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domingo, 23 de outubro de 2011

MINHA NOVELA FAVORITA: HISTÓRIA DE AMOR

por DENIS PESSOA

Quando a novela História de Amor estreou, no dia 03 de Julho de 1995, jamais pude imaginar que o drama assinado por Manoel Carlos viria a tornar-se a minha novela favorita – posto que ainda não foi substituído por nenhuma outra obra na TV.
            O que ocorreu na época foi que, além de eu ter meus nove anos, e portanto, não prestar muita atenção às novelas, achava História de Amor um pouco “down”, (seja o que uma criança entende por isso) no meu entendimento parcial das coisas. Tudo o que eu via eram cenas incompletas, onde os personagens discutiam, choravam, trocavam agressões verbais e físicas, e em que os motivos disso estavam acima da minha compreensão. No fim, ficou uma imagem negativa: a histeria de Paula (Carolina Ferraz), a melancolia de Joyce (Carla Marins), a agressividade de Assunção (Nuno Leal Maia), a covardia de Caio (Ângelo Paes Leme). Ou seja, algo totalmente desinteressante para uma criança.
            Porém, dois anos depois, veio Por Amor, e eu, um pouco mais velho, já descobrindo o novo prazer de escrever histórias, dei mais atenção a esta obra, pois o universo de Manoel Carlos me cativou imediatamente, e me apaixonei de forma instantânea por personagens como Eduarda (Gabriela Duarte), Branca (Suzana Vieira) e, especialmente, Helena (Regina Duarte). Porém, ainda assim, não era capaz de entender o que era uma novela como um todo. Era mero passatempo, nada capaz de me manter quieto, aos meus 11 anos, durante uma hora inteira diante da TV.
            Em 2000, veio Laços de Família. Então eu, já admirador de telenovelas, ciente da existência e obra de Manoel Carlos, tendo-o inclusive como referência, acompanhei esta novela com paixão, embora não conhecesse e relacionasse todas as histórias anteriores escritas por ele, como Felicidade e Baila Comigo.
O Autor, Manoel Carlos
            Em 2001 estreou Presença de Anita, e se faltava algo para consagrar Manoel Carlos como meu autor favorito, acabou-se. A série, um suspense com diálogos e situações que somente ele sabe escrever, me fez pensar: “um dia quero ser como ele”. Aí sim, passei a acompanhar sua carreira, e a assistir avidamente tudo o que se dizia na TV a seu respeito.
            Os anos seguintes foram, o que eu considerei uma maravilhosa overdose de Maneco: pouco mais de um ano após sua exibição original, a minissérie Presença de Anita foi reprisada. E então, no dia 10/12 de 2002, entrou no ar a reprise da novela até então esquecida em minha memória: História de Amor. De imediato lembrei de Joyce, de Paula, da cena terrível onde o jovem rapaz atira a mocinha do alto de seu Jipe. Mas a história da novela, de fato, eu desconhecia.
Curioso, decidi me aventurar. Como na época estudava durante as tardes, pedia sempre à minha mãe que gravasse os capítulos para mim em VHS, o que ela nem sempre fazia. E sempre que possível, declinava dos estudos para assistir ao Vale a Pena Ver de Novo.
            Eis que fui irrevogavelmente capturado: descobri uma novela singela, delicada, com diálogos longos, realistas e belos, entre personagens extremamente humanos, que fugiam completamente à caricatura. Tudo que eu mais gostava. E me fartei.
