quinta-feira, 27 de março de 2014

Esses Amores

Filme é uma declaração de amor do diretor Claude Lelouch pelo cinema dentro e fora da tela 

Por Túlio Vasconcelos

O melodrama “Esses amores” (Ces Amours-là, França, 2010) de Claude Lelouch é uma declaração de amor ao cinema. Este realizador francês despontou para uma carreira internacional com a obra-prima “Um homem, uma mulher” em 1966, ganhando a Palma de Ouro do Festival de Cannes e lotando salas de cinema mundo a fora. Lelouch é um dos principais expoentes da Nouvelle Vague ao lado de outros grandes nomes como Alain Resnais, Jean-Luc Godard e François Truffaut.  



Em sua primeira cena, “Esses amores” releva o tom pessoal de Lelouch. A sequência abre a projeção com imagens que fazem alusão ao cinema mudo, mostrando um homem com um cinematógrafo semelhante ao dos irmãos Lumière. O filme francês lida às vezes com temas pouco confortáveis como os horrores da Segunda Guerra, mas ele é a síntese sobre coragem e amor e suas consequências. Ilva Lemoine (Audrey Dana) é uma bela mulher com o defeito de “se apaixonar rápido demais” - como afirma a própria personagem - e acaba pagando caro por isso. A vida dela é contada desde adolescência, no começo da guerra, até ser julgada por um crime ocorrido durante a ocupação nazista na França. O filme é uma grande narrativa em flashback e, a partir desse julgamento, a história vira, então, uma coleção de memórias d’esses amores.

Ilva é filha de uma ex-prostituta e vive aos cuidados de Maurice, seu amoroso padrasto. Ela é lanterninha do cinema onde ele trabalha como projecionista. Acusado de integrar a resistência francesa, ele é capturado. Tentando evitar que o padrasto seja fuzilado pelas tropas inimigas, Ilva recorre a um oficial alemão, que salva a pele de Maurice. A jovem troca o seu jovem namorado francês pelo militar alemão. Anos depois quando os aliados conseguem libertar a França do domínio inimigo, ela é vista como suspeita.

Quando é quase presa, Ilva é resgatada por dois soldados americanos Jim e Bob e termina se apaixonando por ambos. A decisão com quem ela irá se casar sai, então, de um cara ou coroa. Jim, entretanto, assassina Bob, sem que a moça saiba. Ilva se casa com o homem errado e eles vão morar nos Estados Unidos. O casal não vive bem e, por isso, ela pede o divórcio ao marido, voltando sozinha para Paris. Na tentativa de salvar o casamento, Jim vai ao encontro de Ilva, mas, por acidente, ela o mata.

No cinema, como em outras artes, não importa o tema escolhido. Na verdade, o mais importante é a forma como ele é tratado. Lelouch aborda em seu filme uma das épocas mais áridas da humanidade, mas, mesmo assim, ele consegue oferecer à plateia uma projeção forte e poética. Vez por outra, o diretor intercala a fala dos personagens em cena com trechos de filmes clássicos como “E o Vento Levou” e “Águas Tempestuosas” no cinema onde Ilva trabalha. A mise-en-scène (disposição dos elementos visuais no quadro) é organizada em cada cena com habilidade.  O cineasta consegue retratar Paris - onde maior parte do enredo se desenrola - durante a época que o filme cobre de forma convincente. Há quase um abandono pela música não diegética (ouvimos na maior parte do longa-metragem canções produzidas pelos personagens, em especial o advogado no piano e o oficial alemão com uma escaleta).

A fotografia e a direção de arte estão notáveis, somando-se à qualidade da direção de Claude Lelouch, além de um elenco impecável. Às vezes, temos a impressão de que não há ninguém dirigindo os atores. Destaque para Audrey Dana e Laurent Couson, nos papéis de Ilva e Simon, respectivamente. A cena final tem grande importância para explicar os 50 anos de carreira do realizador francês, como ele faz questão de ressaltar no início da trama.

