quinta-feira, 13 de junho de 2013

Os vilões do mundo do entretenimento


Por Vanessa Carvalho

Um sábio já disse uma vez “não existe um grande herói sem um grande vilão”. Esse sábio, por algum acaso se chama Stan Lee, o maior criador de heróis e vilões que se tem notícia. Mas vamos começar pelo princípio.
O mundo do entretenimento é movido por números. Números nas contas bancárias dos produtores, estúdios, e tantas outras pessoas que fazem dele seu ganha pão, e quando falamos disso, é uma necessidade orgânica que haja empatia com o público. E isso é feito através de personagens cativantes. E em sua grande maioria (Acreditem não é pouco) cabe aos vilões esse papel. Quantas vezes você já não se pegou torcendo pelo vilão única e exclusivamente por ele ser loucamente irônico? Ou simplesmente pelo fato de ele ser completamente apaixonante?

Se alguém ainda tem alguma dúvida, é só ver a legião de fãs que existem para personagens como Darth Vader, ou o Coringa, ou até mesmo pelo Loki? Se você gostar da chamada cultura nerd, provavelmente vai ter mais empatia por esses personagens no cinema que nos próprios mocinhos. Digo mais, o que salvou o filme “Cavaleiro das Trevas” foi justamente o Coringa e sua incrível capacidade de ser irônico. É impossível se falar em Star Wars e não pensar em Darth Vader e suas frases perturbadoramente verdadeiras. Ou então, confesse que Os Vingadores não seria a mesma coisa se não houvesse o Loki para fazer equilíbrio com tantos heróis carismáticos.

Não, para um herói carismático é necessário um vilão tanto quanto ou até mais para poder existir o equilíbrio. Nas novelas, por exemplo? Vale tudo não seria a mesma coisa sem Maria de Fátima e Odete Roitman que até hoje estão fazendo sucesso, passa o tempo e ninguém consegue se esquecer delas. E o que falar de Nazaré Tedesco, Carminha e Tereza Cristina? Garanto que suas respectivas novelas não seriam a mesma coisa sem elas. O que dizer da personagem de Renata Sorrah na frente do espelho olhando sensualmente falando com sua voz sexy “Gostosa”. Ou Teresa Cristina agradecendo a ela com sua voz cínica no pé da escada de sua casa? Não, as novelas não seriam a mesma coisa sem elas.


Mas o segmento que podemos encontrar milhões de vilões carismáticos é, sem dúvida nenhuma, a literatura. Desde quando o mundo era apenas um embrião, a literatura vem nos brindando com personagens tão fortes que o fato de ser vilão fica em segundo plano. Ou alguém duvida de que Sarumã, ou mesmo Sauron? Quem não gostaria de ter o Um Anel para todos controlar? São personagens tão marcantes que é impossível você não simpatizar com eles, mesmo que você queira acabar com a existência da maioria deles. Outro que de tantos fãs e seguidores passou para o mundo dos mocinhos foi Lestat. O cara tem tantos fãs que ele simplesmente deixou de ser o vilão de Entrevista com o Vampiro e passou a ser o mocinho de A Rainha dos Condenados, tamanho foi a aceitação dele junto ao grande público. E eu acho que o campeão é Voldemort. Os “Potterheads” como são conhecidos os fãs mais fervorosos da saga do bruxinho o chamam inclusive de Tio. Você não pode ser fã seja dos livros, seja dos filmes, do bruxinho e não amar aquele que não deve ser nomeado.


Não, é impossível você ter um grande herói sem um fantástico vilão. E o exemplo disto está nesta novela Amor à vida. Félix simplesmente se tornou, da noite para o dia, o principal personagem da trama de Walcyr Carrasco. Tanto que em apenas um dia, a página no Facebook “Félix bicha má” superou o número de curtidas que o seu criador esperava.


Vilões se tornam interessantes por justamente ser algo que está muito além do que seria aceitável na realidade. Alguns deles, como os vilões criados por Stan Lee, por exemplo, são complexos, pois há de se ver que não são totalmente vilões. A sua essência, muitas vezes existe o conflito entre o que eles acreditam, com o que eles estão fazendo e com as suas consciências. E isso chama muito mais a atenção que os mocinhos com toda aquela essência ética e cheia de moral.