            Descobri que Joyce era uma personagem fascinante, por ser tão próxima de uma adolescente real. Grávida aos 18, a menina tem sua gestação rejeitada por inúmeras pessoas: seu namorado, seu pai, e até mesmo pessoas que mal a conhecem, e que acusam-na de ter engravidado para fins escusos, como segurar Bruno (Cláudio Lins), e assim, aproveitar-se de sua situação financeira, como acusou Rafaela (Marly Bueno).
            A única pessoa que ficou ao seu de forma incondicional foi sua mãe: Helena, (Regina Duarte) corretora de imóveis de mentalidade e coração simples, por vezes antiquada, que por vezes se chocava com a cabeça jovem e rebelde da filha. Decidida a enfrentar este momento difícil ao lado dela, Helena briga contra todos para que sua filha possa ter uma gravidez o mais tranqüila possível, e torna-se a primeira a brigar, até mesmo com agressividade pelo que mais deseja: a felicidade de Joyce.
            Logo no primeiro capítulo, entra na vida de Joyce o médico Carlos Alberto Moretti (José Mayer), que no dia de seu casamento, resgata Joyce, que fora atirada pelo namorado Caio na rua, logo depois de contar-lhe a respeito da gravidez, e de sua intenção de mantê-la.
José Mayer e Regina Duarte: Carlos e Helena
            O Doutor, um homem plácido e generoso, cuida dela, mesmo com a noiva esperando-o no altar, ganhando assim, a gratidão da menina, e a amizade de Helena, que não tarda a tornar-se amor. Porém, Carlos possui diversas histórias em andamento: seu turbulento e breve casamento com a jovem e bela Paula, e seu relacionamento anterior com Sheila, uma mulher madura, sofisticada, que não compreende como pôde ter sido trocada por uma moça mimada, desocupada e de certa forma, estúpida.
            Em pouco tempo, Carlos, farto da infantilidade da esposa, abandona-a, e envolve-se com Helena. Mulher simples, trabalhadora, honrada, e que defende a filha de maneira feroz: talvez o que mais tenha encantado o médico na mulher que, a princípio, com auto-estima frágil, não consegue ver o que aquele homem letrado e bem sucedido enxergou em uma mulher de classe média, sem grandes atributos físicos e culturais – algo, inclusive, que Paula usa como arma contra sua nova inimiga.
            História de Amor, a principio contaria a trama de mãe e filha que se apaixonam pelo mesmo homem, tanto que Joyce, no inicio da obra, dá indícios de sentir algo maior do que gratidão e amizade por Carlos, assim como demonstra certo ciúme da aproximação dele com Helena. O enredo, no entanto, pareceu pesado a Manoel Carlos para o horário, e essa ideia foi rapidamente abortada, o que alterou bastante o rumo de diversos personagens.
A trama de mãe e filha apaixonadas pelo mesmo homem seria contada de vez em Laços de Família, assim como a leucemia que Eduarda teria em Por Amor, inclusive com a personagem chegando a demonstrar sintomas de alguma doença por um período, fora deixada de lado para também ser utilizada na novela seguinte do autor.
            História de Amor, sem o que seria seu grande diferencial, acabou por tornar-se uma novela convencional: um melodrama sobre um quadrilátero amoroso entre um homem e três mulheres, além da relação complicada entre mãe e filha, que embora se amem, não se compreendem. Relação esta de muita confiança, porém, também de conflitos de gerações, ciúmes, protecionismo excessivo, e até mesmo, possessividade.

