domingo, 19 de maio de 2013

Ah! Os insucessos... Sim, eles existem!

Por Isaac Santos

Nem só de sucessos é construída a carreira de um artista. Artista, segundo o Dicionário Aurélio, pessoa que exerce uma das belas artes; pessoa que exerce um ofício com gosto; pessoa que interpreta uma obra musical, teatral, cinematográfica, coreográfica; um operário, um artífice, enfim, também um autor de novelas, um dramaturgo, roteirista que desempenha suas funções com excitação, com talento, é um artista. Aliás, uma arte para poucos. Há que se ter dom, mas, sobretudo capacidade de buscar constante aperfeiçoamento.

Semana passada li alguns comentários desagradáveis sobre uma “possível” má vontade da Record em produzir um novo trabalho de autoria do Lauro Cesar Muniz, e que este estaria com o seu futuro traçado pela emissora: terminaria o seu contrato sem renovação e até lá ficaria na “geladeira”. Tudo sob a justificativa de sua novela mais recente não ter obtido o sucesso desejado pela empresa, e obviamente, pelo autor. Prefiro não acreditar nessas boatarias, mas sendo verdade, só lamento, e não pelo profissional citado, mas pela imaturidade [irresponsabilidade] de quem decidir por tamanha injustiça.

Logo me lembrei de [Mário Prata, Antônio Calmon... quais outros?!] outro competente profissional que parece estar inserido num mesmo contexto, embora noutra emissora. Estou falando de Bosco Brasil, que em 2010 estreou como autor titular de novelas da Globo.


O horário das sete foi o escolhido para levar ao ar a trama Tempos Modernos. A novela foi lançada com toda pompa peculiar aos novos produtos da emissora. Não faltou incentivo pra que fosse um sucesso, repetisse os altos índices obtidos com a exibição de Caras e Bocas, sua antecessora. Mas, infelizmente o público não correspondeu. A trama não por acaso recebeu o título ‘Tempos Modernos’. O autor pretendia contar uma história que incluía, entre outros, elementos futurísticos, vide a existência de um humanóide num dos núcleos principais, computador que dialogava com personagens, personagens sob vigilância constante de câmeras, enfim. Quando percebeu que sua novela estava vulnerável, que não havia, por parte do público, a necessária identificação com a proposta, decidiu fazer as “devidas” alterações, mas aí já não conseguiu reverter a situação com louvor.


Curiosamente, também o Lauro Cesar Muniz experimentou esse universo futurístico em Transas e Caretas [1984], uma de suas novelas na Globo.  

Tempos Modernos tinha um elenco de novela das oito, trilha sonora harmoniosa, texto inteligente, crítico, equipe competente envolvida no projeto. Mas... Não funcionou como se esperava.


A supervisão [como é habitual na estréia de autores em projeto solo] da novela coube ao experiente Aguinaldo Silva. Em entrevista [aqui na íntegra] ao blog em 2011, o autor/supervisor se isentou de dividir com o titular da trama a responsabilidade pelo insucesso de Tempos Modernos, mas justificou:

“A novela Laços de Sangue, da qual você é supervisor, é sucesso de audiência e de crítica em Portugal, o mesmo não aconteceu com Tempos Modernos, exibida pela Rede Globo em 2010. Como supervisor do autor Bosco Brasil, você também se sente responsável pelo relativo fracasso?

Aguinaldo Silva - Não, porque o autor Bosco Brasil ignorou totalmente os conselhos que lhe dei, e deu à novela um encaminhamento com o qual não concordei desde o começo. Ou seja: não se pode dizer que fui o supervisor de Tempos Modernos, no máximo li os capítulos.”

Engana-se quem pensa que o Bosco Brasil caiu de pára-quedas no rol disputadíssimo de autores de teledramaturgia. Ele é formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Com diversas peças teatrais já encenadas, destaco Novas Diretrizes em Tempos de Paz [2001], que em 2009 ganhou uma versão cinematográfica [Tempos de Paz] pelas mãos experientes do Daniel Filho.


Em 1994 o SBT exibia a sua versão de As Pupilas do Senhor Reitor, novela escrita por Lauro Cesar Muniz [com base no romance homônimo de Júlio Diniz], e adaptada com louvor por Bosco Brasil e Ismael Fernandes.  
  

Já na Globo, dá continuidade a uma carreira notória: em 1997 colabora com Alcides Nogueira na novela O Amor Está no Ar.  


Emenda noutro trabalho. Desta vez como colaborador de Maria Adelaide Amaral na novela Anjo Mau [1997/1998].