Não existiria um grande herói sem seu vilão. E o que podemos chamar de vilão?

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O passado se faz presente através do canal Viva


Por FÁBIO COSTA

No ar desde maio de 2010, o canal Viva chegou para realizar um sonho acalentado havia muito tempo pelos fãs de teledramaturgia. Depois de anos pensando numa iniciativa semelhante, a Globosat enfim decidiu pela criação de um novo canal que unisse clássicos da teledramaturgia a filmes e séries dublados mais atrações de variedades da TV Globo aberta e de outros canais do grupo como GNT e Multishow. Assim, o público tem no mesmo canal a chance de rever séries infantojuvenis como Sandy & Junior (1999/2002) e Caça Talentos (1996/1998), novelas de grande sucesso das décadas de 1980 e 1990 - as primeiras reprisadas foram Quatro por Quatro (1994/95) e Por Amor (1997/98) -, humorísticos clássicos como Chico Total (1996), Escolinha do Professor Raimundo (1990/95), Viva o Gordo (1981/87), TV Pirata (1988/90 e 1992) e Sai de Baixo (1996/2002) e musicais como Globo de Ouro (1972/1990) e Som Brasil (na leva de programas da década de 1990).


Nesses três anos no ar, o Viva proporcionou ao público a oportunidade de conhecer ou rever algumas das melhores produções da teledramaturgia brasileira - notadamente o forte do canal. São exibidas de segunda a sexta-feira três novelas e uma minissérie, além das séries nacionais infantojuvenis e adultas. Inicialmente eram apenas dois horários vespertinos de novela (15h30 e 16h30) e um noturno para minisséries (23h45), mas em outubro de 2010 a faixa da 0h45 passou também a exibir novelas, tendo sido Vale Tudo (1988) a escolhida para estrear o novo horário, com a nata da produção e da memória afetiva do público. Na sequência foram novamente ao ar Roque Santeiro (1985/86), Que Rei Sou Eu? (1989) e atualmente é reprisada Rainha da Sucata (1990).
No horário das 15h30 o Viva exibiu após Quatro por Quatro as novelas Vamp (1991/92) e Top Model (1989/90), enquanto às 16h30 depois de Por Amor vieram O Rei do Gado (1996/97) e Barriga de Aluguel (1990/91). Atualmente as novelas da tarde são Felicidade (1991/92) e Renascer (1993), respectivamente às 15h30 e 16h15.


Dentre as minisséries, algumas das mais lembradas e pedidas pelo público já foram ao ar pelo canal: as excelentes Anos Dourados (1986), Anos Rebeldes (1992) - ambas mais de uma vez -, Hilda Furacão (1998), Agosto (1993), O Tempo e o Vento (1985), Memorial de Maria Moura (1994), A Casa das Sete Mulheres (2003), Um Só Coração (2004), JK (2006) e A, E, I, O... Urca (1990) foram algumas das histórias exibidas. Por terem duração muito menor que a das novelas (cerca de um oitavo ou um nono do total de capítulos), as minisséries têm mais chance de ir ao ar mais de uma vez, como também foi o caso de Desejo (1990), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1998) e Chiquinha Gonzaga (1999).

O sucesso do canal Viva comprova que existe público interessado em programas antigos, de diversos gêneros. Por isso mesmo representa uma esperança para todos aqueles que já se conformaram com o fato de o Vale a Pena Ver de Novo das tardes globais exibir apenas novelas bastante recentes (e em versões editadas, ao contrário do Viva, que exibe a íntegra das produções) e a grade da emissora aberta não ter espaço para essas e outras atrações que num canal pago podem ir ao ar para atender a um público que deseje assisti-las, na contramão do consenso de que o que é "velho" não tem apelo.