Esses Amores (Ces Amours-là, França, 2010)
Direção: Claude Lelouch
Elenco: Audrey Dana, Dominique Pinon, Anouk Aimée
Duração: 120 minutos
Gênero: Drama

domingo, 23 de março de 2014

3 anos de blog - Eles também passaram por aqui



Ainda como parte da comemoração de aniversário, conheça a postagem mais acessada de cada colaborador que passou pelo blog nesses 3 anos:

por Ana Paula Calixto, em 15/06/2012

por André Araújo, em 26/06/2013

por Antenor Azevedo, em 23/04/2012

por Autran Amorin, em 16/03/2013  

por Bernardo Dugin, em 27/06/2012

por Breno Ribeiro, em 01/05/2013

De cigana à Pombagira - Merimée por Glória Perez
por Brunno Duprat, em 05/10/2011

Minha novela favorita: História de Amor

por Denis Pessoa, em 23/10/2011

Gabriela: um clássico em progresso
por Eduardo Vieira, em 30/11/2011 

por Emerson Felipe, em 03/06/2013

por Fábio Leonardo, em 17/03/2012

O Astro, um verdadeiro novelão
por Glauce Viviana, em 14/08/2011

por Júlio César Martins, em 21/01/2013

por Júlio Damásio, em 08/03/2012

por Júnior Bueno, em 04/08/2011

por Jurandir Dalcin, em 02/08/2013

por Marcelo Ramos, em 08/08/2012

por Mateus Peres, em 01/08/2011


por Paulo Lannes, em 10/10/2012

por Rafael Tupinambá, em 20/01/2012


por Romulo Barros, em 31/03/2012

por Serginho Tavares, em 02/02/2013


por Thiago Ribeiro, em 10/08/2011

Obrigado a todos! 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Assédio

Com ótimos desempenhos do elenco, Bertolucci cria estória de amor que parece impossível


Por Túlio Vasconcelos

O filme Assédio (Besieged, Itália, 1998) de Bernardo Bertolucci é a estória de um homem e uma mulher que não parecem ter nada em comum. Na bagagem, este realizador italiano carrega filmes como Último Tango em Paris - referência da erotização na sétima arte - e La Luna, uma das projeções mais bonitas da história do cinema. Em 1987, com O Último Imperador, Bertolucci abocanhou nove Oscars, incluindo melhor diretor e melhor filme. Assédio marca o retorno de Bertolucci à boa forma.
               
O longa-metragem começa apenas embalado por um canto africano com uma espécie de sacerdote. A sequência é interrompida e retorna junto com a música, numa relação perfeita com o som diegético da cena. Esse é o ritmo imprimido por Bertolucci nesse filme, sempre alternando o som africano com música erudita. Ainda na África, somos apresentados à Shandurai - vivida por Thandie Newton – que trabalha com menores deficientes. Não há uma só palavra nessa sequência.  Nada é dito, mas supomos que as crianças que estão aos cuidados dela tenham sido vítimas de alguma guerra entre tribos ou minas. O país (que o diretor não deixa claro qual é) vive um regime ditatorial. O marido de Shandurai, que é professor, é contra o regime. Na presença da esposa, ele é levado da sala de aula pela força truculenta pelos militares, que o levam para um lugar ignorado. Durante o primeiro e o segundo ato, destaca-se a ausência de diálogos – sua marca registrada - e, apesar disso, a estória não é comprometida em momento algum. Além disso, o realizador italiano opta por cores mais fortes para criar um clima de tensão maior. Através dos detalhes visuais, consegue-se compreender a projeção sem problemas.

Após a sequência, vemos Shandurai em Roma, na Itália, morando num pequeno quarto. Ela sobrevive do trabalho de faxineira. Além dessa tarefa, a africana dedica parte do seu tempo estudando medicina. Como boa parte dos imigrantes, Shandurai não foi bem recebida na Europa. Ela trabalha na mansão de inglês Kinsky, que é interpretado por David Thewlis.  Ele passa o dia nesse imóvel - doado pela sua tia - onde passa o dia tocando o piano. O músico fica apaixonado por ela e parece não se importar que seja casada e que o marido dela está preso na África, correndo risco de vida.  Ele é o patrão e ela, a empregada. Depois eles passam a apenas amigos que se admiram para, por fim, apaixonados. O amor de Kinsky por Shandurai faz com que ele se desfaça do que considera mais importante: o seu lindo e envernizado piano.

