primeiros passos da Rede Record ao entrar numa nova fase de sua teledramaturgia [torço pra que não se torne em constantes frustrações]. Injustamente, o público alvo da emissora não soube corresponder ao que lhe era proposto pelos belíssimos capítulos da novela. No entanto, se a audiência não foi memorável, o mesmo não se pode dizer do projeto em si. Essas Mulheres foi sucesso de crítica.

Com uma primorosa produção de época, o autor Marcílio Moraes estreou na emissora com o pé direito. Foi muito feliz na parceria com a autora Rosane Lima. Juntos escreveram a trama, com a colaboração de Cristianne Fridman e Bosco Brasil. Merece destaque também a direção irretocável do Flávio Colatrello Jr., muito bem acompanhado por João Camargo e o saudoso Fábio Junqueira.

Essas Mulheres poderia ter sucumbido quando a emissora decidiu reduzir os investimentos em sua produção. Mas não foi o que ocorreu. A novela mostrou toda a sua força na história, nos diálogos, nas interpretações, enfim, havia algo de profundo em sua relação com o público.
O autor Marcílio Moraes chegou a declarar: “Em 2005, escrevi uma novela, Essas Mulheres. Mas por razões de produção, depois do capítulo 10, não tive mais externas. Eu reclamava da boca para fora, porque na verdade adorava escrever tudo para interiores. Funcionava muito bem. Eu evocava o Rio de Janeiro do Segundo Império através dos diálogos. O que importava eram os personagens e a história. As paisagens, o espectador criava na imaginação, com a maior facilidade.”

Raras vezes a Record conseguiu agradar pela singeleza do produto. Essas Mulheres tem o mérito de ser o que é, justamente por apresentar uma teledramaturgia pura, rica, graciosa, “despretensiosa”. Quem acompanhou sabe do que estou falando. A trilha sonora, nem poderia ser de outro modo, só contribuiu para isso. Destaco ‘Corações Animais” de Zé Ramalho, tema do inescrupuloso Manoel Lemos, personagem brilhantemente interpretado por Paulo Gorgulho, e ‘Pop Zen’, música de abertura da novela, na voz inconfundível da família Caymmi.


Essas Mulheres é ambientada no Rio de Janeiro do século XIX. Foi livremente inspirada em três romances de José de Alencar: Senhora, Diva e Lucíola. As três histórias ganharam tramas muito bem entrelaçadas, cada uma com o seu destaque. As atrizes Carla Cabral [ex Carla Regina] , Mirian Freeland e Christine Fernandes [a Record queria Lavínia Vlasak pra viver a Aurélia, mas hoje, revendo a novela, percebe-se quão excelente escolha foi feita] eram Glória/Lúcia, Mila e Aurélia, respectivamente, as três com status de protagonista, embora o fio condutor da novela seja mesmo a história de Aurélia.

Aurélia: moça pobre, mas digna e honrada. Apaixonada por Fernando, vê o seu grande amor lhe trocar por Adelaide por causa de um dote, a partir daí vê sua vida desmoronar perante os golpes da vida que pioram ainda mais a situação: é despejada de sua casa com sua mãe e o seu irmão. Após o seu tio Lemos assumir a sua tutela passa pelas piores situações possíveis. Sua vida muda quando recebe uma inesperada herança. A fortuna lhe dá condições de ter o homem que ama e ela não hesita em vencer sua maior rival, e casa-se com Fernando, só para descobrir que, longe da ventura sonhada, comprou o infortúnio. Terá de enfrentar as manobras do terrível vilão que é seu tio e tutor, Manoel Lemos, firmemente disposto a se apropriar da fortuna que ela herdou.

Glória/Lúcia: amiga de Aurélia desde a adolescência. Órfã de mãe e com o pai doente, ela se vê obrigada a se prostituir para comprar remédios para o pai. Por este gesto, é expulsa de casa pelo pai. Torna-se uma cortesã, e para não trazer vergonha à família troca de nome com uma prostituta que acaba morrendo, transformando-se assim na cortesã, mas famosa da cidade. Acaba se apaixonando por Paulo, e para viver este amor enfrenta diversos preconceitos. O destino foi cruel e ela acaba perdendo seu grande amor em uma fuga, na qual é acusada de assassinato e vai parar atrás das grades.

Mila: jovem bem nascida. É inconformada com as limitações e preconceitos da sua época. Uma moça misteriosa, tem um comportamento que causa estranheza. Guarda um grande segredo dentro de si. Vive terríveis conflitos com sua mãe Leocádia, que acha que ela esteja ficando louca. Tudo isso a leva a sofrer distúrbios psicológicos. É tratada por um médico negro, Dr. Augusto por quem acaba se apaixonando. Juntos têm que vencer barreiras e preconceitos banais impostos pela sociedade para ficarem juntos.


Mas de que adiantaria três excelentes protagonistas se não houvesse um bom elenco com o qual contracenar? Essas Mulheres tinha alguns momentos de humor, mas o ponto forte [e o que mais me encantava] era o drama, a emoção, o romantismo, os conflitos existenciais tão presentes em cada personagem, e os atores viviam essas nuances com muita verdade. Vale mencionar alguns nomes:
Gabriel Braga Nunes despertava paixão e ódio na pele do ambicioso e encantador Fernando Seixas. É por este que o coração de Aurélia bate mais forte.


Coube aos talentosos Paulo Gorgulho e Adriana Garambone fazer as piores maldades ao longo dos capítulos. Mas o time era maior, o mal estava muito bem representado também pelos atores Ana Beatriz Nogueira, Roberto Bomtempo e Talita Castro. No entanto, óbvio que por se tratar de uma boa teledramaturgia, suas histórias eram contadas sob uma perspectiva humana, fugiam de um maniqueísmo previsível.


E outros tantos que só agregaram valor positivo ao produto, vide Ana Rosa, Marcos Winter, Ewerton de Castro, Petrônio Gontijo, Marcos Breda, Daniel Boaventura, Camila dos Anjos, João Vitti, Tânia Alves, Ingra Liberato, Luciene Adami, Cássio Reis, Gésio Amadeu, Luis Carlos de Moraes, Leonardo Miggiorin, Natália Rodrigues, Raquel Nunes, Theodoro Chrocane, Alexandre Moreno, Valquíria Ribeiro, Maria Stella Tolbar, Luciano Quirino, Milhem Cortaz, Carlo Briani.


Além de participações pra lá de especiais: Sergio Mamberti, Selma Egrei [numa das raras vezes em que a emissora exibiu personagens ligados à Igreja católica], Silvia Salgado, Celso Frateschi, Antônio Petrin.


Essas Mulheres, fosse da Globo, certamente estaria entre as minhas preferidas pra um vale a pena ver de novo, ou mesmo pra uma reprise do Viva. E você assistiu, gostou, ratifica o texto ou não compartilha do mesmo apreço pela trama em questão?    
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