Volta a trabalhar com Alcides Nogueira e pela primeira vez com Silvio de Abreu, colaborando na novela Torre de Babel [1998].


Ratificando a sua competência, trabalha mais uma vez colaborador do Silvio de Abreu, na novela As Filhas da Mãe [2001].


Ainda na Globo, faz em 2002 o seu último trabalho como colaborador, na novela Coração de Estudante, de Emanuel Jacobina.


É contratado pela Record em 2005, quando colabora com Rosane Lima e Marcílio Moraes na autoria da novela Essas Mulheres.


Na mesma emissora, alçou status de autor titular da novela Bicho do Mato [2006]. Em parceria com Cristianne Fridman adaptou a trama já exibida pela Globo no anos 70.


E só depois de ter vivido as experiências mostradas é que ele encara o desafio de Tempos Modernos.


... Ora, qual seria a postura ideal a ser assumida por uma emissora de TV depois da exibição de uma produção “fracassada”? De quem é a “culpa”, de quem cobrar a conta que não bateu? Houve falha na idealização ou equívocos na realização do projeto? E este deveria ter sido aprovado?

Qual destino dar ao objeto humano responsável pela obra mal sucedida? Serve ainda pra alguma coisa? Esconder, subaproveitar ou descartá-lo? O exagero é proposital!

... E que venham novos e bons tempos pro Bosco Brasil e pra outros tantos profissionais que se enquadrem no que foi exposto.     

sexta-feira, 17 de maio de 2013

SUSHIS, SONHOS E REALIDADE - Uma cena sobre televisão


Por José Vitor Rack 
APARTAMENTO DE ROSANA. SALA. INTERIOR. NOITE

Sentados no chão, em volta de uma mesa de centro posta como mesa de jantar, o casal GUTO e ROSANA, por volta dos 40, brincando e trocando beijos carinhosos, e CAMILO, rapaz bonito por volta dos 30, vestido como se tivesse vinte. Sobre a mesa vinho branco, taças já servidas, shoyu e hashis. TOM entra vindo da cozinha com uma travessa abarrotada de sushis e sashimis para festa de todos. Enquanto começa o diálogo, Tom coloca a comida na mesa, senta-se ao lado de Camilo e todos já vão se servindo, comendo e bebendo.

CAMILO - Como isso é bom...
TOM - Com todo o meu carinho para vocês. Aliás, com todo o carinho do sushiman que fez tudo isso, porque eu não sei nem limpar um peixe...
ROSANA - Precisa fazer mais comerciais, Tom! Se a cada comercial que pintar rolar um jantar especial desses...
TOM - Pra deixar tudo brilhando boa vontade só não basta! Uma flanela e o Lustra Móveis OK te dão o brilho que você merece!
GUTO - Só faltou o saquê. Se me avisasse com antecedência eu comprava.
TOM - Um vinhozinho tá ótimo...
CAMILO - (ERGUENDO UM BRINDE) Ao sushiman!
ROSANA - Ao comercial que o Tom fez e que pagou o sushiman!
GUTO - Ao artista brasileiro! Fudido, mal pago mas sempre feliz!
TOM - À amizade! E aos produtos de limpeza OK!

Brindam felizes e continuam entre sushis, vinho e brincadeiras.