Através de um canal como o Viva é que se poderá rever produções há muito ausentes da televisão, como foi o caso de Vale Tudo e pode ser o de diversas outras novelas, séries e minisséries. O forte da grade é composto por programas da década de 1990, mas os anos 70 já se fazem presentes através de séries estrangeiras como a superclássica Dallas (1978/91) e Malu Mulher (1979/80). Logo, não é de se estranhar que em breve algumas novelas como O Bem-amado (1973), Escrava Isaura (1976/77) e Dancin' Days (1978/79) - em especial por já terem sido lançadas as suas versões em DVD - ganhem a tela do canal.

Cada um tem os seus desejos particulares de reprise, e claro que a lista de fã para fã varia e muito. Mas há os desejos quase unânimes, que podem vir a ser atendidos pelo Viva conforme a oportunidade. Tieta (1989/90), inspirada no romance de Jorge Amado Tieta do Agreste, é um caso, bem como as primeiras minisséries da Globo como Avenida Paulista (1982) e Anarquistas, Graças a Deus (1984) e a temporada dos anos 80 de Chico Anysio Show (1982/90). Novelas das seis como Fera Radical (1988), Livre para Voar (1984/85), A Gata Comeu (1985) e das sete como Vereda Tropical (1984/85), Bebê a Bordo (1988), Deus nos Acuda (1992/93) e mesmo sonhos maiores como as versões originais de histórias recentemente refeitas como Guerra dos Sexos (1983) não são mais sonhos tão inalcançáveis assim. Viva o Viva, e que muitos anos venham pela frente para deleite dos fãs de teledramaturgia e televisão brasileira.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O que é bom, a gente nunca esquece!



Por: André Cavalini

A saudade é um sentimento que faz parte da vida de todo ser humano. Vez ou outra a gente se pega em algum canto recordando algum momento, alguma pessoa ou alguma coisa que marcou o livro de nossa história.

Na televisão, não é diferente. A gente vive sim com saudade de grandes histórias e assim sendo, de grandes personagens que passaram uma temporada na TV de casa, grudando a nossa atenção e fazendo a dona Maria esquecer o feijão no fogo.

Hoje eu convido a todos os leitores para fazermos uma viagem pelos anos e anos de histórias que a televisão nos proporciona, e recordarmos os personagens que mais nos marcaram. Aqueles que por algum motivo nos chamaram a atenção e nos fizeram sorrir ou chorar.


Por que um personagem quando bem construído, tem esse poder. Ele “pega” tanto, que consegue ser responsável por alguns sentimentos dentro da gente, durante o tempo em que o estamos assistindo.  
Quem nunca se pegou com vontade de dar uma surra de vara de marmelo em Bia Falcão? Ou então, ficou com vontade de fazer um cafuné no abobalhado Tonho da Lua, quando ele era vítima de alguma maldade da vilã Raquel? Que mulher que não quis receber uma flor do fotógrafo Jorge Tadeu, ou que homem que não desejou ter em seus braços a sensual Gabriela? Quem não soltou boas risadas com Cláudia Raia e sua atrapalhada Jaquelini no remake de TITITI, ou ainda, quem não se emocionou com a Dulce de Morde e Assopra e sua difícil vida para educar o filho?



A gente se envolve sim, se sente no direito de meter o dedo, de dar palpite. Vira e mexe soltamos aquelas frases “Ah se fosse eu...”, “Se eu cruzasse com fulana(o) na rua...”. E a força de nossa reação para determinados personagens é tão forte, que podemos mudar o destino até então preparado para eles, na cabeça [sinopse] do autor.
Assim foi com Bahuan, de Márcio Garcia, em Caminho das Índias, que perdeu o posto de galã e não ficou com a mocinha no final. E por outro lado, vale lembrar de Juliana Paes em Laços de Família, que agradou tanto a ponto de ver sua empregada Ritinha crescer na trama e até mesmo engravidar do patrão.



A reação do telespectador pode alavancar ou rebaixar um personagem. Se gostamos, ele cresce na história, mas se odiamos, ele cai e dificilmente subirá ao topo novamente.
É por isso que é muito importante os atores se dedicarem de corpo e alma a construção de seus personagens da melhor maneira possível, pois o resultado final tem que nos agradar, e nós estamos cada vez mais exigentes. Queremos bons personagens para mais tarde, termos mais saudade pra sentir.

