sexta-feira, 24 de maio de 2013

Ariclê Perez - Saudades do seu talento memorável

Por Isaac Santos

Assisti a exibição original da novela Felicidade quando ainda era criança, e atualmente acompanho com assiduidade os capítulos reprisados pelo Canal Viva. Em Felicidade, dentre os tantos personagens “humanos”, tão característicos das obras do Manoel Carlos, destaco a Ametista, vivido com tamanha propriedade pela saudosa Ariclê Perez.

Ariclê era dona de uma das atuações mais sensíveis da teledramaturgia brasileira. Emanava vivacidade em tudo a que se propunha fazer. O que para mim pareceu totalmente contraditório à notícia de sua morte. Tão chocante, lamentável, deprimente, como costuma ser quando pessoas queridas nos deixam de modo tão prematuro, obscuro. Em setembro próximo, ela faria 70 anos.

Sendo mais artista e menos [ou em nada se caracterizando] celebridade, no sentido banalizado da palavra, pouco se falava da vida pessoal da atriz. Portanto qualquer observação sobre o perfil real da Ariclê seria inapropriada. Ficaram as tantas suposições sobre o que teria de fato acontecido, motivações, enfim. Embora tais posicionamentos dos familiares, amigos e colegas mais próximos dela, sejam absolutamente compreensíveis, o que há de concreto a ser considerado é a falta, o vazio deixado pela mesma. Mas aqui não quero falar de seu trágico falecimento, e sim reverenciar todo o seu talento.


Talento pode ser aperfeiçoado, mas o dom nasce com a pessoa. Ariclê tinha uma presença marcante quando atuava. Poucas atrizes têm a postura cênica que lhe era peculiar. Cresci pensando que ela tinha formação em balé, mas não, a sua base vinha mesmo do teatro. Era atriz... Verdadeiramente atriz.

com Bibi Ferreira e Flávio Rangel
Foi casada com Flávio Rangel, diretor de teatro, e também falecido. Este a dirigiu em muitos espetáculos teatrais ao longo de uma trajetória iniciada em 1967. E embora a carreira televisiva da atriz tenha mesmo deslanchado a partir de sua participação na novela Meu Bem Meu Mal [1990], há quase 40 anos que ela estreou na telinha, na novela Canção para Isabel, exibida pela extinta TV Tupi de São Paulo. Na mesma emissora participou também da novela Como Salvar meu Casamento [1979], que teve a sua exibição interrompida pelo fechamento do departamento de teledramaturgia do canal, que já dava sinais de falência. Vale ressaltar que esta novela [estréia do jovem/inexperiente Carlos Lombardi como autor de telenovelas] alcançava bons índices de audiência, chegando a liderar em São Paulo.


Em 1989, na Globo, integrou o elenco da minissérie Sampa, de autoria do também saudoso Gianfrancesco Guarniere.


Foi pro SBT, onde fez Cortina de Vidro. Novela de autoria do Walcyr Carrasco, com grande elenco.


Mas voltou pra Globo logo em seguida, em 1990, pra interpretar a Rosa Maria/Maria Helena, numa trama [uma de minhas novelas favoritas do horário das oito, Meu Bem Meu Mal] irreverente do memorável Cassiano Gabus Mendes, com colaboração de Maria Adelaide Amaral entre outros.


Não parou por aí, emendou noutra novela, e nesta parecia viver o ápice de sua carreira. Manoel Carlos lhe confiou a complexa personagem Ametista. Drama humano dos bons. Super vale a pena acompanhá-lo na novela Felicidade [1991]. Confesso que em alguns momentos me sinto amargurado como se houvesse na Ametista um pouco da Ariclê da vida real. Ora, mas se nem conheço detalhes de sua vida fora da telinha, acredito que seja sob uma ótica influenciada pelo trágico desfecho da atriz.  


Na década de 90 fez duas minisséries, a polêmica Decadência, de Dias Gomes, e Memorial de Maria Moura, de Carlos Gerbase e Jorge Furtado.


Habituada aos tons extremamente dramáticos de suas personagens, Ariclê surpreendeu positivamente na bem humorada Salsa e Merengue [1996], novela de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa. Como bem define o Julinho Martins: “a Gilda da Ariclê fazia “escada” pras cenas sérias da personagem da Cristiana Oliveira e também pras cenas cômicas da personagem da Laura Cardoso.”


Em sua última novela [Anjo Mau, 1997], ratificando a bem sucedida parceria com Maria Adelaide Amaral, Ariclê interpretou a classuda Elisinha Jordão.


Óbvio que não apenas por ser queridinha da Maria Adelaide, mas Ariclê foi uma das atrizes mais atuantes em produções da autora. Esteve em Os Maias [2001], quando interpretou a Maria da Gama.


Foi a Madre Cecília da Purificação em A Casa das Sete Mulheres [2003]


Soberba como a Madame Claire em Um Só Coração [2004]

E em seu último trabalho, fez a personagem Júlia Kubitschek, mãe de Juscelino, na minissérie JK [2006], que por uma infeliz coincidência morre no último capítulo.  

Não podemos contar com a grandiosidade da Ariclê Perez em novos trabalhos, já não temos a sua presença entre nós, mas a sua contribuição à dramaturgia nos basta como lembrança viva.

Ariclê sofria de depressão e segundo laudo pericial, suicidou.

11 comentários:

  1. Grande atriz,tinha porte na vida e nos papéis que fazia...
    Bonito texto Isaac!

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    1. bom te ver por aqui, Rodrigo... volte outras vezes!

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  2. Pensei que a conhecia, pelo menos, um pouco... diante do ocorrido, percebemos, todos nós, que era bem pouco ou nada... o que tínhamos de certeza, era a dimensão enorme e contagiante de seu talento de atriz... este sim era infindável... o senso profissional, impecável... isto a define como uma atriz com a maiúsculo e a ela rendemos glórias...

    Meu caro Isaac Abda, que belo texto... você abordou com toda a sutileza e sensibilidade os traços marcantes da querida Ariclê Perez!

    Mauro Gianfrancesco

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    1. obrigado pelas palavras, Mauro. Volte mais vezes!

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  3. Excelente post, Isaac Abda. Sabes que yo también pensaba que había sido bailarina, maravillosa actriz?!

    Isa Muñoz-Nájar

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    1. Obrigado pela leitura, Isa. Quero vê-la mais vezes por aqui.

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  4. Adorando revê-la em Felicidade

    Ana Paula Aquino

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    1. somos dois, Ana Paula. Bom te ver por aqui. Venha mais vezes

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  5. PARABÉNS PELA MATÉRIA DE ARICLÉ PEREZ, UMA GRANDIOSA ATRIZ QUE DEIXOU SAUDADES E VALE A PENA LEMBRAR...

    DANIEL POZZI

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    1. Daniel, querido, bom vê-lo aqui. Venha mais vezes!

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  6. Ela era o supra-sumo da classe e elegância,não freqüentava muito o meio das atrizes,mas era querida na high-society tanto paulista quanto carioca,grande perda ...

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