ROSANA - (PARA GUTO) Cuidado que isso mancha!
GUTO - A gente se vende tão fácil... Estuda os gregos, estuda gênese, mergulha em Brecht, Stanislavski, pesquisa, mergulha de cabeça na arte... Pra quê? Pra fazer comercial de lustra-móveis.
CAMILO - Não desvaloriza o comercial do Tom! Nosso sushi dependeu disso.
ROSANA - Tá falando besteira, Guto.
GUTO - Não acho não. Eu me vendo também. Esse teatro infantil que eu  faço... Também é comércio. Não tem nada a ver com o teatro que me fez sair de casa e vir pra cá estudar. O ator brasileiro não é respeitado. Na França até direito a seguro desemprego os atores de teatro e artistas de circo tem! E aqui? Somos indigentes.
CAMILO - Que baixo astral.
TOM - Mas isso tudo é fase. Nenhum de nós chegou ainda onde tem potencial pra chegar, é tudo uma questão de sorte, de oportunidade... O Camilo tem essa cara de galã, logo pega um monte de trabalhos. É só ele se esforçar mais, né???
CAMILO - Eu me esforço. Do meu jeito...
ROSANA - Jeitinho bem malandro esse seu... Eu gosto do teatro infantil. Não tenho essa frustração toda com Stanislavski, Brecht... Aliás, eu nem sabia que você sentia isso, Guto.
GUTO - O Tom quer a mentira, quer se enfiar de corpo e alma naquela caixa de ilusões que é a
televisão. Novela!
TOM - Verdade. Vem ni mim, mentira! Tô doido pra fazer televisão.
CAMILO -  Quem não quer?
TOM - É. Quem não quer?
GUTO - Eu não quero. Nunca quis... Você pegar aquele calhamaço de capítulos pra decorar recheado de frases que não querem dizer absolutamente nada? Eu não quero isso pra mim.
TOM - Tá bom então, Guto... Me engana que eu gosto.
ROSANA - O Fagundes só precisa de cinco minutos para decorar, ele nem leva o bloco pra casa.
TOM - Quem desdenha quer comprar, Guto.
GUTO - Verdade, a Rosana sabe como eu cheguei em São Paulo, já contei essa história pra ela tantas vezes. Eu vim de ônibus de Vitória até o Tietê...
ROSANA - (INTERROMPENDO) ... lendo Marta, a Árvore e o Relógio. Jorge Andrade, obras
completas. Sempre repete essa ladainha.
GUTO - Mas é verdade. Eu era louco por teatro desde pequeno.
CAMILO - Jorge Andrade fez muita novela, também.
TOM - Depois que a Luana fez aquele teste com o Jorge Fernando e passou, vê se você vê ela desempregada... Nunca mais, um trabalho emendado no outro! Tá na mídia, tá com Deus. Se você tivesse a oportunidade de estar na vitrine, exposto pra todo o Brasil te ver, conhecer o teu trabalho... Não seria bom pro seu teatro? Convites, mídia, contatos pra você montar O Telescópio, que é seu sonho, ao invés de ficar fazendo contos de fada eternamente?
ROSANA - Ih, Tom. Nem perde seu tempo. Ele é cabeça dura.
ROSANA - Cabeça dura e elitista. Novela pra ele é lixo.
GUTO - Não é não, que lixo a gente recicla. A novela foi ao ar amigo, acabou! A televisão vende sonhos, ilusões em cor de rosa. É tudo muito falso, muito plástico... O texto é repetitivo, o cara que escreve aquilo tem que ficar toda hora repetindo o nome de personagens, o porque de cada trama, é uma coisa muito didática para dona de casa entender.. Olha, ridículo...
ROSANA - Parece um crítico de arte dos anos 60 falando...
GUTO - A TV matou o Jorge Andrade. É massacrante. TV é um eletrodoméstico. Não dá pra raciocinar dentro daquilo. Aliás, nem dentro e nem em frente. E quem faz novela geralmente odeia fazer. Autores, diretores, elenco, fazem pelo dinheiro. Ninguém assiste novela em casa. Como é que podem fazer uma coisa que eles mesmos não assistem?
CAMILO - Sei lá, eu também gostaria de entrar, mas eu concordo um pouco com o que ele tá falando. Quer coisa mais falsa que café da manhã de novela?
TOM - É um complô... Camilo, você não fez a inscrição pra oficina da Globo?
CAMILO - O que tem a ver uma coisa com a outra? Verdade... De manhã eu como bolacha com Ovomaltine, às vezes nem como nada, almoço direto! E como eu, muita gente. Nem em hotel se serve café da manhã que nem os de novela.
ROSANA - (GRITA PARA GUTO) Tá manchando toda a roupa, mas é estabanado...
GUTO - Shoyu é assim mesmo, me deixa comer sossegado...
TOM - Pega o nabo aqui e esfrega.
CAMILO - Oi???
TOM - Esfrega o nabo.

Todos se entreolham por um instante e explodem na gargalhada, menos Tom que tenta se explicar.