A mise-en-scène (organização dos elementos visuais em cena) adotada por Bertolucci tem um estilo diferenciado. As suas decisões contribuem para a qualidade superior do filme. A escada é umas das personagens mais importantes do filme. Kinsky mora na parte superior da mansão, enquanto ela, por sua vez, vive na parte inferior, o que representa a disparidade entre os protagonistas, explicitando as diferenças sociais e culturais existente entre eles. É também na escada onde se desenrolam as cenas mais relevantes do filme. Bertolucci, sabiamente, usou esse elemento arquitetônico a seu favor.

A atuação dos atores, neste caso, é essencial para o sucesso da película. Thandie Newton e David Thewlis estão impecáveis. Bertolucci consegue extrair o máximo dos atores. Ele nos mostra que não é considerado um grande cineasta à toa. À medida que a câmera se aproxima dos personagens, o diretor a movimenta criando um clima emocional, utilizando, o recurso da câmera na mão em boa parte de Assédio. O tom visual torna-se mais ameno quando a estória passa para a capital italiana.

O diretor flagra a Itália das periferias e a sua luta contra a convivência de raças no País, que já parece inevitável. Aqui, o diretor não utiliza nenhum discurso ou posicionamento. Assim, ele contempla essa riqueza étnica, sem lançar questionamentos. Observa apenas. O amor do pianista e da faxineira torna-se uma interrelação de raças sem parecer piegas ou forçado. O resultado é uma demonstração cabal da qualidade desse cineasta genial.

Assédio (Besieged, Itália, 1998)
Direção: Bernardo Bertolucci
Elenco: Thandie Newton, David Thewlis
Duração: 94 minutos


domingo, 9 de março de 2014

3º Aniversário do blog: Rememore com a gente



Há 3 anos estreávamos.
Somos gratos aos leitores, aos blogueiros convidados, aos entrevistados, aos autores que passaram por aqui, aos que continuam somando... Obrigado! 
  
Em comemoração, relembraremos postagens de convidados do blog. Confiram:

pelo saudoso Rogério Sabath, em 01/04/2011 

por Walter de Azevedo, em 15/04/2011

por Silvestre Mendes, em 18/04/2011  

por Marcos Silvério, em 10/05/2011

por Celso Garcia, em 19/08/2011

por Adilson Oliveira, em 22/08/2011

por Silvestre Mendes, em 29/08/2011

por Aladim Miguel, em 01/10/2011

por Antônio Costa, em 19/03/2012

por Marcelo Ramos, em 08/04/2012

por David Oak, em 22/06/2012

por Marcelo Ramos, em 30/06/2012

As novidades na telinha e o frescor dos "novos velhos"
por Warney Oliveira, em 04/08/2012

por Robério Silva, em 26/09/2012

por Dan Vícola, em 12/10/2012

por Robério Silva, em 07/11/2012

por Marcelo Alves, em 27/02/2013

por Renato Coelho, em 29/03/2013

por Aladim Miguel, em 15/06/2013

por Pedro Arthur, em 12/09/2013

por Bruno Fracchia, em 15/09/2013

por Murilo Pitombo, em 18/09/2013

por Duh Secco, em 24/09/2013

por Adilson Oliveira, em 03/01/2014

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Glória Perez: Levando milhões de brasileiros pro seu mundo encantado.

Por Patrick Reis

Em sua última novela, exibida há um ano, Glória Perez recebeu duras críticas sobre a saga de Morena (Nanda Costa) e seu "herói" Téo (Rodrigo Lombardi). Salve Jorge teve problemas com a audiência - bem como outras novelas da atualidade -, mas chegou ao fim; uns alegam que foi justamente por seus absurdos que a novela cativou, já tem quem garanta que ela teve seu potencial. A verdade é que como se pode condenar uma autora como Glória por um simples trabalho quando olhamos pra trás e vemos sua enorme bagagem, que inclusive conquistou o Brasil e o mundo. Antes de acompanhar o post, confira o gif biográfico #risos da autora! 