Quando digo um bom personagem, não me refiro apenas aos protagonistas, pois uma novela não é feita só de personagens principais. Muitas vezes acontece destes, serem ofuscados pelos coadjuvantes, que de tão bons, acabam nos conquistando com mais facilidade. Recentemente podemos citar a delegada Helô, de Giovana Antonelli em Salve Jorge. Mas no passado temos, entre tantos, a dona Armênia, de Aracy Balabalian em Rainha da Sucata. Até hoje a gente a ouve gritar, no inconsciente de nossas lembranças, que  "vai botar o prédio na chon".


Um bom personagem pode levar seu interprete ao céu, marcá-lo por toda a vida e imortalizá-lo na memória da humanidade. É só lembrarmos de Beatriz Segal, que nunca mais conseguiu se livrar da Odete Roitmam que brilhantemente interpretou em Vale Tudo. Mas um personagem mal construído também pode ser a ruína de um profissional. Que o diga Ricardo Macchi, que graças ao cigano Igor de Explode Coração e a péssima atuação do ator, nunca mais teve papéis importantes na telinha.


Espero, sinceramente, que cada vez mais os autores criem personagens capazes de nos cativar, e que os atores ou atrizes que os desenvolverem se lembrem de que esse pode ser o papel de sua vida; aquele que daqui a  vinte, trinta, cinquenta anos, estará ainda em nossa mente.

E a gente adora recordar essa galera:


Mais Recentes

Pereirão, de Lilia Cabral em Fina Estampa.
Não era gostosa, mas era batalhadora, justa e de pulso firme. Mostrou que persistência supera vaidade e fé é maior que dinheiro. 
  
Carminha, de Adriana Esteves e Avenida Brasil.
Safada, "cachorra", bandida. Cara e jeito de mulher malandra. Enganou todo mundo na novela e fez a gente vibrar com suas maldades. Muitas vezes era por ela que torcíamos.

Giovanni Improtta, de José Wilker em Senhora do Destino
Simplesmente porque ele era 'felomenal".

Crô, de Marcelo Serrado em Fina Estampa.
Personagem engraçado, caricato, mas com uma brilhante interpretação. Suas caras e bocas assim como seus bordões agradaram a galera. Gostamos tanto, que o personagem vai virar filme.

Tarso, de Bruno Gagliasso em Caminho das Índias.
Problemático... E quem não é?

Nazaré Tedesco, de Renata Sorrah em Senhora do Destino.
Safada, "cachorra", bandida. Cara e jeito de mulher malandra. Enganou a quase todos os personagens, e fez a gente vibrar com suas maldades. Aquela escada era assustadora.

Chayene, de Cláudia Abreu em Cheias de Charme.
Engraçada e malvada. Chayene foi a vilã que adoramos odiar. 

Zé Maria, de Lázaro Ramos em Lado a Lado.
Orgulhoso, "marrento". Não curtia a ideia de a mulher ganhar mais que ele, se achando um super homem. Ou seja, a representação perfeita de nós homens.

Márcia, de Drica moraes em Chocolate com Pimenta.
Ela era chique, "benhê". 

Leleco, de Marcos Caruso em Avenida Brasil
Porque feio e careca, ainda pegou a Débora Nascimento.

Das Antigas

Ruth e Raquel, de Glória Pires em Mulheres de Areia.
Jamais esqueceremos Glorinha fazendo quatro papéis de uma só vez. A gêmea boa, a má, a má que finge ser boa e  a boa que finge ser má.

Geremias Berdinazzi e Bruno Mezenga, de Raul Cortez e Antônio Fagundes em O Rei do Gado.
Uma dupla de titãs em personagens bem escritos, bem interpretados. Uma gostosa saudade com sotaque italiano e caipira.

Jorge Tadeu, de Fábio Júnior em Pedra sobre Pedra.
As mulheres queriam um Fábio Júnior na janela [não necessariamente neste lugar] de seu quarto. Os homens queriam sê-lo, conquistar todo aquele elenco feminino da novela.

Juma Maruá, de Cristiane Oliveira em Pantanal.
Ela virava onça e aparecia nua em muitas cenas. Quem não gosta muito de lembrar é a Rede Globo.