TOM - Gente, quando cai molho de soja na roupa você esfrega esse nabo ralado que vem de acompanhamento que a mancha sai...
ROSANA - Pega o nabo, Guto!
CAMILO - Esfrega o nabo, Gutinho...
TOM - Povo palhaço!
GUTO - O Tom tá pagando o rango, hoje eu pego o nabo, tá Tom...
ROSANA - O que a gente tava falando antes do nabo?
GUTO - (RINDO MUITO) Novela.
TOM - Olha aí, já tá saindo a mancha...
CAMILO - Às vezes eu venho no metrô superlotado, aquele povo suado vindo do trampo... Aí sempre tem alguma tiazinha que fala assim: Preciso chegar rápido em casa, é hoje que o Bernardo Augusto vai pegar a Ana Malvina no flagra! Eu racho o bico. E é meio alienante mesmo... Quando a gente se envolve com uma novela esquece das coisas. A tiazinha tá pensando na novela e nem se dá conta de que o metrô tá lotado, que ela paga imposto mas que aquela bagaça não melhora...
TOM - Até parece que a culpa dos males da sociedade é da novela Camilo, me poupe.
CAMILO - Isso aqui é Brasil, gente. Cabral desceu da caravela e comprou os índios com espelhinho, chocalho. Aí começou a esculhambação.
TOM - Então, você mesmo está dizendo: a culpa não é da novela.
GUTO - Mas a TV não denuncia o que tinha de denunciar. Aliena. É vazia, sem conteúdo.
TOM - E você queria o quê? Que ela mostrasse apenas quadros de Dalí e Picasso ao som de Vivaldi? Tanta coisa errada nesse país, a TV não é a mais importante delas, tenho certeza.
ROSANA - Parece que foi ontem aquela novela O Rei do Gado, lembra? Tinha o senador...
TOM - Senador Caxias!
ROSANA - Então, aquela cena em que o senador tá discursando, falando sobre os sem-terra, denunciando aquela pá de coisa errada que tem no meio rural. Aí vai abrindo a câmera, abrindo, abrindo, e aí a gente vê que ele tava discursando com toda a energia pra uma platéia vazia. Nenhum colega dele ficou no plenário. Aquilo foi uma denúncia dupla, porque falava dos políticos e falava de reforma agrária. É coisa que o povão, a massa, só absorve quando algum autor coloca na novela.
TOM - Nossa, fiquei até arrepiado de lembrar.
GUTO - Mas pra cada cena como essa, quantas cenas de cafés da manhã ridículos como o Camilo acabou de falar, quantas cenas de sexo gratuitas, quanta repetição, é insuportável...
TOM - Até parece que o teatro e o cinema brasileiro só fazem obras primas! Teatro só faz sentido quando é livre, guiado só pela arte. Mas o quê que tá acontecendo? Tá cheio de peça caça-níqueis aí, todo mundo só produz se tiver subvenção... Um monte de autor brasileiro consagrado, como o seu amado Jorge Andrade por exemplo, não é mais montado. Agora somos emergentes e queremos musicais! Queremos a Broadway! Uma cultura que nem é nossa! Montam os ingleses, os franceses, sempre peça pra dois ou três personagens... E o autor brasileiro? E o ator brasileiro? Isso não é fazer arte pro mercado? Igualzinho às novelas.
ROSANA - É isso aí, arrasou!
TOM - Não vejo a hora de ser chamado pra fazer. Estabilidade, um contrato, salário fixo... E eu
gosto da novela exatamente como a novela é, bem brasileira, bem repetitiva, desse jeito aí mesmo. Televisão é diversão, Guto. Foi feita pra entreter.
GUTO - Não tem comparação entre o cinema e o teatro com a TV, Tom... TV é diferente. É concessão do Estado. Devia ter uma dramaturgia de melhor qualidade.
CAMILO - Mas é pra isso mesmo que o governo dá a concessão, tá ligado? Pro povo se ligar naquilo e não questionar nada.
TOM - (BRINCANDO) Ah, anarquista... Vou gravar você falando isso e mostrar pra Globo inteira! Nunca mais você entra lá nem pra fazer faxina!
CAMILO - Aí eu vou pra Record!
TOM - Tenho meus contatos lá também, CE tá fudido na minha mão...
ROSANA - Eu adoro televisão. Cresci vendo novela. Eu gosto, eu assisto... Eu era maluca com a Bruna Lombardi! Ai, era tão gostoso. Não vou mais atrás porque aprendi a amar o teatro. E acho que a idade também pesa, sei lá. Lembra Tom, das roupas da Viúva Porcina?
TOM - Turbante, laçarote, os anos 80 eram bregas...
ROSANA - Eu adorava! Minaaaaaaaaaaaaaa!
TOM - Quem matou Odete Roitman?
ROSANA - Quem será a próxima vítima?
TOM - Vamp, aqueles dentões!
ROSANA - Kubanacan, misterioso país del amor...
TOM - O Casarão! Te fiz esperar muito?
ROSANA - Quarenta anos!
TOM - (CANTANDO) Como uma deusaaaaaaaaaaaa...
ROSANA - Mandala! Vera Fischer era uma coisa de linda, deslumbrante...
TOM - Embarque nesse carrossel, onde o mundo faz de conta...
ROSANA - Nossa, aí você apelou. Novela mexicana?
TOM - Olé! Maria, Maria la del barrio...
GUTO - Cadê minha espingarda?
CAMILO - Volta pro chão, galera!
ROSANA - Adoro!!!
TOM - O Joãosinho Trinta disse muito bem: Quem gosta de miséria é intelectual. O povo gosta é de luxo! O público da novela gosta de ver o cafezão da manhã, as roupas exageradas, a limusine, o beijo, é assim mesmo gente. E quem está na televisão faz cinema, faz teatro e faz publicidade. Eu fiz meu lindo material, espalhei em todas as emissoras e tenho fé de que vai rolar! Do reclame de lustra-móveis para os Melhores do Ano no Domingão do Faustão, Troféu Imprensa, APCA, tudo! Escreve isso!
GUTO - Estudou tanto pra ter um sonho desses... Tomara que se realize! Pelo menos o sushi estaria garantido.
CAMILO - Nabo pra mais de metro, Gutinho!
ROSANA - E viva a novela!

