Por Daniel Couri
Um novo jeito de assistir TV se popularizou nos
últimos dois ou três anos. Confesso que – pelo menos para pessoas como eu, que
ainda engatinham nesse mundo de tecnologias galopantes – a nova forma de ver televisão
requer certo malabarismo. Refiro-me ao twitter, a rede social que une
telespectadores do país (e do mundo) todo.
Atualmente é bem comum comentar as novelas em
tempo real. Falo das novelas porque é quando a maioria dos tuiteiros
'comentaristas' convergem para o mesmo programa. Novela ainda é uma paixão
nacional, por mais que o gênero passe por altos e baixos. Seja para aplaudir ou
atirar pedras, o Brasil está sempre de olho nela.
Não sou tuiteiro muito assíduo, mas tenho
notado cada vez mais claramente um lado positivo e outro negativo nessa
história. O bom é que assistir a um programa que você curte e poder comentá-lo
com outras pessoas que também curtam é muito divertido. É como reunir um grupo de
amigos em casa para ver um filme que todos gostam, ou o último capítulo de uma
novela. No caso do twitter, são amigos virtuais, claro, mas acabam muitas vezes
sendo mais assíduos do que amigos 'reais'.
O lado ruim é que os tuiteiros mais
beligerantes costumam assumir uma atitude arrogante e até agressiva com quem
não compartilha do mesmo ponto de vista deles. Uma simples divergência de opiniões
a respeito do personagem de uma novela, de uma celebridade ou de uma música torna-se
motivo para bate-bocas intermináveis e bobos. O twitter nos deixou mais
melindrosos e presunçosos. Todos se julgam experts e críticos imbatíveis e isso
acaba gerando um mal-estar.
O grande prazer de hoje não está simplesmente
em se sentar na frente da TV e acompanhar a novela passivamente. O público do
twitter elogia, ataca, compartilha, repassa, defende, dá pitaco. A novela quase
fica em segundo plano, já que o foco é comentar freneticamente. Vira uma espécie
de competição para ver quem vai dar a tuitada mais engraçada ou inteligente primeiro.
Ou quem vai fazer a piada mais rapidamente. Com Avenida Brasil, no ano passado, era pura catarse coletiva: todos
vibravam, brincavam, elogiavam, sentiam-se parte da novela. Com Salve Jorge é o contrário: repudiada
pela maioria dos tuiteiros noveleiros, a novela virou o tema favorito de
piadas, deboches e troca de farpas.
Ainda não cheguei a uma conclusão sobre o
saldo disso tudo. Se por um lado o público (por meio do twitter) está muito
próximo de quem faz a novela (emissoras, autores, artistas) e tem a chance de
expressar sua euforia pelas tramas, por outro parece que muita gente está mais preocupada
em achar falhas e defeitos nas novelas do que em mergulhar nas histórias. É
válida a 'vigilância' dos telespectadores. O público não precisa engolir tudo
só porque a novela “é uma obra de ficção”. Aceitar furos grosseiros numa trama,
por exemplo, é subestimar a capacidade intelectual do público. Porém me
pergunto: até que ponto esses furos não ficaram gigantescos aos olhos do
público justamente por causa dos vigilantes que não deixam passar absolutamente
nada? Pelo visto, daqui pra frente os autores de novelas vão precisar de muito
mais cuidado, até mesmo nos mínimos detalhes. Os twitterspectadores não
perdoam.