Mas vamos ao que interessa: sua carreira. Glória começou por um apoio do destino, quando o script de um episódio de Malu Mulher que ela havia escrito, foi parar nas mãos de Janete Clair. Esta, que era (e ainda é) considerada sinônimo de sucesso na TV, a convidou para escrever a novela Eu Prometo (1983). Dentro desse processo, a autora escreveu em seguida Partido Alto (1984), sem muito êxito e foi parar na Manchete com a novela Carmem (1987). Porém, ela já havia entregado pra Rede Globo a sinopse de Barriga de Aluguel, que seria aceita somente em 1990. Esta novela foi considerada um grande sucesso pro horário das 18 hs. e é lembrada até hoje por muitos telespectadores.  Porém, em sua novela seguinte, Glória começava a interligar a realidade com uma ficção surreal. De Corpo e Alma (1992), novela das 20 horas, causou um enorme frisson por tantos tabus, como a relação de uma mulher mais velha com um striper. Também teve seu ápice quando se deu a morte da filha da autora, Daniela Perez, assassinada pelo colega de trabalho, Guilherme de Pádua. Porém, se focarmos na trama principal veremos um choque de ficção e verossimilhança. Através de um transplante de coração, um homem sai em busca de sua amada na pessoa cujo coração foi transplantado. E o melhor é que a mulher, que estava com o coração da falecida, se vê apaixonada por aquele homem. A ciência não explica, mas a Glória fabrica! 


Em sua próxima trama ela abordou o mundo virtual, que em 1995 ainda era pura ficção científica. Se hoje o whatsapp, chat de redes sociais, etc. é uma coisa comum, no passado tudo era meio estranho. E quando Glória assinou Explode Coração, ela foi novamente criticada por abordar uma coisa tão "surreal". Nos anos seguintes, Glória Perez criou a minissérie Hilda Furacão (1998), baseada no romance de Roberto Drummond e Pecado Capital (1998), remake de um sucesso de sua mestra, Janete Clair. Em 2001, ela vem a escrever aquele que seria seu maior sucesso. O Clone usou e abusou da ficção escancarada, não ousou em ser uma novela realista! Clonagem de seres humanos, muçulmanos falando português, enfim, tudo ali já era "absurdo", e mesmo assim o público não criticou, mas acabou se jogando de cabeça naquela bela história de amor proibido. A novela conseguiu atingir a maior audiência do horário, desde 1997, com a novela  A Indomada (de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares). Quando se deu a estreia, a emissora ficou meio atordoada. A novela teve início em outubro de 2001, algumas semanas depois dos ataques ao 11 de setembro, por membros da população árabe. Por conta de abordar essa mesma população, muito se comentou a respeito da estreia ousada da novela naquele ano. Outro grande problema que a novela quase enfrentou foi o reality show do SBT, A Casa dos Artistas. Estreando de surpresa, o programa do canal do Sílvio (Santos) cativou um público grande e a catástrofe não foi maior, porque Glória conseguiu prender o público no sofá da Globo e bateu de frente com um dos maiores empecilhos para a Vênus platinada, desde Pantanal (TV Manchete, 1990). Sua próxima trama, América (2005) não trouxe grandes "absurdos dramatúrgicos", mas fez com que Glória sofresse ameaças dos ditos "defensores de animais", por abordar o rodeio. A novela conseguiu uma audiência muito mais do que relevante em seu último capítulo - muitos consideram que tenha sido pelo suposto primeiro beijo gay da TV. Com picos de 70 pontos, América foi um dos seus grandes sucessos. 
Tempos depois, Glória volta à sua temática de sucesso, um país exótico e uma trama de amor proibido. Caminho das Índias (2008) chegou com cara de cópia de O Clone, mas saiu levando nas mãos o maior prêmio da TV mundia: o Emmy Awards. Mas nada disso impediu de que começassem a surgir as típicas críticas de que "se falava português na Índia", de que a Índia retratada não fazia jus ao país nos idos de 2008, etc. E em Salve Jorge, Glória finalizou (até então) sua trilogia de países exóticos, abordando a Turquia. Por conta dos novos tempos, onde ser "crítico" de novela se tornou algo tão banal quanto comer arroz e feijão, a autora recebeu uma bordoada de ofensas e piadas em seu twitter. E  sua novela acabou sendo a chacota nacional em 2012/2012 - mesmo com os absurdos de Amor à Vida. Na realidade eu estou aqui, em meu primeiro post, para dizer que uma mulher de tamanhas qualidades como Glória, com grandes sucessos em sua carreira não pode e nem deve ser achincalhada por conta de algumas falhas em apenas uma novela. A autora, com seus vôos - que não são de hoje, como fiz questão de abordar nesse texto -, levou milhões de brasileiros a voarem junto com ela, a tornar a vida menos árdua e mostrar que a ficção pode ser muitas vezes, mais interessante que a vida real. Que Glória Perez nos presenteie com obras tão boas e cativantes quanto as que ela já nos brindou. Essa é a minha estreia no blog, um noveleiro convicto que tentará extrair o melhor da ficção nacional pra vocês! 