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Pô, bota tempero nesse caldo, minha gente!


Por André Cavalini

Quando vemos uma novela ir ao ar, mal sabemos todo o processo que ela precisou passar para estar ali. A ideia inicial, a construção da sinopse, a aprovação desta pela alta cúpula da emissora, os preparativos para escalação de elenco, figurino, cenografia, trilha sonora. As exaustivas horas de seus autores em frente a um computador. Enfim, é algo tão grandioso, que nós, simples mortais, nem podemos imaginar.

Ela acontece para distrair a população. Para levar ao público a possibilidade de se desligar da realidade e viver um pouco de fantasia. A mesma fantasia que tivemos em nossa infância, quando mamãe contava as histórias antes da gente dormir (tem como voltar nesse tempo??).

A novela é como as histórias de nossa mãe, contadas porém, através de um aparelho que a faz chegar para milhões de pessoas ao mesmo tempo.
Devido a isso, é assunto nas manicures, nas feiras, nos ônibus, na porta da vizinha, nas mesas de bar, e mesmo quem alega odiar o gênero, uma vez ou outra se pega falando de alguma coisa que remeta a alguma novela. Pois a verdade é que para o brasileiro, uma boa novela é como um grande clássico de futebol.

Sabemos porém, que nem só de flores vive uma trama. Muitas acertam, mas outras tantas deixam o caldo entornar. E são muitos os motivos que podem levar uma novela ao fundo do poço. O principal deles, em minha opinião, é a escolha errada dos protagonistas. Porque uma receita que começa com os principais ingredientes vencidos, dificilmente cairá no gosto do povo.

Se a história for ruim, mas o casal tiver liga, há esperança no fundo do tacho. Se qualquer outra coisa der errado, mas o casal principal estiver explodindo em química, a água ferve.
Pensem comigo: quando ligamos a TV para assistir uma história, a gente busca aquilo que não temos, ou que até temos, mas que não está bem do jeito que gostaríamos que fosse. A gente quer ver os protagonistas nos dando aquilo que sonhamos, vivendo aquilo que está lá no mais remoto de nossos desejos. Se não encontramos isso, perde a graça. E novela com protagonista sem graça é pior do que macarrão sem molho, avião sem asa, fogueira sem brasa, queijo sem goiabada...

Claro que muitos irão discordar, mas se pararem pra pensar, vão ver que tenho razão. Se analisarem as grandes novelas da nossa TV, aquelas que fizeram história, verão que os protagonistas eram “OS” protagonistas. Não falo nem mesmo pela interpretação, mas pelo conjunto da obra. Sabe? Aquilo que já falei, tinham a tal da química. Invadiam nosso inconsciente deixando um gostinho de quero mais.

Tudo bem, concordo que casal de protagonista não completa o bolo, mas sabemos que eles são o recheio. É preciso mais sim, bons vilões, bom texto...óbvio. Mas sem o recheio a massa fica seca, entala.

Os autores sabem disso, e quando percebem que erraram na receita, tratam logo de dar uma arrumada na coisa. Um jeitinho de não deixar o caldo desandar.
Eu só queria saber, de verdade, como é que, depois de tanto tempo cozinhando nesse caldeirão, alguns autores ainda erram a mão nesse quesito mandando pra gente, pra casa da gente, um pessoalzinho sem nem um tiquinho de sal. A receita é velha, é só seguir direitinho que a gente gosta.

Novela é comida para o povo, e o povo gosta é de receita simples, bem temperada, mas sem a necessidade de ingredientes muito mirabolantes.
E olha que sabemos bem que corre o risco de sobrar comida na mesa quando mudam demais essa receita.

Fazer uma lista é complicado, são anos de histórias pra serem lembrados e milhares de casais que poderiam ser citados em cada categoria. Mas segue ai a opinião deste autor que vos escreve:

Casais Gororóba - A gente vê, mas torce o nariz.