Natasha, de Claudia Ohana em Vamp.
Muito antes de Crepúsculo e companhia, foi ela quem despertou em nós a paixão pelo mundo vampiresco.

Sinhozinho Malta, de Lima Duarte em Roque Santeiro.
O homem era rico, poderoso, carregava uma fortuna no braço e ainda nos fazia rir. "Tô certo ou tô errado?" 

Tieta, de Betty Faria em Tieta.
Ela foi escorraçada de casa e voltou poderosa. A gente adora esse tipo de história. 

Tonho da Lua, de Marcos Frota em Mulheres de Areia.
"ÓÓÓÁAAANNN a Rutinha é boa a Raquel é má!". Impossível não embarcar na história sensível do Da Lua.

Diná, de Cristiane Torloni em A Viagem.
Só a Torloni pra ser bonita viva e mais bonita ainda depois de morrer. O céu fez bem pra ela.

Augusta Eugênia Proença de Assunção, de Arlete Sales em Porto dos Milagres.
Arlete Sales num de seus "últimos" personagens que realmente valeram a pena. Garantiu excelentes momentos de vilania, sem comprometer o tom bem humorado da personagem. Num contraponto com a vilã mor da Cássia Kiss. 

E claro que este post não poderia ser finalizado sem falar dela que, mesmo sem ser brasileira, mesmo sem fazer uma novela brasileira, marcou o país com suas personagens que se tornaram inesquecíveis para todos nós. Tão inesquecíveis, que sempre que o SBT reprisa a novela A Usurpadora (já no ar pela quinta vez) a gente corre pra assistir: Gabriela Spanic, ou se preferir Paulina / Paola Bracho.         

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A Novela Noir de João Emanuel Carneiro


 Emerson Felipe

Antes de parar o Brasil com a esfuziante e ousada Avenida Brasil, João Emanuel Carneiro já havia abalado as estruturas do gênero telenovela em sua estreia no horário nobre, no ano de 2008. Em A Favorita, o público foi apresentado a uma narrativa diferenciada, que trocava o tradicional folhetim de cartas marcadas por um texto enigmático, em que o telespectador era convidado a desvendar quem era a heroína e quem era a vilã no jogo.

A Favorita levou à tela a intensa relação de ódio e rivalidade entre duas mulheres completamente diferentes, mas unidas por um passado em comum. Flora (Patrícia Pillar) e Donatela (Cláudia Raia), criadas juntas e antigas parceiras de dupla musical, com o tempo, tomaram rumos diferentes e tornaram-se inimigas. Uma delas assassinou um homem, sendo que, em razão disso, a frágil Flora foi condenada a 18 anos de prisão. Mas ela jura inocência e afirma ter pagado por um crime que não cometeu, atribuindo a sua autoria à arrogante Donatela, que teria forjado provas contra ela. Diante das mútuas acusações e das duas versões para o mesmo crime, coube ao telespectador, na primeira fase da novela, o papel de juiz. "Quem está falando a verdade? Em qual delas podemos confiar?",  anunciavam as chamadas.


Durante os primeiros 55 capítulos se desenvolveu a fase nebulosa de A Favorita, em que Flora e Donatela acusavam-se mutuamente pelo assassinato de Marcelo (Flavio Tolezani), herdeiro da poderosa família Fontini e, à época, marido de Donatela e amante de Flora. Enquanto Donatela fazia de tudo para difamar e destruir a rival, que tentava retomar a sua vida após cumprida a pena, Flora jurava sua inocência, tentando, ainda reconquistar o amor da sua filha, Lara (Mariana Ximenes), que acabou sendo criada por Donatela enquanto a inimiga esteve presa. Mentiras e segredos comprometedores de ambas as partes vinham à tona ao longo dos capítulos, aguçando a dúvida: será que Flora realmente era aquela candura de mulher e Donatela a opressiva e injusta vilã?


Apesar da diferente e convidativa proposta, o público mais conservador não se empolgou com a função de detetive da trama: A Favorita marcou, na época, a pior audiência de estreia de uma novela do horário nobre. Somente na etapa seguinte a novela entraria nos eixos a nível de audiência e repercussão, transformando-se num grandioso sucesso.