Fonte: Teledramaturgia, Memória Globo. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Bate-papo com o jornalista Waldir Leite

Ele é jornalista, romancista e roteirista. Foi colaborador em novelas como Vamp, Olho no Olho, Salsa e Merengue [Globo], Caminhos do Coração, Mutantes [Record]. Prestes a lançar os livros A Última Canção de Bernardo Blues e Ipanema em Lágrimas, Waldir Leite, expert em temáticas gays, topou bater um papo. Confira!

Por Isaac Santos

Paixão pelas artes, desde quando?
Waldir Leite – Desde sempre. Aprendi a ler sozinho, então a leitura sempre esteve presente na minha vida. Adoro a companhia dos livros. Sempre fui rato de biblioteca. Mas também curto música, artes plásticas, cinema e teatro. Sou mesmo do mundo das artes.

Mas qual a sua formação acadêmica, Waldir?
Waldir Leite – Sou jornalista e estudo Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Como se deu o início da carreira profissional?
Waldir Leite – Com dezesseis anos, antes mesmo de começar a estudar Comunicação Social na PUC, eu já tinha coluna num jornal de Recife. O Diário do Comércio. Era crítico de cinema. Depois comecei a estudar teatro. Quem me levou para a TV foi o Antônio Calmon. No final do Armação Ilimitada ele começou a fazer um novo seriado pra Globo chamado Shop Shop e me chamou pra participar da equipe. Mas a Globo só exibiu o piloto e desistiu do seriado. Foi nesse programa que foram lançados o ator Rodrigo Pena e o hoje diretor da Globo Pedro Vasconcelos.

Qual o caminho trilhado a partir disso?
Waldir Leite – Um caminho de muito aprendizado, boas oportunidades de trabalho, algumas frustrações e também muitas realizações.

Das realizações importantes, boa parte foi em parceria com o Antônio Calmon. Quais as lembranças mais sensíveis dessa fase?
Waldir Leite – Antonio Calmon é um amigo muito querido.  Com ele, além de Shop Shop, fiz Vamp, Olho no Olho e a minissérie Sex-Appeal. Vivemos bons momentos fazendo esses trabalhos. Aprendi muito trabalhando com ele. Ele me indicava livros e filmes. E gostava de ouvir minha opinião sobre tudo, pois me achava inteligente e talentoso. Sou muito grato a ele.

Trajetória bem sucedida, em andamento. Onde se encaixam frustrações?
Waldir Leite – As frustrações fazem parte da vida. Procuro conviver bem com elas. Na TV a maior frustração foi a decisão da Globo de não produzir a novela “Escândalo”, do Miguel Falabella. Eu cheguei a ser contratado pela emissora, para fazer parte da equipe do Miguel. Seria a primeira novela-solo dele. Mas forças ocultas, de dentro da própria Globo, boicotaram o projeto, alegando que ele não ia conseguir fazer a novela sem a Maria Carmem Barbosa.

Como você percebe o atual cenário da teledramaturgia brasileira?
Waldir Leite – Não acho que estamos na melhor fase da teledramaturgia. Pelo contrário. O estilo de novelas produzidas pela Globo anda muito padronizado. A falta de concorrência deixa a emissora sem um ponto de referencia. Além disso, tem muita gente sem talento escrevendo para a TV.

"Falta de concorrência"!?
Waldir Leite – A Globo domina o mercado de teledramaturgia. O que existe nas outras emissoras são apenas tentativas.

Essa "gente sem talento" tem espaço na Globo?
Waldir Leite – Sim!