2013 – Salve Jorge – Théo e Morena: Já começa pelos atores que nem no meio de uma pizza quatro queijos desceriam guela abaixo. Não falo de interpretação, pois cada um está fazendo direitinho seu trabalho. Mas não dá, não tem química, nem física nem história e nem geografia entre os dois. Eles não ornam e ponto final. Sem falar que Morena é muito guerreira pra um cara tão pastel, feito o Théo. Melhor pra “Donelô” que se tornou o melhor da novela.


2011 – Insensato Coração – Marina e Pedro: O casal até que tinha uma quimicazinha. Nesse caso é que os personagens era ruins mesmo. Uma patricinha que só sabia chorar e que ia sofrer em Nova Yorque não é o que gostamos de ver em nossas heroínas. A não ser que ela voltasse de NY e se infiltrasse na casa do amado disfarçada de Rita pra fazer pagá-lo por todo sofrimento que ele causou. E também um mocinho mimadinho e sem força de vontade pra dar a volta por cima e mostrar o saco roxo que tem no meio das pernas, não tinha como ganhas nossos sensatos corações. Melhor para Gabriel Braga Nunes que tomou conta da história.


2010 – Viver a vida – Marcos e Helena: Acalmem-se moçoilas que querem me matar por falar de Zé Mayer. O fato aqui é que aqui nem mesmo o Chuck Norris da mulherada conseguiu dar liga com a chata da Helena de Thaís Araújo. Personagem foi terrivelmente insuportável, uma inhaca! E a gente torcia mesmo era pro Zé encher a cabeça de Helena de galhos, muitos galhos. Quem gostou disso foi Lilia Cabral que chamou todos os holofotes para si.


2005 – América – Tião e Sol: Outro casal que nem com muito catchup a gente conseguiu engolir. Ela sofreu, chorou, a gente teve pena. Ele gostava mais dos rodeios do que da mulher de sua vida. E sinceramente, nas cenas juntos, era melhor ver Tião com as vacas do que com Sol. Murilão não honrou os cowbois do Brasil e acabou ficando sem a Sol no fim do túnel, ops, no último capítulo. Ponto pra gente que viu Déborah Secco bem gostosa dançando em cima do balcão.


2002 – Esperança – Maria e Toni: Priscila Fantin e Gianechini sofreram para convencer o público exigente. Era tanta choradeira, tanto sofrimento, tanta lágrima, tanto “pelamore de dio” que até a mais santa das criaturas se entediou. Trocaram até o autor da novela, mas nem assim o angu engrossou. Ponto pro Ratinho que alavancou a audiência de seu programa.

Casais Banquete - A gente se deliciou com eles.


1994 – Quatro por quatro – Eram quatro casais de protagonistas e adivinha quem se destacou? O desastrado Raí de Marcelo Novaes e a desbocada Babalú de Letícia Spiller. Deu tão certo, mas tão certo, que os dois ficaram juntos também na vida real. E até hoje a gente pede bis.


2001 – O Cravo e a Rosa – Catarina e Petruchio: Pra mim, o melhor de todos. Interpretação excelente, história gostosa e todos os ingredientes necessários pra uma receita de sucesso. Adriana Esteves e Du Moscovis tinham sal, pimenta, manjericão. Eles tinham a horta inteira na composição desse maravilhoso casal.


2004 – Da Cor do Pecado – Para a novela que apresentou a primeira protagonista negra na Globo, a produção acertou em cheio ao escalar Thais Araújo para viver a guerreira Preta e Gianechini para o confuso Paco. Os dois juntos causou na gente aquilo que já falei que um casal precisa causar. Torcemos e muito para o viveram felizes para sempre dos dois.


2002 – O Clone – Jade e Lucas: Murilo Benício foi 3 nessa novela. Mas a gente queria mesmo é um só com a maluca Jade de Antoneli. Lucas era chato, Benício ainda falava muito pra dentro, mas Jade era tão, tão...TÃO! Que tudo bem, ela valia pelos dois e a gente gostou dessa receita brasileira com tempero marroquino.

Casais Molho de Cachorro Quente. O recheio é mais gostoso que o ingrediente principal.


2007 – Paraíso Tropical – Bebel e Olavo: A química entre os dois era tão explosiva que ofuscou todo o resto da novela. Nem Alessandra Negrini em Dose dupla conseguiu apagar o fogo que o casal tacou no Brasil.