No capítulo 56, esclareceu-se o mistério inicial da trama: Flora se revela a grande vilã, tendo realmente assassinado Marcelo Fontini. A partir daí, inicia-se a ascensão de Flora e a desgraça de Donatela, que é presa por armação da arquiinimiga. A vingança de Flora vai de vento em popa, conquistando tudo aquilo que era de Donatela - inclusive a confiança da familia Fontini e da filha (que, após rejeitá-la, chega a chamá-la de mãe, quando a megera forja um sequestro). Paralelamente, Donatela consegue fugir da cadeia com a ajuda de Diva (Giulia Gam), antigo desafeto de Flora dos tempos de presídio, e, ocultamente, busca provas contra a rival, a fim de preparar a sua derrocada.



A reta final é o momento de acerto de contas entre as inimigas e a progressiva decadência moral e psicológica de Flora. Após infernizar e perseguir a inimiga, num misto de ódio e admiração, a megera é finalmente presa, tornando-se vítima da própria loucura e obsessão por Donatela - a sua favorita, conforme ilustra a histórica cena final da novela.

Além da narrativa diferenciada, A Favorita se distinguiu por uma estética/direção peculiar, em sintonia com o teor gélido e pesado da trama central. A fotografia escura, que privilegiava cenas noturnas e penumbra, assim como ambientes sombrios, conferia ainda mais credibilidade ao terror psicológico do texto. Cenas espetaculares, dignas de filme noir, hipnotizaram e chocaram o público. A sequência em que Flora mata Gonçalo (Mauro Mendonça), o patriarca dos Fontini, após este descobrir sua verdadeira face - sem violência física, mas tortura psicológica - , ficou gravada na retina do público. As cenas de Flora sendo perseguida pela imagem de Donatela e finalmente desmascarada diante de uma plateia de teatro, também marcaram época.


A Favorita foi uma novela, essencialmente, de história central: a rivalidade entre as protagonistas e as tensões no seio da Família Fontini dominaram o palco, num ritmo vertiginoso de acontecimentos e reviravoltas. Reviravoltas estas encadeadas por meio de alucinantes ganchos que prendiam diariamente a atenção do telespectador, num nível crescente de tensão e catarse. Cláudia Raia defendeu bem a justiceira Donatela, mas o grande destaque ficou, realmente, para o surpreendente trabalho de composição de Patrícia Pillar. 

Acostumada a papéis mais românticos e benevolentes, a atriz marcou época com a fria e perigosa psicopata Flora Pereira da Silva. Conseguiu com maestria enganar não só os personagens dentro da trama, como também o próprio telespectador, que se chocou com a transformação da injustiçada ex-presidiária em uma máquina mortífera movida a sangue, inveja e ódio. A megera também divertiu a audiência com suas tiradas sarcásticas: não à toa, muitos chegaram a considerar Flora a melhor vilã da teledramaturgia, ao lado de ícones como Odete Roitman de Vale Tudo.


Em compensação, o conjunto dos núcleos paralelos foi o calcanhar de Aquiles de A Favorita. Tramas desconexas extremamente repetitivas (como a da infiel Dedina - Helena Ranaldi) e constrangedoras (Maria do Céu - Deborah Secco - ''convertendo'' o homossexual Orlandinho - Iran Malfitano), que pouco contribuíam para o desenrolar da novela, passaram despercebidas pelo público. Excelentes atores como Tarcísio Meira, Milton Gonçalves, Cláudia Ohanna, Gisele Fróes, Thaís Araújo, entre outros, foram desperdiçados em papéis apagados ou esquemáticos, aquém de seu talento. A exceção, contudo, ficou por conta da delicada trama da submissa Catarina (Lília Cabral), subjugada pelo violento marido Leonardo (Jackson Antunes) e que desperta a paixão da bela e bem-resolvida homossexual Stela (Paula Burlamaqui). Faltou um conjunto mais harmônico e uma melhor interação entre as tramas de A Favorita, defeito característico de João Emanuel Carneiro, que só veio a ser amenizado na sua novela seguinte, Avenida Brasil.