Você está prestes a lançar dois livros: “A Última Canção de Bernardo Blues” e “Ipanema em Lágrimas”. Fale-nos sobre.
Waldir Leite – "Bernardo Blues" é um romance policial ambientado nos bastidores da vida mundana da zona sul do Rio. Ao mesmo tempo é a história de um rapaz que sai do interior e fica encantado com a vida na cidade grande. "Ipanema em Lágrimas" é um livro sobre a ditadura militar no Brasil.

Ficção com doses de realidade...
Waldir Leite – A vida real é sempre uma grande fonte de inspiração. Tudo o que acontece à minha volta, tudo o que eu vejo, tudo o que eu sinto, está presente na minha literatura. Em ambos os livros existem relações com fatos reais. Mas eu pego esses fatos e os transformo em literatura pura e simples.

Quando e onde serão lançados?
Waldir Leite – Serão lançados nesta quinta-feira, às 19 horas, na Livraria da Travessa, em Ipanema, Rio de Janeiro.

Previsão de lançamento em outras cidades?
Waldir Leite – São Paulo, Curitiba e Recife, por enquanto.

Focado ou já pensando em projetos outros?
Waldir Leite – Estou trabalhando num outro livro. Uma história picante ambientada nos bastidores do MMA. O livro se chama "Ring Girl - A Garota do Ringue".

Também com temática gay?
Waldir Leite – Não. Esse livro é sobre o universo dos lutadores e as Marias-tatames. A temática gay já me cansou um pouco. É um livro de temática essencialmente heterossexual.

Obrigado, Waldir. Sucesso!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Um balanço do horário nobre: A volta do bom texto com Em Família

Por Leonardo Mello de Oliveira

 Não há como negar a incrível campanha de popularização que acontece atualmente na televisão brasileira. A incansável busca por audiência vem tentar capturar um público que assiste a novelas diariamente desde os anos 70: a chamada classe C. Porém, dizem alguns, estamos em um período de transição, onde vários membros antes considerados da classe D emergiram, e agora figuram nesta chamada “nova classe C”. Esse é o público que a TV quer, e não mede esforços pra isso. Infelizmente, popularização no Brasil muitas vezes vira sinônimo de má qualidade, principalmente no quesito telenovela. É incrível como a Rede Globo, a maior emissora do país, conseguiu, em tão pouco tempo e de forma nada sutil, inundar sua programação com programas e novelas de fácil digestão, com forte apelo popular e que resultam, muitas vezes, em produtos execrados pela crítica. Não estou falando que apelo popular sempre acaba em equívocos. O Esquenta, programa apresentado por Regina Casé, é um dos mais popularescos que já assisti, porém, não deixa de ser um programa que funciona, que dá certo e que tem grandes qualidades, muito mais do que defeitos. O grande problema é como o popular é conduzido, como é dosado. Tudo isso altera o resultado, e também a maneira que será visto, tanto pela classe C quanto por todas as outras classes que, com certeza, também assistem à TV aberta.


      Vamos analisar brevemente o histórico de novelas populares no horário nobre desde Fina Estampa, trama que iniciou essa “epopéia popularesca”. Um fato engraçado é que somente o horário das nove foi praticamente obrigado a transmitir esse tipo de produção. O horário das seis, das sete e das onze receberam uma dose ou outra de popularismo, mas não se prendeu à fórmula. Vale lembrar também que não é de hoje que esse tipo de trama existe. Os seus próprios autores hoje alcançaram o sucesso usando o apelo popular.
      Fina Estampa foi escrita por Aguinaldo Silva, autor já consagrado por tramas de cunho popular. Aguinaldo já havia nos apresentado nos últimos anos Senhora do Destino e Duas Caras, novelas bem populares. Mas o que se viu em Fina Estampa foi a fórmula escancarada, sem medo de mostrar um apelo gigantesco por audiência. Uma protagonista maniqueísta, uma vilã caricata e tão maniqueísta quanto sua rival, um gay mega afetado, personagens cômicos, gente pobre e honesta sofrendo e muito barraco eram as principais táticas do autor para alcançar a classe C, que começava a virar o assunto do momento quando se falava em televisão. Aguinaldo conseguiu, e com um gigante sucesso, cessar o declínio de audiência do horário nobre global. Porém, isso tudo teve um preço. A crítica caiu em cima. Situações incoerentes, dignas de desenho animado, subestimavam a inteligência do telespectador e baixavam o nível da trama.