1997 – Por Amor – Milena e Nando são outros que viviam soltando faíscas quando apareciam na TV. A típica patricinha sem freios, que bate de frente com a mãe, que é uma desmiolada, e que se entrega pra o cara certinho, de nível social diferente e cheio de sonhos fez o país suspirar. Carolina Ferraz e Eduardo Moscovis fizeram o Brasil torcer por esse casal inesquecível igual pela seleção em final de copa do mundo.



2010 – Viver a Vida: Matheus Solano roubou a mulher dele mesmo, digo, de seu irmão gêmeo na história e o romântico médico Miguel ganhou não só o coração da filhinha de papai e modelete Luciana, mas o de todos nós. Afinal, ele gozando de plena saúde e boa forma, se rendeu aos encantos de uma mulher com deficiência física. A típica história de que não é preciso ser perfeito para amar e ser amado. Uma lição para todo o Brasil. Palmas para Aline Morais e sua grande interpretação.

Casais bolo embatumado – tentamos, mas entalou na garganta.

1999 – Torre de Babel – Rafaela e Leila: Eu gostava as duas e torcia todo dia pra ver uma cena bem picante entre elas. Porém, em minha pesquisa elas se encaixam nessa categoria, e tanto foram rejeitadas que explodiram juntinhas no shopping. O dó!


2001 – Estrela Guia – Cristal e Tony:  Prefiro nem comentar.


Que tal vocês agora darem continuidade na lista? Quais casais trouxeram emoção até você? E quais você não curtiu? Ajude a gente a escrever essa receita!

terça-feira, 14 de maio de 2013

Essas Mulheres: havia algo de primoroso que muito me encantava

Por Isaac Santos

Teledramaturgia de época quase sempre me agrada. Mas por depender de uma produção de custo mais elevado e um cuidado redobrado da equipe responsável, as emissoras têm feito cada vez menos. A Record, mais especificamente, deixa muito a desejar quando se trata de reconstituição de outras épocas.
Contrariando essa afirmativa, em 2005, após a exibição bem sucedida de A Escrava Isaura, a emissora optou por dar sequência a exibição de tramas de época. Então presenteou o seu público com uma de suas melhores telenovelas. Arrisco-me a elegê-la como a minha favorita do canal: Essas Mulheres.


A novela ‘Essas Mulheres’ foi um dos primeiros passos da Rede Record ao entrar numa nova fase de sua teledramaturgia [torço pra que não se torne em constantes frustrações]. Injustamente, o público alvo da emissora não soube corresponder ao que lhe era proposto pelos belíssimos capítulos da novela. No entanto, se a audiência não foi memorável, o mesmo não se pode dizer do projeto em si. Essas Mulheres foi sucesso de crítica.

Com uma primorosa produção de época, o autor Marcílio Moraes estreou na emissora com o pé direito. Foi muito feliz na parceria com a autora Rosane Lima. Juntos escreveram a trama, com a colaboração de Cristianne Fridman e Bosco Brasil. Merece destaque também a direção irretocável do Flávio Colatrello Jr., muito bem acompanhado por João Camargo e o saudoso Fábio Junqueira.

Essas Mulheres poderia ter sucumbido quando a emissora decidiu reduzir os investimentos em sua produção. Mas não foi o que ocorreu. A novela mostrou toda a sua força na história, nos diálogos, nas interpretações, enfim, havia algo de profundo em sua relação com o público.
O autor Marcílio Moraes chegou a declarar: “Em 2005, escrevi uma novela, Essas Mulheres. Mas por razões de produção, depois do capítulo 10, não tive mais externas. Eu reclamava da boca para fora, porque na verdade adorava escrever tudo para interiores. Funcionava muito bem. Eu evocava o Rio de Janeiro do Segundo Império através dos diálogos. O que importava eram os personagens e a história. As paisagens, o espectador criava na imaginação, com a maior facilidade.”

Raras vezes a Record conseguiu agradar pela singeleza do produto. Essas Mulheres tem o mérito de ser o que é, justamente por apresentar uma teledramaturgia pura, rica, graciosa, “despretensiosa”. Quem acompanhou sabe do que estou falando. A trilha sonora, nem poderia ser de outro modo, só contribuiu para isso. Destaco ‘Corações Animais” de Zé Ramalho, tema do inescrupuloso Manoel Lemos, personagem brilhantemente interpretado por Paulo Gorgulho, e ‘Pop Zen’, música de abertura da novela, na voz inconfundível da família Caymmi.