Carolina Ferraz e José Mayer como Paula e Carlos

            Por ser uma trama que pode ser observada por tantos aspectos diferentes e pontos de vista diversos, o que levaria a um texto enorme e maçante, o melhor é destacar alguns dos fatores que fazem desta despretensiosa e até mesmo banal novela das 18 horas a minha favorita entre as favoritas:
            - O texto. Os diálogos, para ser mais exato. Longos, belos, os personagens abriam suas mentes e corações uns com os outros, e deixavam de tornar-se meros arquétipos para passarem ao status de quase humanos. As conversas entre Joyce e Helena, Paula e seus pais, Rômulo (Cláudio Correia e Castro) e Zuleika (Eva Wilma), os diálogos densos entre Sheila e Helena, as promessas e discussões de Carlos e Helena, os conselhos e toda a parcimônia de Olga (Yara Côrtes), e vários outros personagens.
            - Os “barracos”. Muitos adoram os barracos de Manoel Carlos. E esta novela é cheia deles, e, na minha opinião, onde estão os melhores. Helena, quando via sua filha ser agredida, perdia a cabeça e partia para cima de qualquer pessoa, o que gerou cenas inesquecíveis, como a que ela e Paula trocam agressões em um posto de gasolina. Outro momento marcante, já na reta final da novela, onde Joyce e Caio, trocam tapas e cuspes. Assunção, que ao descobrir a gravidez da filha, invade o apartamento de Helena com um revólver na mão, e, após levar um tapa no rosto da ex-mulher, devolve a agressão, para a surpresa desta. Acrescento também as inúmeras cenas de trocas de ofensas verbais e físicas entre Paula e Sheila, sendo que a segunda, cada vez mais depressiva, revoltada e rancorosa, passa, em determinado momento da novela, a misturar antidepressivos com bebidas fortes, tornando-se assim dona de um humor instável e perigoso, e de um coração confuso. Embora ressinta-se por ter sido preterida por duas mulheres, não consegue odiar Helena, uma mulher tão generosa, passando a brigar consigo mesma, mergulhando em uma depressão terrível.
            - A evolução dos personagens. Novelas, geralmente, apresentam personagens lineares, que estão a mercê dos acontecimentos, e que, em geral, não possuem influência alguma sobre eles. Em História de Amor, isso não aconteceu. Os personagens mudaram, evoluíram, cresceram, evoluíram, ou regrediram e pioraram sua personalidade e caráter, diante dos reveses da vida. Helena, com o passar do tempo, entende que Joyce ama Caio, por mais imperfeito que este seja; assim como Joyce, que passa meses da sua gravidez sendo rejeitada, vai amadurecendo, porém, ao que parece, após o nascimento da filha, decide exprimir toda a revolta e mágoa armazenada durante os nove meses em que fora injustamente humilhada sem poder reagir. Caio, o rapaz imaturo, agressivo e comandado pela mãe ambiciosa, adquire não só a independência financeira como mental ao longo da trama, reconhecendo seus erros, e lutando para recuperar o amor de Joyce, a quem tanto rejeitou e maltratou. Assunção, homem machista, por vezes agressivo, que rejeita Joyce ao descobrir a gravidez da filha, dando-lhe as costas. Com o passar do tempo, percebe que está errado, e pai e filha se perdoam, e ele também compreenda, não sem dificuldade, que Joyce e Caio se amam. Marta (Bia Nunnes) e Xavier (Ricardo Petraglia), casal que se ama, porém, que sofre com a irresponsabilidade do marido. Após inúmeros dramas, os dois, que embora se amem parecem estar em dissonância, vão, pouco a pouco, recuperando a capacidade de pensar como o que são: uma dupla, um time, um casal de amigos e parceiros.
            - A trilha sonora. A novela, mesmo em seus momentos melancólicos, sempre teve um texto “alto astral”, e muito da trilha sonora contribui para isso. Músicas como Lembra de Mim, interpretada por Ivan Lins, tema da belíssima abertura, Futuros Amantes, cantada por Gal Costa, e tema nacional da personagem Helena, Saber Amar por Os Paralamas do Sucesso, o tema de Paula, Alô Alô Marciano, por Elis Regina, tema de Zuleika, foram alguns dos hits da trilha sonora nacional. Na internacional, os sons de destaque foram Run, Baby, Run interpretada por Sheryl Crow, tema de Sheila, It’s too Late, na voz de Gloria Stefan, tema de Helena, I Started a Joke, interpretada pelo Faith No More, e tema de Carlos, Can’t Stop Lovin’ You, por Van Halen, tema de Joyce e Caio, e diversas outras músicas bem selecionadas, que fizeram desta uma novela inesquecível.
            História de Amor é uma novela que pode ser dissecada cena a cena, capitulo a capitulo. Prazerosa, leve, descompromissada. Uma história de amor no seu sentido mais amplo: entre homem e mulher, entre pais e filhos, entre amigos, entre irmãos, entre avós e netos. Foi um grande prazer descobrir e poder acompanhar esta obra do Manoel Carlos, e, agora, com a presença do canal Viva, torço para ter o prazer de acompanhá-la novamente, e desta vez na íntegra.
Até lá!
FONTES
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