Com uma narrativa diferenciada e um ritmo vertiginoso, a soturna trajetória de ódio, vingança e até mesmo amor entre suas protagonistas, A Favorita deu a volta por cima, injetou sangue novo na teledramaturgia e se tornou uma das novelas mais ousadas e cultuadas dos últimos tempos. Que as cores sombrias do noir de A Favorita iluminem os rumos que a teledramaturgia venha a seguir nos próximos anos.

sábado, 1 de junho de 2013

Video Show: Mesmo não estando em sua melhor fase, o programa ainda é uma boa pedida


Por Vinicius Pantoja

Durante três semanas o Vídeo Show exibiu em seu quadro “Novelão” a novela “Avenida Brasil”, um dos maiores fenômenos dos últimos anos, porém apenas sete meses após o seu término. Isso reflete a grande preocupação com a audiência do programa, que oscila entre 7 e 11 pontos e já havia perdido algumas vezes para o programa “Balanço Geral”, exibido na Record. A verdade é que o Vídeo Show já não anima tanto quanto nos seus tempos áureos, e atualmente o programa se dedica pouco à memória da TV.


O Vídeo Show é um dos programas mais antigos da Globo ainda em exibição: esse ano o programa completou 30 anos no ar. E é indiscutível sua importância na função de manter viva a memória da televisão brasileira. Com matérias que geralmente mostram cenas de programas antigos, discute sobre as novelas atuais e mostra os bastidores dos programas da Globo, o programa se destaca pelo seu formato único na TV brasileira. Durante os seus trinta anos já passaram pela bancada do Vídeo Show artistas como Tássia Camargo, Marcelo Tas, Miguel Falabella, Márcio Garcia, Tony Ramos, entre outros. Também já foram repórteres do programa: Cissa Guimarães, Renata Ceribelli, Chris Couto, Zezeh Barbosa, Mariana Hein, Nívea Stelmann, entre outros.

Atualmente, sob a direção de J. B. Oliveira, o Boninho, o Vídeo Show tem um formato mais próximo ao de revista eletrônica. Porém, o programa já não está mais em seus tempos áureos. 


Hoje o programa se dedica mais aos programas em exibição do que ao baú da Globo. Os apresentadores Ana Furtado e André Marques têm sintonia, mas o roteiro deixa a comunicação entre os dois um pouco forçada. Os tweets exibidos algumas vezes atrapalham quem está assistindo a matéria e a impressão que se tem é de que esses tweets são escolhidos aleatoriamente para ir ao ar. O Vídeo Game, o quadro mais interessante do programa, foi extinto por pedido de Angélica, que queria se dedicar apenas ao Estrelas. E o tradicional quadro Falha Nossa, amado por todos os telespectadores do programa, hoje é exibido poucas vezes.


Mas o programa ainda tem os seus pontos positivos. O Vídeo Show ainda é a melhor escolha pra quem está em casa no horário, entre programas policiais, séries enlatadas, programas religiosos. E para quem quer uma coisa leve, descontraída e  ainda conhecer os bastidores de um programa de TV, ele é uma boa pedida. A já citada sintonia entre os apresentadores aproxima o telespectador ao programa. 


E também o quadro “Novelão”, que traz compactos de novelas e os apresenta durante duas semanas, é ótimo para relembrar grandes novelas. O problema é que o quadro está virando uma espécie de “Vale a Pena Ver de Novo”, pois a última novela exibida pelo quadro foi “Avenida Brasil”, e a partir de segunda, será exibida “Cordel Encantado”, um grande sucesso de audiência e de crítica da dupla Duca Rachid e Thelma Guedes, mas que acabou há menos de dois anos.


Portanto, se você é um grande amante da teledramaturgia e gosta de ver cenas de novelas e programas antigos, você pode não se animar tanto hoje em dia com o Vídeo Show. Lamentável constatar que o programa já teve dias melhores. Mas se você gosta de apenas se distrair após o almoço e ver os bastidores da TV de uma maneira bem humorada, ainda vale a pena acompanhá-lo diariamente. 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...