      Logo depois veio o furacão Avenida Brasil. A novela parou o Brasil como há tempos não acontecia. João Emanuel Carneiro, o JEC, apostou em uma trama pesada, com inspiração em vários clássicos literários e teatrais, mas que ao mesmo tempo tinha vários elementos populares. Modismos e trejeitos do subúrbio enriqueciam a novela, que, aliás, mostra uma evolução gigantesca do JEC como autor. Seus defeitos característicos ainda estavam lá, mas muitos haviam sido corrigidos. João Emanuel é outro autor conhecido por suas tramas populares, mas ao mesmo tempo profundas. O entrosamento entre a equipe de produção era notável, tanto que praticamente tudo deu certo em Avenida Brasil.


      O mesmo não pode se disser de sua sucessora, Salve Jorge. Glória Perez foi uma das primeiras autoras a retratar a vida do subúrbio, das favelas, de um povo pouco mostrado nas novelas antigamente. Sua nova trama trazia como protagonista uma menina da favela, jovem, que teve um filho muita nova e que acaba sendo traficada e prostituída na Turquia. A trama era inicialmente densa, mas o grande erro de Glória foi mais o menos o mesmo de Aguinaldo Silva em Fina Estampa. A autora utilizou quase todos os recursos que conhecia e que já haviam sido garantia de sucesso. Falhas da direção, mau direcionamento de personagens, elenco sumido, texto fraco para uma autora que já nos trouxe Barriga de Aluguel e O Clone, um déjà vu de outras tramas de Glória, enfim, vários foram os fatores para a rejeição do público e da crítica.


      Então vem Amor à Vida! Estreia de Walcyr Carrasco, autor de clássicos do horário das seis, no horário nobre. O início foi empolgante, muitos viam uma segunda Avenida Brasil, a expectativa aumentava a cada capítulo. Porém, já na terceira semana de novela, a decepção veio como um balde de água fria. Carrasco fazia uma novela das sete no horário das nove, e era clara a busca por audiência. Tudo parecia ser feito pra fazer mais barulho, pra chamar o público a assistir à novela. Mudanças drásticas e sem sentido em personagens, armações, segredos de família revelados uma vez por mês, tudo era feito para que seguisse aquilo o que o povo queria. Me pergunto: de quem é a culpa da falta de qualidade em Amor à Vida? Será que realmente é de Walcyr Carrasco? Pois eu não consigo acreditar que quem escreveu uma novela como essa nas primeiras e nas últimas semanas tenha sido a mesma pessoa que escreveu o meio. Pressão da emissora ou do público por uma novela de fácil digestão? Se foi da emissora, o objetivo foi alcançado. A novela conseguiu uma média bem decente e repercutiu como poucas.


      Atualmente podemos ver um Manoel Carlos inspiradíssimo no horário nobre. Mas sua novela não condiz com nada do que foi visto nas últimas quatro tramas das nove. Em Família chegou com um texto brilhante, caprichado, sem medo de agradar a essa ou àquela classe. Um elenco primoroso, desde os desconhecidos das primeiras fases até os medalhões da terceira. Maneco diz que não há pressão por audiência que lhe faça baixar o nível. E vemos que ele não mente. Apesar dos pífios números alcançados por Em Família nos seus primeiros capítulos, tudo o que foi feito foi agilizar a trama, fazendo os capítulos mais longos, nada de mexer na história! Talvez o único grande problema desta novela seja a cronologia, com idades de atores que não condizem com o de seus personagens e elementos de cenário e figurino que não batem com a época. Mesmo assim, a crítica aplaude essa brilhante e corajosa obra do “bom velhinho do Leblon”, que promete mais e mais a cada capítulo.



      Em momento algum quis passar que o programa popular é algo ruim. Mas sim que tudo deve ser bem pensado e feito, para que não se cometam exageros nem erros ao tentar fazer um produto que visa a classe C.  Como o próprio nome diz, a TV é aberta, todos assistem a ela. A busca incansável por audiência tem sido o maior inimigo da qualidade quando se trata de televisão. Que a Globo pense nisso, que não siga o caminho mais fácil. Afinal, é menos trabalhoso agradar a um só do que a todos. Principalmente se esse “um só” for garantia de dinheiro e repercussão...
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