Essas Mulheres é ambientada no Rio de Janeiro do século XIX. Foi livremente inspirada em três romances de José de Alencar: Senhora, Diva e Lucíola. As três histórias ganharam tramas muito bem entrelaçadas, cada uma com o seu destaque. As atrizes Carla Cabral [ex Carla Regina] , Mirian Freeland e Christine Fernandes [a Record queria Lavínia Vlasak pra viver a Aurélia, mas hoje, revendo a novela, percebe-se quão excelente escolha foi feita] eram Glória/Lúcia, Mila e Aurélia, respectivamente, as três com status de protagonista, embora o fio condutor da novela seja mesmo a história de Aurélia.

Aurélia: moça pobre, mas digna e honrada. Apaixonada por Fernando, vê o seu grande amor lhe trocar por Adelaide por causa de um dote, a partir daí vê sua vida desmoronar perante os golpes da vida que pioram ainda mais a situação: é despejada de sua casa com sua mãe e o seu irmão. Após o seu tio Lemos assumir a sua tutela passa pelas piores situações possíveis. Sua vida muda quando recebe uma inesperada herança. A fortuna lhe dá condições de ter o homem que ama e ela não hesita em vencer sua maior rival, e casa-se com Fernando, só para descobrir que, longe da ventura sonhada, comprou o infortúnio. Terá de enfrentar as manobras do terrível vilão que é seu tio e tutor, Manoel Lemos, firmemente disposto a se apropriar da fortuna que ela herdou.

Glória/Lúcia: amiga de Aurélia desde a adolescência. Órfã de mãe e com o pai doente, ela se vê obrigada a se prostituir para comprar remédios para o pai. Por este gesto, é expulsa de casa pelo pai. Torna-se uma cortesã, e para não trazer vergonha à família troca de nome com uma prostituta que acaba morrendo, transformando-se assim na cortesã, mas famosa da cidade. Acaba se apaixonando por Paulo, e para viver este amor enfrenta diversos preconceitos. O destino foi cruel e ela acaba perdendo seu grande amor em uma fuga, na qual é acusada de assassinato e vai parar atrás das grades.

Mila: jovem bem nascida. É inconformada com as limitações e preconceitos da sua época. Uma moça misteriosa, tem um comportamento que causa estranheza. Guarda um grande segredo dentro de si. Vive terríveis conflitos com sua mãe Leocádia, que acha que ela esteja ficando louca. Tudo isso a leva a sofrer distúrbios psicológicos. É tratada por um médico negro, Dr. Augusto por quem acaba se apaixonando. Juntos têm que vencer barreiras e preconceitos banais impostos pela sociedade para ficarem juntos.


Mas de que adiantaria três excelentes protagonistas se não houvesse um bom elenco com o qual contracenar? Essas Mulheres tinha alguns momentos de humor, mas o ponto forte [e o que mais me encantava] era o drama, a emoção, o romantismo, os conflitos existenciais tão presentes em cada personagem, e os atores viviam essas nuances com muita verdade. Vale mencionar alguns nomes:
Gabriel Braga Nunes despertava paixão e ódio na pele do ambicioso e encantador Fernando Seixas. É por este que o coração de Aurélia bate mais forte.


Coube aos talentosos Paulo Gorgulho e Adriana Garambone fazer as piores maldades ao longo dos capítulos. Mas o time era maior, o mal estava muito bem representado também pelos atores Ana Beatriz Nogueira, Roberto Bomtempo e Talita Castro. No entanto, óbvio que por se tratar de uma boa teledramaturgia, suas histórias eram contadas sob uma perspectiva humana, fugiam de um maniqueísmo previsível.


E outros tantos que só agregaram valor positivo ao produto, vide Ana Rosa, Marcos Winter, Ewerton de Castro, Petrônio Gontijo, Marcos Breda, Daniel Boaventura, Camila dos Anjos, João Vitti, Tânia Alves, Ingra Liberato, Luciene Adami, Cássio Reis, Gésio Amadeu, Luis Carlos de Moraes, Leonardo Miggiorin, Natália Rodrigues, Raquel Nunes, Theodoro Chrocane, Alexandre Moreno, Valquíria Ribeiro, Maria Stella Tolbar, Luciano Quirino, Milhem Cortaz, Carlo Briani.


Além de participações pra lá de especiais: Sergio Mamberti, Selma Egrei [numa das raras vezes em que a emissora exibiu personagens ligados à Igreja católica], Silvia Salgado, Celso Frateschi, Antônio Petrin.


Essas Mulheres, fosse da Globo, certamente estaria entre as minhas preferidas pra um vale a pena ver de novo, ou mesmo pra uma reprise do Viva. E você assistiu, gostou, ratifica o texto ou não compartilha do mesmo apreço pela trama em questão?    
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